Peixes
Brasil sem tilápia? Entenda o que está por trás da inclusão do peixe em lista de espécies invasoras
Decisão do governo acende alerta na aquicultura. Mistérios divergem sobre possíveis impactos na produção do peixe mais consumido do país

Já imaginou o Brasil sem tilápia? O peixe mais popular e cultivado do país entrou oficialmente na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras, decisão tomada pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). A medida, de caráter técnico, acendeu o alerta entre produtores e entidades do setor aquícola, que temem novas restrições à criação.

Foto: Jefferson Christofoletti
A tilápia, originária da bacia do Rio Nilo, é considerada exótica por não ser nativa do Brasil. O termo invasora, por sua vez, é usado quando uma espécie passa a se reproduzir em ambientes naturais fora de controle, competindo com espécies locais. De acordo com o MMA, há registros de tilápias em rios e lagos fora das áreas de cultivo, o que pode causar desequilíbrios ambientais.
Apesar da repercussão, o ministério nega qualquer proibição à criação. Em nota, afirmou que a inclusão não implica em banimento do uso ou cultivo da tilápia e que não há qualquer proposta ou planejamento para interromper essa atividade, que segue autorizada pelo Ibama.
O MMA explica que a lista tem função de referência técnica, servindo de base para políticas públicas e ações de prevenção. Em outras palavras, o reconhecimento da tilápia como espécie invasora não muda, por enquanto, as regras de produção, mas reforça a necessidade de manejo e controle para evitar o escape de peixes dos criadouros.
Mesmo assim, o setor vê a medida com preocupação. “O receio é que o Ibama passe a exigir novas autorizações ou crie barreiras para

Diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Jairo Gund: “O receio é que o Ibama passe a exigir novas autorizações ou crie barreiras para exportação” – Foto: Divulgação/Abipesca
exportação”, enfatizou o diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Jairo Gund.
De acordo com ele, a tilápia é essencial para a segurança alimentar e para a economia de várias regiões, e qualquer incerteza regulatória pode atrasar investimentos.
A controvérsia também expôs divergências dentro do governo. Os ministérios da Agricultura e da Pesca e Aquicultura discordam da decisão do Meio Ambiente e avaliam que ela pode encarecer ou dificultar a produção.
A diretora do Departamento de Aquicultura em Águas da União da Secretaria Nacional de Aquicultura, Juliana Lopes da Silva, afirmou que o ministério prepara um parecer técnico para pedir à Conabio a retirada da tilápia da lista. “Estarem na lista a tilápia e o javali é desproporcional”, disse.
Enquanto o impasse segue, produtores pedem segurança jurídica e regras claras para continuar investindo na atividade que transformou a tilápia no peixe símbolo da aquicultura brasileira.

Peixes
Preços da tilápia iniciam 2026 com estabilidade nos principais polos produtores
Levantamento do Cepea aponta variações pontuais nas cotações, refletindo equilíbrio entre oferta e demanda no começo do ano.

Os preços da tilápia apresentaram comportamento predominantemente estável na semana encerrada em 02 de janeiro, segundo dados do Cepea. Em importantes polos produtores do País, as variações foram pontuais, indicando equilíbrio entre oferta e demanda no início do ano.
Na região dos Grandes Lagos, a cotação permaneceu em R$ 9,27 por quilo, sem variação em relação à semana anterior. Estabilidade semelhante foi observada no Norte do Paraná, onde o preço médio ficou em R$ 10,11/kg. Já em Morada Nova de Minas, houve leve alta de 0,31%, com o valor alcançando R$ 9,44/kg.
No Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, a tilápia foi comercializada a R$ 9,57/kg, registrando a maior elevação semanal entre as regiões acompanhadas, com avanço de 0,39%. Em sentido oposto, o Oeste do Paraná apresentou pequena retração de 0,19%, com o preço médio recuando para R$ 8,76/kg.
De acordo com o Cepea, as oscilações discretas refletem um mercado ajustado, típico do período, sem movimentos bruscos de oferta ou pressão significativa da demanda sobre as cotações.
Peixes
Instituto de Pesca inicia 2026 com foco em ciência e inovação para aquicultura
Com atuação em diferentes regiões de São Paulo, o IP-Apta reforça pesquisas e soluções sustentáveis que fortalecem a produção de alimentos aquáticos, a segurança alimentar e a geração de renda.

“Promover soluções científicas, tecnológicas e inovadoras para o desenvolvimento sustentável da cadeia de valor da Pesca e da Aquicultura” é a missão do Instituto de Pesca (IP-Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que inicia o ano a reforçando, comprometido com a geração de conhecimento científico e com o fortalecimento do setor, contribuindo diretamente para a segurança alimentar, a geração de renda e o uso sustentável dos recursos naturais.

Foto: Divulgação/IP-Apta
Com atuação altamente relevante e presença em diferentes regiões do estado, o Instituto desenvolve pesquisas que impactam desde a produção até o consumo de alimentos aquáticos, apoiando pescadores artesanais, aquicultores, técnicos, gestores públicos e instituições sociais. O trabalho científico realizado se traduz em tecnologias, orientações técnicas, inovação em produtos e soluções que chegam a laboratórios, universidades e até à mesa da população.
Na pesca artesanal, o Instituto de Pesca atua no desenvolvimento de estudos, monitoramentos e ações de apoio que valorizam o conhecimento tradicional, promovem o uso sustentável dos recursos pesqueiros e contribuem para a manutenção da atividade como fonte de alimento, trabalho e identidade cultural para diversas comunidades. Essas iniciativas buscam fortalecer a pesca artesanal de forma responsável, aliando preservação ambiental e inclusão social.
Na aquicultura, as pesquisas e ações desenvolvidas pelo Instituto contribuem para o aprimoramento dos sistemas produtivos, o aumento da eficiência, a melhoria da qualidade dos produtos e a adoção de práticas sustentáveis. O apoio técnico e científico ao setor aquícola favorece a competitividade dos produtores, a geração de renda e a expansão de uma produção alinhada às demandas ambientais e de segurança alimentar.

Foto: Divulgação/IP-Apta
Entre as principais frentes de atuação da instituição também estão a valorização do pescado como alimento saudável e acessível, a melhoria dos processos produtivos e o aproveitamento integral dos recursos, reduzindo desperdícios e promovendo eficiência econômica e ambiental.
As pesquisas conduzidas pela instituição subsidiam políticas públicas e ações voltadas ao desenvolvimento regional, contribuindo para a inclusão produtiva, o fortalecimento das economias locais, a promoção de sistemas alimentares mais justos e resilientes, além da preservação e proteção dos recursos hídricos.
Ao conectar ciência, produção e sociedade, o Instituto reafirma seu papel estratégico como referência em pesquisa aplicada e inovação, alinhando tradição e conhecimento técnico aos desafios contemporâneos da sustentabilidade, da segurança alimentar e das mudanças climáticas. “Neste novo ano a instituição segue comprometida com sua missão e busca ampliar parcerias, disseminar conhecimento, conquistar novos programas e gerar impactos positivos que beneficiem tanto o setor produtivo quanto a população, fortalecendo o pescado como um aliado da saúde, da economia e do meio ambiente”, ressalta o vice-coordenador do IP, Eduardo de Medeiros Ferraz.
Peixes Pioneirismo no agronegócio
Nova tecnologia da C.Vale multiplica produção de tilápias no campo
Sistema com geomembrana permite ampliar em 72% o alojamento de peixes com apenas 16% mais área.

Quase três décadas se passaram desde que a C.Vale, de forma pioneira, adotou a climatização de aviários para a criação comercial de frangos, a partir de 1997. Essa tecnologia só era usada em países do Primeiro Mundo e foi trazida para o Brasil por Alfredo Lang, então com 49 anos, em seu primeiro mandato como presidente da cooperativa. “Muitos me chamaram de visionário louco, que ia quebrar a cooperativa”, recorda. A tecnologia deu tão certo que passou a ser utilizada por todas as integrações avícolas brasileiras.
Vinte e oito anos depois, a C.Vale está levando ao campo outra inovação: a criação de tilápias em tanques recobertos com geomembrana, um material flexível, soldável e resistente ao sol. Esse novo sistema traz duas grandes vantagens em relação ao sistema convencional: redução do uso de água e um aumento bastante expressivo do número de peixes por metro quadrado de água.
O associado Moacir Niehues, produz tilápias em 17,5 hectares de lâmina d’água na Linha São Sebastião, interior de Palotina (PR). Depois de conhecer a nova tecnologia, ele decidiu ampliar a piscicultura construindo mais 12 tanques de 16 X 250 metros, com geomembrana. As obras começam em janeiro e quando estiverem, no segundo semestre de 2026, vão ampliar em 2,88 hectares a área de criação da propriedade.
Ao participar do Dia de Campo 2025/26 da C.Vale, Moacir Niehues e o filho Guilherme encontraram Alfredo Lang e o gerente do Departamento de Peixes, Paulo Poggere. O produtor revelou que vai investir R$ 7 milhões para colocar a nova tecnologia em operação, valor que inclui a infraestrutura completa dos tanques e todos os equipamentos necessários. Os recursos virão da linha Fiagro-FIDC disponibilizada pela C.Vale, Fomento Paraná e Sicredi, com juros de 9% ao ano.
Dois milhões de tilápias
Alojando 1,2 milhão de tilápias por ciclo, desde 2022, em nove tanques convencionais, ele assegura que a piscicultura é mais rentável que a produção de grãos. Habituado aos cálculos como diretor-executivo (CEO) da Sicredi Vale do Piquiri ABCD PR/SP, Moacir explica a decisão de apostar na nova tecnologia com base em números. Aumentando a área da piscicultura em apenas 16%, ele vai ampliar o alojamento de tilápias em 72%. Isso porque o novo sistema permite o alojamento de 30 peixes por metros quadrado contra 7 peixes pelo método convencional. Assim, ele vai passar a alojar pouco mais de dois milhões de tilápias por ciclo.
Multiplicando em mais de quatro vezes o número de peixes por metro quadrado, Niehues vai montar uma estrutura reforçada para garantir o fornecimento de energia elétrica sem interrupções. Além da linha que leva energia à propriedade, a estrutura terá dois conjuntos de geradores. Caso ocorra alguma interrupção do fornecimento, uma linha de geradores entra em funcionamento. Se eles também falharem, a segunda linha de reserva é acionada. Esse cuidado é necessário para garantir a oxigenação da água permanentemente, sem riscos diante de uma lotação tão alta.
Ao lado do filho Guilherme, futuro sucessor na atividade, Moacir pega o celular e faz um cálculo comparativo. Seriam necessários 232 hectares de soja para produzir renda bruta equivalente aos 2,88 hectares destinados às tilápias em alta densidade. “A C.Vale me passou muita segurança quanto ao futuro da piscicultura. Esse sistema é o futuro. Os outros produtores vão migrar para esse sistema de criação de alta densidade”, projeta Niehues.



