Avicultura
Brasil reforça medidas para evitar surto iminente de gripe aviária
Com o segundo maior plantel avícola do mundo e principal exportador da carne de frango, comercializando para mais de 150 países, o país está vigilante para manter o território livre de doenças, evitando restrições comerciais e impactos negativos na cadeia produtiva.

Líder mundial na exportação de carne de frango, o Brasil é o único entre os grandes produtores mundiais a nunca registrar Influenza aviária em seu território. No entanto, desde outubro de 2022 o país redobrou a atenção e os cuidados sanitários nas granjas avícolas com as notificações dos primeiros focos de Influenza aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) na América do Sul, identificada nas áreas litorâneas do Equador, Venezuela e de países fronteiriços como da Colômbia, Peru e Chile. A iminente possibilidade de entrada do vírus no plantel brasileiro acendeu um alerta e fez com que a cadeia avícola e os órgãos nacionais de defesa sanitária intensificassem as medidas de prevenção à doença viral.
Conforme organismos internacionais, surtos da gripe aviária já foram registrados em países dos continentes africano, americano, asiático, europeu e na Oceania, se configurando como a maior epidemia já ocorrida no mundo, com a maioria dos casos relacionados ao contato de aves silvestres migratórias com aves de subsistência, de produção industrial ou de aves silvestres locais.
Com o período migratório das aves do Hemisfério Norte para a América do Sul de novembro a abril, o atual momento é ideal para aumentar as ações de vigilância pelo serviço veterinário oficial e órgãos ambientais, reforçando as medidas de biosseguridade pelos avicultores a fim de mitigar os riscos de ingresso e disseminação da enfermidade no Brasil.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) recomendou em dezembro a suspensão de visitas em aviários, frigoríficos e demais estabelecimentos da avicultura no Brasil para garantir a segurança sanitária do plantel brasileiro, permitindo apenas o acesso para quem trabalha diretamente e exclusivamente na unidade produtiva.
Entre os protocolos recomendados pela entidade estão a higienização das mãos e troca de roupas e sapatos antes de adentrar as granjas, desinfecção de todos os veículos que acessam a propriedade e evitar o contato da granja com outras aves, em especial aves silvestres.
Em entrevista ao Jornal O Presente Rural, a zootecnista, coordenadora do Grupo de Trabalho em Sustentabilidade do Conselho Mundial de Avicultura e diretora técnica da ABPA, Sula Alves, enfatizou que a blindagem das unidades produtoras é fundamental neste momento, uma vez que a circulação de pessoas entre regiões e países é muito grande e como há surtos em várias nações é essencial realizar o controle de acesso às granjas para evitar possíveis vetores da doença. “O Brasil trabalha na vigilância passiva e ativa, além de acompanhar e monitorar as aves silvestres migratórias para detecção precoce da doença. Esse isolamento das granjas diz respeito ao controle de acesso de pessoas e de veículos, os quais podem ser carreadores do vírus nos calçados, bolsas, roupas, pneus do carro ou até mesmo em equipamentos transportados para dentro da propriedade. Tudo que for possível para evitar o trânsito livre é preciso fazer nas granjas, porque é melhor pecar pelo excesso de medidas do que responder pela falta delas”, ressalta.
A Influenza aviária Altamente Patogênica (vírus H5N) é exótica no país, mas pode ser carreada por aves migratórias ou até mesmo por pessoas que estiveram em países onde a doença está ocorrendo. A transmissão pode acontecer por meio do ar, água, alimentos e materiais contaminados, além do contato com aves doentes e o acesso de pessoas externas às criações comerciais. A responsabilidade na prevenção é compartilhada por todos os elos da cadeia produtiva.
Riscos econômicos
Com o segundo maior plantel avícola do mundo e principal exportador da carne de frango, comercializando para mais de 150 países, o Brasil está vigilante para manter o território livre de doenças, evitando restrições comerciais e impactos negativos na cadeia produtiva.

Zootecnista, coordenadora do Grupo de Trabalho em Sustentabilidade do Conselho Mundial de Avicultura e diretora técnica da ABPA, Sula Alves: “Não queremos deixar o setor em pânico, nosso objetivo é reforçar as medidas sanitárias para que a cadeia não minimize o problema e deixe de tomar os cuidados necessários” – Foto: Mario Castello/ABPA
A IAAP traz consequências econômicas devastadoras, podendo acarretar prejuízos entre 10% a 20% do valor bruto da produção aos países afetados, conforme estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A doença causa alta taxa de mortalidade, possíveis restrições ao comércio exterior e desequilíbrio no mercado interno.
Sula afirma que as perdas econômicas são bastante dependentes do cenário e do momento da ocorrência. De acordo com ela, alguns países importadores exigem que a carne exportada seja oriunda de animais de países livres de Influenza aviária, enquanto outros países determinam a regionalização de áreas livres, estabelecendo uma extensão a partir da zona do foco para comercialização da carne. “Em caso de notificação no Brasil, os mercados que exigem país livre representariam o maior impacto para o setor produtivo, porque esses mercados deixariam de comprar nossa proteína, causando alguns transtornos e desequilíbrio no mercado interno”, afirma.
Por outro lado, muitos países, como da União Europeia, mercado com exigência regulatória de qualidade, segurança e saúde animal, delimitam um raio de 10 km do local de ocorrência do foco para comercialização do produto. “Depois de se estabelecer a zona de contenção da doença e demais medidas da área livre, o setor retorna com uma organização rápida, porém até o reconhecimento por parte do país importador isso geraria um impacto imediato no setor, uma vez que estamos lidando com um produto perecível, que depende de estocagem frigorífica e do período de abate dos animais que estão no campo. Nossa cadeia é muito dinâmica, por isso precisamos tomar os cuidados nos mínimos detalhes com relação aos prazos para não acarretar em transtornos maiores à cadeia”, menciona Sula.
Mitigação de risco
A fim de reduzir o risco de ingresso e disseminação do vírus causador da doença no Brasil, Sula diz que são frequentemente recomendadas aos produtores algumas medidas sanitárias como garantir a blindagem da água, oferecer às aves água clorada, não usar água de fontes abertas, como rios e açudes, vedar bem todos os galpões para impedir a entrada de pássaros, garantir uso de tela 2×2 centímetros, garantir portas, beirais e telhados completamente fechados, garantir ausência de outras aves na propriedade, isolamento dos lotes de produção comercial (poedeiras e corte), proibição de visitas, além de seguir demais procedimentos de biosseguridade.
A primeira linha de defesa contra a Influenza aviária é a detecção precoce e a notificação oportuna de suspeita da doença para permitir uma resposta rápida, a fim de evitar a disseminação. Conforme informações do Mapa, no Brasil 53,7% dos estabelecimentos avícolas são de aves de corte (frangos e perus), 39,8% de aves de reprodução (matrizeiras), 3,4% de aves de postura comercial, 0,1% de aves ornamentais e 2,9% de outras aves. Com base nesses números, as medidas de prevenção e vigilância se tornam cada vez mais importantes e necessárias, uma vez que o sistema produtivo precisa fornecer evidências consistentes para certificar a sanidade dos animais e dos produtos comercializados.

Fotos: Shutterstock
Com vigilância permanente para IAAP e demais agentes etiológicos em todo o território nacional, incluindo em portos, aeroportos internacionais, correios, postos de fronteira e estações aduaneiras do interior, o Mapa publicou em julho passado um novo Plano de Vigilância para Influenza Aviária e Doença de Newcastle, contemplando a revisão de diretrizes para o atendimento e identificação de casos suspeitos e para a vigilância permanente da doença, por parte do Serviço Veterinário Oficial, monitoramento que vai permitir maior rapidez na tomada de decisão em caso de notificação em território nacional. “O Plano de Vigilância é um estudo epidemiológico contínuo, realizado por meio de vigilância ativa e passiva para detecção precoce de casos de Influenza aviária e Doença de Newcastle em aves domésticas e silvestres, para demonstração de ausência dessas doenças na avicultura industrial, de acordo com as diretrizes internacionais de vigilância para fins comerciais”, expõe Sula.
A intensificação das ações de vigilância adotadas pelo Serviço Veterinário Oficial para evitar um surto local inclui testagem de amostras coletadas de aves de subsistência, criadas em locais próximos a sítios de aves migratórias, para monitorar a circulação viral e permitir a demonstração de ausência de infecção, apoiando a certificação do Brasil como país livre da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade e de Influenza Aviária de Baixa Patogenicidade.
Sula destaca que as barreiras naturais formadas pela Cordilheira dos Andes e pela Floresta Amazônica são importantes para manter o Brasil livre da doença viral, bem como a distância entre o Sul do Brasil, área com maior produção comercial, dos países sul-americanos que já registraram casos também funciona como uma barreira de proteção geográfica, atrelado aos controles feitos pelos órgãos federais e estaduais de defesa agropecuária, além dos protocolos de biosseguridade adotados pelos produtores nas granjas.
Plano de contingência
A partir da suspeita é obrigatório notificar imediatamente o Serviço Veterinário Oficial, que fará a coleta do material, encaminhará para laboratório para que seja feita uma investigação cronológica, bem como será preciso fazer o sacrifício preventivo das aves suspeitas, isolar o local do foco e uma área com um raio de 10 km no entorno do foco para evitar disseminação da doença. “É declarado estado de emergência sanitária quando da confirmação do foco, em se definindo isso várias ações emergenciais devem ser realizadas mobilizando a coordenação do Serviço Veterinário Oficial”, relata Sula.
De acordo com a coordenadora do Grupo de Trabalho em Sustentabilidade do Conselho Mundial de Avicultura, em caso de entrada do vírus no país, o governo federal possui um Plano de Contingência robusto, com o papel de cada elo do setor avícola bem desenhado, seguindo as diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), visando ações rápidas para eliminação do foco e evitar disseminação da doença. “Dispomos de um Plano de Contingência muito bem desenhando, que graças a Deus só precisamos usar em momentos de simulação porque nunca tivemos nenhum foco da doença no país”, relata.
Investigação de suspeita
Entre as medidas que devem ser aplicadas em investigação de suspeita de foco de Influenza aviária estão isolamento e identificação do agente ou detecção do RNA viral específico do vírus da Influenza, eliminação de todos os suscetíveis na unidade epidemiológica, destruição das carcaças e todos os produtos e subprodutos, além de resíduos do sistema de produção, desinfecção, vazio sanitário, aplicação de medidas estritas de biosseguridade, utilização de animais sentinelas e comprovação de ausência de circulação viral, vigilância dentro da zona de proteção e da zona de vigilância.
Para isso, o corpo técnico do Mapa e dos órgãos estaduais passaram nos últimos meses por treinamentos, reuniões e discussões a fim de fazer uma reciclagem de conhecimento sobre todas as doenças sanitárias, bem como realizaram duas simulações de emergência sanitária, uma voltada para febre aftosa em bovinos no Mato Grosso do Sul e outra em Peste Suína Africana, promovida em Santa Catarina, ações executadas que também se aplicam para as demais cadeias produtivas, uma vez que os protocolos seguem as mesmas diretrizes. Conforme Sula, o preparatório com a simulação de emergência sanitária para Influenza aviária está previsto para março deste ano.
Suspeitas descartadas
Nas suspeitas descartadas para Influenza aviária de Alta Patogenicidade e Influenza aviária de Baixa Patogenicidade a investigação pode ser concluída imediatamente. Já nos casos prováveis de Síndrome Respiratória e Nervosa em aves a investigação pode ser encerrada após diagnóstico final negativo de Influenza aviária e Doença de Newcastle. “Um foco de Influenza aviária somente será encerrado após a eliminação dos animais suscetíveis na unidade epidemiológica, comprovação de ausência de circulação viral e conclusão dos procedimentos de vigilância nas zonas de emergência sanitária, conforme o Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle”, salienta Sula.
Como identificar Influenza aviária no plantel
São considerados casos suspeitos quando são identificados mortalidade maior ou igual a 10% em até 72 horas, em quaisquer estabelecimentos de aves domésticas ou em um único galpão do núcleo de estabelecimentos avícolas comerciais ou de reprodução; mortalidade súbita e elevada em populações de aves de subsistência, de exposição, de ornamentação, de companhia e silvestres ou de sítios de aves migratórias; presença de sinais clínicos ou lesões neurológicos, respiratórios ou digestórios compatíveis com Síndrome Respiratória e Nervosa, em quaisquer tipos de aves; queda súbita ou maior a 10% na produção de ovos e aumento de ovos malformados, em aves de reprodução ou aves de postura; resultado positivo de ensaio laboratorial em amostras colhidas durante quaisquer atividades de pesquisa não oficiais; resultado positivo em testes sorológicos de vigilância ativa ou certificação em laboratórios credenciados.
Os sintomas mais comuns são tosse, espirro, secreção nasal, sinais nervosos, penas arrepiadas, inapetência, queda de postura, prostração e morte súbita sem sinais aparentes.
Riscos à exportação
Sobre o impacto nas exportações, a OMSA afirma que notificações de Influenza aviária de Alta Patogenicidade em aves silvestres, ou outras que não sejam de produção comercial, e de aves domésticas ou de cativeiro com Influenza aviária de Baixa Patogenicidade, não afetam o status sanitário do país e não devem gerar banimento ou imposições de mercado. Ou seja, mesmo que seja registrado algum caso em aves silvestres ou domésticas, o status sanitário do Brasil não sofre alteração, contudo, se o caso é registrado na produção industrial, as regras vigentes bloqueiam o comércio somente nas áreas afetadas.
A suspenção de carne de frango brasileira por países importadores depende dos acordos definidos previamente e que constam no certificado sanitário, que acompanha o carregamento. “Alguns mercados exigem no certificado sanitário que a carne precisa que ser proveniente de um país livre de Influenza aviária, ou seja, está estabelecido que esse país importador, no momento que ocorrer um caso, mesmo que seja em uma pequena propriedade, em uma região que tenha produção em larga escala ou em uma atividade agrícola que não seja comercial, ele pode deixar de comprar do Brasil enquanto a doença não for erradicada”, esclarece Sula.
Por outro lado, há uma compreensão de outros países que não exigem o país livre, mas a região livre, estabelecendo um raio de 10 km da origem do foco para comercialização. “Grandes países trabalham com a regionalização, o que diminui um pouco os impactos econômicos da doença, que devem gerar perdas econômicas do tamanho da nossa pujança na exportação. Não queremos deixar o setor em pânico, nosso objetivo é reforçar as medidas sanitárias para que a cadeia não minimize o problema e deixe de tomar os cuidados necessários”, frisa.
Vacinação
No que diz respeito a vacinação, Sula afirma que existem vacinas contra a Influenza aviária, inativadas e recombinantes, no entanto o imunizante é proibido no Brasil. A vacinação das aves somente é indicada em países onde a doença ocorre e assim mesmo, em alguns desses países somente na região do foco. “Mas é algo que precisamos ter no radar como ferramenta de controle”, menciona.
Pior cenário no Brasil
Sula é enfática ao dizer que o pior cenário já começa pela entrada do vírus no Brasil, lembrando que o maior patrimônio do setor produtivo nacional é o status sanitário.
Outros fatores apontados pela especialista estão relacionados ao fechamento de mercados, retenção de produtos no mercado interno e alteração da oferta e demanda, com elevação dos preços não só da carne de frango como das demais proteínas animais. “Pode ocorrer de mercados se aproveitarem da ocorrência para banir as exportações brasileiras, deixando de cumprir com as regras de comércio internacional da Organização Mundial do Comércio. Não estamos livres disso, porque, apesar de existirem regras, têm muitos países que acabam não cumprindo e criam obstáculos disfarçados de barreiras sanitárias para controlar o comércio. Então esse é um cenário ruim que nos preocupa muito”, saliente Sula.
Melhor cenário no Brasil
Grande entusiasta da avicultura brasileira, Sula assegura que o melhor cenário previsto para o Brasil é a erradicação do foco tão logo sua notificação, com isolamento da área, colocando em prática com rapidez e excelência o Plano de Contingência para reafirmar o compromisso do Brasil com a segurança alimentar mundial. “Agilidade na tomada de decisão vai comprovar mais uma vez que a avicultura brasileira ‘não está a passeio’, que somos uma cadeia profissional, que sabemos fazer o nosso trabalho bem feito e com seriedade. Eu sou uma entusiasta da nossa avicultura, porque sei que estou lidando com as pessoas comprometidas, com os governos federal e estaduais alinhados, com técnicos de campo competentes, o que me faz ser uma pessoa confiante, porque conheço a nossa realidade e sei como é feito lá fora. Além do mais, estamos bem preparados em caso de ocorrência”, reforça Sula.
A zootecnista enaltece que a estrutura da avicultura brasileira pelo sistema de integração oferece uma capacidade de controle sobre a cadeia muito grande, o que é essencial no enfrentamento de uma crise sanitária. “O sistema de integração é favorável a vários fatores e a sanidade é uma delas. Não é só porque Deus é brasileiro que devemos deixar de fazer a nossa parte”, chama atenção.
O que é possível fazer
Sula sustenta que cada elo da cadeia tem um papel no processo de evitar a entrada do vírus no país, o governo federal com o Plano de Vigilância e o Plano de Contingência, as empresas e o setor produtivo com a biosseguridade na prevenção da entrada da doença e na notificação precoce. “As pessoas que viajam também precisam ter o cuidados ao transportar produtos de outros países, os quais podem ser uma forma de introduzir doenças no país, assim como o dono da propriedade ou o produtor precisa fazer a restrição do acesso nas instalações das granjas e dos frigoríficos”, menciona.
A diretora técnica da ABPA também ressalta a importância de melhorar e intensificar a comunicação da cadeia para que a sociedade civil organizada conheça as ações do setor, bem como possa também contribuir com a identificação de agentes etiológicos. “A comunicação e a educação é o começo de tudo. Não é hora de relaxar, mas sim de cuidar mais ainda, ser zeloso com aquilo que não é novidade, porque já é orientado há muito tempo”, reforça.

Avicultura Retrospectiva 2025
Impulsionado por exportações e consumo interno mercado de ovos cresce em 2025
Produção avança, preços atingem picos no primeiro trimestre e embarques ao exterior batem recorde, mesmo com ajustes ao longo do ano e desafios pontuais no mercado internacional.

Em 2025, o mercado de ovos manteve trajetória positiva, com produção e embarques recordes, apesar do caso de gripe aviária em granja comercial, em maio.
Pesquisas do Cepea mostram que as cotações atingiram recordes reais no início do ano; mas, com o aumento da oferta interna ao longo de 2025, passaram a recuar. Ainda assim, o bom ritmo dos embarques ajudou a limitar a baixa interna.
Os preços da proteína iniciaram 2025 abaixo dos praticados em dezembro/24, refletindo a demanda ainda retraída, típica do começo do ano. Em fevereiro, porém, o aumento gradual da procura com o retorno das aulas escolares e a oferta mais limitada elevaram os valores, que atingiram os maiores patamares da série histórica do Cepea. As altas persistiram até março, período em que tradicionalmente a demanda pela proteína é impulsionada pela Quaresma. No entanto, passaram a cair a partir de abril em todas as regiões acompanhadas pelo Cepea, com exceção de agosto.

Foto: Freepik
A produção nacional de ovos para consumo somou 3,04 bilhões de dúzias (de janeiro a setembro/25), volume 6,9% superior ao do mesmo período de 2024 e um recorde, de acordo com o IBGE. No mercado externo, a evolução dos casos de gripe aviária reduziu a oferta de ovos em diversos países.
Nos EUA, um surto significativo levou o país a intensificar as compras da proteína brasileira, cujo volume, entre janeiro e novembro, superou em 825% o total importado no ano anterior.
Segundo a Secex, nos 11 primeiros meses de 2025, os embarques de ovos in natura e processados somaram 38,64 mil toneladas, 109% acima do volume de todo o ano de 2024 e um recorde.
O setor também enfrentou alguns desafios externos. O tarifaço imposto pelo governo norte-americano em agosto reduziu os envios dos ovos aos EUA. Por outro lado, novos mercados foram abertos, como o México. Além disso, a rápida resolução do caso isolado de IAAP permitiu ao Brasil a retomada do seu status sanitário internacional e evidenciou o potencial do País para seguir atendendo as crescentes demandas interna e externa.
Avicultura
Nutrição ganha papel estratégico na imunidade e no controle de doenças na avicultura
Ração deixa de ser apenas fonte de desempenho e passa a atuar como ferramenta biológica, reforçando defesas das aves em um cenário de menor uso de antibióticos.

Por décadas, a nutrição animal foi vista como ferramenta para garantir desempenho, peso e conversão alimentar. Mas, em um cenário de restrição ao uso de antibióticos e pressão crescente por sustentabilidade, a alimentação tem assumido outro papel estratégico na avicultura, que é atuar a favor da imunidade e no controle de patógenos.

Especialista em Imunologia Veterinária e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Breno Castello Branco Beirão: “É possível melhorar como acontecem as defesas se damos alguns nutrientes em momentos específicos. Hoje isso ainda é bastante teórico, pois a ração é fixa dentro de cada empresa, mas há potencial para o futuro” – Foto: Arquivo Pessoal
A ciência vem mostrando que a ração é mais do que combustível, é também um modulador biológico capaz de ajustar o comportamento do sistema imune, tornando as aves mais resistentes a desafios sanitários. Vitaminas, minerais, aminoácidos e aditivos funcionais não apenas nutrem, mas também influenciam como o organismo reage a infecções, inflamações e desequilíbrios intestinais.
O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Breno Castello Branco Beirão, especialista em Imunologia Veterinária, explica que todos os nutrientes têm papel na modulação do sistema imunológico das aves, alguns de forma mais marcante, como as vitaminas A e D, os aminoácidos triptofano e arginina e os carboidratos.
Esses nutrientes, detalha Beirão, podem mudar de forma significativa a intensidade e a rapidez da resposta imune. “Há aminoácidos especialmente relevantes no controle imune, como glutamina, arginina e triptofano. A alteração deles modifica de maneira importante as defesas”, afirma.
No caso da energia dietética, explica, o essencial é o equilíbrio. “A quantidade total e a velocidade de uso são determinantes. A glicemia elevada constantemente ativa as células imunes, e o uso de fibras pode ajudar a mitigar isso”, menciona.
Mais do que nutrientes
O professor ressalta que a suplementação de vitaminas, minerais e prebióticos pode aprimorar as defesas naturais, mas o ponto-chave é o momento da oferta. “É possível melhorar como acontecem as defesas se damos alguns nutrientes em momentos específicos. Hoje isso ainda é bastante teórico, pois a ração é fixa dentro de cada empresa, mas há potencial para o futuro”, observa.
Na prática, o desafio está na rigidez dos sistemas industriais de alimentação. Cada empresa trabalha com formulações padronizadas, o que limita ajustes pontuais conforme a idade das aves, as condições do lote ou a carga de patógenos. “Talvez estratégias como a nutrição in ovo ou via água possam permitir maior flexibilidade”, expõe Beirão.
Controle de patógenos pelo intestino

As doenças entéricas, como coccidiose e enterites bacterianas, estão entre as principais causas de perdas produtivas. Nesses casos, as estratégias nutricionais buscam suprimir inflamações e, ao mesmo tempo, otimizar a resposta imune, explica o professor. “Sabemos um pouco sobre o uso de aditivos bióticos e nutricionais, mas ainda há espaço para melhorar esse conhecimento. É uma área nova de pesquisa”, salienta.
A ação dos aditivos funcionais, como probióticos, enzimas, óleos essenciais e acidificantes, ocorre em múltiplas frentes. “Eles interagem diretamente com as células imunes e alteram a microbiota intestinal, influenciando a presença de patógenos. Há inúmeros mecanismos, e esses são alguns dos mais conhecidos”, detalha.
Em relação à acidificação intestinal, Beirão observa que, embora muitos microrganismos se tornem resistentes aos ácidos, a técnica ainda provoca mudanças importantes na microbiota, dificultando a colonização por agentes como Salmonella e Escherichia coli.
Imunidade desde cedo
Outro ponto crítico é o início da vida das aves, quando o sistema imune ainda está em formação. “A maturação imune é muito dependente de estímulos nos primeiros momentos da vida. Estímulos com probióticos, leveduras e nutrição que sustente a formação dos tecidos mudam a resposta para toda a vida do animal”, afirma Beirão.
Segundo ele, investir na imunocompetência precoce é um dos caminhos mais promissores para reduzir o uso de antibióticos. “A nutrição pode ajudar, mas não sozinha. É preciso mudar manejo junto. Várias das estratégias que já mencionamos contribuem para isso”, acrescenta.
Avaliar, medir e ajustar
Hoje, nutricionistas contam com ferramentas sofisticadas para monitorar a saúde intestinal das aves. “Já há indicadores tecnificados, como análise de microbioma e permeabilidade intestinal”, menciona o professor, acrescentando: “Contudo, os parâmetros clínicos e zootécnicos ainda são o padrão ouro, embora sejam retrospectivos e não preditivos.”
Mesmo com limitações práticas, a convergência entre nutrição, imunidade e controle sanitário já é uma realidade respaldada pela pesquisa. “Há muitos estudos demonstrando resultados concretos, mas o problema é operacional: como manejar a dieta de uma empresa inteira quando as demandas são localizadas?”, questiona Beirão. A resposta, sugere ele, pode estar em inovações que permitam ajustar a nutrição de forma mais dinâmica e personalizada.
A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.
Avicultura
Avicultura de Santa Catarina reforça liderança e deve fechar 2025 com resultados positivos
Estado amplia produção e receita mantém protagonismo nas exportações de carne de frango e sustenta competitividade mesmo diante de custos elevados e desafios sanitários globais.

A avicultura industrial de Santa Catarina apresentou desempenho positivo em 2025 e reforçou sua posição estratégica no cenário nacional e internacional, mesmo diante de um ambiente econômico adverso e de desafios sanitários enfrentados pelo setor em âmbito global. A avaliação é do diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), Jorge Luiz de Lima, ao analisar os principais indicadores do ano.
O Estado respondeu por 26,3% de todo o volume de carne de frango exportado pelo Brasil e por 22,8% da receita obtida com as vendas externas do produto, números que evidenciam o peso da avicultura catarinense dentro da cadeia avícola brasileira. Enquanto o desempenho nacional foi marcado por produção recorde e leve retração nas exportações, Santa Catarina conseguiu ampliar produção e receita, sustentado pela diversificação de mercados e pela competitividade do setor.

Diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), Jorge Luiz de Lima: “Após o caso de influenza aviária no Rio Grande do Sul, a rápida resposta sanitária, o controle da situação e a reconhecida biosseguridade do sistema produtivo brasileiro permitiram a manutenção e a reabertura de mercados, fator que também beneficiou diretamente Santa Catarina”
Em 2025, a produção catarinense de carne de frango cresceu 2,5% em relação a 2024, acompanhando o movimento nacional, que alcançou cerca de 15,4 milhões de toneladas, alta próxima de 3%. A receita do setor em Santa Catarina avançou 6,3% no mesmo período, resultado que compensou, em parte, o aumento de 6,5% nos custos de produção, pressionados principalmente pela logística. Segundo a ACAV, o cenário foi ainda mais desafiador em função da taxa básica de juros em torno de 15%, considerada um fator adverso para investimentos e capital de giro.
No comércio exterior, Santa Catarina manteve protagonismo. Arábia Saudita, Japão, Países Baixos, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido figuraram entre os principais destinos da carne de frango produzida no Estado. Ao longo do ano, Reino Unido e México se consolidaram como grandes compradores, ampliando a base de mercados e reduzindo riscos comerciais. Esse desempenho ganha relevância quando comparado ao cenário brasileiro, que registrou uma queda aproximada de 2% nas exportações totais, projetadas em cerca de 5,2 milhões de toneladas, em função de embargos temporários impostos após a detecção de um foco de influenza aviária em maio.
Apesar desse revés pontual, o faturamento da avicultura brasileira com exportações superou US$ 5,4 bilhões em 2025, demonstrando a força do setor no mercado global. “Após o caso de influenza aviária no Rio Grande do Sul, a rápida resposta sanitária, o controle da situação e a reconhecida biosseguridade do sistema produtivo brasileiro permitiram a manutenção e a reabertura de mercados, fator que também beneficiou diretamente Santa Catarina”, observou o diretor executivo.
No mercado interno, o consumo permaneceu elevado, impulsionado pelo frango como proteína de menor custo para o consumidor. De acordo com a ACAV, o setor encerrou 2025 com preços estáveis e margens favoráveis, mesmo diante do aumento de custos e das incertezas econômicas. O desempenho catarinense, que concentra pouco mais de um quarto das exportações brasileiras de carne de frango, confirma a relevância do Estado para a avicultura nacional e sustenta perspectivas positivas para 2026, tanto em produção quanto em mercados.



