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Brasil pode se tornar o país do milho, mas gargalos logísticos e de armazenamento freiam crescimento
Conforme a última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita total do cereal deve atingir 119,6 milhões de toneladas, volume 3,3% superior ao da temporada anterior, que foi de 115,72 milhões de toneladas.

Após uma temporada marcada por altas temperaturas e chuvas irregulares, a produção de milho na safra 2024/25 deve apresentar crescimento. Conforme a última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita total do cereal deve atingir 119,6 milhões de toneladas, volume 3,3% superior ao da temporada anterior, que foi de 115,72 milhões de toneladas.
Apesar da previsão positiva para a produção total, a primeira safra de milho deve enfrentar uma redução de 6,4% na área semeada. No entanto, a produtividade média do ciclo inicial tende a crescer 4,8%, alcançando 6.062 quilos por hectare. A colheita da primeira safra está projetada em 22,53 milhões de toneladas. “Esse desempenho positivo está atrelado às condições climáticas mais favoráveis, com precipitações frequentes e intervalos de sol, fatores que impulsionaram o desenvolvimento da cultura nas principais regiões produtoras”, afirma o agropecuarista e presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Bertolini.
Enquanto isso, a semeadura do milho safrinha já ultrapassa 70% da área de plantio e as condições climáticas, nas principais regiões produtoras, favorecem o cultivo. E a terceira safra será plantada entre abril e junho, predominantemente nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Roraima. Bertolini ressalta que a evolução das lavouras será determinante para confirmar a projeção de crescimento na produção total do grão, especialmente considerando os desafios climáticos e logísticos que podem surgir ao longo do ciclo produtivo.
Desafios enfrentados na safra 2023/24
A safra de milho 2023/24 foi marcada por dificuldades, com altos custos de produção e perdas de produtividade devido às condições climáticas adversas, o que acarretou uma queda de 12,3% na produção em relação ao ciclo anterior. O excesso de chuvas em algumas regiões e a estiagem em outras impactaram diretamente as lavouras. “No Centro-Oeste, a falta de chuvas prejudicou o desenvolvimento das plantações, enquanto no Sul, o excesso hídrico foi o principal problema”, menciona o presidente da Abramilho.
Além dos desafios climáticos, gargalos logísticos comprometeram o escoamento da safra. “O milho compete diretamente com a soja na utilização de rodovias, ferrovias e portos. E neste embate, o milho fica em desvantagem, afetando a renda dos produtores. Outro fator limitante foi o déficit de silos e armazéns, principalmente dentro das fazendas, dificultando o armazenamento adequado do cereal”, aponta Bertolini.
Oscilações de preço
O preço do milho ao longo de 2024 apresentou oscilações expressivas, influenciadas por fatores como clima, oferta, demanda e políticas comerciais. Mas apesar de uma queda acentuada no primeiro semestre, as cotações registraram forte recuperação na segunda metade do ano. O valor do grão chegou a recuar quase 20% em relação ao fechamento de 2023, mas encerrou o ano com alta de aproximadamente 5%.
Em dezembro, uma saca de 60 kg era cotada em média a R$ 72,70. Ao longo do ano, o milho atingiu preço mínimo de R$ 55,80 e máximo de R$ 74,70 por saca. “No final de 2024 houve um certo fortalecimento nos valores, entretanto, os altos custos de produção e a queda na produtividade impactaram diretamente a rentabilidade dos agricultores. Então, nossa expectativa para 2025 é de uma melhora na renda dos agricultores e no crescimento da industrialização do milho”, afirmou Bertolini.
Consumo interno
O consumo interno de milho no Brasil é impulsionado pelo setor de ração animal, seguido pela produção de etanol, que vem crescendo ano após ano. A expansão das usinas de etanol de milho, especialmente em áreas de fronteira agrícola, contribui para a liquidez do grão e oferece previsibilidade ao setor.
Atualmente, cerca de 70% da produção é destinada ao mercado interno, enquanto 30% é exportado. Em 2024, as exportações ultrapassaram 39 milhões de toneladas. Com um consumo próximo a 83,57 milhões de toneladas, o estoque final do produto se estabeleceu em torno de 2,5 milhões de toneladas.
Exportações brasileiras de milho
Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações brasileiras de milho em 2024 caíram 28,8% em relação a 2023, totalizando 39,78 milhões de toneladas no acumulado de janeiro a dezembro. O Mato Grosso, maior produtor do país, respondeu por 68% desse volume, com embarques de 27,03 milhões de toneladas, queda de 8,47% em relação ao ano anterior. A retração nas exportações está associada à menor oferta do grão na safra 2023/24, especialmente no segundo semestre.

Foto: Claudio Neves
De acordo com o Radar Agro do Itaú BBA, a principal razão para essa diminuição nos embarques do cereal foi a redução da procura asiática, com destaque para os mercados da Coreia do Sul, China e Japão. “Durante boa parte de 2024, os preços do milho no Brasil ficaram acima da paridade de exportação, o que tornou o produto menos competitivo em comparação ao milho americano. Por outro lado, o mercado africano registrou um aumento expressivo na demanda, dobrando a quantidade importada do Brasil, com destaque para o Egito, que passou a ser o maior destino do cereal brasileiro, comprando 14% do total exportado. O volume de exportações para o país árabe foi 240% maior que no ano anterior”, informa o boletim da consultoria, citando que os preços do milho caíram 16%, atingindo US$ 202,6 por tonelada.
As exportações para a China e o Japão despencaram 86,9% e 65,1%, respectivamente. Em contrapartida, Egito e Irã ampliaram suas aquisições, assumindo a liderança entre os destinos do cereal.
O desempenho do setor também foi afetado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, que alterou o fluxo de exportações para a Ásia e Europa. A Ucrânia, tradicional fornecedora de milho para esses mercados, teve sua capacidade de produção e escoamento reduzida, beneficiando os três maiores exportadores globais: Estados Unidos, Brasil e Argentina.
Produção global de milho

Foto: Claudio Neves
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estimou, em janeiro de 2025, que a produção mundial de milho na safra 2024/25 deve atingir 1.214 bilhão de toneladas. Nos EUA, a colheita deve totalizar 377,6 milhões de toneladas, uma retração de 3,1% em relação ao ciclo anterior. Para o Brasil, a projeção é de 127 milhões de toneladas, crescimento de 4,1%. Na Argentina, a produção deve atingir 51 milhões de toneladas, alta de 2%. E as exportações globais estão previstas em 191,4 milhões de toneladas, leve recuo de 0,3%. Já os estoques finais podem cair 7,6%, chegando a 293,3 milhões de toneladas.
Novas oportunidades
Bertolini revelou que o governo brasileiro também busca ampliar mercado para o DDG (subproduto da produção de etanol). Isso se deve em grande parte ao aumento da produção de etanol de milho no País, que atingiu 7,2 bilhões de litros na safra 2023/24, com projeções de até 8 bilhões na atual temporada. “A perspectiva é de que em 2025 dobre o número de biorrefinarias de milho no Brasil, que atualmente tem 22 em operação. Com isso, a oferta de coproduto deve se elevar tanto para o mercado interno quanto para o mercado externo”, prevê o presidente da Abramilho.
A produção nacional de DDG foi de 3,5 milhões de toneladas em 2024, aumento de 22,1% em relação ao ano anterior. Usado na ração animal, a exportação do insumo cresceu 26,7% no ano passado, alcançando 797,2 mil toneladas, tendo como principais destinos Vietnã, Nova Zelândia e Espanha.
A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) projeta que o Brasil produza cerca de quatro milhões de toneladas de DDG na safra 2024/25, com previsão de exportar entre 800 mil e um milhão de toneladas. “Além de fortalecer o setor de biocombustíveis, esse crescimento da produção nacional de DDG vai ampliar oportunidades para os produtores de milho”, frisou Bertolini.
Brasil pode se tornar o país do milho

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Bertolini: “O Brasil tem potencial para se consolidar como um grande produtor e exportador de milho industrializado, desde que consiga avançar em infraestrutura, armazenagem e logística” – Foto: Divulgação
O ritmo acelerado da produção de etanol de milho pode consolidar o Brasil como uma potência global no cereal. Segundo Bertolini, se o crescimento da indústria de biocombustíveis continuar nesse ritmo, o Brasil poderá ampliar sua participação no mercado internacional, agregar valor à cadeia produtiva e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A previsão para a safra 2024/25 é de um aumento de 25% na produção de etanol de milho.
A Unem projeta um crescimento de 40 bilhões de toneladas nos próximos 10 anos, mas Bertolini chama atenção para desafios estruturais. “É necessário avanços na logística, com melhorias em rodovias, hidrovias e portos, além da modernização dentro da porteira, especialmente no armazenamento dos grãos”, evidencia, acrescentando: “O crescimento da capacidade estática de armazenamento no Brasil não acompanha o avanço da produção de milho, o que pode gerar um colapso logístico a curto prazo no pós-colheita, cenário que torna ainda mais importante a ampliação dos investimentos em infraestrutura para evitar gargalos no escoamento e armazenamento”.
Além do etanol e da produção de ração animal, o presidente da Abramilho diz que há espaço para expandir o uso industrial do milho, aumentando o valor agregado à cadeia produtiva. “O cereal pode ser utilizado na fabricação de plásticos biodegradáveis, amido para papel e embalagens, entre outras aplicações. Mas para isso é fundamental que o Brasil amplie o processamento interno, diminuindo a dependência da exportação de milho in natura e fortalecendo a indústria local”, salienta Bertolini, enfatizando: “O Brasil tem potencial para se consolidar como um grande produtor e exportador de milho industrializado, desde que consiga avançar em infraestrutura, armazenagem e logística”.
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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



