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Brasil está na vanguarda no desenvolvimento de carne cultivada
Projeto inédito da Embrapa tem como objetivo a produção de proteína alternativa – análoga ao peito de frango. Essa tecnologia cria tecidos animais a partir de células animais e vem ganhando força no Brasil e no mundo pelo perfil atual de consumo de alimentos saudáveis. O produto final, deve ser provavelmente concluído ainda em 2023, se assemelha a um sassami, filé de peito de frango desossado.

A Embrapa Suínos e Aves (SC) está à frente de um estudo pioneiro no Brasil para desenvolver carne de frango cultivada em condições controladas de laboratório. O novo produto, que se assemelha ao sassami, na forma de protótipos de filés de peito de frango desossados, deve estar pronto para análises nutricionais e sensoriais até o final de 2023. Também encontrado como proteína alternativa, a tecnologia recriada tecidos animais em laboratório a a partir de células de animais, fornecendo carnes análogas às naturais. Trata-se de uma inovação que atende às atuais tendências de consumo e agregação de valor.
O projeto foi aprovado pelo edital competitivo internacional do The Good Food Institute ( GFI ), organização não governamental que atua na arrecadação de recursos e financia projetos globais. Dentre os 22 projetos selecionados em 2021, cinco são brasileiros, entre eles o da Embrapa Suínos e Aves.
O aumento no consumo de proteínas ao longo dos anos, novos hábitos alimentares e preocupação com a sustentabilidade têm despertado na comunidade científica a necessidade de ampliar a tecnologia necessária para produzir alimentos e atender à crescente demanda alimentar mundial. Com atenção a novas tecnologias de produção, a pesquisada é uma das alternativas em vista.
Para produzi-la, as células são extraídas de um animal e cultivadas (crescidas), primeiro em um meio nutritivo em escala laboratorial, depois em grandes biorreatores. O resultado se traduz na extensão da capacidade de produzir proteína, diversificando as fontes de produção. O produto final pode ser utilizado para a produção de alimentos não seguros, como hambúrgueres, embutidos e almôndegas ou seguros, como filés e bifes. “É um assunto discutido há algum tempo. Mas o ganho de escala está se dando agora porque a tecnologia está ficando mais viável, e, por isso, os investimentos no desenvolvimento dessas procuras alternativas começam a acompanhar esse momento e estão cada vez maiores”, explica Vivian Feddern , pesquisadora-líder do projeto.
Em sua avaliação, a vantagem de investir desde já neste mercado em franca ascensão é evidente. “Além da vanguarda tecnológica, podemos oferecer tecnologia e/ou proteínas alternativas a empresas do Brasil e de países importadores de produtos pecuários”, enfatiza Vivian.
A opção de estudo da Embrapa pela carne de frango levou em consideração o fato de que é uma das proteínas mais versáteis, consumidas em todo o território nacional, além de um dos alimentos mais completos nutricionalmente, importantes para dietas saudáveis. Outra vantagem do estudo diz respeito ao acesso ao banco genético de aves da Embrapa Suínos e Aves.
A técnica e o desenvolvimento
De acordo com Feddern, serão utilizadas as estruturas tridimensionais de nanocelulose bacteriana inicialmente desenvolvidas na Universidade Federal de Santa Catarina ( UFSC ). Essas estruturas apresentam características semelhantes aos cortes decelularizados de peito de frango como tamanho e aparência, e por isso serão usados como suporte ao cultivo das células. As células serão colocadas na celulose através da técnica de perfusão, de forma semelhante ao utilizado para recelularização de organismos.
O estágio atual da pesquisa está na otimização da adesão e avançadas das células no interior da celulose. “Existem diferentes possibilidades para viabilizar o transporte das células para dentro do tecido, para a fixação e desenvolvimento. Vamos testar com e sem microcarreadores, por exemplo”, acrescenta a pesquisadora. Para a obtenção do produto final, que é o desejado a filé de frango desossado, ainda há um caminho de pesquisa que a equipe espera atingir ainda durante o ano de 2023.
Legislação e consumo
O mercado global de carne de aves vem crescendo e apresenta, de acordo com órgãos como a OECD-FAO , uma estimativa de consumo de aproximadamente 131 milhões de toneladas em 2026. Para pesquisar, esses dados mostram um cenário promissor para empreendedores e buscarem tecnologia alternativa de produção, como a carne cultivada. “Embora estudos com essa cadeia são mais recentes quando comparados aos produtos da cultura de células bovinas, muitos se esforçam sendo empregados nos últimos anos e múltiplas empresas se estabeleceram em diversos locais do mundo”, comenta Feddern. Entre os países que já estudam a carne de frango cultivada estão Canadá, República Tcheca, Estados Unidos, Japão, Israel, França, África do Sul e Suíça.
Em 2020, a Singapura legislava para a cesta de frango empanado cultivado, produzido pela Eat Just . Em 2022, nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA ) concedeu aprovação para a Upside Foods , da Califórnia, para frango cultivado. Na Holanda, também em 2022, o parlamento legalizou a ingestão da carne cultivada sob condições controladas, destacando que foi o primeiro país a apresentar um hambúrguer cultivado pelo farmacologista Mark Post em 2013 na presença de 200 jornalistas e acadêmicos. Post é também cofundador da empresa de carne cultivada Mosa Meat , sediada na Holanda.
Embora ainda não exista, os produtos cultivados podem ser apreciados em alguns restaurantes desses países, como em Israel, que possui filas de espera para a degustação e lista de reservas para clientes.
No Brasil, ainda não há legislação sobre o tema, porém o Plano Nacional de Proteínas Alternativas (PNPA) está em processo de criação pelo Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ). Nesse plano estão contemplados alimentos e seus ingredientes de base proteica originados de plantas, insetos, fungos, algas e outras fontes alternativas obtidas por meio de produção, processos fermentativos, cultura de métodos e processos inovadores.
A legislação ainda deve ser um passo mais à frente, segundo a pesquisadora. “Algumas empresas, como BRF, JBS e Cellva Ingredients já tentaram a investir nas pesquisas para produzir carne cultivada e ingredientes, como a gordura suína cultivada. A maioria está focada em produtos não seguros, como é o caso de hambúrgueres, diferente de um peito de frango que precisa de estrutura. Como o processo é mais complexo, ainda temos um caminho pela frente”, complementa.
Sustentabilidade como apelo à produção
Um dos desafios que os pesquisadores apontam na produção de alimentos para uma população que vem crescendo no mundo todo é a sustentabilidade. “Os efeitos da produção animal convencional ao meio ambiente, desde a utilização da terra e da água, interferência na biodiversidade, emissão de gases de efeito estufa (GEE) é uma discussão recorrente, não só na pesquisa, mas em setores diversos. Dessa forma, a carne cultivada se apresenta como grande aliada ao enfrentamento desses desafios”, comenta Feddern.
“Partindo de um conceito de saúde única, que engloba, de forma conjunta, o cuidado humano, animal e do meio ambiente, é possível mitigar os impactos ambientais gerais da produção de carne tradicional. Isso porque cultivamos células do animal in vitro , em um ambiente inerte, sendo controlados física, química e microbiologicamente”, apontou a pesquisadora.
A técnica ainda prevê como vantagem a redução ou eliminação do uso de antimicrobianos, cujo tema é bastante debatido na produção de carne.
A carne cultivada se apresenta como uma forma alternativa à produção de carne convencional, portanto não visa substituir a produção convencional já bem estabelecida no mundo, mas possui potencial para coexistência de ambas as formas de produção. A produção de produtos cárneos em condições in vitrosurge como complemento para contribuir na oferta de proteína, demandada pelo aumento populacional, possuindo o potencial de transformar completamente o negócio de proteínas cárneas, com repercussões de longo alcance para o meio ambiente, a saúde humana e o bem-estar animal. Além disso, a carne cultivada possui potencial para aliviar as preocupações éticas, ambientais e de saúde pública associadas à produção convencional de carne, incluindo emissões de GEE, uso de terra e água, resistência a antibióticos, doenças transmitidas por alimentos e zoonóticas e redução de animais.
Criação de biobanco vai agilizar resultados da pesquisa
O projeto prevê duas soluções de inovação. Uma delas é dirigida ao desenvolvimento de uma “Metodologia para obtenção das condições de cultivo otimizadas da bactéria produtora de nanocelulose bacteriana visando uma linhagem comercial viável e confiável”, que é de responsabilidade da pesquisadora Ana Paula Bastos . A outra inovação será o desenvolvimento do produto em si, que é o respiratório de peito de frango, de responsabilidade da pesquisadora-líder do projeto.
Nesse projeto, os processadores trabalham com células-tronco adultos e embrionárias, miócito, fibroblasto e adipócito de galinha. Ao longo do desenvolvimento, notou-se a necessidade da criação de um biobanco de linhagens celulares de frango para atender ao mercado de carne cultivada. Segundo Bastos, o biobanco pode reduzir significativamente a necessidade de geração repetida de culturas de células primárias e permitirá que a indústria baseada em células trabalhe com linhagens celulares estáveis, reprodutíveis e consistentes durante o desenvolvimento de produtos cárneos cultivados.
A criação do biobanco é um dos resultados da I Jornada da Carne Cultivada, promovida pela Embrapa Suínos e Aves, em agosto de 2022. e estudantes de diversas áreas do conhecimento para ampliar as discussões sobre o tema e buscar parcerias. Mais informações estão disponíveis aqui .
Ela também ressalta que não existem obstáculos de licenciamento e autorização de uso das linhagens celulares porque a fonte de células são os animais do programa de melhoramento genético da Embrapa. “A criação de um biobanco institucional da Embrapa com linhagens celulares identificadas e destinadas a produtos cárneos cultivados poderá ser licenciada, o que reduzirá significativamente a barreira de entrada de investigador, startups e indústria interessada na carne cultivada”, comenta.
Como o consumidor vê a carne cultivada?
Em pesquisa aplicada pela equipe da Embrapa Suínos e Aves em relação à percepção do consumidor no contexto atual pós-pandemia, observa-se que os entrevistados estão dispostos a experimentar a carne cultivada e encaram como uma tendência positiva. Porém, restam dúvidas quanto à segurança do novo produto, valor nutricional, sabor, textura e modo de produção. “O conhecimento e a divulgação dos benefícios dessa inovação são primordiais para o futuro consumidor adotar a carne cultivada como mais uma opção de alimento à sua dieta”, completa Feddern.
A pesquisa foi aplicada entre fevereiro e março de 2022, por abordagem exploratória com dados coletados por meio de interação eletrônica composta de perguntas objetivas do tipo múltipla pergunta. Também contava com um vídeo explicativo sobre os prós e contras da carne cultivada com duração aproximada de oito minutos e uma questão optativa dissertativa sobre os motivos que fariam o respondente consumir ou não o produto. A pesquisa realizada abrangeu aspectos concernentes ao perfil, hábito e intenção de consumo de carne cultivada de moradores de municípios situados na Região Sul do Brasil, cuja população é inferior a 150 mil habitantes.
O tema ainda é controverso para a sociedade, mesmo nos meios de pesquisa. Pesquisadores avaliam essa situação especialmente pelo fato de o produto ainda não estar disponível para comercialização no mercado brasileiro. “Isso faz com que as opiniões e posicionamentos se dividam e, por vezes, sejam conflitantes. No entanto, o País, por ser um dos maiores provedores mundiais de proteína animal, deve estar atento e na vanguarda de qualquer assunto que diga respeito às cadeias produtivas”, enfatiza o pesquisadora-líder do projeto. “Com essa proposta de alimento inovador, o Brasil pode contribuir com a produção de massa cárnea, ingredientes, e a Embrapa oferece um biobanco, servindo de apoio para as empresas/startups existentes e novas que estão por serem lançadas no mercado”, conclui Feddern.

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Duimp deve reduzir até R$ 40 bilhões por ano em custos e impulsionar salto nas importações
Nova etapa do Portal Único reduz prazo médio de desembaraço para até 5 dias, elimina etapas burocráticas e amplia previsibilidade logística a partir de 2026.

O comércio exterior brasileiro deve passar por uma das maiores transformações de sua história neste ano, com a consolidação da Declaração Única de Importação (Duimp) e o desligamento definitivo do Siscomex. A expectativa do governo federal é de que o novo processo reduza prazos, elimine etapas burocráticas, impulsione a competitividade e gere até R$ 40 bilhões por ano em economia para as empresas.

Engenheiro elétrica que atua no ramo logístico, Mauro Lourenço Dias: “A Duimp não é apenas tecnologia, é transformação operacional. Quem entende isso estará à frente na corrida global pelo comércio exterior” – Foto: Divulgação/Fiorde Group
A mudança ocorre em um momento em que o país se prepara para um salto nas importações, favorecido pela simplificação operacional e pela maior previsibilidade na chegada de mercadorias.
A migração das operações para o Portal Único de Comércio Exterior começou em 2014, inicialmente com as exportações, e agora entra na reta final na área de importações. Em 2025, a adoção da Duimp torna-se integral, e 2026 será o primeiro ano com toda a cadeia funcional operando exclusivamente no novo modelo.
O governo federal projeta que a simplificação das etapas e a integração dos órgãos anuentes resultarão em um salto na eficiência logística, ampliando o fluxo de bens importados e reduzindo custos associados ao tempo de carga parada.
A experiência com as exportações mostrou o potencial do sistema. A migração do antigo Registro de Exportação para a Declaração Única de Exportação, concluída em 2018, reduziu em mais de 50% o tempo médio de desembaraço, segundo dados oficiais. Agora, o mesmo movimento deve ocorrer com as importações: o tempo médio já caiu de 17 para 9 dias e pode chegar a apenas 5 dias após a consolidação total do modelo. “A redução do prazo de desembaraço não é apenas um ganho operacional, é também um ganho financeiro significativo para as empresas que dependem de importações”, afirma o engenheiro elétrica que atua no ramo logístico, Mauro Lourenço Dias.
Além de eliminar etapas redundantes e reduzir a necessidade de autorizações prévias, o sistema permite que licenças de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) sejam analisadas diretamente no momento do registro da Duimp, evitando múltiplas aberturas de carga e acelerando a fiscalização.

Fotos: Claudio Neves
O governo estima que a desburocratização e a redução de custos operacionais poderão gerar impacto econômico acumulado de US$ 130 bilhões até 2040. Dias salienta que a Duimp cria uma visão compartilhada entre todos os intervenientes do comércio exterior. “O que significa menos atrasos e maior previsibilidade para o planejamento estratégico das empresas”, pontua.
Para Dias, os impactos vão muito além da redução de prazos. “A Duimp impacta não só as operações, mas também os fluxos financeiros. As empresas precisam ter atenção especial ao catálogo de produtos, à classificação correta e à integração de todos os sistemas”, explica.
Ele avalia que a chegada plena da Duimp representa uma mudança estrutural na forma como o Brasil administra o comércio exterior. “O Brasil possui um sistema moderno de comércio exterior e a Duimp é a evolução natural. Quem não se adapta corre risco de perder competitividade”, ressalta.

Dias destaca ainda que a integração entre logística, pessoas, processos e dinheiro se torna ainda mais determinante em um ambiente em que o desembaraço antecipado e a análise conjunta dos órgãos intervenientes passam a ser a norma. “A Supply Chain é dinheiro. Se usada de forma eficiente, gera competitividade; se usada mal, gera custos. Empresas que entendem essa nova dinâmica podem reduzir estoques, otimizar o fluxo de caixa e ganhar agilidade para aproveitar oportunidades de mercado”, evidencia.
A partir deste ano, a liberação antecipada das cargas vai permitir que o canal de conferência seja conhecido na chegada da mercadoria ao país, e não dias depois. Esse fator deverá reduzir estoques, melhorar o planejamento das empresas e reforçar a previsibilidade da cadeia de suprimentos.

A expectativa é que a diminuição do tempo de liberação possa chegar a 70% em comparação ao modelo atual, fortalecendo a posição do Brasil no comércio internacional. “Quem se prepara com antecedência terá vantagem competitiva, enquanto atrasos ou falhas de integração podem gerar custos adicionais”, alerta Dias.
Para o governo e especialistas do setor, o país inicia 2026 com condições de dar um salto quantitativo e qualitativo no volume das importações. Com processos mais simples, custos menores e maior transparência, a Duimp marca a transição para um modelo mais competitivo e alinhado às melhores práticas internacionais. “A Duimp não é apenas tecnologia, é transformação operacional. Quem entende isso estará à frente na corrida global pelo comércio exterior”, enaltece.
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Pesquisa revela que uso de agrotóxicos preocupa produtores em diferentes sistemas de cultivo
Entrevistas realizadas em 33 municípios paulistas indicam que prática é vista como prejudicial aos polinizadores, embora persistam dúvidas sobre conservação e manejo.

A relação entre polinizadores silvestres e a produção de alimentos tem se tornada cada vez mais evidente pela Ciência — e cada vez mais frágil no campo. Diversos estudos apontam falhas de polinização na maioria das culturas agrícolas, reflexo da redução na riqueza e na abundância de insetos ocasionada, sobretudo, pelas práticas agrícolas convencionais. Um levantamento recente conduzido pela Embrapa Meio Ambiente, em parceria com extensionistas da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – Cati e do Instituto de Terras do Estado de São Paulo – Itesp, indica que agricultores familiares reconhecem os visitantes florais e seus benefícios, mas ainda carecem de outros conhecimentos sobre o tema que podem contribuir com para a transição agroecológica dos sistemas alimentares.
A pesquisa integra as ações do projeto RedeFort, que busca fortalecer a transição agroecológica no estado de São Paulo. Entre setembro e outubro de 2024, com apoio dos extensionistas da Cati, foram entrevistadas 52 pessoas de 33 municípios, agricultores familiares produzindo em sistema convencional (44,2%), agroecológico (36,5%) ou orgânico (19,2%). A maioria (62,3%) declarou ser proprietária da terra e a faixa etária predominante das pessoas entrevistadas foi de 36 a 55 anos.

Foto: Katia Braga
Lorenna Brito, pesquisadora da Unicamp, explica que as abelhas lideraram a lista de visitantes florais reconhecidos pelos entrevistados, incluindo espécies de abelhas-sem-ferrão e nativas com ferrão, seguidas de vespas, pássaros e borboletas.
“As plantas mais observadas com presença de polinizadores foram frutíferas, especialmente laranja, abóbora e pitanga, mas, nas respostas, também se destacaram a banana e o café. Em sistemas orgânicos e agroecológicos, a riqueza de plantas citadas foi quase o dobro da registrada no sistema convencional, o que deve estar relacionado a uma maior variedade de espécies nas áreas de cultivo, uma relação de maior proximidade com natureza e maior familiaridade com a flora local”, disse.
Na percepção dos benefícios trazidos pelos polinizadores, agricultores agroecológicos e orgânicos destacaram o “aumento da produção”, enquanto os convencionais citaram principalmente a “polinização”. Para as pesquisadoras, essa diferença pode sinalizar que parte dos produtores convencionais não relaciona, diretamente, o processo de polinização ao rendimento das lavouras, um conhecimento a ser aprofundado.
Quando questionados sobre práticas prejudiciais, o uso de agrotóxicos — especialmente inseticidas — foi citado de forma recorrente pelas pessoas dos três sistemas de produção. O reconhecimento dessa prática prejudicial aos polinizadores, inclusive entre produtores convencionais, é um passo importante para a implementação de mudanças no sistema de produção, segundo as autoras. Já o desmatamento apareceu poucas vezes e não foi citado por agricultores convencionais, revelando um certo desconhecimento sobre os efeitos nocivos dessa prática na redução de habitats para polinizadores e, consequentemente, em uma polinização inadequada nas lavouras.
Além do uso de “químicos”, a monocultura e a poda antes da florada foram mencionadas como práticas que reduzem a oferta de flores e prejudicam a diversidade de insetos. Por outro lado, práticas como adubação verde, policultivo, rotação de culturas, cobertura de solo e aumento da “riqueza de plantas” foram reconhecidas como benéficas — ainda que parte dos agricultores convencionais tenha afirmado não enxergar práticas benéficas nesse sistema de produção.
Apesar dessas percepções, o estudo apontou lacunas importantes de conhecimento. Muitos entrevistados ainda confundem conceitos e aspectos básicos de polinização ou desconhecem o processo. As dúvidas mais frequentes incluem perguntas sobre horários ideais de polinização, diferenças entre polinização manual e cruzada, impacto das mudanças climáticas na polinização e formas de reconhecer e manejar polinizadores nativos.
“No modelo agrícola dominante — baseado em extensas áreas de monoculturas e alta dependência de insumos químicos — muitos países passaram a manejar colônias de Apis mellifera para polinização das lavouras, dentre outras espécies. Mas essa espécie, embora amplamente utilizada, passou por um declínio em diversos locais devido ao uso de agrotóxicos e ao estresse causado pela apicultura migratória. No Brasil, ao contrário, o uso de colmeias manejadas de Apis mellifera continua crescendo, mesmo com evidências científicas de que insetos nativos silvestres garantem maior produtividade e estabilidade à polinização na agricultura”, diz Kátia Braga, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.
Já se sabe que as áreas de vegetação nativa próximas às lavouras são essenciais pois é nesses ambientes que os polinizadores encontram alimento, abrigo e locais de nidificação. A conservação e restauração dessas áreas, portanto, torna-se peça-chave para enfrentar as crises de biodiversidade e climática que afetam, diretamente, a produção de alimentos e o bem-estar das pessoas.
O estudo também dialoga com políticas públicas como o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planaplo) e o Plano de Ação Nacional para Conservação de Insetos Polinizadores (Panip), que estimulam a redução no uso de agrotóxicos e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis. Esses resultados estão sendo utilizados para planejamento e realização de cursos de capacitação e, como previsto no Panip, para o desenvolvimento de materiais e metodologias pedagógicas voltadas aos extensionistas e agricultores familiares, contribuindo para ampliar a compreensão sobre os polinizadores e o seu papel na agricultura, estimular mudanças concretas nos sistemas produtivos e melhorar a produtividade e a qualidade da produção agrícola.
Para as pesquisadoras, o interesse demonstrado pelas pessoas entrevistadas e a riqueza de observações feitas por elas, revelam um terreno fértil para ações de capacitação. Ao mesmo tempo, os dados mostram que há espaço para avançar em temas como impacto dos agrotóxicos e sobre a relação entre conservação da vegetação nativa e adoção de práticas agroecológicas na diversidade de polinizadores presentes nas lavouras.
“Promover a diversidade de flores, espontâneas e cultivadas, a transição agroecológica dos sistemas alimentares e a compreensão do papel crucial dos polinizadores silvestres na produção de alimentos, são ações necessárias para garantir o futuro da própria agricultura”, conclui Ana Luiza Bovoy, agrofloresteira, criadora de abelhas e uma das autoras do estudo.
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Cooperfarms inaugura nova sede e amplia protagonismo do Oeste da Bahia no agro
Com 14 pavimentos, edifício em Luís Eduardo Magalhães concentra a gestão da cooperativa e marca lançamento de projeto de suinocultura com potencial de 17 mil empregos no estado.

O Oeste da Bahia reforça sua posição como uma das principais fronteiras do agronegócio brasileiro com a inauguração, nesta sexta-feira (27), da nova sede da Cooperfarms, em Luís Eduardo Magalhães, a 953 quilômetros de Salvador.
A cooperativa reúne 201 produtores rurais e responde por cerca de um terço da comercialização de milho e sorgo no estado. A solenidade de inauguração contará com a presença do secretário estadual da Agricultura, Pablo Barrozo, além de autoridades locais, lideranças regionais, cooperados e parceiros institucionais.
Segundo o secretário, o novo empreendimento representa um avanço estrutural para o setor. “Com uma sede moderna e estruturada, a cooperativa entra em um novo estágio de organização e competitividade, além de reafirmar o Oeste da Bahia como referência agrícola nacional”, afirmou.
Batizado de Edifício Agribusiness, o prédio tem 14 pavimentos e passa a concentrar a gestão da cooperativa. A estrutura também abrigará escritórios dos próprios cooperados, em um modelo considerado inovador, voltado à integração operacional e ao fortalecimento da governança.
Além do impacto institucional, a nova sede já movimenta cadeias ligadas a transporte, comércio e serviços, com reflexos diretos na economia regional, especialmente em municípios como Luís Eduardo Magalhãhães, Barreiras e cidades vizinhas.
Fundada em 2008, a Cooperfarms administra mais de 600 mil hectares produtivos, com foco nas culturas de soja, algodão e milho. A inauguração da sede marca ainda a apresentação de um projeto de cadeia integrada de suínos, com potencial estimado de geração de mais de 17 mil empregos diretos e indiretos na Bahia, ampliando a participação do Oeste no crescimento econômico estadual.




