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Brasil e Argentina no caminho da integração produtiva criarão a Rota do Milho
Objetivo foi apresentar informações relacionadas à complementariedade produtiva entre os dois países

Autoridades, lideranças empresariais, investidores, cooperativistas, pesquisadores, representantes do governo da Argentina e Governança do agronegócio catarinense, envolvendo atores das principais cadeias produtivas, participaram nessa semana da Jornada Caminhos para a Integração Produtiva, em Chapecó, SC. Em pauta, a viabilização da Rota do Milho. 
Com a intenção de discutir formas de integração entre o Brasil e a Argentina, em especial entre o Estado de Santa Catarina e a Província de Misiones, o evento foi promovido pela Secretaria de Agroindústria do Ministério de Produção e Trabalho da Presidência da República Argentina, com apoio logístico do município de Chapecó e apoio operacional do Sebrae/SC.
O objetivo foi apresentar informações relacionadas à complementariedade produtiva entre os dois países e conhecer a política argentina em questões sanitárias, regime de propriedade intelectual, propriedade de imóveis, regime legal para exportação de grãos e direitos de exportação, dentre outros aspectos. A programação incluiu explanações de técnicos, autoridades argentinas e apresentação de organizações cooperativistas da região da Província de Misiones (Argentina) e de Santa Catarina, além de atendimento individualizado pelos responsáveis.
O ministro da Agricultura de Misiones, José Luiz Garay, realçou que neste caso particular o tema pontual está relacionado com produção de milho e a possibilidade de abastecer todo esse grande polo produtivo para elaboração de proteína animal em Santa Catarina e também a possibilidade de integração da produção florestal da Província de Misiones com produtos semi-terminados com o polo moveleiro que existe nesta região e a possibilidade de prover essa matéria-prima. “Os resultados da integração sempre são bons em todos os processos. De fato, por mais que tenhamos vindo como servidores para colocar em prática o marco institucional que já existe entre os habitantes de um lado e outro sem necessidade de intervenção da Província e dos servidores, acredito que estamos tendo um início muito bom”.
Garay observou, ainda, que é uma ação muito positiva. “Podemos afirmar que está envolvida não somente a Província de Misiones, mas também a Argentina como um todo. Os resultados poderão ser muito positivos para ambas as partes e acredito que com união será possível potencializar o desenvolvimento sustentável de nossas nações para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos”.
O presidente do Bloco Regional de Intendentes, Prefeitos, Alcaides e Empresários do Mercosul (BRIPAEM), prefeito de Chapecó Luciano Buligon, enfatizou a importância do evento para fortalecer o desenvolvimento dos dois países. “A reunião é inédita. O que nos alegra muito é que estamos conversando sobre políticas de desenvolvimento local que interessam aos três Estados do Sul, mas também à Província de Misiones, na vizinha Argentina. Precisamos criar o hábito de desenvolvimento local e para isso o corredor do milho seria a primeira iniciativa de muitas outras que irão se consolidar. Estamos juntando os interesses do setor privado e público para o desenvolvimento social e comercial”, frisou.
O gerente regional oeste do Sebrae/SC, Enio Albérto Parmeggiani, destacou que a jornada teve como referência a clareza de que existem grandes oportunidades de integração e complementariedade entre estes dois territórios. “Ficou evidente a consolidação das informações técnicas que foram trazidas. Isso é necessário, convergente e é uma grande oportunidade de desenvolvimento não só aos produtores rurais vinculados às cooperativas, mas também para elevar o grau de competitividade de nossos territórios. Fica claro que essa construção sai de patamares sólidos para que tenhamos condições de competir”.
O gerente regional extremo oeste do Sebrae/SC, Udo Trennepohl, complementou que há anos entidades e lideranças regionais procuram, por meio de eventos como os que aconteceram nessa semana, aproximar as relações comerciais, econômicas e sociais entre os Países, as Províncias e os Estados. Muito já foi conquistado e muitos desafios foram superados, porém sabemos que os entraves burocráticos só serão vencidos por meio do fortalecimento de iniciativas como essas, que visam promover a integração e o crescimento”.
O presidente do Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar da República Argentina (SENASA), Ricardo Negri, falou sobre as oportunidades e desafios para trabalhar em conjunto, abordando aspectos como a cooperação tecnológica, sanitária e comercial. “A integração sanitária não está somente no protocolo para o caso do milho que já existe porque a Argentina já exporta o grão ao Brasil. A rastreabilidade de todo o sistema será essencial no futuro, o que implica que tenhamos o mesmo registro de agroquímicos, os mesmos produtos aprovados dos dois lados e que a genética que se usa seja adequada. A união local pode ocorrer informalmente e, de fato já existe, mas para pensar isso de forma sustentável é preciso que seja de maneira conjunta”.
Segundo ele, as perspectivas de sinergia entre Brasil e Argentina são impressionantes. “Creio que a cadeia do milho será a primeira porque é mais fácil, mas toda a integração de proteína animal é fantástica. Não há outra região no mundo que tenha essa quantidade de água doce, nem agricultores que comportem a mesma cultura. O grande desafio, tanto para o Brasil quanto para nós, é que a burocracia não derrube os sonhos”.
O vice-presidente regional Oeste da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), Waldemar Schmitz, avaliou o evento como uma excelente oportunidade econômico/social para os dois Países. “Do lado do Brasil, falta milho para abastecimento de nossas agroindústrias e, pela proximidade, poderíamos baratear esse insumo, tornando nossas agroindústrias mais competitivas. Do lado argentino, uma região com terras boas e férteis, atualmente mal trabalhadas, quase que improdutivas e muito próximo a nós, onde buscam alternativas para seu desenvolvimento, pretendendo copiar nosso sistema de cooperação e integração”.
No entanto, segundo Schmitz, para os brasileiros investirem no país vizinho, como foi o desejo deles nas apresentações durante o evento, existem vários desafios. Além de resolver todos os problemas de infraestrutura, rodovias, pontes e portuário, é necessário adaptar as questões legais, de parcerias, tais como alienações de terras, condições, comodatos, tributações e demais exigências, adaptando-se às políticas e legislações argentinas. “Sabemos da importância para ambos os lados, mas no nosso entender é essencial facilitar e adaptar mecanismos de desburocratização de vários entraves hoje existentes. Com uma boa dose de bom senso de ambos os governos isso poderá e deverá acontecer, pois notamos nas autoridades um grande interesse para selar essa fantástica parceria comercial. Aproveitamos para felicitar ao Sebrae, coordenador e promotor do evento pela sua importância”.
O presidente do Fórum de Competitividade para o Desenvolvimento do Oeste, Vincenzo Francesco Mastrogiacomo, realçou que o dia foi muito produtivo e que é fundamental fortalecer essa interação. “Temos que dar um próximo passo. Nós, da região Oeste, estamos sempre interligados com Misiones, mas as dificuldades existem e precisamos começar a fazer o movimento para que outras autoridades entendam o que queremos. Necessitamos traduzir nossa conversa em ação. É fundamental estabelecer metas para que possamos dar continuidade a esse trabalho e para isso teremos que ser proativos. Nós, do Fórum estamos juntos com as empresas, entidades e cooperativas para que possamos dar sequência ao próximo passo”.
Cooperativismo em destaque
Após apresentar o panorama do cooperativismo catarinense que contabiliza 51 cooperativas agropecuárias e um total de 263 cooperativas de todos os ramos, o superintendente da Ocesc, Neivo Luiz Panho, enalteceu a importância de discutir medidas para fortalecer a integração entre os dois países. “Quando se fala de um país para outro, dá para perceber que Brasil e Argentina estão interessados em fazer negócios em várias atividades e o evento propiciou os primeiros contatos, discutir entraves e as soluções. Temos observado que Santa Catarina tem uma deficiência ‘positiva’ na oferta de milho para sustentar as cadeias de aves, suínos e leite. Precisamos buscar alternativas para manter esse sistema de produção que está desenvolvido há mais de 50 anos. As ofertas que tínhamos até um tempo atrás foram escasseando e, cada vez mais, as indústrias precisam buscar o insumo em locais distantes. A logística encarece reduzindo sua competitividade que vai impactar no produtor. Temos que manter a condição de ter o produtor competitivo produzindo na região e essa integração será importante para que isso aconteça”.
O presidente da OCESC, Luiz Vicente Suzin, expôs que é fundamental para o Oeste, onde se necessita de vários produtos, o mais essencial o milho, no qual a Argentina é uma grande produtora. “Essa jornada é muito importante porque sabemos que o país vizinho tem áreas muito favoráveis para o plantio que não estão sendo exploradas. O encontro é o início de uma grande oportunidade que pode surgir entre os dois países. Nós necessitamos de milho e eles precisam vender e precisam de apoio para explorar algumas áreas que não estão sendo usadas e nós podemos fazer esse intercâmbio entre as cooperativas da Argentina e as do Oeste catarinense”.
O evento também contou com explanação do gerente de suprimentos da Aurora Alimentos Marcos Luiz Cortina que apresentou a estrutura e o histórico da Coopercentral que comemora 50 anos em 2019. A Aurora Alimentos é formada por 11 cooperativas filiadas, mais de 65 mil famílias cooperadas, mais de 10 mil empregados das cooperativas filiadas e mais de 28 mil empregados diretos da Aurora Alimentos. Em 2018 o faturamento do Sistema Aurora foi de R$ 20,8 bilhões e o faturamento somente da Aurora Alimentos foi de R$ 9,1 bilhões. Segundo Cortina, a Aurora Alimentos tem capacidade de abate de 18 mil suínos/dia, um milhão de aves/dia e um processamento de 1,5 milhão de litros de leite/dia, mantendo 42 estabelecimentos: oito unidades industriais de suínos, sete unidades industriais de aves, seis fábricas de ração, 13 unidades de ativos biológicos (incluindo granjas, incubatórios e unidade de disseminação de gens), oito unidades de vendas e a sede central (matriz).
A jornada
A Jornada Caminhos para a Integração Produtiva foi organizada pela Secretaria de Agroindústria do Ministério de Produção e Trabalho da República Argentina com apoio do Bripaem. Também se engajaram o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de SC (Fecoagro) Cláudio Post, o presidente do Sindicato da Indústria Madeireira e Moveleira do Vale do Uruguai (Simovale), Ilseo Rafaeli, participantes do Núcleo de Fronteira de Santa Catarina, parlamentares e lideranças de alto nível dos Governos de Santa Catarina e de Província de Misiones.
Além de autoridades e agentes econômicos que atuaram na implementação de formas de aproximação entre o Estado de Santa Catarina e a região da Argentina, também estiveram presentes os representantes dos Departamentos de Itapúa e Alto Paraná, do Paraguai, com os quais já existem vários protocolos de cooperação assinados.

Notícias
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



