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Suínos Balanço de 2023

Brasil deve produzir um milhão de toneladas de peixes pela primeira vez

Projeção da Peixe BR é de que 80% de tudo que se cultiva no país será tilápia até 2030.

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O cenário da piscicultura brasileira em 2023 foi marcado por desafios que frearam o crescimento do setor, sobretudo nas principais regiões produtoras do país. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, aponta quais foram os obstáculos enfrentados pela cadeia ao longo do ano, as oportunidades de mercado, perspectivas de crescimento e tendências para 2024.

O primeiro grande desafio envolveu questões sanitárias e enfermidades, especialmente nas regiões que adotam a produção de peixes em tanques redes. Este ambiente, reconhecido como mais desafiador, demandou uma resposta rápida e eficiente do setor. “Estamos conseguindo contornar a questão da sanidade com estratégias de biosseguridade, vacinação e manejo, utilizando as tecnologias disponíveis, o que assegurou um abastecimento regular aos consumidores”, expôs Medeiros.

Presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros: “Não crescemos mais no mercado internacional porque o mercado interno estava bastante aquecido” – Foto: Divulgação/Peixe BR

O segundo desafio, identificado de forma mais intensa no último trimestre de 2023, está relacionado à obtenção de outorgas para projetos em viveiros escavados no Oeste do Paraná. Nessa região, novos empreendimentos estão sendo barrados devido a critérios considerados não ideais pelo órgão responsável pela concessão da outorga. Segundo o presidente da Peixe BR, há alguns anos, os piscicultores empregavam uma grande quantidade de água em suas atividades. Atualmente, essa prática mudou, uma vez que a água utilizada se limita à reposição das perdas causadas por evaporação e infiltração. Esse volume representa apenas 1/6 do total utilizado anteriormente. No entanto, conforme explica Medeiros, o Instituto Água e Terra (IAT) do Paraná ainda adota a metodologia antiga, realizando um cálculo baseado na disponibilidade versus quantidade que cada produtor  vai utilizar de determinado corpo hídrico, o que impossibilita que outros produtores acessem esse recurso hídrico. “Com a aplicação das novas tecnologias e práticas sustentáveis pelos produtores, a quantidade de água utilizada diminuiu significativamente. Isso, por sua vez, abre espaço para novos projetos. A discussão atualmente em pauta junto ao Governo do Paraná busca a revisão dessa normativa para viabilizar a liberação de novos empreendimentos no estado”, menciona Medeiros.

Produção nacional

Nos últimos oito anos, a produção de peixes de cultivo cresceu quase 50% no Brasil, resultado da estruturação do setor, do emprego de tecnologias e do olhar atento dos piscicultores para que o produto chegue à mesa do consumidor com o mais alto padrão de qualidade.

A tilápia coloca o Brasil entre os quatros maiores produtores do planeta, representando atualmente 64% da produção total de peixes de cultivo do país, enquanto que dos peixes nativos o tambaqui é a espécie que lidera a produção nacional. Em 2022, foram produzidos 860.355 toneladas e a projeção da PeixeBR é crescer 20% em 2023, podendo superar um milhão de toneladas de peixes de cultivo. “Estamos bastante otimistas de que a produção nacional de peixes de cultivo deva crescer cerca de 20% em 2023, tanto que há várias empresas fazendo investimentos nesse momento. Ainda não fechamos os números, mas pelo que temos acompanhado Paraná, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul cresceram em produção, porém, por outro lado, tivemos regiões que foram impactadas por problemas sanitários, o que deve reduzir o volume final produzido no país. Contudo, temos a certeza de que 2024 será um bom ano para o setor”, anseia Medeiros.

Consumo per capita

No acumulado dos últimos sete anos, com exceção do ano passado, o consumo per capita registrou um crescimento de 5,5%. “O que é muito bom para uma proteína animal, visto que não temos no histórico da produção agropecuária brasileira nenhuma proteína animal que tenha mantido uma série histórica de sete anos com crescimento nesses níveis”, exalta Medeiros.

De acordo com o presidente da Peixe BR, as perspectivas de aumento de consumo são promissoras, apesar de não mencionar nenhum percentual. Segundo ele, os números consolidados serão apresentados na segunda quinzena de janeiro deste ano. “Qualquer número agora é uma parcial do que pudemos alcançar. No início de 2024 fazemos o fechamento do ano para ver quais áreas cresceram, para só então apresentar à sociedade. Mas as perspectivas são muito boas, porque apesar das dificuldades o setor continuou crescendo”, afirmou.

Exportação

Os produtos da piscicultura brasileira foram enviados para mais de 40 países, totalizando um faturamento de US$ 18,7 milhões nos primeiros nove meses do ano passado. Somente no terceiro trimestre, os embarques apresentaram aumento de 48% em receita quando comparado com o mesmo período de 2022, totalizando US$ 6,7 milhões. Porém, em toneladas houve queda de 11% no trimestre. “Essa diferença se deu devido ao aumento das exportações de filés, que possuem maior valor agregado, o que levou a um crescimento em valor apesar da queda em volume”, explica Medeiros, acrescentando: “Não crescemos mais no mercado internacional porque o mercado interno estava bastante aquecido”.

A exemplo de 2022, julho foi o mês com maior valor exportado no acumulado de 2023, atingindo US$ 2,5 milhões, enquanto setembro foi o mês com o segundo maior volume embarcado, chegando a US$ 2,3 milhões.

Diferente do ano anterior, em que a tilápia inteira congelada dominou as vendas externas, em 2023 os filés frescos foram os mais comercializados, registrando crescimento de 367% em valor no terceiro trimestre, atingindo US$ 4,4 milhões.

Contudo, a categoria de peixes inteiros frescos teve aumento de 520% em valor, porém o volume exportado foi bem inferior, alcançando uma receita de US$ 222 mil no período. Por outro lado, as categorias de peixes inteiros congelados registraram queda de 44% e de filés congelados de 45%, assim como a categoria de subprodutos impróprios para alimentação humana, que também apresentou queda. Enquanto os peixes inteiros frescos tiveram crescimento de 1.150% frente ao mesmo período de 2022.

Os embarques de tilápia totalizaram US$ 6,6 milhões, mantendo a posição de principal espécie exportada, e crescimento de 47% frente ao terceiro trimestre de 2022. No mesmo período, o tambaqui seguiu sendo a segunda espécie mais exportada, crescendo 276% e tendo uma receita de pouco mais de US$ 82 mil. Dentre as demais espécies exportadas estão bagres, surubins e curimatá.

Líder absoluto das exportações brasileiras de tilápia, os Estados Unidos representam 90% do total embarcado, totalizando no acumulado do ano um faturamento de US$ 16 milhões. Completam o ranking dos cinco principais importadores Japão, com receita de US$ 479 mil; China, com receita de US$ 420 mil; Canadá, com receita de US$ 143 mil; e Taiwan, com receita de US$ 250 mil. “Em 2022 nós exportamos para 42 países, de 2023 ainda não terminamos esse levantamento. Sabemos que muitos desses países são vendas pequenas, mas o importante é que o nosso produto adentrou nesse mercado”, enaltece Medeiros.

Estados maiores produtores e exportadores

O Paraná mantém sua posição de maior exportador de tilápia, tendo como carro chefe das vendas os filés frescos e a tilápia inteira congelada, registrando uma receita de US$ 14 milhões entre janeiro e setembro do ano passado.

São Paulo ocupa o segundo lugar, com filés e a tilápia inteira frescas como principais itens exportados, acumulando nos primeiros nove meses do ano US$ 2,1 milhões em faturamento. E a Bahia figura na terceira posição, com US$ 1,08 milhão embarcado. Destaque para os filés de tilápia congelada, além de filés frescos, que ampliaram seus embarques em 10.743% no terceiro trimestre.

De acordo com Medeiros, a projeção é de que 80% de tudo que se cultiva no país será tilápia até 2030. “Ano a ano a produção de tilápia está crescendo e hoje, entre os pescados, é a nossa principal commodity no mercado internacional. Se continuarmos neste ritmo de crescimento, projetamos que a produção de tilápia alcance 80% de tudo o que se cultiva no país nos próximos sete anos”, evidencia o presidente da Peixe BR.

Foto: Jefferson Christofoletti

Preços médios

Com relação aos preços médios da tilápia, os maiores aumentos foram registrados na tilápia inteira fresca, que chegou a 94% no terceiro trimestre de 2023, sendo comercializada a R$ 4,91 kg, frente aos R$ 2,53 kg no mesmo período de 2022. “O consumidor pagou um preço maior, porque o custo é repassado para o consumidor, mas mesmo com esse preço maior ainda mantivemos o mercado aquecido. Mas isso nos preocupa porque o objetivo é levar o produto ao maior número de pessoas possível”, pontua Medeiros.

Já os filés frescos e congelados tiveram 23% de aumento nos seus preços. “Esse aumento dos preços da tilápia tem relação com a queda na produção de países da América Latina como Colômbia e Honduras, que são importantes fornecedores dos Estados Unidos”, menciona o presidente da Peixe BR.

De outro lado, o valor médio pago pela tilápia em 2023 foi de R$ 5 Kg, um aumento de 10% em relação a 2022. Isso se deve a uma série de fatores, incluindo o aumento da demanda por tilápia no mercado interno e externo, a redução da oferta de peixes importados e a valorização do real em relação ao dólar. “Não tivemos nenhuma outra atividade de origem animal que tenha acompanhado, pelo contrário, a maioria das proteínas de origem animal teve uma queda no preço pago ao produtor. A tilápia foi a única proteína, que é comodity, que teve no Brasil ganho real para o produtor no ano passado”, salienta.

Tendências para 2024

Conforme o presidente da Peixe BR, entre os principais concorrentes mundiais na piscicultura, o Brasil deve continuar liderando em termos de crescimento global, impulsionado por sua competitividade na produção de insumos como milho e soja, componentes fundamentais na elaboração da ração. “O Brasil ao produzir esses insumos em larga escala mantém uma posição de destaque, porque os outros países produtores dependem do mercado brasileiro para adquirir esses grãos, com isso nós temos a obrigação de sermos mais competitivos do que eles”, reforça Medeiros.

Com a quarta maior produção mundial de tilápia, a expectativa é que o Brasil alcance a posição de terceiro ou segundo maior produtor até 2030. Contudo, o otimismo é moderado devido aos desafios apresentados pelo mercado de grãos. “Apesar do mercado interno aquecido para a tilapicultura, nossa preocupação reside na safra de grãos, cujo custo impacta diretamente na produção e, consequentemente, nos preços ao consumidor. A região Sul se mantém dentro do prazo de plantio, mas o atraso na região Centro-Oeste gera apreensões. Precisamos aguardar as próximas semanas para avaliar se haverá um aumento significativo nos custos de produção, refletindo nos preços ao consumidor”, comenta.

Ainda que o mercado consumidor esteja aquecido, a perda de poder aquisitivo do consumidor é um ponto de atenção para o setor. O aumento nos custos de produção, eventualmente repassados aos consumidores, pode restringir ainda mais o poder de compra, configurando um desafio para a sustentabilidade do crescimento do setor.

Para conferir o desempenho das principais atividades agropecuárias de 2023 e as expectativas para 2024 acesse a versão on-line do Anuário do Agronegócio Brasileiro clicando aqui. Boa leitura e um excelente 2024!

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Canetas emagrecedoras redesenham dieta do brasileiro e impulsionam consumo da carne suína

Avanço de medicamentos à base de GLP-1 muda o consumo de calorias, reduz carboidratos e fortalece a demanda por proteínas, colocando a suinocultura brasileira em posição estratégica em 2026.

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O ano de 2026 começou e já anuncia grandes mudanças para o agronegócio e o varejo alimentício no Brasil: a redistribuição no consumo de calorias. Se em anos anteriores o foco era o preço, hoje a dieta do brasileiro é ditada por uma combinação de busca por longevidade e o avanço crescente de medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, as chamadas canetas emagrecedoras. Um relatório divulgado pelo Itaú BBA indica que o fenômeno, que começou como uma tendência de saúde, agora redesenha a demanda da porteira para dentro, alterando o equilíbrio entre as lavouras e a pecuária.

Foto: Claudio Pazetto

Projeções de mercado das consultorias IQVIA e Itaú BBA estimam que o Brasil tenha entre 4 e 6 milhões de usuários regulares desses medicamentos, com maior concentração nas classes A e B, consolidando o país como o segundo maior mercado mundial da categoria. É importante ressaltar que esses dados refletem o mercado auditado, mas o alcance real é ainda maior ao considerarmos o uso off-label (uso de remédios adquiridos de forma clandestina).

Além disso, o acesso facilitado e a quebra de patentes prevista para este ano impulsionam o setor; a expectativa, segundo analistas do mercado financeiro como o BTG Pactual, é que o volume de vendas mantenha um crescimento significativo, podendo atingir até 80% com a chegada dos genéricos.

Neste cenário de redução do apetite, o consumidor come menos e escolhe melhor. Segundo dados do setor, cerca de 56% dos usuários desses fármacos afirmam fazer escolhas mais saudáveis, priorizando porções menores e nutricionalmente superiores. O impacto direto é uma queda acentuada na demanda por carboidratos refinados e uma ascensão das proteínas.

Essa mudança ocorre porque a recomendação nutricional para quem utiliza esses tratamentos subiu para até 1,6g de proteína por quilo corporal (visando a manutenção da massa magra), enquanto a estimativa de queda no consumo de carboidratos chega a -10,1% em snacks e -8,8% em panificação. Isso coloca os frigoríficos e produtores de proteína animal como os grandes beneficiados a longo prazo.

Neste cenário, a carne suína consolida sua posição estratégica. O relatório indica que o Brasil deve liderar o crescimento global de

Fotos: Divulgação/HB Audiovisual

produção de carne suína em 2026 (projeção de +1,3% a +3,8%) beneficiado pelo baixo custo da ração e pela migração do consumo de carboidratos para carnes. A tendência de “Smart Foods”, apontada pela Euromonitor, também abraça a carne suína pela sua praticidade, impulsionando o desenvolvimento de embutidos de alta qualidade, com menor teor de sódio e rótulos mais limpos, atendendo ao público que busca saciedade rápida com densidade nutricional.

Já no varejo, a palavra de ordem é a “Servitização”. Supermercados deixaram de ser apenas depósitos de produtos para se tornarem centros de consultoria e experiência, a exemplo de redes que já oferecem nutricionistas em loja e curadoria de produtos.

A tendência apontada por consultorias como Kantar e Mintel é a hiperpersonalização nutricional: com o auxílio de IA e Retail Media, as redes passarão a oferecer ofertas baseadas no perfil metabólico e necessidades de saúde do cliente. As marcas próprias também irão evoluir em 2026, se consolidando como escolhas premium para quem busca alimentos funcionais, como snacks de proteína e itens prontos para o consumo.

Presidente da ABCS, Marcelo Lopes: “A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender” – Foto: Divulgação/Arquivo OP Rural

Ainda de acordo com o Itaú BBA, embora o cenário seja favorável para as proteínas, o setor de grãos enfrenta o desafio de se adaptar. A redução gradual no consumo de cereais para alimentação humana direta obriga o campo a focar ainda mais na eficiência da ração animal, já que a demanda por carne segue em níveis históricos.

Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, a mensagem é clara: quem não entender que o consumidor mudou o hábito na farmácia, perderá competitividade na gôndola. “Em um mercado que se redefine em tempo recorde, a antecipação é o nosso maior diferencial. A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender”, finaliza.

Fonte: Assessoria ABCS
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Suínos

Embrapa estrutura rede nacional de dados para antecipar riscos sanitários na suinocultura

Central integra informações de granjas de todo o Brasil para reforçar vigilância epidemiológica, biosseguridade, sustentabilidade e competitividade do setor.

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Plataforma integra e analisa dados sanitários de granjas de todo o País para apoiar a tomada de decisão e fortalecer a vigilância epidemiológica - Foto: Luiza Biesus

A Embrapa Suínos e Aves disponibiliza nesta semana a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS), uma plataforma estratégica que integra e analisa dados sanitários de granjas de todo o País para apoiar a tomada de decisão, fortalecer a vigilância epidemiológica, biosseguridade, controle de doenças e ampliar a sustentabilidade da suinocultura brasileira.

Foto: Monalisa Pereira/Embrapa

De grande relevância no cenário mundial, a suinocultura se destaca pelos elevados padrões sanitários, pela produtividade e pelo compromisso com a sustentabilidade. Diante do desafio do monitoramento contínuo desses parâmetros, a Embrapa e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se uniram para estruturar a ferramenta, que agrega dados sanitários estratégicos para a cadeia produtiva, a partir de parcerias com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs).

Santa Catarina, estado que abriga a Unidade da Embrapa, é o maior produtor e exportador de suínos do Brasil. Em 2024, alcançou um recorde histórico, com 17,97 milhões de suínos abatidos, reforçando a importância de ações estruturadas para a sanidade dos rebanhos. A saúde animal é um fator decisivo para a produtividade e para a redução de perdas nas granjas e no abate.

Entre os principais desafios estão as Doenças do Complexo Respiratórios Suíno (PRDC), responsáveis por perdas significativas devido à

Pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella: ” – Foto: Monalisa Pereira/Embrapa

redução de ganho de peso, condenação de carcaças, aumento da mortalidade e maior uso de antibióticos. O PRDC é uma enfermidade multifatorial, resultante da interação entre fatores não infecciosos e patógenos virais e bacterianos, como o vírus da Influenza suína, o vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRSV), o Circovírus Suíno Tipo 2 (PCV2), Mycoplasma hyopneumoniae e outros agentes bacterianos. “Como o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carne suína, manter a saúde dos rebanhos é essencial”, afirma a pesquisadora Janice Zanella, líder da pesquisa.

E conhecer e entender os dados e informações sanitárias, realizando análises preditivas e retrospectivas é parte da estratégia, o que torna a CISS um instrumento inovador.

Central de inteligência transforma dados em ação
A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) também materializa o conceito de Saúde Única ao integrar saúde animal, saúde humana e proteção ambiental. “Animais saudáveis reduzem o uso de antibióticos, a mortalidade, o impacto ambiental e, consequentemente, geram alimentos mais seguros”, destaca Janice.

Da mesma forma, o monitoramento de agentes zoonóticos, principalmente vírus emergentes, visa identificar precocemente a circulação de patógenos na interface humano-animal-ambiente, antecipar riscos de surtos e epidemias, orientar medidas de prevenção e controle, e proteger a saúde pública, a produção animal e a segurança ambiental dentro da abordagem de Saúde Única.

Na prática, a Embrapa atua por meio da CISS em parceria com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs), que fornecem dados provenientes de milhares de amostras coletadas em granjas de todo o País. Essa cooperação é um pilar estratégico para o funcionamento da plataforma, pois possibilita a consolidação estruturada de resultados de diagnósticos laboratoriais, como testes de PCR, análises patológicas e outros exames de rotina relacionados a doenças endêmicas da suinocultura. Com isso, forma-se um banco de dados amplo e representativo da situação sanitária dos rebanhos suínos brasileiros.

A integração contínua dessas informações permite identificar e acompanhar mudanças nos padrões sanitários ao longo do tempo, considerando variáveis como faixa etária, unidades da federação, tipo de amostra analisada, natureza do problema sanitário e sistema de produção. Inspirada no modelo do Swine Disease Reporting System (SDRS), da Universidade Estadual de Iowa, nos Estados Unidos, a CISS oferece análises dinâmicas e atualizadas para diferentes atores do setor.

Foto: Lucas Scherer/Embrapa

Outro aspecto central do trabalho é a padronização e a interoperabilidade dos dados. Um dos principais desafios da integração, segundo a pesquisadora, é o fato de os LDVs utilizarem testes, ensaios e sistemas de gestão de informações laboratoriais (SGIL) distintos. Para viabilizar a troca e a análise conjunta das informações, é fundamental a adoção de padrões diagnósticos internacionalmente reconhecidos, como o Logical Observation Identifiers, Names and Codes (LOINC) e o SNOMED CT, que garantem a representação consistente do conteúdo clínico. Esse processo de codificação é conduzido pelo professor Rafael Nicolino, da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com os analistas da Embrapa Dirceu Benelli e Armando Amaral.

Os dados consolidados pela CISS subsidiam a elaboração de relatórios técnicos agregados e anonimizados, que apoiam a formulação de políticas públicas e ações estratégicas de órgãos de defesa sanitária, indústrias e produtores. No projeto piloto, a prioridade é a pneumonia enzoótica suína, permitindo o planejamento de estratégias mais proativas de prevenção e controle.

Além disso, a iniciativa fortalece a rede laboratorial brasileira ao ampliar a cooperação técnico-científica entre a Embrapa e os laboratórios colaboradores, contribuindo para a capacitação de equipes, padronização de processos e consolidação de uma rede nacional de vigilância em saúde suína. Esse trabalho estruturado representa o primeiro passo para transformar informações dispersas em inteligência estratégica, fortalecendo a sanidade, a sustentabilidade e a competitividade da suinocultura brasileira.

Resultados preliminares 
O projeto-piloto da CISS focou inicialmente no teste de PCR para o agente da pneumonia enzoótica dos suínos, o Mycoplasma

Foto: Diuvlgação/Embrapa

hyopneumoniae (MHyo), um dos patógenos mais relevantes do Complexo Respiratório Suíno (PRDC). Entre outubro de 2019 e dezembro de 2025 foram analisadas 253.674 amostras submetidas para PCR de MHyo, gerando 10.821 registros. Os estados com maior frequência de submissões ao longo dos anos estudados foram Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

As análises revelaram tendências claras e sazonalidade. A maior ocorrência e o pico de positividade foram observados no primeiro semestre de 2022. Em maio daquele ano, por exemplo, 38% dos registros de MHyo foram positivos. O maior índice de submissões coincidiu com a maior positividade, o que demonstra que o diagnóstico laboratorial é um grande aliado para embasar medidas de tratamento, prevenção e controle na prática.

Outro trabalho recente mostrou uma alta taxa de positividade no diagnóstico de circovirus suíno tipo 2 (PCV2) entre 2020 e 2025. Esses estudos indicaram que o genótipo PCV2d é o predominante atualmente no Brasil, embora as coinfecções de genótipos (PCV2b + PCV2d) ainda sejam consideradas relevantes.

Foto: Divulgação

O modelo do SDRS dos EUA, que analisou a intensificação da vigilância diagnóstica de influenza (comparando dados em suínos e humanos) durante pandemias, apoia as estratégias de monitoramento e prevenção de influenza com risco zoonótico no Brasil via CISS.

Em resumo, a ferramenta CISS, é versátil, e quando embasada em dados de qualidade poderá ser empregada em diversos estudos e análises, que por sua vez poderão derivar para outros trabalhos.

IA e genômica 
Os próximos passos da Embrapa, de acordo com Janice, incluem a ampliação do monitoramento para outros agentes importantes além do Mycoplasma hyopneumoniae e a incorporação de mais laboratórios de diagnóstico veterinário parceiros. “O objetivo é criar uma rede nacional integrada, além de um comitê gestor”, enfatiza.

Outra iniciativa que está no planejamento da equipe é disponibilizar relatórios mensais ao setor e realizar encontros virtuais para debater sobre os dados oriundos das análises.

A tecnologia será um pilar essencial para o futuro da vigilância sanitária. O uso de inteligência artificial (IA), análise de big data e sequenciamento genômico tem o potencial de transformar os estudos epidemiológicos. Essas ferramentas permitirão a previsão de surtos, a identificação de variantes emergentes e a aceleração das respostas sanitárias. “O desafio, contudo, é transformar esses avanços em ferramentas acessíveis e sustentáveis para o setor produtivo”, observa a pesquisadora.

Ela complementa que o médico-veterinário e o pesquisador da área animal atuam diretamente em saúde pública, sendo considerados

Foto: Divulgação

agentes de saúde global. Eles estão na linha de frente na identificação de doenças, na comunicação de riscos às autoridades de saúde e na pesquisa.

Comunicar esse papel é fundamental para mostrar que a saúde animal está intrinsecamente ligada à saúde das pessoas e ao equilíbrio ambiental. A CISS não será apenas uma plataforma para analisar dados, mas sim para dar suporte a quem realmente está na linha de frente. “Fazer parte dessa linha de frente da saúde global é uma responsabilidade e um privilégio, e demonstra que o Brasil pode liderar soluções em sanidade animal que impactam, positivamente, todo o planeta”, enfatiza a pesquisadora.

Pesquisar suínos é estratégico para a saúde global
A intensificação da vigilância de vírus em animais de produção se tornou crucial após eventos como as pandemias de influenza e covid-19, que expuseram o risco global da circulação silenciosa de patógenos. Os suínos são considerados uma espécie-chave, uma vez que podem ser infectados por vírus humanos e de aves, como a influenza A zoonótica, o que abre caminho para a recombinação genética e a eventual criação de novos vírus.

Foto: Divulgação

A influenza, por exemplo, é endêmica em rebanhos suínos de países produtores, incluindo o Brasil. Agentes endêmicos na suinocultura causam grande impacto econômico, afetando a biosseguridade, o bem-estar animal, e ocasionando o uso excessivo de antimicrobianos. Para o Brasil, a manutenção da saúde do rebanho é vital para fornecer proteína de qualidade e nutritiva, tanto para o mercado doméstico como o de exportação. E preservar a credibilidade brasileira como produtor e exportador confiável de proteína animal, garantindo o cumprimento das exigências dos mercados.

Entenda as semelhanças entre vigilância sanitária e tráfego aéreo

Para entender a integração dos dados na vigilância sanitária, é possível compará-la a um grande sistema de tráfego aéreo.

Cada laboratório de diagnóstico veterinário (LDV) é como uma torre de controle local, gerenciando voos (amostras) de sua região. O desafio é que cada torre usa um sistema de rádio e coordenadas ligeiramente diferentes (SGILs e terminologias únicas).

A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) age como um sistema de radar nacional unificado, que obriga todas as torres a usar a mesma linguagem e os mesmos códigos de identificação (como LOINC e SNOMED CT). Isso permite que os “pilotos” (veterinários e produtores) vejam em tempo real onde estão os congestionamentos (picos de positividade) e quais são as rotas de riscos (novos surtos), protegendo assim a malha aérea inteira (a cadeia produtiva e a saúde pública global).

Conceito de Saúde Única
A abordagem de Saúde Única (ou Uma Só Saúde, One Health em inglês) parte da compreensão de que existe interconexão entre a saúde

Foto: Divulgação

de humanos, animais, plantas e meio ambiente. Rompe com a visão fragmentada de saúde humana, animal e ambiental, que ainda prevalece em alguns setores, dificultando a vigilância e o controle de doenças transmissíveis e a gestão de riscos ambientais.

Janice menciona aspectos contemplados nos pilares do conceito de Saúde Única. Dentro da saúde humana, são tratadas as preocupações com doenças, gestão de resíduos, resistência a antimicrobianos e sanidade vegetal nos sistemas agroalimentares, bem com a qualidade e saudabilidade dos alimentos. São questões que se replicam no caso da saúde animal em que se incluem os aspectos de biosseguridade e bem-estar dos indivíduos.

Dentro da saúde ambiental, a perda dos recursos naturais, a conservação da biodiversidade, a degradação ambiental e os resíduos nocivos, a vulnerabilidade das mulheres e das comunidades tradicionais e ribeirinhas aos efeitos da mudança climática e de práticas como o desmatamento ou a mineração não foram esquecidas.

Foto: O Presente Rural

No caso da ciência, diante de possíveis futuras pandemias e, internamente, quando da condução de pesquisas na Embrapa relacionadas à Saúde Única, a pesquisadora chama a atenção para a importância da interdisciplinaridade e integração de conhecimentos. “Temos que trabalhar fora das caixinhas, fora dos silos, apesar de nossas formações de origem. E precisamos de bons dados para estudos preditivos”, destaca.

O tema Saúde Única vem recebendo atenção e direcionamento expressivos na agenda institucional da Embrapa. Está conectado a todos os objetivos estratégicos do Plano Diretor da Embrapa (PDE) e a vários portfólios de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Exemplo recente é o livro lançado em novembro de 2025, durante a COP 30, Saúde Única: Caminho para Resiliência do Planeta. Em 142 páginas, 12 autores da Empresa, entre eles a pesquisadora Janice Zanella (primeira autora), se dedicam a um tema que amplia a percepção sobre saúde, trazendo-a para uma abordagem mais holística.

Fonte: Assessoria Embrapa Suínos e Aves
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Suínos

Suíno vivo acumula queda em janeiro e amplia pressão sobre produtor

Indicadores do Cepea mostram desvalorização mensal acima de 10% em praças-chave, enquanto carcaça segue estável no atacado paulista.

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Foto: Ari Dias

Os preços do suíno vivo seguem em trajetória de queda na segunda quinzena de janeiro, conforme apontam os Indicadores do Suíno Vivo Cepea/Esalq. Na última sexta-feira (23), todas as principais praças acompanhadas pelo centro de pesquisas registraram recuo diário e perdas expressivas no comparativo mensal, refletindo um cenário de pressão sobre a rentabilidade do produtor.

Foto: Jaelson Lucas

Em São Paulo, o indicador posto foi cotado a R$ 7,87/kg, com baixa de 0,63% no dia e retração acumulada de 11,67% no mês. Santa Catarina, referência nacional na produção suinícola, apresentou um dos recuos mensais mais intensos, com desvalorização de 10,42%, a R$ 7,48/kg na modalidade a retirar. Minas Gerais registrou preço de R$ 7,63/kg, queda diária de 1,68% e perda mensal de 9,49%.

No Paraná, o indicador ficou em R$ 7,54/kg, com recuo de 1,31% no dia e de 8,83% no mês. Já no Rio Grande do Sul, o preço foi de R$ 7,65/kg, com variação negativa diária de 0,91% e queda mensal de 7,83%. Segundo o Cepea, os valores refletem o preço recebido pelo produtor, à vista, em reais por quilo.

No mercado atacadista, os preços da carcaça suína especial negociados na Grande São Paulo permanecem estáveis desde o dia 21 de janeiro. Em 23 de janeiro, a média foi mantida em R$ 11,68/kg, sem variação diária, mas ainda acumulando queda de 9,18% no mês. O movimento indica que, apesar da estabilidade recente, o atacado já incorporou parte significativa do ajuste observado desde o início do ano.

A análise mensal dos indicadores do suíno vivo reforça o quadro de enfraquecimento dos preços. Em dezembro de 2025, os valores médios

Foto: Ari Dias

já haviam recuado em relação aos meses anteriores, com São Paulo a R$ 8,84/kg e Santa Catarina a R$ 8,30/kg. Em comparação com setembro, quando os preços superavam R$ 9,00/kg em algumas praças, o ajuste negativo é ainda mais evidente.

De acordo com o Cepea, a combinação de oferta elevada, consumo doméstico ainda limitado e dificuldade de repasse ao longo da cadeia segue como principal fator de pressão sobre as cotações do suíno vivo neste início de ano, exigindo cautela dos produtores e atenção redobrada aos custos de produção.

Fonte: O Presente Rural
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