Peixes
Brasil apresenta modelo de piscicultura a autoridades paraguaias
Com 273 mil toneladas produzidas em 2025, Paraná é referência nacional. Visita da comitiva busca transferir tecnologias e normas ambientais para o cultivo sustentável de peixes no reservatório da Itaipu.

Uma comitiva liderada pela Itaipu Binacional e formada por representantes do Ministério da Pesca e Aquicultura do Brasil e do Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Paraguai (MADES, sigla em castelhano) visitou, na última quarta-feira (25), o frigorífico de peixes da Cooperativa Agroindustrial C.Vale em Palotina (PR). A comitiva foi recebida pelo diretor de Proteína Animal, Reni Girardi; pelo gerente do Departamento de Indústria de Proteína Animal, Neivaldo Burin; pelo gerente do Departamento de Produção Animal, Fernando Varolo; e pelo gerente do Abatedouro de Peixes, Jair De Sordi. O roteiro incluiu, ainda, uma visita a um produtor integrado, no município vizinho de Maripá.

Foto: Renan Pereira/C.Vale
O principal objetivo foi mostrar o funcionamento da cadeia produtiva às autoridades do país vizinho, que recentemente aprovou a Lei nº 7.618/2025,que promulga o marco ambiental para o cultivo de peixes não nativos, como a tilápia, no território paraguaio. Até então, a atividade era inviabilizada no lado paraguaio por restrições legais, apesar de estudos técnicos já apontarem a viabilidade ambiental e produtiva do cultivo de tilápia no reservatório.
Esta legislação é resultado de mais de uma década de negociações entre ambos os países, apoiadas por dados de pesquisas realizadas pela Itaipu. A visita das autoridades paraguaias a uma cooperativa do Paraná não se deu somente por conta da proximidade. O Estado é o principal produtor nacional, tendo estabelecido um novo recorde de produção em 2025, com 273 mil toneladas de pescados, o que representa 27% da produção nacional.

Foto: Renan Pereira/C.Vale
Referência nacional
A C.Vale é uma das principais responsáveis por isso, uma vez que detém o maior frigorífico de pescado das Américas e um dos maiores do mundo. Ali, são processados diariamente cerca de 240 mil peixes, com um peso médio de 950 gramas cada.
Além disso, a cooperativa congrega 276 produtores espalhados por 22 municípios da Região Oeste que, juntos, somam um estoque de mais de 50 milhões de tilápias em seus tanques. Em 2025, esse sistema de produção da C.Vale movimentou R$ 1,21 bilhão. “É um sistema que gera riqueza e transfere renda para mais de 6 mil famílias beneficiadas diretamente por essa cadeia da tilápia”, afirmou o gerente de psicultura da C.Vale, Paulo Roberto Poggere. “A C.Vale é uma referência no Brasil. E a gente quer demonstrar aqui todo o impacto que esse arranjo gera no território e os cuidados socioambientais que são necessários para que essa cadeia se sustente no longo prazo”, completou o gerente da Divisão de Reservatório da Itaipu (margem brasileira), André Watanabe.
É uma pujança que agora os governos brasileiro e paraguaio, por meio da Itaipu, querem levar aos pescadores

Foto: Renan Pereira/C.Vale
artesanais e aquicultores familiares do reservatório. Atualmente, a margem brasileira conta com apenas algumas dezenas de pescadores artesanais que cultivam pacu em tanques-rede. Mas, com a tilápia, a expectativa é de melhorar os ganhos, uma vez que esta espécie tem mais interesse comercial além de uma melhor relação entre carne produzida por quilo de ração utilizada.
Neste cenário, centenas de produtores poderiam ser beneficiados pela cadeia da tilapicultura estabelecida do Oeste Paraense. “No Paraguai, há uma grande expectativa com a criação de tilápia no reservatório da Itaipu”, explicou a engenheira química e gerente da Divisão de Reservatório da margem paraguaia da Itaipu, Ana Carolina Gossen, acrescentando: “Por isso viemos aqui para conhecer as normativas e as tecnologias que podemos aplicar em nosso país. A ideia é, a partir disso, desenvolver planos e modelos de negócio que beneficiem os produtores paraguaios”.

Foto: Renan Pereira/C.Vale
Nesse processo, a preocupação do governo paraguaio também se estende aos aspectos ambientais da aquicultura. “Nosso trabalho é o de salvaguardar nossos recursos naturais, garantindo a sustentabilidade da produção, especialmente no que diz respeito aos aspectos de sanidade ambiental e conservação dos recursos hídricos”, afirmou o diretor de Pesca e Aquicultura do Ministério de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Paraguai, Adam Leguizamón.
Também fez parte do roteiro uma apresentação do Ministério da Pesca e da Aquicultura do Brasil sobre as ações da pasta para estimular o desenvolvimento sustentável desse setor no País e sobre como se dá o processo de outorga do uso de águas da União (como é o caso da metade brasileira do reservatório da Itaipu) para o cultivo de peixes. Pela internet, é possível verificar no mapa do território brasileiro quais são os reservatórios, o potencial e a capacidade de suporte de cada um, e se é possível pedir autorização para o cultivo. “O reservatório da Itaipu tem uma capacidade para suportar uma produção entre 150 mil e 200 mil toneladas/ano, o que pode agregar muito às estatísticas de produção pesqueira no Brasil. A ideia é que o Brasil e o Paraguai possam utilizar adequadamente o reservatório, com sustentabilidade ambiental, econômica e social, para gerar renda e segurança alimentar para a comunidade do entorno”, enfatizou a secretária Nacional da Aquicultura do MPA, Fernanda de Paula.

Peixes
Seguro-defeso pode passar a ser pago durante todo o período de proibição da pesca
Mudança também prevê cadastro nacional de pescadores artesanais e regras mais rígidas para combater fraudes na concessão do benefício.

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados prevê que o Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal seja pago durante todo o período em que a pesca estiver proibida por medidas de preservação ambiental.
O Projeto de Lei 806/2026 altera a Lei nº 10.779/2003, que regulamenta o seguro-defeso, benefício concedido aos pescadores artesanais durante a paralisação temporária da atividade para garantir a reprodução das espécies.

Foto: Claudio Neves
Segundo o texto, o objetivo é evitar situações em que o pescador permanece impedido de exercer a atividade por determinação legal, mas deixa de receber o benefício durante parte do período de restrição.
Além da ampliação da cobertura, a proposta cria o Cadastro Nacional de Pescadores Artesanais e Marisqueiras. A ferramenta deverá reunir informações para registro, controle e cruzamento de dados, permitindo maior fiscalização na concessão e no acompanhamento do seguro-defeso.
O projeto também endurece as regras contra fraudes. Pela proposta, quem obtiver ou tentar obter o benefício mediante fraude ou má-fé ficará impedido de participar ou receber benefícios de programas sociais.
Autores da proposta, os deputados Carla Dickson (PL-RN) e Sargento Gonçalves (PL-RN) afirmam que a medida busca garantir que os recursos do seguro-defeso sejam destinados exclusivamente aos profissionais que dependem da pesca artesanal como fonte de renda.
Tramitação
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Para entrar em vigor, a proposta ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.
Peixes
Ruído de embarcações compromete comunicação dos peixes, aponta estudo
Pesquisa da UFPE indica que a poluição sonora pode afetar alimentação, reprodução e defesa de território, com reflexos para a saúde dos recifes e da pesca.

O ruído de motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, e de banhistas afeta a comunicação sonora entre os peixes, o que pode causar impactos negativos na alimentação, reprodução e defesa de território de várias espécies. A poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para a saúde de recifes de corais.
A constatação faz parte de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20), na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori, voltada a estudos científicos.

Foto: MPA
Apesar de a publicação ser em inglês, o periódico é editado pela revista oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI). A ictiologia é o ramo da zoologia dedicado ao estudo científico dos peixes.
De acordo com um dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a análise mostrou que “houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”.
Segundo ele, a diminuição foi identificada “justamente” onde havia maior presença de ruído causado pela ação humana. “Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”, diz.
Ele detalha que muitos peixes utilizam sons durante comportamentos como reprodução, defesa de território e alimentação. “Se essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos também podem ser afetados”, assinala.
Praias turísticas
O estudo monitorou ruídos produzidos pela atividade humana, como de motores de embarcações, de parapentes e da própria movimentação de banhistas no mar. Ao mesmo tempo, os pesquisadores acompanharam os sons emitidos por peixes nessas áreas.

Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST
O trabalho de campo foi conduzido em duas regiões turísticas no litoral de Pernambuco: as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e Tamandaré, na APA Costa dos Corais.
Essas duas praias foram selecionadas por serem destinos turísticos populares com dinâmicas diferentes, o que permitiu comparar os impactos sonoros.
Carneiros é um destino popular durante o ano todo, enquanto Tamandaré apresenta variações sazonais, com pico no verão.
Em cada praia, os pesquisadores mediram os sons tanto em pontos perto da costa, mais influenciados pela atividade humana; e pontos abrigados, onde a estrutura de recifes serve como barreira para o som.
Forma de medição
Para chegar aos resultados, os pesquisadores instalaram nos pontos de monitoramento um sistema de gravação subaquática. Cada sessão de monitoramento teve dez horas contínuas de gravação diária, somando 80 horas de dados acústicos.
Além de captura dos sons, mergulhadores fizeram uma espécie de censo visual, contando a quantidade e espécie de peixes. Foram encontradas de 18 a 23 espécies. Em Carneiros, eles localizaram quase 1,4 mil peixes.
Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023.
Sons dos peixes
A pesquisa identificou nove diferentes tipos de sons de peixes. Três deles deixaram de ser emitidos em locais expostos à presença de pessoas.
A ictiologia explica que os peixes produzem grande diversidade de sons, que são fundamentais para sua comunicação e sobrevivência nos recifes, que se manifestam por meio de pulsos, às vezes únicos, às vezes repetidos e formando sequências. Alguns peixes não produzem sons.

Foto: Divulgação
Os sons emitidos pelos peixes são relacionados a comportamentos específicos e famílias de peixes. Biologicamente, são essenciais para localização de parceiros e reprodução, defesa de território contra invasores, interações em grupo, e alimentação e detecção de predadores.
A poluição sonora humana foi relacionada também à redução na complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.
Os ruídos causam um fenômeno chamado “mascaramento acústico”, quando o som contínuo dos barcos esconde sinais acústicos dos peixes. Outro impacto é a supressão de comportamento, quando o ruído pode levar os peixes a reduzir ou cessar vocalizações.
Consequências
O pesquisador Túlio Freire Xavier destaca que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de corais, contribuindo para o equilíbrio de cadeias alimentares. “Os peixes recifais desempenham papéis importantes no controle de algas, na manutenção dos corais e na produtividade desses ambientes.”
Ele ressalta que os recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. “Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, diz.
Outras regiões
O especialista da UFPE aponta que, apesar de o experimento ter sido realizado no litoral pernambucano, o impacto de sons da atividade humana na vida dos peixes não é “exclusivo desses locais”. “Sempre que houver intenso tráfego de embarcações, turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes, existe potencial para impactos semelhantes”, afirma.
“A intensidade desses efeitos provavelmente varia de acordo com a quantidade de embarcações, as características do recife e as espécies presentes, mas o problema pode ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha”, complementa.
Limites sustentáveis
Túlio Xavier explica que ainda não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. “Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”, diz.
Ele destaca que o conhecimento científico gerado é compartilhado com gestores e comunidades locais, para contribuir com políticas públicas de manejo das regiões.
O especialista em biologia marinha da UFPE sustenta que turismo e conservação não precisam ser incompatíveis, mas que o componente acústico deve passar a ser considerado no planejamento das atividades. “O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida”, avalia.
Ele aponta que medidas “relativamente simples”, como organizar rotas de embarcações, reduzir a velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem contribuir para diminuir esse impacto. “Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade.”
Peixes
Manifesto propõe ações para fortalecer cadeia produtiva do pescado
Lançado durante o X SIMCOPE, documento reúne prioridades como alimentação escolar, certificação sanitária e valorização da pesca de pequena escala.





O documento foi elaborado a partir dos debates do Workshop sobre Pescado e Alimentação, que reuniu representantes da academia, da gastronomia, da pesca artesanal, da alimentação escolar e da sociedade civil. A proposta é ampliar o consumo de pescado no Brasil e fortalecer a cadeia produtiva por meio da integração entre ciência, políticas públicas, educação alimentar e cadeias de abastecimento sustentáveis.