Bovinos / Grãos / Máquinas
Boitéis ampliam a capacidade de confinamento na pecuária brasileira
Com estruturas prontas e gestão profissional, sistema de hospedagem para bovinos amplia capacidade de terminação intensiva e atrai novos investidores na pecuária de corte.

A cena que levou o pecuarista Alessandro Boigues, de Dourados (MS), a entrar no mercado de boitel não começou com um plano de expansão, mas com uma constatação prática dentro da própria fazenda. Parte da estrutura de confinamento estava ficando parada. Com a evolução do manejo e do rebanho, os animais passaram a chegar mais cedo ao ponto de terminação. O resultado foi uma mudança no ritmo da produção: o confinamento, antes ocupado durante mais tempo ao longo do ano, começou a apresentar períodos de ociosidade.

Pecuarista Alessandro Boigues, de Dourados (MS): Com a melhora da genética acabei encurtando meu ciclo em seis meses e comecei a ficar com o confinamento ocioso e parado. Aí veio a ideia de fazer o boitel e aproveitar a estrutura, viabilizando ainda mais o investimento” – Foto; Arquivo Pessoal
Foi nesse momento que surgiu a ideia de transformar a estrutura em uma nova frente de negócio: alojar animais de outros criadores no período desocupado. “Com a melhora da genética acabei encurtando meu ciclo em seis meses e comecei a ficar com o confinamento ocioso e parado. Aí veio a ideia de fazer o boitel e aproveitar a estrutura, viabilizando ainda mais o investimento”, relata Boigues.
A decisão do produtor sul-mato-grossense ocorre em um momento de expansão da terminação intensiva no país. Em 2025, a engorda de bovinos em confinamento alcançou 9,25 milhões de cabeças, crescimento de 16% em relação ao ano anterior, segundo dados do Censo de Confinamento apresentado pela dsm-firmenich em fevereiro. O avanço supera a média histórica recente, que vinha registrando aumentos próximos de 11% ao ano.
O levantamento mostra ainda a capilaridade da atividade: a terminação intensiva foi registrada em 2.445 propriedades distribuídas por 1.095 municípios brasileiros.
Estruturas que ampliam a capacidade do sistema
Dentro desse crescimento, os boitéis aparecem como uma alternativa para ampliar rapidamente a capacidade de confinamento do país sem que cada produtor precise investir em estruturas próprias. Na fazenda de Alessandro Boigues, a estrutura possui capacidade para receber 1.800 de uma só vez, mas o giro ao longo do ano permite movimentar um volume significativamente maior. “Hoje nosso boitel tem capacidade estática de 1.800 cabeças, podendo girar próximo de 4 mil cabeças por ano”, explica.
Esse modelo transforma o confinamento em uma prestação de serviço. Produtores enviam seus animais para a estrutura especializada, onde passam pela fase final de engorda até o abate.
Pecuaristas buscam giro mais rápido do rebanho
A procura pelo serviço vem de diferentes perfis de produtores. Segundo Boigues, há investidores que trabalham comprando boi magro para engorda e também pecuaristas que realizam a recria nas próprias propriedades, mas preferem terceirizar a etapa final de terminação. “Tem produtores que investem comprando o boi magro e outros que fazem a recria e querem girar o animal mais rápido, além de buscar uma carcaça de melhor qualidade. Normalmente o boitel consegue absorver animais de até 500 quilômetros de distância”, afirma.
Esse alcance regional é possível porque o confinamento profissional reúne infraestrutura, alimentação padronizada e manejo intensivo, fatores que aumentam a previsibilidade do desempenho dos lotes.
Modelo baseado em diária
No sistema operado em Dourados, a remuneração do serviço segue um modelo semelhante ao de hospedagem. O investidor paga por dia enquanto o animal permanece no confinamento. “Nosso modelo funciona basicamente por diária. Temos uma tabela por tipo de animal e peso de entrada. A partir disso calculamos a diária considerando o consumo aproximado de matéria seca”, explica o produtor.
Esse formato permite ao pecuarista ter maior previsibilidade de custos e acompanhar o desempenho do lote durante o período de confinamento.
Terminação em cerca de quatro meses
Os animais permanecem no sistema por um período relativamente curto, característica típica da terminação intensiva. Nesse intervalo, chegam a ganhar quase dois quilos de peso por dia. “Normalmente os animais ficam entre 95 e 120 dias no confinamento, com ganho médio diário próximo de 1,8 quilo”, relata Boigues. Esse desempenho acelera o giro do capital dentro da pecuária, fator cada vez mais relevante em sistemas produtivos intensivos.
Ferramenta para enfrentar períodos críticos
Na prática, o boitel também funciona como alternativa estratégica para produtores que enfrentam limitações de pastagem ou desejam liberar área na propriedade. “Para o pecuarista, a maior vantagem de contratar um boitel é normalmente em períodos de seca, quando ele tem dificuldade de oferta de volumoso. Outra situação em que o boitel é vantajoso é quando o produtor quer girar o produto mais rápido”, explica.
Ao enviar os animais para confinamento, o produtor reduz a pressão sobre as áreas de pastagem e consegue planejar melhor o fluxo de produção.
Manejo exige precisão diária
Apesar da aparente simplicidade do modelo, operar um confinamento exige controle rigoroso do manejo alimentar. Segundo Boigues, o principal custo da atividade está associado aos insumos utilizados na dieta. “O principal custo é a fonte de energia e proteína, como em qualquer produção confinada”, afirma.
Mas o desafio operacional vai além da formulação da dieta. “O maior desafio é garantir que o animal ingira a quantidade de matéria seca que ele precisa diariamente. Isso depende de uma boa leitura de cocho e de o tratador fazer a distribuição correta dos alimentos. Por isso é fundamental ter automação e sistemas de segurança”, acrescenta.
Crescimento da terminação intensiva
A expansão do confinamento brasileiro nos últimos anos ajuda a explicar o surgimento de novas operações de boitel. Dados da Abiec mostram que o número de bovinos confinados apresenta trajetória ascendente desde o início da década. Entre 2021 e 2024 (Abiec não tem os dados de 2025 publicados), o volume de animais terminados em sistemas intensivos cresceu de forma contínua, acompanhando a profissionalização da pecuária de corte e a busca por maior eficiência produtiva.
Em 2025, o avanço de 16% reforçou essa tendência. O crescimento é liderado por estados do Centro-Oeste e Sudeste. Mato Grosso permanece na liderança nacional, com 2,2 milhões de bovinos confinados, crescimento de 29,6%. Em seguida aparecem São Paulo e Goiás, ambos com 1,4 milhão de cabeças, enquanto Mato Grosso do Sul ocupa a quarta posição, com 900 mil animais confinados.
Tendência dentro da pecuária moderna
Para Boigues, que entrou no modelo há cerca de um ano, a expansão do confinamento ajuda a explicar o interesse crescente pelo sistema. “Para mim o sistema de boitel é novo, faz apenas um ano que entrei nesse modelo de negócio, mas o confinamento cresceu 16% no Brasil no último ano. Com certeza o uso do boitel é uma tendência para os próximos anos”, avalia.
Na prática, foi essa mudança que levou Alessandro Boigues a transformar um confinamento ocioso em uma nova frente de negócio. Hoje, a mesma estrutura que antes atendia apenas ao próprio rebanho passou a receber animais de outros produtores – um retrato de como a intensificação da pecuária também abre novas oportunidades dentro da atividade.
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Novo status sanitário do Brasil fortalece exportações paranaenses para a China
Setor pecuário do Estado espera ganhos em competitividade, demanda por proteínas e valorização da cadeia bovina.

O reconhecimento do território brasileiro como área livre de febre aftosa sem vacinação pela China terá impacto positivo para a pecuária do Paraná, conforme análise do Sistema Faep. A medida tem potencial de ampliar oportunidades comerciais para o Estado, já reconhecido como área livre da doença desde 2021. A decisão do governo chinês ocorre após mais de duas décadas de negociações e elimina restrições sanitárias que ainda limitavam parte das exportações brasileiras de produtos da pecuária.

Foto: Shutterstock
O anúncio ocorre um ano após a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, resultado de um processo de décadas envolvendo produtores rurais, serviços veterinários oficiais e governos estaduais.
“O elevado status sanitário paranaense e a organização da cadeia pecuária colocam o Estado em posição favorável para aproveitar o novo cenário comercial. O principal reflexo esperado é o fortalecimento da competitividade das nossas proteínas, ainda mais para um mercado consumidor com alta demanda, como a China”, avalia o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Na prática, a decisão pode resultar em aumento da demanda chinesa por proteínas animais produzidas no Brasil, mais oportunidades para frigoríficos exportadores instalados no Paraná, sustentação ou valorização dos preços do boi gordo em caso de crescimento das exportações e efeitos positivos no mercado de reposição, especialmente para bezerros e garrotes.

Foto: Thais Rodrigues de Sousa
Segundo o técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep Fábio Peixoto Mezzadri, os números já demonstram a relevância do mercado chinês para a pecuária de corte bovino paranaense. “Em 2025, o Paraná exportou 23,5 mil toneladas de produtos bovinos para China, movimentando US$ 126,9 milhões. O principal volume corresponde às carnes bovinas congeladas desossadas, responsáveis pela maior parte do valor exportado pelo Estado”, explica.
Principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, a China respondeu por mais de US$ 50 bilhões em compras do setor em 2025. “O reconhecimento sanitário reforça a confiança nas cadeias produtivas nacionais e fortalece a parceria estratégica entre os dois países, ao mesmo tempo em que cria novas possibilidades de expansão para produtores e exportadores brasileiros e, especialmente, os paranaenses”, conclui Mezzadri.
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Pecuária impulsiona alta de 4% nas vendas de suplementos minerais
Exportações aquecidas, valorização da cria e período seco sustentam crescimento do mercado.

As vendas de suplementos minerais para pecuária começaram 2026 em ritmo de crescimento. Entre janeiro e abril, as indústrias associadas à Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram) comercializaram 764,8 mil toneladas de produtos, volume 4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Apenas em abril, as vendas alcançaram 210,4 mil toneladas, alta de 4,9%.
Os números foram apresentados durante o Painel de Mercado da entidade, realizado em São Paulo, e refletem um cenário favorável para a pecuária brasileira, impulsionado pela valorização dos animais, pelo avanço das exportações e pela necessidade de suplementação durante o período seco.

O aumento no volume comercializado foi acompanhado por uma expansão ainda mais expressiva do número de animais atendidos. Segundo o economista Felippe Cauê Serigati, pesquisador da FGV Agro, a quantidade de bovinos suplementados cresceu 8% no primeiro quadrimestre, alcançando 68 milhões de cabeças.
O crescimento foi puxado principalmente pelos produtos das categorias Núcleos e Pronto para Uso. “A tendência é que os bons resultados continuem durante o período seco de outono-inverno, impulsionados pela necessidade de suplementação nutricional, pela valorização da cria e pelo bom momento da pecuária brasileira. Apesar dos desafios internos e externos, a economia brasileira deve seguir crescendo e a carne bovina continuará forte em produção, exportações, abates e consumo interno”, afirmou Serigati.
Exportações sustentam otimismo na pecuária

Foto: Gisele Rosso
Durante o encontro, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Fava Neves destacou o fortalecimento das cadeias de proteína animal como um dos principais motores da economia brasileira. “Estamos assistindo a uma verdadeira ‘carnificação’ da economia brasileira, fortalecendo o interior do país e integrando cadeias produtivas como DDG, farelo de soja, biogás, biometano e biodiesel. O agro brasileiro está construindo um modelo cada vez mais eficiente e sustentável”, enfatizou.
Segundo o profissional, o mercado internacional segue favorecendo a pecuária brasileira. Ele destacou o aumento das compras pelos Estados Unidos e a manutenção da demanda chinesa pela carne bovina nacional. “Os Estados Unidos estão comprando muito e a China segue demandando carne brasileira, inclusive por caminhos alternativos. Hoje, exportamos cerca de 4 milhões de toneladas por ano e podemos chegar a 5 milhões até 2035”, frisou.
Economia cresce, mas desafios permanecem
A avaliação dos participantes do painel é que o Brasil continua apresentando crescimento econômico em 2026, apesar do ambiente marcado por inflação elevada, juros altos e aumento do custo dos alimentos.
A projeção apresentada por Serigati aponta expansão de aproximadamente 1,9% do PIB neste ano, sustentada pelo consumo das famílias, aumento da renda e desempenho das exportações, especialmente do agronegócio. “O Brasil possui petróleo para exportar e está menos vulnerável do que outras economias globais. Porém, o crescimento atual ocorre sem sustentação fiscal, os juros devem cair lentamente e o endividamento das famílias continua elevado”, ponderou.
Cenário internacional exige atenção
As tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã também entraram na pauta do evento. A possibilidade de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz tem provocado volatilidade nos mercados de energia e insumos.
Mesmo assim, a avaliação dos especialistas é que o Brasil permanece em posição relativamente favorável por sua condição de exportador de alimentos e energia.
Para Fava Neves, as oportunidades para o agronegócio continuam robustas, mas exigem gestão profissional dentro das propriedades. “O mundo está turbulento, mas continuará precisando de alimentos. O Brasil é a cozinha do planeta e terá papel fundamental no abastecimento global diante da urbanização, do aumento da renda e do crescimento do consumo de proteína animal”, ressaltou.
Ele acrescentou que fatores como clima, custos de produção, sanidade, mão de obra e endividamento devem permanecer no radar dos produtores.
Logística reversa preocupa empresas
Além das questões de mercado, o encontro abordou temas regulatórios que preocupam o setor. Um deles é a logística reversa das embalagens, assunto que ainda não possui regulamentação definitiva para a cadeia de suplementos minerais.
Segundo a Asbram, empresas vêm sendo autuadas em estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo, apesar da ausência de obrigatoriedade formal para implantação do sistema. A recomendação da entidade é que as companhias apresentem recursos administrativos enquanto o tema continua em discussão.
Asbram prepara livro sobre 30 anos de atuação
A associação também anunciou o lançamento de um livro comemorativo aos seus 30 anos, previsto para ser apresentado durante o simpósio da entidade em 2027. A publicação reunirá a trajetória da Asbram e das cerca de 100 empresas associadas, registrando três décadas de atuação na nutrição do rebanho bovino brasileiro. “Vamos registrar nossa história, nossas ações, eventos, campanhas, debates e o trabalho técnico desenvolvido ao longo dessas três décadas. 2026 é um ano desafiador, mas acreditamos que, nos próximos dez anos, a pecuária será o maior setor do agronegócio brasileiro”, salientou Elizabeth Chagas.
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Carne bovina está entre os cinco produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos
Levantamento da Comex Stat mostra que siderurgia, petróleo, proteína animal e setor aeronáutico lideram as vendas brasileiras ao mercado norte-americano.

A carne bovina ocupa a terceira posição entre os produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos, segundo dados da Comex Stat. O produto respondeu por US$ 814,6 milhões em embarques e representou 7,5% do valor total exportado pelo Brasil para o mercado norte-americano no período analisado.

Foto: Shutterstock
O ranking evidencia a importância do agronegócio na pauta comercial entre os dois países, mas também mostra o peso de setores como siderurgia, petróleo e indústria aeronáutica nas exportações brasileiras.
Na liderança aparecem os produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, com vendas de US$ 1 bilhão, equivalentes a 9,2% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Em segundo lugar estão os óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos crus, que somaram US$ 857,5 milhões e participação de 7,9%.
Além da carne bovina, a lista dos cinco principais produtos exportados inclui aeronaves e outros equipamentos,

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incluindo peças e componentes, com US$ 768,3 milhões e participação de 7% nas vendas externas. Fechando o ranking aparece o ferro-gusa, ferro-esponja, grânulos, pó de ferro ou aço e ferro-ligas, que movimentaram US$ 594,1 milhões, o equivalente a 5,4% do total exportado.
Agro ganha relevância em meio ao debate tarifário
Os números ganham relevância em um momento de atenção do setor exportador às medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos. A carne bovina é um dos produtos mais relevantes do agronegócio brasileiro no mercado americano e figura entre os itens estratégicos da pauta bilateral.

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O levantamento também mostra que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é marcada por uma diversificação de produtos, envolvendo commodities agrícolas, minerais, petróleo e bens industrializados de maior valor agregado.
Cinco produtos representam mais de um terço das exportações
Somados, os cinco principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos representam cerca de 37% do valor total embarcado ao país, demonstrando forte concentração em alguns segmentos específicos da economia.
A presença simultânea de produtos do agronegócio, mineração, energia e indústria reforça a importância do mercado norte-americano para diferentes cadeias produtivas brasileiras e ajuda a explicar a preocupação de exportadores diante de possíveis mudanças nas regras comerciais entre os dois países.



