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“Boi safrinha” maximiza uso da terra e potencializa ganhos de produtores no Cerrado

Boi safrinha ocupou, no ano-safra 2019/20, 3 milhões de ha no Cerrado, ante 2,3 milhões de ha no ano-safra 2018/19

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Produtores rurais do Cerrado têm encontrado na adoção de um sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) uma alternativa rentável para evitar os riscos climáticos da segunda safra de verão em sistema de sequeiro, aproveitar áreas agrícolas que ficam em pousio durante o inverno, período seco do ano, produzir carne a custo mais baixo e incrementar a produtividade das lavouras de grãos. É o chamado sistema “Boi safrinha”, “safrinha de boi” ou “pasto safrinha”, tecnologia cada vez mais adotada na região.

O sistema recebeu esse nome em alusão à segunda safra de milho, também chamada “milho safrinha”. Nele, uma gramínea forrageira dos gêneros Brachiaria ou Panicum é semeada simultaneamente com o milho ou sobressemeada a lanço em soja, a partir do final do enchimento dos grãos até o amarelamento das plantas. Após a colheita da lavoura de grãos, a massa de capim formada para cobrir o solo para o plantio da cultura anual no verão seguinte em Sistema Plantio Direto* (SPD) também pode ser usada como pastagem de curta duração na cria, recria ou terminação de bovinos, promovendo bem-estar animal, diminuindo custos com confinamento, intensificando o uso da área e aumentando a lucratividade das fazendas.

De acordo com a avaliação de impactos da tecnologia realizada pela Embrapa Cerrados (DF), o Boi safrinha ocupou, no ano-safra 2019/20, 3 milhões de ha no Cerrado, ante 2,3 milhões de ha no ano-safra 2018/19. A área é estimada com base na estimativa de formação de pastagens e cobertura de solo com as espécies forrageiras mais utilizadas para o período seco do ano em sistemas de ILP especializados. O Boi safrinha foi uma das 152 tecnologias cujos impactos econômicos, sociais, ambientais e institucionais foram analisados no Balanço Social 2020 da Embrapa, cujos resultados serão anunciados no próximo dia 27 pelo presidente da Embrapa, em uma coletiva virtual de imprensa marcada para as 10h30.

A receita bruta com a tecnologia foi estimada em R$ 12,3 bilhões, quase o dobro do ano-safra anterior (R$ 6,2 bilhões) e a margem bruta em R$ 2,99 bilhões, praticamente o triplo do período antecedente (R$ 1 bilhão), com rentabilidade mensal de 9,7% do capital investido por ha, quatro pontos percentuais acima do obtido em 2018/19. A rentabilidade total em 2019/20 foi de 31,7%/ha, contra 18,8%/ha do período anterior. As simulações econômicas de 2020 consideram os valores de R$ 207,25 para boi magro e R$ 243,59 para boi gordo, com base em valores médios do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) nos meses de junho e outubro, respectivamente.

O efeito ambiental de “poupa-terra” (quando novas áreas deixam de ser utilizadas devido ao uso de tecnologias de intensificação do uso da terra) foi de 9,4 milhões de ha de pastagens perenes desocupadas durante a estação seca no Cerrado e pelo pastejo evitado decorrente da antecipação da idade de abate dos animais, contra 7,1 milhões de ha em 2018/19. Cada real investido na pesquisa sobre a tecnologia, entre 2009 e 2015, retornou R$ 534,82 para a sociedade.

Benefícios

Lourival Vilela, um dos pesquisadores responsáveis pela sistematização do Boi safrinha, destaca que tanto os produtores de grãos e fibras como os pecuaristas se beneficiam da tecnologia, assim como os frigoríficos, que contam com maior oferta de carne na estação seca, quando há menor disponibilidade de forragem.

Os principais impactos agronômicos do sistema Boi safrinha observados pelos pesquisadores são ganhos de produtividade de soja de 10 a 15% quando em sucessão a pastagens de maior produtividade e adubadas; ganho de peso em equivalente-carcaça entre 6@/ha e 12@/ha na pastagem de curta duração na estação seca; e ciclagem de nitrogênio, fósforo e potássio estimada, em equivalente-fertilizante, em cerca de 60 kg/ha/ano de ureia, 95 kg/ha/ano de superfosfato simples e 85 kg/ha/ano de cloreto de potássio, respectivamente.

O sinergismo da rotação lavoura-pasto do sistema promove melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, resultando no aumento do teor de matéria orgânica do solo; diminui a incidência de plantas daninhas e auxilia no controle de pragas e doenças das culturas, como Fusarium spp. e mofo branco em soja, reduzindo o uso de agroquímicos. Além disso, a palhada do capim, se bem manejada, aumenta a taxa de infiltração de água no solo, elevando a recarga do lençol freático.

Desenvolvimento

Apesar de ter sido descrito em uma publicação somente em 2017, o Boi safrinha já existia como prática desde o início da adoção de sistemas de ILP para recuperação de pastagens em fazendas na década de 1990, como lembra Lourival Vilela.

“Um dos aspectos que mais chamavam a atenção é que as pastagens permaneciam verdes por um período longo do ano. Quando o produtor de grãos começou a introduzir a braquiária nas áreas de agricultura, surgiu esta oportunidade: trabalhar com o boi, que é uma atividade de menor risco que o milho safrinha em muitas regiões”, diz o pesquisador.

O médico veterinário William Marchió, que atua como consultor de agronegócios em 11 estados brasileiros e no Paraguai, aponta que o Boi safrinha é uma estratégia que se tornou corriqueira em grande parte das fazendas com atividades agrícolas e pecuárias, principalmente em estados com perfil agrícola, como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, mais receptivos a esses sistemas.

“O fato de haver uma gramínea no sistema diminui a ocorrência de pragas e doenças e aumenta o teor de matéria orgânica do solo. A fertilidade do solo fica bem conduzida e quem se dispõe a ter gado produz uma arroba muito barata (por R$ 120 a R$ 140, contra R$ 200 na pastagem convencional). Além disso, os animais em pastejo conferem aumento da produtividade agrícola”, explica.

Marchió observa que os principais adotantes do Boi Safrinha são pecuaristas que se tornaram também agricultores cerca de 15 anos atrás, quando se iniciou o aumento da adoção de sistemas de integração no País. Em seguida, aparecem os agricultores que vislumbraram a agregação de valor com a atividade pecuária e adquiriram animais – por sinal, o principal investimento do sistema.

Lourival Vilela destaca que a tecnologia vai além da alimentação dos bovinos na entressafra. “Há fazendas que estão fazendo a estação de monta invertida, saindo do período tradicional (novembro) para o mês de maio (período da pastagem do Boi safrinha)”, comenta, salientando que os animais, nesse sistema, não perdem peso. “O grande objetivo do criador é obter mais bezerros por área. Na monta invertida, ele consegue aumentar a fertilidade das vacas devido ao valor nutricional superior da pastagem. Além disso, o nascimento dos bezerros ocorre normalmente na seca. Com a inversão da monta, a mortalidade diminui”, completa Marchió.

Vilela acrescenta que a maior disponibilidade de forragem proporcionada pelo sistema, aliada ao manejo animal adequado, pode proporcionar a redução das idades de abate dos animais machos e de primeiro parto das novilhas, encurtando o ciclo pecuário e proporcionando o aumento da rentabilidade da atividade ano após ano.

“Estamos num momento de demanda internacional por alimentos muito forte. A tendência é de que as commodities continuem sendo valorizadas. Como o valor da terra aumentou muito nos últimos anos, o produtor que não conseguir fazer a expansão horizontal da produção fará a expansão vertical, aumentando a produtividade na mesma área”, aponta Marchió.

Existem diferentes alternativas de Boi safrinha (ver figura), e a escolha depende das condições operacionais da fazenda, como infraestrutura, cercas, aguadas e máquinas, bem como das condições climáticas de cada região favoráveis aos cultivos de soja, milho e sorgo, e do conhecimento e experiência necessários para implantação das práticas do sistema.

Figura: Alternativas potenciais de Boi safrinha

Caso de sucesso

No Oeste da Bahia, as condições climáticas são restritivas ao cultivo da segunda safra de verão, como o milho após a colheita da soja. A Fazenda Triunfo, em Formosa do Rio Preto (BA), propriedade da família de Eduardo Manjabosco, adota o Boi safrinha há mais de 10 anos, tendo contribuído para a validação da tecnologia. O sistema é atualmente usado em toda a área com milho da fazenda, que na safra 2020/21 representa 4900 ha.

A fazenda utilizava tradicionalmente a semeadura do capim Brachiaria ruziziensis após a emergência do milho, visando à formação de palhada para o SPD. “Era muita palha de ótima qualidade e achamos que seria um desperdício não colocar um boi para comer parte daquela forragem no período da seca. Foi aí que decidimos adotar o Boi safrinha”, lembra Manjabosco.

Para melhorar o rendimento operacional do plantio do consórcio, foram introduzidos na safra 2009/10 os consórcios milho com B. ruziziensis e milho com B. brizantha cultivar Piatã em 200 ha da propriedade. A semeadura das braquiárias foi realizada imediatamente antes do plantio do milho, sendo que o capim Piatã foi utilizado para diversificação do sistema e aumento do potencial de produção de forragem.

Naquele primeiro ano, a produtividade do milho no consórcio com B. ruziziensis foi de 156,6 sc/ha, valor próximo ao do rendimento do milho solteiro (160 kg/ha). Já a produtividade do consórcio com o Piatã foi de 140 sc/ha (com capim Piatã), sendo que houve competição do capim com o milho, afetando a produtividade. Segundo Manjabosco, as produtividades médias do milho no sistema vêm se mantendo próximas a 200 sc/ha, sendo que na safra 2019/20 foram colhidas 187 sc/ha.

Ganhos na pecuária e na soja

A formação de massa seca de forragem nos consórcios no primeiro ano de Boi safrinha na fazenda foi de 2.677 kg/ha (B. ruziziensis) e 5.514 kg/ha (Piatã). Na entressafra, o ganho de peso médio de animais Nelore chegou a 0,98 kg/animal/dia no consórcio com o capim Piatã, e a 0,8kg/animal/dia no consórcio com B. ruziziensis, com rendimentos médios de carcaça de 6,9@/ha e 3,4@/ha, respectivamente.

O pastejo na fazenda é manejado em piquetes de 50 ha, de modo a preservar cerca de 50% da massa de forragem acumulada no consórcio com milho para uso no SPD. Assim, quando o consumo de forragem se aproxima dessa meta, geralmente entre 15 e 20 dias, os animais são transferidos para uma nova área, num sistema de pastejo itinerante.

Entre 2010 e 2015, a melhoria do potencial genético do rebanho da propriedade, associada aos ajustes no manejo animal e na pastagem no sistema, proporcionou a redução na idade de abate de 36 para 24 meses, além do aumento de 29% no peso médio da carcaça, de 202 kg para 261 kg. O crescimento médio anual de bovinos engordados foi de 41%.

Cerca de 90% dos animais utilizados na Fazenda Triunfo para recria e terminação vêm de outra propriedade da família, em Riachão das Neves e Santa Rita de Cássia (BA). Em 2020, eles foram vendidos com idade entre 22 e 23 meses e com peso médio de 315 kg (ou 21 @). Com o aumento da área ocupada pelo Boi safrinha na fazenda ao longo dos anos, o número de animais no sistema passou de 358 em 2010 para cerca de 4800 no ano passado. “Para nós, houve um grande ganho com a implantação do sistema Boi safrinha. Os negócios andam bem e, com o aumento do preço da arroba, melhor ainda”, afirma Manjabosco, que prevê utilizar em torno de 5 mil cabeças no sistema em 2021.

Ele observa que, como no Boi safrinha a engorda do gado ocorre no período de preços mais baixos da arroba (início da seca), o sistema proporciona animais gordos no período em que os preços começam a subir (final do período seco) e ainda há pouca oferta no mercado. “É um ganha-ganha de vários lados”, comenta o produtor.

Na safra 2010/11, a produtividade de soja em áreas de SPD no resíduo pós-pastejo havia sido de 67,5 sc/ha, 24% a mais que as 54,6 sc/ha obtidas nas áreas sem os capins. Nas últimas safras, a produtividade média em soja tem sido de 72 sc/ha, tendo alcançado 82 sc/ha na safra 2017/18. “Tanto em pesquisa como em trabalhos realizados em fazendas, tem-se observado que o pastejo do capim na entressafra tem proporcionado rendimentos de grãos maiores que em áreas não pastejadas. Em soja e milho, esses aumentos na produtividade são da ordem de 5 a 10 sc/ha”, diz Lourival Vilela.

“Sou fã do sistema e não quero voltar atrás. Ele me ajuda a colher mais soja e permite utilizar uma mão de obra que ficaria ociosa na entressafra, quando em vez de produzir nada, produzo carne”, afirma Manjabosco, acrescentando que o Boi safrinha na Fazenda Triunfo também viabiliza a propriedade de pecuária, onde o gado é mantido em pastagem extensiva com tecnologias de adubação e correção do solo.

Eficiência de uso da adubação

A liberação de nutrientes pela decomposição da palhada do milho consorciado com braquiária é outro benefício potencial do Boi safrinha observado nas pesquisas na Fazenda Triunfo. Na avaliação do efeito da redução da dose de fertilizante usada nos consórcios de milho com os capins, tendo como referência as doses normalmente utilizadas na propriedade, foi possível reduzir em 39% as doses de fósforo e em 33% as de potássio sem afetar significativamente a produtividade de soja, independente do modo da adubação ou do manejo da braquiária. Os resultados indicam que é possível reduzir as quantidades de fósforo e potássio e melhorar a eficiência desses nutrientes.

“No primeiro ano de soja após o consórcio milho com braquiária, aplico zero de potássio. E temos reduzido o uso de fósforo no plantio da soja, aplicando 250kg/ha de supersimples. Os níveis de fertilidade estão se mantendo. As próprias braquiárias têm capacidade de solubilizar algum fósforo da argila do solo. Hoje, só precisamos manter essa fertilidade, calculando a necessidade de nutriente pela extração pelas plantas”, comenta Manjabosco, lembrando que no período de construção da fertilidade do solo na fazenda as aplicações do adubo fosfatado eram de 400 kg/ha.

Além da intensificação dos fatores de produção (terra, insumos e mão de obra) e de melhorar as qualidades químicas, físicas e biológicas do solo, o sistema Boi Safrinha na Fazenda Triunfo contribui para reduzir a incidência de plantas daninhas e controlar algumas doenças das culturas e de solo. “Tínhamos problemas com o Pratylenchus sp. (“nematóide oportunista”) e hoje não vemos mais manchas de nematoides. São inúmeros ganhos, como a atividade biológica que o sistema traz para nossa lavoura”, aponta o produtor.

Novas experiências

Com o sucesso da adoção do sistema, Manjabosco passou a fazer novas experiências. Na safra 2017/18, além de manter os consórcios de capins com o milho, a fazenda passou a trabalhar com a sobressemeadura de Panicum maximum cultivar Mombaça em soja – nas duas últimas safras, foram 3 mil ha, cerca de 30% da área plantada com a leguminosa na fazenda. Em 2020, foram colocados animais sobre a pastagem formada antes de seguirem para os pastos de braquiárias dos consórcios com o milho.

“O Mombaça produz muita massa e o excesso de palhada dificulta o plantio (da safra seguinte). O desempenho dos animais foi muito bom, com maior ganho de peso que na braquiária”, conta o produtor, que cogita repetir a experiência em 2021 se a chuva for suficiente para favorecer o crescimento do capim.

Ainda neste ano, buscando aumentar a taxa de prenhez do rebanho, Manjabosco pretende introduzir novilhas no sistema Boi safrinha para serem entouradas aos 14 meses. “É uma experiência, quero ver se ganho um ano (no ciclo pecuário)”, diz.

Inovação com agregação de valor

A avaliação dos impactos (redução de custos, sustentabilidade, agregação de valor, incremento de produtividade e inclusão produtiva) do Boi safrinha para o Balanço Social da Embrapa tem sido realizada e atualizada anualmente desde o ano-safra 2015/2016. Na edição de 2020, foi uma das 152 tecnologias cujos impactos econômicos, sociais, ambientais e institucionais foram analisados no Balanço Social da Embrapa.

A metodologia da avaliação é baseada em números do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) de comercialização de sementes de espécies forrageiras usadas para sistemas especializados de ILP (pastejo de inverno no Cerrado em sucessão à cultura anual principal de grãos) e com grande volume de venda de sementes – B. ruziziensisB. brizantha cultivar Marandu e B. brizantha cultivar Piatã. Também são consideradas informações de representantes dos filiados à Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto), instituição parceira da Embrapa que reúne empresas de diferentes estados e responsáveis por cerca de 60% do mercado de sementes de forrageiras do País. Dos 34 filiados, 32 participaram por meio de entrevistas estruturadas.

As informações da Unipasto parametrizam um modelo matemático que considera os montantes de sementes vendidas e de sementes de salvamento (produzidas legalmente nas propriedades), além de uma estimativa da Unipasto sobre a quantidade de sementes comercializadas ilegalmente (sementes piratas), considerando apenas a região do Cerrado. A estimativa dos índices zootécnicos do componente pecuário é baseada em entrevistas estruturadas com consultores atuantes na região do Cerrado e publicações em eventos técnicos. A agregação de valor foi calculada pela diferença do ganho de peso vivo antes e depois da adoção tecnológica.

Em quatro anos de avaliação, a área estimada com o Boi safrinha no Cerrado passou de 973 mil ha em 2015/16 para 1,5 milhões de ha em 2016/17; 2,3 milhões em 2017/18 e 3 milhões de ha em 2019/20. O pesquisador Paulo Fernandes e o analista Tito Sousa, responsáveis pela avaliação de impactos da tecnologia, ressaltam que a área ocupada com a tecnologia não está sobreposta às áreas tradicionais de pecuária brasileira.

“Estamos ocupando uma área que não era ocupada. O Boi safrinha entra no pousio da agricultura, sendo contabilizado na área agrícola, não na de pecuária”, explica. “Isso constitui uma inovação, com uma agregação de valor que não existia antes e que foi gerada pelo senso de oportunidade do produtor, pelo cenário de inovação da ILP e por cultivares de soja com ciclo precoce”, completa Sousa.

A avaliação de impactos utiliza os conceitos macroeconômicos Taxa Interna de Retorno (TIR**), Relação Benefício/Custo (B/C***) e Valor Presente Líquido (VPL****) e considera o investimento da Embrapa no desenvolvimento tecnológico do Boi safrinha entre 2009 e 2015 e a adoção a partir de 2016 com ampliação da área ocupada pelo sistema especializado de ILP no Cerrado. A análise econômico-financeira mostrou Índice B/C da tecnologia de 534,82, TIR de 150,37% e VPL de R$ 850.860,62, que a uma taxa de juros de 6% por cada real investido na pesquisa, retorna R$ 534,82 para a sociedade.

Ao comentar os valores gerados pela tecnologia no ano-safra 2019/20, Fernandes lembra que 2020 foi um ano atípico na agropecuária brasileira. “Mesmo tendo ocorrido a melhor safra de grãos da história em decorrência das condições climáticas favoráveis e do aumento da produtividade, os preços dos produtos foram muito elevados. A pandemia da Covid-19 alterou a rotina do País e influenciou o mercado agropecuário”, analisa, acrescentando que mudanças cambiais e o aumento das exportações elevaram o valor dos grãos e da carne nos mercados interno e externo. “Só não houve mais Boi safrinha no ano passado porque não havia mais boi no mercado. Quem tinha, vendeu”, completa.

Análise de impacto segura e de baixo custo

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus provocou uma mudança na forma de levantamento de dados de campo usados para as estimativas de adoção e os indicadores sociais e ambientais contemplados no método para avaliar os impactos da tecnologia. Em lugar dos contatos presenciais feitos a cada dois anos, Fernandes e Sousa realizaram as entrevistas de modo remoto, utilizando telefone, WhatsApp e ferramentas web.

“Montamos um esquema de perguntas bem prático para os entrevistados. É um grupo de alto nível”, diz Sousa. “Já fazíamos entrevistas à distância, então não foi uma novidade. De um ano para o outro, nossos números são muito coerentes”, completa Fernandes.

Além de garantir o distanciamento social, o levantamento remoto dos dados representou uma economia de R$ 95 mil, considerando o valor semanal de R$ 3 mil por empregado com deslocamentos, diárias, combustível e hospedagens, somado ao custo de mão de obra de um pesquisador e um analista. O custo com a obtenção de dados de forma remota foi praticamente zero, já que boa parte das entrevistas foi realizada via WhatsApp e plataformas web, não havendo a cobrança de tarifas adicionais para chamadas de longa distância.

Dados sobre o Boi safrinha

– O Cerrado brasileiro tem 22,1 milhões de ha com culturas anuais e, nessas áreas, o Boi safrinha ocupou 3 milhões de ha em sistemas especializados de ILP no ano-safra 2019/2020.

– A elevação dos preços dos produtos proporcionou grande aumento na receita bruta e na margem bruta, que alcançaram, respectivamente, R$ 12,3 bilhões e R$ 2,99 bilhões

– O efeito poupa-terra no Boi safrinha foi de 9,4 milhões de ha de pastagens perenes desocupadas no Cerrado e pelo pastejo evitado decorrente da antecipação da idade de abate dos animais.

– A relação benefício/custo mostra que cada real investido em pesquisa pela Embrapa com o Boi safrinha retorna R$ 534,82 para a sociedade.

Ano-safra 2019/2020:

  • Efeito poupa-terra: 9,4 milhões de ha
  • Área ocupada: 3.025.031 ha
  • Rentabilidade no período: 31,7 %/ha
  • Rentabilidade mensal: 9,7 %/ha
  • Receita bruta: R$ 12,3 bilhões
  • Margem bruta: R$ 2,99 bilhões

    Ano-safra 2018/2019:

  • Efeito poupa-terra foi de 7,1 milhões de ha
  • Área ocupada: 2.303.263 ha
  • Rentabilidade no período: 18,8 %/ha
  • Rentabilidade mensal: 5,7 %/ha
  • Receita bruta: R$ 6,2 bilhões
  • Margem bruta: R$ 1 bilhão

*O SPD é constituído pelo não revolvimento do solo, em sua cobertura permanente e na rotação de culturas, com supressão das etapas de preparo convencional de aração e gradagem do solo são suprimidas.

**A TIR é uma taxa de desconto hipotética que, quando aplicada a um fluxo de caixa, faz com que os valores das despesas, trazidos ao valor presente, seja igual aos valores dos retornos dos investimentos, também trazidos ao valor presente.

***Indicador que relaciona os benefícios de um projeto ou proposta e o seus custos, sendo ambos expressos em termos monetários e em valores presentes.

****O VPL determina o valor presente de pagamentos futuros descontados a uma taxa de juros apropriada, menos o custo do investimento inicial.

Fonte: Embrapa Cerrados
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Primeiro lote de inscrições ao 14º SBSS encerra quarta-feira

Evento será híbrido no período de 16 a 18 de agosto, com realização presencial em Chapecó (SC). Paralelamente, ocorrerá a 13ª Brasil Sul Pig Fair virtual.

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Presidente do Nucleovet, Lucas Piroca: "Estamos preparando um ambiente que possibilita interação, com perguntas aos palestrantes e aproveitamento máximo das palestras" - Foto: UQ Eventos

A comercialização do primeiro lote dos ingressos para o 14º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS) encerra nesta quarta-feira (6). Os valores são diferenciados nesta primeira etapa e, para o segundo e terceiro lotes, serão reajustados. O evento é promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet) e ocorrerá nos dias 16, 17 e 18 de agosto próximo, no Parque de Exposições Tancredo Neves, em Chapecó (SC). Paralelamente acontecerá a 13ª Brasil Sul Pig Fair. Os eventos terão transmissão on-line ao vivo.

O investimento para o primeiro lote é de R$ 440 para o evento presencial e R$ 400 para o virtual para profissionais, R$ 330 (presencial) e R$ 300 (virtual) para estudantes. A partir de quinta-feira (07) inicia a venda do segundo lote com reajuste no valor das inscrições. Até o dia 10 de agosto os valores serão de R$ 530 (presencial) e R$ 440 (virtual) para profissionais e R$ 400 (presencial) e R$ 340 (virtual) para estudantes. Após essa data e durante o evento o investimento será de R$ 600 (presencial) e R$ 500 (virtual) para profissionais e R$ 460 (presencial) e R$ 400 (virtual) para estudantes.

Na compra de pacotes a partir de dez inscrições serão concedidos códigos-convites. Nessa modalidade há possibilidade de parcelamento em até três vezes. O acesso para a 13ª Brasil Sul Pig Fair é gratuito, tanto presencial quanto virtual, assim como para o pré-evento. As inscrições podem ser feitas no site www.nucleovet.com.br.

A programação científica do 14º SBSS contará com cinco painéis que debaterão gestão de pessoas, sanidade, biosseguridade, gestão da informação, nutrição e reprodução. As palestras iniciarão na terça-feira (16), às 13h45, e a palestra de abertura ocorrerá no mesmo dia, às 18h30. Na quarta-feira (17), as palestras iniciam às 8h e encerram no fim da tarde, seguidas de happy hour. Na quinta-feira (18), a programação será das 08 às 12 horas.

Reconhecido como um dos principais fóruns de discussão do setor na América Latina, o SBSS terá difusão de conhecimento, interação presencial e virtual, debates atuais e importantes para a suinocultura. O presidente do Nucleovet, Lucas Piroca, realça que o SBSS é um evento de natureza científica, com grande capacidade para indicar tendências e atualizar os profissionais envolvidos na cadeia da suinocultura com temas relevantes do setor. “Estamos preparando um ambiente que possibilita interação, com perguntas aos palestrantes e aproveitamento máximo das palestras, tanto para o evento presencial quanto para quem acompanhar virtualmente”, comenta.

PIG FAIR

A 13ª Brasil Sul Pig Fair reunirá empresas de tecnologia, sanidade, nutrição, genética, aditivos, equipamentos para suinocultura, entre outros. A feira consistirá em um espaço presencial e virtual onde as empresas geradoras de tecnologias apresentarão suas novidades e seus produtos, permitirão a construção de networking e o aprimoramento técnico dos congressistas.

Quem faz acontecer

O 14º SBSS tem apoio da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina (CRMV/SC), da Embrapa Suínos e Aves, da Prefeitura de Chapecó e da Sociedade Catarinense de Medicina Veterinária (Somevesc).

Fonte: Assessoria
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Colunistas Artigo

Variação no valor dos alimentos na mesa da população mundial

O mundo globalizado e os acontecimentos desses últimos dois anos estão causando efeitos em todos os setores.

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Arquivo/OP Rural

Sem dúvida, o atual momento do cenário global é crítico. O mundo globalizado e os acontecimentos desses últimos dois anos estão causando efeitos em todos os setores. A mundialização do espaço geográfico por meio da interligação econômica, política, social e cultural tem afetado principalmente os países emergentes, mas começa a ter reflexos nos países do G7 – Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido  (os mais ricos e influentes do mundo).

No agronegócio,  a guerra da Rússia e Ucrânia está castigando um sistema alimentar global já enfraquecido pela pandemia da covid-19, pelas mudanças climáticas e por um choque energético.  As exportações ucranianas de grãos e oleaginosas praticamente pararam e as da Rússia estão ameaçadas. Juntos, os dois países fornecem cerca de 14% das calorias, por meio do trigo, comercializadas pela humanidade.

Os preços do trigo, 53% mais elevados desde o início do ano, saltaram mais 6% em meados de maio deste ano, após a Índia afirmar que suspenderia suas exportações em razão de uma onda de calor alarmante. Além disso, temos os efeitos da cadeia logística, onde portos, containers, combustível e tempo de entrega tem mudado seus parâmetros e elevado os custos da cadeia produtiva.

O resultado disso são os preços dos produtos alimentícios nos supermercados. Mas, o problema não para por aí. O custo de produção para a próxima safra está alto, bem como os preços de combustíveis em geral e dos fertilizantes, juntos elevam os custos da mesa da população mundial. A Rússia e a Bielorrússia são responsáveis por uma grande parcela das exportações de fertilizantes ou matérias primas como adubos e suprimentos agrícolas, o que tem afetado bastante os preços para o agricultor.

Todo esse aumento do custo é repassado para o consumidor final. Assim, por parte do produtor, muita atenção na compra de insumos, uma vez que dólar e petróleo têm variado consideravelmente, e afetam em muito o custo de produção. Quanto à população, resta fazer muita pesquisa antes da compra, pois os preços dos alimentos devem variar bastante no comércio.

Como nação, o Brasil tem um papel fundamental nesse cenário global que se apresenta, uma vez que o mundo deve ganhar, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais dois bilhões de pessoas até 2050. Hoje as lavouras cultivadas por brasileiros alimentam quase um bilhão de pessoas no mundo.

Se chegarmos a esse patamar global em termos de população, o agronegócio brasileiro vai precisar dobrar de tamanho em menos de 30 anos, elevando sua produção para abastecer os lares de dois bilhões de pessoas. É uma grande oportunidade. Será necessário muita gestão, tecnologia, sustentabilidade  e inovação.

Fonte: Por Jorge Fernando Dietrich, coordenador nacional do Master em Gestão e Marketing do Agronegócio da ESPM
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Notícias ZARC

Zoneamento Agrícola da soja safra 2022/2023 é publicado

Semeaduras da soja em épocas inadequadas podem afetar o porte, o ciclo e o rendimento das plantas e aumentar as perdas na colheita.

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Foto: Arquivo/OP Rural

A Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), publicou nesta terça-feira (05), no Diário Oficial da União, as portarias números 247 a 265 que estabelecem o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a cultura da soja.

O objetivo é reduzir os riscos relacionados a problemas climáticos e também o risco fitossanitário causado pela ferrugem asiática da soja. Os elementos climáticos que mais influenciam na produção da soja são a precipitação pluvial, temperatura do ar e fotoperíodo.

A época de semeadura é um dos fatores que mais influenciam o rendimento da cultura da soja, ou seja, é ela quem determina a exposição da cultura à variação dos fatores climáticos limitantes. Assim, semeaduras em épocas inadequadas podem afetar o porte, o ciclo e o rendimento das plantas e aumentar as perdas na colheita.

Visando a prevenção e controle da ferrugem asiática, devem ser observadas as determinações relativas ao vazio sanitário e ao calendário de plantio, definidos pela Secretaria de Defesa Agropecuária, do Mapa. O estudo de Zarc levou em consideração, para indicação das janelas de semeadura, a Portaria SDA Nº 607 de 21 de junho de 2022, que estabelece os calendários de semeadura da soja referente à safra 2022/2023.

Com a publicação do Zarc da soja, a SPA/Mapa finaliza o cronograma de publicações de portarias das culturas de verão safra 2022/2023. Dessa forma, os produtores rurais e agentes financeiros têm uma segurança maior para o fechamento de contratos de seguro e crédito rural para a safra.

Para que serve o Zarc?

O zoneamento tem o objetivo de reduzir os riscos relacionados aos problemas climáticos e permite ao produtor identificar a melhor época para plantar, levando em conta a região do país, a cultura e os diferentes tipos de solos.

O modelo agrometeorológico considera elementos que influenciam diretamente no desenvolvimento da produção agrícola como temperatura, chuvas, umidade relativa do ar, ocorrência de geadas, água disponível nos solos, demanda hídrica das culturas e elementos geográficos (altitude, latitude e longitude).

Os agricultores que seguem as recomendações do Zarc estão menos sujeitos aos riscos climáticos e ainda poderão ser beneficiados pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) e pelo Programa de Subvenção ao prêmio do Seguro Rural (PSR). Muitos agentes financeiros só liberam o crédito rural para cultivos em áreas zoneadas e para o plantio de cultivares indicadas nas portarias de zoneamento.

O Zarc foi publicado pela primeira vez na safra de 1996. Hoje, contempla os 26 Estados e o Distrito Federal, incluindo mais de 60 sistemas produtivos de cultivos agrícolas permanentes e anuais. Os estudos técnico-científicos são realizados por uma rede de pesquisa da Embrapa que conta com a participação de mais de 150 especialistas, em 32 centros de pesquisa da Embrapa e parceiros.

Período de emergência para culturas anuais no Zarc

As portarias de zoneamento para culturas anuais trazem, no item 5, a relação dos municípios aptos ao cultivo e períodos indicados para semeadura, uma nota informando que “o Zarc faz avaliações de risco para períodos decendiais (10 dias) de semeadura e assume que a emergência ocorra, majoritariamente, em até 10 dias após a semeadura. Para os casos excepcionais em que a emergência ocorrer com 11 ou mais dias de atraso em relação a semeadura, deve-se considerar como referência o risco do decêndio em que ocorreu a emergência.”

Assim, o estudo considera um limite em dias para o intervalo da semeadura até a emergência, períodos superiores ao descrito interferem na exposição de risco da cultura, portanto, para os casos excepcionais, deve-se considerar o risco indicado no decêndio que ocorreu a emergência, mesmo que a semeadura tenha ocorrido em outro decêndio.  

Nova classificação dos solos no Zarc será implementada na safra 2023/2024

No decorrer do primeiro semestre de 2022, a Embrapa elaborou um novo estudo de Zoneamento para cultura da soja, baseado na Instrução Normativa SPA/MAPA nº 1, de 21 de junho de 2022, que estabelece o método para classificação do solo em função da sua Água Disponível (AD), os estudos foram validados em reuniões virtuais e contou com a participação de especialistas representantes de diversas entidades do setor agropecuário.

O novo conceito de classificação dos solos no Zarc altera a indicação de 3 classes de solos, método adotado até então inclusive para o estudo da soja recém publicado para safra 2022/2023, para 6 classes de armazenamento hídrico. A primeira cultura que terá o Zarc divulgado no novo formato de solos será a soja para safra 2023/2024.

Os estudos da soja com 6 classes de armazenamento hídrico de solos serão divulgados até dezembro de 2022 no “Painel de Indicação de Riscos”. A divulgação antecipada dos resultados da soja para safra 2023/2024 tem como objetivo permitir as adaptações necessárias, já que o novo formato altera a quantidade de informações de riscos.

A medida em que os estudos de Zarc são atualizados a nova metodologia de classificação dos solos é aplicada, dessa forma, portarias de Zarc publicadas no formato antigo continuam válidas até que a atualização ocorra e seja publicada uma nova portaria.

Aplicativo Plantio Certo

Produtores rurais e outros agentes do agronegócio podem acessar por meio de tablets e smartphones, de forma mais prática, as informações oficiais do Zarc. O aplicativo móvel Zarc Plantio Certo, desenvolvido pela Embrapa Agricultura Digital (Campinas/SP), está disponível nas lojas de aplicativos:  iOS e Android.

Os resultados também podem ser consultados e baixados por meio da plataforma “Painel de Indicação de Riscos”.

Fonte: Mapa
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