Avicultura
Biosseguridade como ferramenta no controle das infecções por Campylobacter
Consumo de carne de frango é apontado como uma das principais fontes de contaminação por Campylobacter spp. em humanos, assim sendo, o controle deste patógeno deve estar entre as principais preocupações dos que constituem a cadeia produtiva desta proteína.

Por Gustavo Camacho Paschoalin, zootecnista da Msc. Produção Animal Sustentável e assistente técnico em Desinfecção da Lanxess
A campilobacteriose é a principal causa de gastroenterites de origem alimentar

Gustavo Camacho Paschoalin, zootecnista da Msc. Produção Animal Sustentável e assistente técnico em Desinfecção da Lanxess.
em humanos, causando quadros de enterites agudas e, em casos mais severos, resultando em sequelas graves como Síndrome de Guillain-Barré, artrite reativa, Síndrome de Miller-Fisher e morte. Estima-se que anualmente 37.600 mortes são causadas mundialmente por infecções por Campylobacter spp. Estudos apontaram que na Europa os custos anuais relacionados ao tratamento da campilobacteriose e das sequelas por ela gerada estão estimados em 2,4 bilhões de Euros, ao passo que nos Estados Unidos, este custo é estimado em 2,9 bilhões de Dólares.
O consumo de carne de frango é apontado como uma das principais fontes de contaminação por Campylobacter spp. em humanos, assim sendo, o controle deste patógeno deve estar entre as principais preocupações dos que constituem a cadeia produtiva desta proteína.
Sabe-se que existe uma correlação entre a contaminação das aves durante o período produtivo e das carcaças após o processamento, no entanto, é fundamental entendermos o fato de que nenhuma planta de processamento
pode evitar a contaminação quando lhe são entregues aves contaminadas, dessa forma, as ações de prevenção de contaminação dos lotes dentro da granja são fundamentais no controle das infecções por Campylobacter spp. e, conforme demonstrado em vários estudos, práticas de biosseguridade estão entre as mais efetivas ferramentas de controle, principalmente devido ao fato de que a principal forma de propagação é a contaminação horizontal.
Oportunidades de controle de contaminação por Campylobacter spp.
A limpeza e desinfecção exerce importante papel no controle de Campylobacter spp.. Sempre que possível deve-se contemplar o processo completo de limpeza e desinfecção do aviário incluindo a limpeza seca, limpeza úmida com a utilização de detergente apropriado, visando maior remoção de matéria orgânica e desinfecção do ambiente e dos equipamentos.
Nessa questão, a escolha do desinfetante é fundamental para o êxito no processo. Deve-se optar por desinfetantes com formulação estável, principalmente frente a desafios de campo como água dura e presença de matéria orgânica, que sejam seguros aos aplicadores, biodegradáveis e que apresentem eficácia não somente contra o patógeno em questão, mas também contra os principais patógenos que acometem as aves, já que o estado imune destes animais tem papel fundamental na propagação de Campylobacter spp.
A higiene dos trabalhadores é apontada como uma das principais ferramentas no controle da propagação de Campylobacter spp. Granjeiros e outros funcionários adentram os aviários cerca de 150 vezes durante o período produtivo do lote, assim sendo, constituem um risco significante de introdução e propagação da Campylobacter spp. Estudos indicam que práticas como banho, lavagem das mãos, troca de calçados e utilização de pedilúvios resultaram em redução significativa (>50%) nas contaminações por Campylobacter. Pesquisas indicaram que uma das principais formas de introdução do patógeno nos aviários são as botas dos trabalhadores, assim sendo a utilização de pedilúvios é fundamental. Deve-se atentar à remoção da matéria orgânica das botas com a utilização de escovas ou lava-botas antes de mergulhá-las nos pedilúvios e a solução desinfetante deve ser trocada diariamente ou sempre que houver acúmulo de matéria orgânica. O desinfetante utilizado deve possuir indicação para este tipo de utilização e ser estável mesmo na presença de matéria orgânica. É importante que o descarte proveniente da troca das soluções seja realizado de forma responsável.
O controle de pragas também é essencial nas estratégias de controle de Campylobacter spp. Várias pesquisas apontam que moscas, principalmente a Musca domestica e cascudinhos (Alphitobus diaperinus) podem atuar como reservatórios e vetores de Campylobacter. Assim sendo, estratégias de controle integrado como tratamento adequado de cama, uso de telas e utilização de inseticidas eficazes, seguros e devidamente registrados no Mapa são indispensáveis. Roedores também podem carrear Campylobacter em seu trato intestinal e excretá-lo pelas fezes, aumentando o risco de introdução do patógeno, assim sendo, como demonstram alguns estudos, um controle efetivo de roedores pode reduzir significativamente os índices de contaminação.
Veículos de transporte de ração e de aves também podem introduzir ou propagar o patógeno, dessa forma, é essencial que sejam adotadas práticas de higienização e desinfecção efetivas, atentando à pneus, para-lamas e partes inferiores do veículo. As gaiolas de transporte também devem ser devidamente higienizadas e desinfetadas, já que a Campylobacter pode sobreviver por longos períodos nas fezes secas, gerando risco de as aves serem contaminadas durante o transporte para o abatedouro.
O tratamento de água também é crucial na prevenção da introdução e propagação de Campylobacter spp. Estudos indicam que a utilização de ácidos
orgânicos via água de bebida pode ser uma medida estratégica para reduzir a contaminação horizontal entre as aves. Seu uso no pré-abate também pode reduzir a contaminação das carcaças no frigorífico. A limpeza e desinfecção das linhas de água também é essencial para garantir a qualidade e a higiene da água fornecida às aves, evitando a propagação do patógeno. Em estudo desenvolvido na Noruega a utilização de desinfetantes via água de bebida se mostrou como a medida preventiva que mais impactou na prevalência de
Campylobacter nos lotes estudados. Porém, é importante ter em mente que para que se faça este tipo de utilização, o desinfetante tenha indicação de rótulo específica para este tipo de uso.
Conforme exposto, as medidas de biosseguridade exercem significativa influência no controle de O consumo de carne de frango é apontado como uma das principais fontes de contaminação por Campylobacter spp. em humanos, assim sendo, o controle deste patógeno deve estar entre as principais preocupações dos que constituem a cadeia produtiva desta proteína e, associadas a outras estratégias de controle integrado, podem garantir máxima segurança alimentar aos mercados consumidores.
As referências bibliográficas estão com o autor. Contato via: giovanna.souza@lanxess.com.

Avicultura
Queda no preço dos ovos reduz poder de compra de avicultores em abril
Mesmo com insumos mais baratos, recuo mais intenso nas cotações dos ovos pressionou a relação de troca, segundo o Cepea.

O poder de compra dos avicultores paulistas frente aos principais insumos da atividade, milho e farelo de soja, recuou na parcial de abril (até o dia 22), após registrar avanço por dois meses consecutivos.
Segundo pesquisadores do Cepea, embora os preços dos insumos também tenham diminuído entre março e a parcial deste mês, a queda mais intensa dos ovos pressionou a relação de troca frente ao cereal e ao derivado da oleaginosa.
De acordo com o Centro de Pesquisas, a combinação de oferta mais elevada e demanda retraída tem pressionado as cotações dos ovos nesta parcial de abril.
Neste contexto, consumidores seguem atentos ao avanço da colheita da safra verão, à melhora do clima para o desenvolvimento da segunda safra e à forte queda do dólar, negociando apenas de forma pontual, quando há necessidade de recomposição de estoques ou quando vendedores aceitam patamares menores.
Avicultura
Salmonella expõe limites de coordenação da cadeia avícola
Persistência da bactéria revela falhas de integração entre áreas e reacende debate sobre gestão centralizada do problema dentro das agroindústrias.

A avicultura brasileira construiu, ao longo das últimas décadas, um dos sistemas sanitários mais organizados entre os grandes produtores globais. Protocolos, monitoramentos e rotinas estão bem estabelecidos em praticamente todas as etapas. Ainda assim, um dado insiste em permanecer: a Salmonella segue presente. Não por ausência de controle, mas, cada vez mais, por limites na forma como esse controle se articula ao longo da cadeia.
Foi nesse ponto que o médico-veterinário Marcos Dai Pra concentrou sua análise durante o Seminário Facta sobre Salmonelas, realizado em 19 de março, em Toledo (PR). Ao reunir dados de campo acumulados ao longo de anos dentro da agroindústria, ele trouxe uma leitura direta: o problema não está concentrado em um elo específico, mas está distribuído.

Médico-veterinário Marcos Dai Pra durante o Seminário Facta sobre Salmonelas – Foto: Giuliano De Luca/OP Rural
“Qual é a origem da Salmonella que aparece no frango de corte? A gente tem transmissão vertical, transmissão horizontal, mas a grande dificuldade está justamente em entender essa relação”, afirmou. Embora a transmissão vertical ainda exista, Dai Pra destacou que a maior pressão sanitária hoje vem da transmissão horizontal, que ocorre dentro da própria granja e no ambiente ao redor. “É contaminação lá na granja, que é o grande problema”, disse.
Segundo ele, o desafio não está apenas dentro dos galpões. Tudo o que circunda a produção interfere diretamente nos índices sanitários. “Tudo que está no entorno da granja acaba influenciando nos índices de Salmonella”, pontuou, citando presença de outros animais, lavouras e estruturas próximas como fatores de risco. De acordo com o palestrante, essa característica difusa da contaminação dificulta a rastreabilidade precisa das origens e reforça a necessidade de abordagem sistêmica.
Controle existe, mas dados ainda são fragmentados
Um dos pontos mais críticos levantados na palestra foi a fragmentação das informações ao longo da cadeia produtiva. Cada área, como fábrica de ração, granja, transporte e abatedouro, realiza seus próprios monitoramentos. No entanto, essas informações nem sempre convergem de forma estruturada. “Com esse conjunto de informação, a gente consegue trabalhar muito bem o programa de controle”, afirmou, ao apresentar resultados internos. Ainda assim, a fala revela um ponto implícito: os dados existem, mas nem sempre estão conectados.
Para ele, essa desconexão limita a eficiência das ações e ajuda a explicar por que a Salmonella persiste mesmo em sistemas altamente tecnificados.
Biosseguridade vai além do galpão
Dai Pra detalhou a estrutura operacional das granjas em três níveis: interior do aviário, zona de segurança (dentro do cercado) e área externa. Todos, sem exceção, influenciam os resultados sanitários. “Tudo isso tem uma grande interferência”, ressaltou.
Ele reforçou que medidas básicas continuam sendo decisivas: controle de acesso, troca de calçados, barreiras sanitárias e manutenção de áreas limpas, sem abrigo para pragas. “Tem que ter uma barreira sanitária, tem que ter uma cerca, não pode passar nada direto de fora para dentro”, destacou.
Intervalo sanitário curto aumenta risco
Entre os pontos mais sensíveis da palestra está o intervalo sanitário — período entre a saída de um lote e a entrada do próximo. “Na minha opinião, o desejável seria 18 dias”, afirmou. Na prática, no entanto, esse tempo raramente é alcançado. O próprio palestrante reconheceu a limitação estrutural do setor. “Nas condições de hoje é praticamente impossível conseguir 18 dias.”
Ele alertou que trabalhar com menos de 12 dias já compromete o controle adequado e que ciclos ainda mais curtos elevam significativamente o risco sanitário. “Com oito dias é crítico. Não tem como fazer um controle adequado.”
Cama, ambiência e manejo
Outro eixo importante da apresentação foi o papel da cama e da ambiência dentro do aviário. O frango passa praticamente toda sua vida em contato direto com esse ambiente, o que transforma a qualidade da cama em um fator central. “Se a cama tem boa qualidade, o frango vai ter boa qualidade. E o contrário também é verdadeiro”, explicou. Ventilação, umidade e execução dos procedimentos completam esse conjunto de fatores que impactam diretamente o status sanitário.
Cascudinho e roedores
Entre os vetores, o cascudinho aparece como um dos principais desafios. Dados apresentados por Dai Pra indicam alta taxa de positividade para Salmonella nesse inseto. “O cascudinho, disparadamente, é o elemento que tem mais problema”, afirmou.
O controle de pragas, segundo ele, precisa seguir etapas bem definidas – da inspeção à avaliação – e não pode ser tratado como ação isolada.
Mudança de prática reduziu índices
Um dos pontos mais relevantes da palestra foi a revisão de um procedimento tradicional: o uso de água no intervalo sanitário. “A gente só conseguiu reduzir os índices de Salmonella quando abandonou o uso de água no intervalo sanitário”, afirmou. A mudança, segundo ele, não foi simples dentro da agroindústria, mas trouxe resultados consistentes.
Dia zero
Dai Pra também apresentou o conceito de “dia zero” – etapa inicial do processo, quando o aviário é fechado, baseada em diagnóstico, definição de ações e avaliação de resultados. “É diagnóstico, ação e resultado”, resumiu. O uso de mapeamentos epidemiológicos permite identificar pontos críticos dentro da granja e direcionar intervenções com maior precisão.
Problema exige coordenação
Ao longo da palestra, ficou evidente que o controle da Salmonella já é tecnicamente conhecido. O que está em jogo agora é a capacidade de coordenar essas ações dentro de um sistema complexo. A dispersão do problema entre ambiente, manejo, nutrição, pragas e logística indica que soluções isoladas tendem a perder eficiência.
Por isso, ganha força dentro do setor a discussão sobre a necessidade de uma gestão mais integrada, capaz de conectar dados e decisões ao longo de toda a cadeia produtiva. Mais do que novos protocolos, na opinião de Dai Pra, o desafio passa a ser articulação.
Avicultura
Vigilância e biosseguridade definem a linha de defesa contra a Influenza aviária, aponta FAO
Documento técnico detalha como monitoramento contínuo, resposta rápida e integração entre saúde animal e humana reduzem o risco de disseminação do vírus nas granjas.

A Influenza aviária segue como uma das principais ameaças sanitárias à avicultura mundial, com potencial de provocar mortalidade elevada nos plantéis, embargos comerciais e impactos diretos na renda dos produtores. Em documento técnico recente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura sistematiza recomendações práticas para vigilância, prevenção e controle da doença, com foco na detecção precoce e na contenção rápida de focos.

A base da estratégia, segundo a entidade, está na vigilância contínua. Isso inclui monitoramento ativo em granjas comerciais, criações de subsistência e mercados de aves vivas, além da observação de aves silvestres, especialmente migratórias, que podem atuar como reservatórios do vírus. A eficácia desse sistema depende de notificação imediata de sinais clínicos suspeitos e de capacidade laboratorial para diagnóstico rápido e confiável.
A biosseguridade aparece como o principal filtro para impedir a entrada do vírus nas propriedades. O controle rigoroso de acesso de pessoas, veículos e equipamentos, a separação física entre aves domésticas e silvestres, a desinfecção sistemática de instalações e o manejo correto de resíduos e carcaças são medidas consideradas críticas. A origem da água e da ração também é citada como ponto sensível.
Quando há suspeita ou confirmação da doença, a orientação é agir sem atraso: isolamento imediato da propriedade, abate sanitário das aves infectadas e expostas, desinfecção completa das instalações e restrição de movimentação na área afetada. A comunicação rápida entre produtores e autoridades sanitárias é tratada como componente operacional do controle.
A vacinação é descrita como ferramenta complementar, aplicável conforme o cenário epidemiológico local. A decisão de utilizá-la deve considerar a circulação do vírus, a capacidade de monitorar a eficácia da imunização e os possíveis efeitos sobre o comércio internacional.
O documento também reforça a dimensão transfronteiriça da Influenza aviária. O compartilhamento de dados epidemiológicos e laboratoriais entre países é apontado como condição para respostas regionais mais eficazes. Algumas cepas do vírus podem infectar humanos, o que exige integração entre saúde animal e saúde pública dentro do conceito de Uma Só Saúde.
Para a FAO, sistemas de vigilância bem estruturados, protocolos rígidos de biosseguridade e coordenação entre os diferentes níveis do serviço veterinário oficial são os elementos que determinam a capacidade de um país em reduzir riscos sanitários, econômicos e de saúde pública associados à Influenza aviária.



