Bovinos / Grãos / Máquinas
Bem-estar para vacas ou para o produtor de leite?
A ordenha robotizada revoluciona a pecuária leiteira ao unir bem-estar animal, qualidade de vida do produtor e maior eficiência na gestão das propriedades.

Artigo escrito por Sibeli Thais Hepp, médica-veterinária FMS – Farm Manegement Support LELY Center Milkvel
Muito se fala de conforto, bem-estar e aumento de produtividade das vacas de leite, porém, e o conforto, bem-estar e aumento de produtividade do produtor de leite? A implementação de tecnologias fez com que a atividade leiteira evoluísse a passos largos. De trabalhos braçais, como a ordenha manual, passamos a ordenha convencional até chegar nos sistemas de ordenha automatizado (AMS) ou sistema de ordenha voluntária (VMS).
Em uma breve linha do tempo, o primeiro robô de ordenha experimental foi desenvolvido na Alemanha em 1980. Já em meados de 1992, a Holanda foi pioneira na adoção comercial dos sistemas de ordenha robotizada. No Brasil, ela surgiu por volta de 2012, na cidade de Castro (PR).
O sistema de ordenha voluntária veio como uma inovação na pecuária leiteira. O objetivo é automatizar o processo de extração do leite da vaca por meio de robôs. Ou seja, o robô realiza a identificação do animal, limpeza dos tetos, colocação das teteiras, ordenha do leite, retirada das teteiras e aplicação do pós-dipping. Tudo de forma automática, tranquila e eficiente. O objetivo é que a vaca se sinta confortável durante o processo, para que depois de algumas horas tenha a confiança de retornar de forma voluntária, e ter uma nova ordenha.
Fatores que levam ao uso do AMS
O processo de decisão para a transição para esse tipo de ordenha demanda de muito planejamento, tanto financeiro, quanto estrutural, assim como também emocional das pessoas envolvidas na fazenda. Fatores como a falta ou os custos elevados de mão-de-obra, faz com que o produtor busque por soluções que otimizem a produção e o bem-estar dos animais, mas, sobretudo, melhoria da qualidade de vida e flexibilização da rotina de trabalho para ele e sua família são os principais fatos que motivam a implementação dos AMS nas propriedades.

Foto: Shutterstock
A preocupação com sucessão familiar da atividade é outra importante razão que leva os produtores a investirem na ordenha robotizada. Além da tecnologia e facilidade, as novas gerações estão em busca de soluções que tragam dados, os quais permitam decisões mais assertivas e gerenciamento mais eficiente.
A partir do momento em que o projeto do robô se torna uma realidade, uma série de mudanças e adaptações são necessárias para a continuidade do sucesso da atividade. A ordenha robotizada não irá corrigir problemas básicos da fazenda, como dietas de baixa qualidade ou programas sanitários e reprodutivos ineficientes. Porém a geração e interpretação de dados são ferramentas que podem apontar os gargalos e os pontos de melhoria.
Melhoria do bem-estar: dos animais e do produtor
A melhoria do bem-estar das vacas fica evidente quando observamos o seu comportamento nos sistemas de ordenha robotizado de fluxo livre. Esse sistema permite que a vaca decida quando ir ao robô de ordenha, comer, deitar-se, ruminar ou beber água, proporcionando autonomia, liberdade e total expressão das suas necessidades. O que não significa que o animal não precise de monitoramento por parte do produtor.
Não são só as vacas que têm essa flexibilidade de escolha. Serviços de limpeza, trato, possíveis tratamentos e a observação dos animais continuam fazendo parte das tarefas diárias. Contudo, a rotina do produtor também se torna mais maleável, pois não se tem mais a obrigação de horários fixos de ordenha, possibilitando uma customização e autonomia para gerenciar seu tempo e tarefas. De acordo com os produtores, o trabalho se torna mais leve e eficiente.
O sucesso da atividade e do sistema de ordenha robotizado na propriedade está intimamente ligado a medidas de bem-estar e manejo das vacas, mas principalmente se o produtor tem a sua melhoria de bem-estar, saúde e qualidade de vida garantidos.
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Proposta de redução da jornada preocupa cadeia do leite no Brasil
Setor alerta para aumento de custos, risco de desabastecimento e impacto direto na produção, que exige atividade contínua.

As propostas para uma nova legislação envolvendo a redução da jornada de trabalho continuam preocupando os setores produtivos da agropecuária no Brasil. Neste mês de março, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados (CSLEI) encaminhou documento ao ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, manifestando apreensão em relação a alteração da escala 6×1. A CSLEI está vinculada ao Conselho Nacional de Política Agrícola (CNPA) do próprio Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
De acordo com o documento formulado pela CSLEI, a redução de 44 horas para 36 horas semanais vai gerar perda de 658 milhões de horas por mês no Brasil. Diante deste quadro será necessário a contratação adicional de 3,65 milhões de trabalhadores, com custo adicional de R$ 228 bilhões/ano em salários e encargos.

Foto: Juliana Sussai
No setor da pecuária de leite, os desdobramentos da mudança seriam graves. A atividade é praticada em mais de 1 milhão de propriedades rurais no país, que exigem ordenha diária das vacas, em até três turnos, durante os 365 dias do ano, de forma ininterruptamente. No Paraná, a pecuária de leite está presente nos 399 municípios.
“A situação vai ficar bastante complicada no setor de lácteos, pois a matéria-prima, o leite, é perecível. Ou seja, exige trabalho contínuo, sem possibilidade de interrupção para evitar perdas e, consequentemente, prejuízo ao produtor”, destaca Ronei Volpi, presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados. “O setor já convive com escassez de mão de obra qualificada, alta carga tributária e crise por conta dos produtos provenientes da Argentina e Uruguai. Mais um golpe coloca em risco a atividade pelo país, podendo gerar desabastecimento, inflação e êxodo rural”, complementa.
O documento da CSLEI também aponta a necessidade de estudos em relação ao impacto da mudança, para uma discussão técnica. “O debate relativo a esse tema deve ocorrer em 2027, para evitar interferências político-eleitorais”, ressalta Volpi.

Foto: Isabele Kleim
Esse é o mesmo posicionamento adotado pelo Sistema Faep. A entidade defende a discussão equilibrada, sem viés ideológico e/ou político. Para isso, o setor produtivo, tanto as entidades representativas quanto os próprios empresários, precisa participar do debate, para evitar prejuízos para o país, como aumento dos preços de produtos e serviços, pressão inflacionária, crescimento da informalidade, precarização das relações de trabalho e expansão da pejotização.
Segundo estudo elaborado pelo Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep, a redução da jornada vai gerar impacto de R$ 4,1 bilhões por ano na agropecuária do Paraná. O levantamento considera uma base de 645 mil postos de trabalho no agro paranaense e uma massa salarial anual estimada em R$ 24,8 bilhões, valor que inclui salários e encargos obrigatórios como FGTS, INSS patronal, provisão de férias e 13º salário.
“O Brasil não está preparado para essa mudança, que terá reflexos negativos significativos, com aumento do custo de produção e redução dos investimentos, colocando em risco o crescimento do país e comprometendo empregos”, destaca o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “A proposta do fim da escala 6×1 não pode ser usada como ferramenta política para angariar votos em ano de eleição. Esse debate precisa ocorrer com serenidade”, reforça.
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Exportação de miúdos bovinos de Mato Grosso cresce 30% e alcança 53 países
Segmento gerou US$ 99,6 milhões em 2025, com destaque para fígado e língua bovina, mostrando valorização e diversificação da cadeia de carne no mercado internacional.

A exportação de miúdos bovinos de Mato Grosso alcançou 53 países em 2025 e reforçou o papel estratégico desse segmento dentro da cadeia da carne. Ao longo do ano, foram embarcadas 53,5 mil toneladas de produtos como língua, rabo, pâncreas, fígado e tripas. Segundo dados do sistema Comex Stat, a comercialização desses itens gerou uma receita de US$ 99,6 milhões.
Parte importante da rentabilidade da pecuária, a venda de miúdos deixou de ser vista como um subproduto de baixo valor e se consolidou como um negócio lucrativo, especialmente no mercado internacional. Para se ter uma ideia, apenas o fígado bovino foi exportado para 29 países, totalizando 8,5 mil toneladas, com destinos como Angola, Cabo Verde, Egito, Reino Unido, Rússia, Maldivas e Turquia.

Foto: Freepik
Na comparação com 2024, houve avanço significativo nos embarques. O volume exportado saltou de 41,2 mil toneladas para 53,5 mil toneladas, o que representa crescimento de 29,6%. Já a receita teve alta ainda mais expressiva, de 102%, indicando valorização do produto no mercado externo e maior disposição de pagamento por parte dos importadores.
Entre as partes menos tradicionais do boi que ganham espaço no comércio internacional está a língua bovina, que chegou a 27 países em 2025, com volume de 4,6 mil toneladas. O produto mato-grossense foi consumido em mercados como Argentina, Uruguai, Aruba, Ucrânia, Angola, Gana, Cazaquistão, Singapura, Israel e Palestina, evidenciando a diversidade de destinos e a adaptação da proteína a diferentes culturas alimentares.
O diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade, destaca que o desempenho reforça a eficiência da cadeia produtiva no estado. “A comercialização de miúdos mostra como Mato Grosso consegue aproveitar integralmente o animal e transformar isso em valor. São produtos que têm alta demanda em diversos mercados e ajudam a ampliar a rentabilidade da cadeia, além de diversificar os destinos das exportações”, afirma.
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Frigoríficos da Amazônia Legal têm baixo controle sobre desmatamento
Levantamento aponta que nenhuma das 15 plantas autorizadas a exportar carne para a União Europeia apresenta evidências públicas de rastreabilidade completa da cadeia de fornecedores.

Plantas frigoríficas da Amazônia Legal autorizadas a exportar carne bovina para a União Europeia apresentam baixo controle sobre o desmatamento em suas cadeias de fornecimento. Nenhuma das unidades avaliadas possui evidências públicas que comprovem atendimento aos requisitos da nova regulamentação europeia contra o desmatamento, e ainda não há respostas formais das empresas quanto à comprovação de monitoramento socioambiental. A norma europeia, que entrará em vigor nos próximos anos, exigirá rastreabilidade completa de toda a produção. A constatação é resultado de um levantamento realizado pelo Radar Verde.
O estudo avaliou 15 plantas frigoríficas pertencentes a oito empresas, todas localizadas em Mato Grosso e habilitadas a exportar para o mercado europeu em 2025. Juntas, essas unidades possuem capacidade de abate de 11.250 animais por dia. Segundo a análise, 13 apresentam baixo controle e duas plantas frigoríficas apresentam controle muito baixo da cadeia, de acordo com os critérios de avaliação do Radar Verde.

Foto: Divulgação/Anffa Sindical
O estudo aponta, ainda, que o risco de novo desmatamento dentro das zonas potenciais de compra de gado desses frigoríficos varia de 31 mil a 2,8 milhões de hectares. A pesquisa identificou que 12 plantas frigoríficas demonstram alto nível de controle sobre fornecedores diretos, que são as fazendas que vendem animais diretamente às indústrias. No entanto, nenhuma empresa apresentou evidências robustas, como auditorias independentes, de monitoramento de fornecedores indiretos, que são as fazendas onde o gado nasce ou é criado antes da fase final de engorda.
De acordo com a análise, essa lacuna cria espaço para a chamada “lavagem de gado”, quando animais provenientes de áreas com desmatamento passam por propriedades intermediárias antes de serem vendidos aos frigoríficos, dificultando a rastreabilidade ambiental da produção.
O relatório também analisa iniciativas brasileiras voltadas à rastreabilidade da cadeia da carne, incluindo plataformas públicas e programas nacionais de identificação animal. Segundo o estudo, embora existam avanços institucionais, nenhuma dessas iniciativas oferece atualmente uma solução completa e imediata para atender às exigências da regulamentação europeia, especialmente no monitoramento de fazendas fornecedoras indiretas.
Regulamentação europeia exige rastreabilidade completa
A União Europeia está adotando novas regras para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento em seu mercado. A chamada Regulamentação Europeia contra o Desmatamento (EUDR) exigirá que empresas comprovem, com dados e geolocalização, que commodities como carne bovina não foram produzidas em áreas desmatadas.

Foto: Shutterstock
A norma deverá entrar em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas, exigindo sistemas de rastreabilidade capazes de identificar todas as propriedades por onde o gado passou ao longo da cadeia produtiva.
Embora represente uma parcela menor das exportações brasileiras de carne bovina, a União Europeia vem ganhando importância como destino comercial. Em 2025, o bloco importou 128,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, movimentando cerca de US$ 1,06 bilhão e registrando crescimento de 132,8% em relação a 2024. Nesse contexto, o relatório destaca que o acesso ao mercado europeu tende a depender cada vez mais da capacidade das empresas de demonstrar, com evidências verificáveis, cadeias de fornecimento livres de desmatamento.
Recomendações da análise
O próprio estudo aponta caminhos para avançar na rastreabilidade da cadeia da carne bovina. Segundo o relatório, uma estratégia seria priorizar a integração de bases de dados já existentes, como os registros de movimentação de gado (GTA), os cadastros de propriedades rurais (CAR) e informações sobre desmatamento e áreas embargadas, permitindo aproximar a análise do risco de desmatamento ao nível das transações e ampliar a visibilidade sobre fazendas fornecedoras indiretas.
A análise também sugere que avaliações comparativas entre empresas, como o próprio Radar Verde, podem ajudar a orientar ações de fiscalização, acordos de compartilhamento de dados e incentivos de mercado, direcionando esforços para as regiões e empresas onde os riscos são mais elevados e as melhorias podem gerar maior impacto.
Para conferir a análise completa, clique aqui.



