Suínos
Bem-estar animal: o que pensam os especialistas das maiores agroindústrias do Brasil
Representantes da BRF, Seara e Frimesa compartilham com O Presente Rural os avanços, desafios e tendências que consolidam o bem-estar animal como eixo estratégico de sustentabilidade, eficiência e competitividade no setor suinícola.

De exigência técnica a valor corporativo. De demanda social a diferencial competitivo. O bem-estar animal nas agroindústrias brasileiras percorreu uma trajetória de evolução que hoje o posiciona como um dos pilares da sustentabilidade, da eficiência produtiva e da reputação no mercado global. Mas como as empresas têm lidado com esse tema na prática? Quais aprendizados foram determinantes? E o que esperar dos próximos anos?
Essas e outras questões estarão em pauta no painel “Evolução dos programas de bem-estar animal nas agroindústrias”, que integra a programação do Simpósio Brasil Sul de Suinocultura 2025, em Chapecó (SC). O debate será realizado no dia 12 de agosto, com a participação de representantes de peso da cadeia produtiva: Josiane Busatta (médica-veterinária, mestre em Zootecnia com ênfase em Bem-estar animal, coordenadora do programa Bem-estar Animal feito na BRF e consultora de Bem-estar Animal na BRF), Vamiré Luiz Sens Júnior (médico-veterinário, pós em Gerenciamento de Projetos, MBA em Agrobusiness, mestre em Bem-Estar Animal e gerente executivo de Sustentabilidade Agropecuária na Seara Alimentos), Fabrício Murilo Beker (Engenheiro agrônomo formado, pós em Gestão Empresarial e Marketing, pós em Suinocultura Industrial, mestre em Tecnologia e Ambiente e gerente de Fomento Agropecuário da Pamplona) e Kauany Dalle Molle Navarro (médica-veterinária, especialista em higiene, inspeção e tecnologia de produtos de origem animal, pós em manejo e sanidade de suínos e responsável técnica e responsável pela sanidade e Bem-Estar Animal na unidade da Frimesa de Assis Chateaubriand – PR).
Com exclusividade para O Presente Rural, três dos quatro painelistas compartilharam suas visões e experiências sobre os avanços do bem-estar animal nas agroindústrias, antecipando aos leitores os principais temas que estarão em debate durante o evento. O Presente Rural também entrou em contato com o representante da Pamplona, mas não recebeu resposta até o fechamento dessa edição, em 1º de agosto.
O Presente Rural – Como foi o processo de evolução interna da BRF para transformar o bem-estar animal em uma diretriz corporativa estruturada e transversal?

Josiane Busatta: “Na BRF, a integração entre áreas como produção, qualidade e sustentabilidade é essencial para garantir que o bem-estar animal seja efetivo e sustentável” – Fotos: Divulgação
Josiane Busatta – Transformar o bem-estar animal em um valor corporativo exigiu o engajamento de toda a cadeia. A evolução do bem-estar animal dentro da BRF foi um processo construído com muito comprometimento e ciência. Ao longo dos anos, com o amadurecimento da companhia e o aumento das expectativas da sociedade, ele passou a ocupar um espaço estratégico. Hoje, bem-estar animal é uma diretriz corporativa estruturada e transversal, integrada às decisões de negócio, à cultura organizacional e às metas de sustentabilidade.
Esse avanço é fruto de investimento em capacitação técnica, em parcerias com instituições científicas e em escuta ativa com nossos públicos de interesse. Criamos procedimentos robustos, indicadores de desempenho e auditorias internas e externas que garantem a conformidade e a melhoria contínua. Além disso, o tema está presente em fóruns multidisciplinares dentro da empresa, o que garante que ele seja considerado desde o planejamento até a operação, envolvendo áreas como agropecuária, sustentabilidade, qualidade, P&D e comunicação.
O Presente Rural – A evolução nas agroindústrias exige integração entre diferentes áreas – produção, qualidade, sustentabilidade. Como a BRF faz isso funcionar na prática?
Josiane Busatta – Na BRF, a integração entre áreas como produção, qualidade e sustentabilidade é essencial para garantir que o bem-estar animal seja efetivo e sustentável. Isso acontece por meio de uma governança estruturada, com comitês multidisciplinares, fluxos de comunicação claros e metas compartilhadas. Cada área tem seu papel técnico bem definido, mas todas trabalham com um olhar sistêmico, entendendo que o resultado depende da colaboração.
Quando falamos em manejo animal, a produção precisa garantir que os procedimentos sejam executados corretamente, a qualidade monitora os indicadores e conformidades e os aspectos regulatórios e de clientes, e a sustentabilidade avalia os impactos e oportunidades de melhoria.
Essa abordagem colaborativa permite que decisões sejam tomadas com base em dados, evidências e alinhamento estratégico. O resultado é uma operação ainda mais eficiente, ética e alinhada com os compromissos da BRF.
O Presente Rural – Quais aprendizados mais impactaram a BRF na jornada por certificações e compromissos públicos de bem-estar animal?
Josiane Busatta – A jornada da BRF em busca de certificações e compromissos públicos de bem-estar animal trouxe aprendizados valiosos que impactaram na forma de atuar. Um dos principais foi entender que o bem-estar animal vai muito além da conformidade legal — ele exige uma abordagem proativa, baseada em ciência, transparência e melhoria contínua.
Ao buscar certificações reconhecidas internacionalmente, percebemos a importância de padronizar processos, investir em capacitação contínua das equipes e fortalecer a rastreabilidade em toda a cadeia. Isso nos levou a desenvolver indicadores mais robustos, processos e monitoramentos padronizados e uma cultura interna robusta.
Ao longo dos anos enfrentamos desafios importantes que exigiram resiliência, adaptação e muito trabalho em equipe. Um dos principais foi a padronização de práticas em uma operação de grande escala e com diferentes realidades regionais. Garantir que todos os elos da cadeia, desde os produtores integrados até as unidades industriais, estivessem alinhados com os mesmos critérios técnicos é um processo que demanda investimento em capacitação, comunicação clara e acompanhamento constante.

Foto: Shuttertsock
Outro aprendizado importante foi o valor da escuta ativa e do diálogo com stakeholders (ONGs, clientes, academia e consumidores), tanto para construção como para acompanhamento das metas públicas. Os compromissos públicos nos desafiam a sermos transparentes, a prestar contas e a evoluir com base em evidências e expectativas sociais.
O Presente Rural – Quais tendências futuras devem moldar os programas de bem-estar animal nas grandes agroindústrias, e como a BRF está se preparando para elas?
Josiane Busatta – O futuro dos programas de bem-estar animal nas grandes agroindústrias será moldado por uma combinação de avanços tecnológicos, exigências regulatórias mais rigorosas, e uma sociedade cada vez mais consciente e exigente em relação à origem dos alimentos. Entre as principais tendências, destacam-se o uso de tecnologias como sensores e inteligência artificial, o monitoramento completo da cadeia produtiva e a valorização de indicadores baseados no comportamento e na saúde dos animais, e não apenas em parâmetros produtivos.
Outra tendência importante é a integração do bem-estar animal com os pilares e agendas ESG, como mudanças climáticas, uso racional de recursos naturais e saúde única (One Health). Isso exige uma abordagem ainda mais sistêmica e colaborativa.
A BRF já vem se preparando para esse cenário. Estamos investindo em inovação, com projetos que utilizam visão computacional e análise de dados para monitorar o comportamento animal, além de fortalecer parcerias com centros de pesquisa e startups. Também estamos aprimorando nossos indicadores, sensibilizando e capacitando continuamente nossas equipes para lidar com essas novas demandas.
Nosso objetivo é estar à frente das transformações, garantindo que o bem-estar animal continue sendo um pilar estratégico da nossa produção responsável e sustentável.
O Presente Rural – Quais foram os principais saltos na política de bem-estar animal dentro da Seara nos últimos anos, e como isso se reflete na cadeia produtiva?

Vamiré Luiz Sens Júnior: “Nos últimos anos, ampliamos de forma significativa a estrutura de governança do bem-estar animal na Seara, tornando esse tema transversal à operação”
Vamiré Luiz Sens Júnior – Nos últimos anos, ampliamos de forma significativa a estrutura de governança do bem-estar animal na Seara, tornando esse tema transversal à operação. Estreitamos conversas e relacionamentos com a academia, clientes e ONGs ligadas ao tema. Realizamos uma análise detalhada dos processos e interfaces e isso nos permitiu mapear oportunidades de trabalho.
Desenvolvemos o site de Sustentabilidade, onde é possível encontrar e acompanhar as iniciativas, compromissos públicos e evoluções das boas práticas de produção na empresa. Esta iniciativa promoveu maior transparência em relação aos nossos avanços no tema, possibilitando inclusive a participação em pesquisas de mercado por stakeholders.
Atualmente, todas as equipes e produtores da Seara são treinados nos cinco domínios de bem-estar animal, de modo que essa forma de produção seja incorporada pelos colaboradores e se reflita naturalmente no manejo dos animais. Isso ocorre de forma espontânea e torna-se parte intrínseca do processo. Um animal bem cuidado, com saúde, boa nutrição, em um ambiente limpo e confortável, apresenta bem-estar geral positivo. E um estado mental positivo, por sua vez, significa condições ideais para a máxima expressão do seu potencial zootécnico, seja no ganho de peso ou na produtividade. Não há nada mais sustentável do que isso!
Estimulamos a melhoria contínua dos nossos processos, seja nas granjas, com a adoção de novas tecnologias e equipamentos; na gestão da informação ou nas práticas de manejo, sanidade e reprodução. Contamos com especialistas exclusivamente dedicados, sempre atentos às melhores referências globais e focados em garantir estratégias e padrões produtivos que promovam mais qualidade de vida para os animais.
O Presente Rural – Na sua visão, o que levou o tema a deixar de ser apenas uma exigência técnica para se tornar um eixo estratégico nas agroindústrias?
Vamiré Luiz Sens Júnior – O bem-estar animal passou a impactar diretamente três frentes centrais do negócio: performance, reputação e acesso a mercados. Do ponto de vista da performance, um animal criado em boas práticas de bem-estar expressa melhor seu potencial zootécnico, aproveita mais eficientemente a ração, ganha peso com mais rapidez e apresenta melhor desempenho em menos tempo. Os avanços em ciência e tecnologia têm contribuído para uma compreensão mais precisa das necessidades dos animais, facilitando a adoção de práticas que asseguram seu bem-estar. Um animal saudável e bem cuidado resulta em produto de alta qualidade, com maior valor agregado. Isso se traduz em eficiência de custo, possibilitando a oferta de um produto de qualidade a preços acessíveis para diferentes faixas de poder aquisitivo.
No aspecto reputacional, é importante destacar que a percepção dos consumidores está cada vez mais sensível e atenta a essas questões. Eles demonstram preocupação com aspectos éticos e de responsabilidade social, especialmente quanto ao tratamento dado aos animais. A demanda por esses produtos tem incentivado as agroindústrias a incorporarem o bem-estar animal de forma mais estruturada em suas estratégias comerciais, oferecendo maior transparência sobre suas boas práticas.
Por fim, em relação ao acesso a mercados, o bem-estar animal, quando associado a boas práticas específicas, pode se tornar um diferencial competitivo, abrindo portas para nichos e mercados premium. Ao mesmo tempo, observa-se uma evolução nas exigências regulatórias, com leis mais rigorosas e padrões de certificação que demandam um tratamento mais adequado aos animais. Nesse contexto, o bem-estar animal passa a ser não apenas uma questão de responsabilidade social, mas também uma exigência legal, viabilizando o acesso a novos mercados e clientes.
O Presente Rural – O que as agroindústrias brasileiras ainda precisam ajustar para que a evolução em bem-estar seja mais homogênea e duradoura em todo o setor?
Vamiré Luiz Sens Júnior – Para avançar de forma ainda mais consistente, é fundamental investir em capacitação e educação continuada. É necessário promover programas de qualificação para produtores e gestores, assegurando que compreendam a importância, os benefícios e as melhores práticas relacionadas ao bem-estar animal. Além disso, é importante buscar, junto ao governo ou a entidades de apoio, linhas de financiamento com condições acessíveis e competitivas que possibilitem a execução de melhorias nas instalações, a aquisição de novas tecnologias e, especialmente, o apoio às pequenas e médias agroindústrias na implementação de boas práticas de bem-estar animal.
Após a publicação da Instrução Normativa nº 113 do Ministério da Agricultura e Pecuária, de 16 de dezembro de 2020, que estabelece as boas práticas de manejo e bem-estar animal nas granjas de suínos de criação comercial, torna-se essencial acompanhar continuamente a evolução no atendimento aos requisitos. Isso permitirá avaliar o nível de engajamento do setor ao longo do tempo.
Diante do aumento da percepção sobre bem-estar animal por parte dos consumidores, também é válido destacar a importância de iniciativas de marketing que levem mais informação e educação ao público. Isso contribui para a valorização dos produtos certificados por práticas de bem-estar, estimulando, assim, a evolução de toda a cadeia produtiva.

Foto: Divulgação/BRF
O Presente Rural – Olhando para os próximos cinco a dez anos, como você projeta o papel do bem-estar animal na competitividade do Brasil no mercado global?
Vamiré Luiz Sens Júnior – Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a demanda por alimentos deverá dobrar até 2050. Diante desse cenário, será cada vez mais necessário produzir alimentos de forma sustentável, por meio de sistemas produtivos altamente eficientes, que otimizem o uso dos recursos naturais e assegurem a saúde do planeta. Nesse contexto, o bem-estar animal se apresenta como um caminho essencial para que possamos contribuir com esse grande desafio global.
O Brasil possui diversas fortalezas na suinocultura. Podemos destacar a sanidade, a rastreabilidade, os sistemas de produção integrados, a segurança alimentar, a disponibilidade de grãos, a mão de obra qualificada, o uso de tecnologia e a eficiência produtiva. Nossos indicadores de desempenho estão entre os melhores do mundo, agregando valor à produção e permitindo a captura de custos diferenciados, o que torna nossos produtos de alta qualidade mais acessíveis. E tudo isso só é possível com a aplicação consistente de práticas de bem-estar animal.
Precisamos dar maior visibilidade e transparência ao mercado, mostrando com mais clareza como produzimos e como as boas práticas estão integradas ao nosso sistema produtivo. Assim, poderemos abrir novas portas comerciais e levar nossos alimentos a ainda mais mercados, gerando elevados níveis de confiança e satisfação entre os consumidores.
O Presente Rural – De que forma a Frimesa vem evoluindo suas práticas de bem-estar animal dentro das unidades industriais e nas propriedades integradas?
Kauany Dalle Molle – A Frimesa vem evoluindo suas práticas de bem-estar animal desde 2018 por meio de práticas e investimentos em infraestrutura, capacitação e inovação, tanto nas unidades industriais quanto nas propriedades integradas. O programa começou com o treinamento das equipes operacionais e melhorias das estruturas, criando assim as bases para uma cultura sólida de bem-estar animal. Nos anos seguintes foram implantadas melhorias que reduziram estresse e mortalidade, com ventilação, sombrite, uso de eletrólitos, além da modernização do processo de insensibilização. Também foram incorporadas tecnologias de gestão, como o rastreamento via aplicativo para monitorar transporte e embarque, além de enriquecimento ambiental, com brinquedos, cortinas e climatização para diferentes estações do ano. Essas ações permitiram que a cooperativa não só melhorasse a qualidade de vida dos animais, mas também a padronização de manejos, reduzindo perdas e obtendo certificações internacionais, como a WQS, reforçando seu compromisso com os padrões globais de bem-estar e produtividade.
O Presente Rural – Quais marcos técnicos ou institucionais você destacaria como pontos de virada nesse processo evolutivo dentro da cooperativa?

Kauany Dalle Molle: “A Frimesa vem evoluindo suas práticas de bem-estar animal desde 2018 por meio de práticas e investimentos em infraestrutura, capacitação e inovação, tanto nas unidades industriais quanto nas propriedades integradas”
Kauany Dalle Molle – Entre 2018 e 2025 a Frimesa consolidou uma trajetória marcante de avanços tecnológicos e institucionais que transformaram o bem-estar animal em um dos pilares estratégicos de sua atuação. O primeiro ponto de virada ocorreu em 2018, com a criação de um programa estruturado em bem-estar animal, que inclui a capacitação das equipes, instalações das rampas de descarregamento com inclinação igual ou inferior a 15 graus, nebulizadores nas áreas de espera e uso de câmeras para treinamentos baseados em situações reais. Essas ações estabeleceram a base de uma cultura organizacional voltada ao cuidado com os animais e o alinhamento entre a teoria e a prática do manejo.
Em 2020, a Frimesa modernizou o abate ao substituir a insensibilização elétrica por CO2, eliminando o bastão elétrico, reduzindo em 90% o estresse dos animais, alinhando-se assim à portaria 365 de 2021 e padrões internacionais. Entre 2021 e 2022 ampliou o foco em bem-estar animal com climatização das áreas de espera, rastreamento via aplicativo e enriquecimento ambiental nas baias, unindo tecnologia, conforto e eficiência operacional. Entre 2018 a 2024 essas ações foram padronizadas com estruturas e manejos, alcançando baixos índices de mortalidade e estresse, além da certificação WQS em todas as unidades, reconhecimento internacional que validou a seriedade do programa de bem-estar animal da Frimesa.
O Presente Rural – Como o tema do bem-estar animal tem sido integrado às estratégias de sanidade e produtividade da Frimesa?
Kauany Dalle Molle – Já em 2019 o foco passou a ser a melhoria de ambiência e de saúde física dos suínos, com a instalação de sombrite e ventiladores para reduzir o estresse dos animais e a adoção de uso de eletrólito para todos os animais, medida essa que resultou em uma redução de 60% da condenação por hipertermia. Esse período foi fundamental para conectar o bem-estar animal à produtividade e à qualidade do produto final.
Essas melhorias foram sendo incorporadas às estratégias de produção e manejo. Com o tempo, o programa passou a integrar não só infraestrutura e capacitação, mas também ferramentas de gestão como o rastreamento via aplicativo para transporte e embarque. Todas essas ações contribuíram para a padronização de manejos e para a redução de perdas, com reflexos diretos na produtividade e na sanidade dos animais.
O Presente Rural – O que deve mudar nos próximos anos para que o bem-estar animal avance ainda mais dentro do modelo cooperativo e industrial?
Kauany Dalle Molle – É necessário ampliar a tecnologia, fornecer a capacitação contínua das equipes, buscar certificação com mais abrangência e aprofundar a questão do bem-estar animal à produtividade e sustentabilidade, consolidando a cooperativa como uma referência global nesse tema.
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Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.







