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Basta de barreiras disfarçadas: O Brasil precisa reagir
Fundamental que a sociedade brasileira entenda que defender o agronegócio não é apenas proteger um setor econômico, mas salvaguardar nossa soberania.

Os recentes episódios envolvendo o Carrefour e a Danone são novas peças de um jogo antigo: a imposição de barreiras comerciais disfarçadas, sempre travestidas de argumentos nobres como proteção ambiental ou apoio aos produtores locais. O Brasil, gigante do agronegócio mundial, não pode mais aceitar calado essas práticas que visam limitar sua competitividade nos mercados internacionais.
Embora ambas as empresas tenham se retratado após a repercussão negativa no Brasil, a essência do problema persiste. O Carrefour França reafirmou que manterá sua decisão de não comprar carne dos países do Mercosul, alegando apoio aos agricultores franceses. Essa “preferência regional” é, na verdade, uma forma velada de protecionismo, destinada a proteger uma agricultura europeia que não consegue competir com a eficiência e a qualidade dos produtos brasileiros.

Foto : Jonathan Campos
A Danone, por sua vez, também demonstrou hesitação em relação à soja brasileira, justificando a decisão com base nas novas diretrizes da União Europeia contra o desmatamento. Mais uma vez, usa-se a Amazônia como pretexto para questionar a sustentabilidade do agronegócio brasileiro, que é hoje uma das cadeias produtivas mais reguladas e auditadas do mundo.
É hora de o Brasil adotar uma postura firme e assertiva. Somos líderes globais na produção de carnes, grãos e outros alimentos essenciais. Exportamos qualidade, produtividade e inovação. Permitir que barreiras comerciais mascaradas prejudiquem nosso setor agropecuário é aceitar passivamente a narrativa de que somos culpados por problemas ambientais globais, enquanto nossos concorrentes se beneficiam de proteções artificiais.

Foto: Claudio Neves
O governo brasileiro precisa usar todas as ferramentas disponíveis para rebater essas medidas. Seja na Organização Mundial do Comércio (OMC), nas negociações do acordo Mercosul-União Europeia, ou em qualquer outro fórum internacional, o Brasil deve deixar claro que não tolerará injustiças.
E mais: é fundamental que a sociedade brasileira entenda que defender o agronegócio não é apenas proteger um setor econômico, mas salvaguardar nossa soberania. O agro brasileiro alimenta o mundo, gera milhões de empregos e é a base da nossa balança comercial. Cada ataque a ele é um ataque ao Brasil como um todo.
O Carrefour e a Danone são parceiros históricos do Brasil, mas não podemos ignorar que, na França, a decisão de priorizar a produção local permanece. A retratação é bem-vinda, mas não alivia o impacto do protecionismo europeu sobre o nosso agro.
Chega de nos desculparmos por sermos competentes. É hora de nos orgulharmos, com altivez, de quem somos e do que produzimos. O Brasil merece mais respeito, e o agro brasileiro, mais reconhecimento.

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Aprimoramento genético promove ganhos em produtividade e sustentabilidade no agro brasileiro
Avanços em plantas e animais adaptados ao clima tropical aumentam eficiência, reduzem custos e fortalecem a competitividade do país no mercado global.

O aprimoramento genético tem se consolidado como um dos principais motores de transformação do agronegócio moderno. Em um cenário marcado por crescente demanda global por alimentos, mudanças climáticas e pressão por sustentabilidade, o investimento em genética deixou de ser diferencial para se tornar estratégia central de produtividade e competitividade.
O Brasil é considerado uma potência agrícola reconhecida mundialmente, e por isso os avanços nessa área são resultados de décadas de pesquisa conduzidas por instituições como a Embrapa, universidades e empresas privadas. O desenvolvimento de cultivares e raças mais adaptadas às condições tropicais foi decisivo para a expansão da produção em regiões antes consideradas marginais, como o Cerrado.

Artigo escrito por Natalia Venturelli, gerente de Contas da Corning Brasil – Foto:Divulgação
No setor vegetal, o aprimoramento genético possibilitou o surgimento de variedades mais produtivas, resistentes a pragas e doenças e tolerantes a estresses hídricos e térmicos. A soja, por exemplo, passou por uma verdadeira revolução genética nas últimas décadas. O Brasil, um dos maiores produtores globais atualmente, colhe os frutos de sementes com ciclos mais curtos, com maior potencial produtivo e melhor adaptação a diferentes fotoperíodos. Isso permite ao produtor otimizar o uso da terra, realizar safras sucessivas e reduzir perdas.
Na pecuária, os ganhos também são expressivos. Programas de melhoramento em bovinos de corte e de leite têm proporcionado animais com maior eficiência alimentar, melhor conversão de pasto em proteína e maior precocidade reprodutiva. Dessa forma, as raças adaptadas ao clima tropical, como o Nelore, foram aprimoradas para apresentar carcaças de melhor qualidade e maior rendimento. Já na bovinocultura leiteira, os cruzamentos estratégicos elevaram significativamente a produtividade por animal, reduzindo custos por litro produzido.
Diante disso, os impactos econômicos são diretos, pois ao aumentar a produtividade por hectare ou por cabeça, o produtor diminui custos fixos, melhora margens e ganha competitividade tanto no mercado interno quanto no externo. Em um ambiente globalizado, onde países disputam mercados com base em preço, qualidade e regularidade de oferta, a genética torna-se ferramenta estratégica.
Além disso, o aprimoramento genético contribui para a sustentabilidade. As plantas mais resistentes demandam menos defensivos; animais mais eficientes emitem menos metano por quilo de carne ou litro de leite produzido. Assim, produzir mais com menos recursos naturais torna-se viável, alinhando a rentabilidade à responsabilidade ambiental.
E também a incorporação de biotecnologias, como a seleção genômica e a edição gênica, amplia ainda mais as possibilidades. Com o uso de marcadores moleculares, é possível identificar características desejáveis com maior precisão e reduzir o tempo necessário para consolidar ganhos genéticos. Isso acelera o progresso e aumenta a previsibilidade dos resultados.
Nesse contexto, destaca-se também a aplicação da biotecnologia de interferência por RNA na agricultura, uma inovação que permite o silenciamento específico de genes em plantas, pragas e patógenos. Essa tecnologia tem sido explorada principalmente para o controle de insetos, vírus e nematoides, ao bloquear genes essenciais ao seu desenvolvimento ou sobrevivência, reduzindo a pressão de pragas de forma altamente seletiva.
Contudo, é fundamental que o avanço tecnológico caminhe acompanhado de regulação, transparência e comunicação clara com a sociedade. A confiança do consumidor e o acesso a mercados internacionais dependem do cumprimento de normas sanitárias e ambientais rigorosas.
Em síntese, o aprimoramento genético é um pilar estruturante do agronegócio contemporâneo. Ao elevar produtividade, reduzir custos, aumentar eficiência e contribuir para a sustentabilidade, ele fortalece a competitividade do setor. Investir em pesquisa, inovação e difusão tecnológica significa apostar no futuro da produção de alimentos e no desenvolvimento econômico do país.
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Exportações de carne bovina avançam 22% no bimestre e receita cresce quase 40%
Alta no faturamento supera volume embarcado e indica recuperação de margens, mesmo com câmbio menos favorável.

O ímpeto observado em janeiro de 2026 nas exportações brasileiras de carne bovina e derivados não apenas se manteve, mas ganhou tração em fevereiro.
As exportações de carnes bovinas, in natura, congeladas e processadas e demais subprodutos bovinos tiveram um avanço expressivo de 22,2% no volume total exportado no primeiro bimestre deste ano, para cerca de 557.200 mil toneladas, acima das 455.900 mil toneladas embarcadas no mesmo período do ano passado. Excluindo o sebo bovino e outras gorduras, o total exportado foi de 520.600 toneladas, 23,2% acima na comparação anual, com base em informações da aduana brasileira.
Mais notável, contudo, foi o aumento de quase 40% na receita desses embarques, em dólares, na mesma base de comparação, superando o crescimento do volume exportado. Esse descolamento sinaliza uma importante recuperação das margens do setor, que conseguiu recompor sua rentabilidade a despeito de uma taxa de câmbio mais valorizada neste início de ano, que, em teoria, deveria frear os embarques e prejudicar o faturamento em reais.

A análise desagregada dos destinos confirma e reforça a hipótese sobre a dinâmica comercial do setor diante do novo arcabouço comercial imposto pela China.
Os envios para o país cresceram 22,8% no primeiro bimestre, totalizando 230.400 toneladas. Excluindo o sebo bovino, o volume total exportado somaria 223.500 toneladas, 21,6% acima do volume exportado no mesmo período do ano anterior. Esse movimento sustenta a leitura de que os frigoríficos brasileiros possam ter engatado uma verdadeira “corrida” de curto prazo, acelerando os abates e os embarques para garantir o escoamento de volumes isentos de tarifação antes que o teto da cota de 1,1 milhão de toneladas imposto por Pequim seja atingido. O volume atual representa pelo menos 20,3% da quota isenta do ano.
Assim, considerando as 223.500 toneladas, e mantido o mesmo ritmo do primeiro bimestre ao longo do restante do ano, o Brasil levaria pouco menos de dez meses para estourar o teto da quota chinesa imposta para 2026, deixando cerca de 450.000 aproximadamente fora do mercado chinês a serem redirecionadas a outros países. Se as exportações para a China em 2026 seguissem o mesmo volume do primeiro bimestre de 2025, levaríamos praticamente 12 meses para embarcar o 1,1 milhão de toneladas da quota.

Paralelamente, o Brasil tem conseguido ampliar seus embarques para outros mercados centrais. As exportações de carne bovina, exceto sebo e outras gorduras, para os Estados Unidos registraram um salto de 47,8% no período, totalizando quase 70.000 toneladas. Esse desempenho é impulsionado por uma dupla conjuntura: a retomada dos fluxos a partir de novembro do ano passado, após a suspensão, em julho, das tarifas contra o Brasil, e a forte demanda do mercado americano, que atualmente enfrenta escassez de oferta local de carne.
Outros destinos também apresentaram crescimentos significativos, evidenciando um esforço de diversificação tática: as exportações para o Chile avançaram 22,4% (totalizando 23.600 toneladas), enquanto os embarques para a Rússia saltaram 106% (somando 23.300 toneladas) e as vendas ao Egito cresceram 63,9% (totalizando 16.900 toneladas). Os embarques para o México também têm crescido significativamente, com o país já representando 2% do mercado brasileiro de exportações.
Apesar da expansão em mercados alternativos, a dependência estrutural em relação a poucos parceiros comerciais se manteve. A China continua sendo, de longe, o principal destino da carne bovina brasileira, absorvendo 42,9% das exportações neste primeiro bimestre, ligeiramente abaixo dos 43,5% registrados no ano passado.
Já os Estados Unidos ganharam market share (passando de 11,2% para 13,4%), assim como a Rússia, o Egito, as Filipinas e os Emirados Árabes Unidos. Como resultado, o volume das exportações concentrado nos dez maiores mercados totalizou 80,5% do total embarcado, indicando uma concentração ainda maior do que os 75,4% observados no mesmo período do ano anterior.

Ainda assim, é cedo para que o setor adote um tom otimista. Os números aparentemente superlativos do primeiro bimestre refletem, em grande medida, uma antecipação de embarques que pode cobrar seu preço nos próximos meses. Atualmente, o Brasil já embarcou pelo menos 20% da quota isenta de tarifas para o ano, e, mantido o ritmo atual de embarques, atingiria o teto antes do final de outubro. Uma vez esgotada a cota chinesa, a inflexão nos volumes será inevitável e os volumes excedentes (tarifados em 55%) perderão viabilidade comercial.
Nesse momento, a complexidade das cadeias globais de valor voltará ao centro do palco. O redirecionamento dos fluxos que deixarão de ir para a China esbarrará nas limitações já conhecidas: exigências sanitárias heterogêneas, acordos comerciais assimétricos e a rigidez do mix de produção nacional. Além disso, o aumento da concentração das exportações em poucos mercados eleva a exposição do Brasil a choques externos. A instabilidade e os conflitos no Oriente Médio, por exemplo, continuam sendo uma ameaça latente às rotas logísticas e ao escoamento para os mercados árabes, que vêm ganhando participação.
Por fim, o conflito militar no Oriente Médio encareceu os custos de transporte marítimo e deve limitar os embarques para os mercados da região, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e Israel. A região representa cerca de 8% das exportações brasileiras de carne bovina, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Somam-se a isso os desafios internos, como a perspectiva de um câmbio apreciado ao longo de 2026, que tende a comprimir a competitividade das exportações dolarizadas assim que o efeito da “corrida da cota” se dissipar. Portanto, o cenário base permanece inalterado: 2026 será um ano de ajustes profundos. Entre o alívio estatístico do primeiro bimestre e a reconfiguração forçada que ocorrerá no segundo semestre, o setor de proteína animal terá de provar sua resiliência e capacidade de adaptação em um ambiente global cada vez mais restritivo e fragmentado.
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Tecnologia impulsiona produtividade e redefine a pecuária de corte no Brasil
Avanços em genética, manejo e confinamento elevam produção, reduzem uso de área e ampliam eficiência do setor.

O avanço do uso de tecnologia no campo nos últimos anos vem contribuindo para a elevação da produtividade e, consequentemente, para o aumento da produção de alimentos, trazendo consequências positivas e importantes para a economia brasileira como um todo, sobretudo no ajuste da precificação de alimentos e na dinâmica de poupança da terra.
Com uma maior disputa por áreas – seja pelo crescimento populacional, seja pela concorrência entre produção –, a necessidade de incremento de ferramentas para ganhos de produtividade se tornou fundamental para as principais atividades agropecuárias.
E a pecuária de corte brasileira não está ausente nesse processo. O setor apresentou forte evolução nas últimas duas décadas, registrando recordes nos níveis de produtividade, nos números de produção (abate de animais e carne produzida) e de exportação, evidenciando sua importância para a economia brasileira.

Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea – Foto: Divulgação/Cepea
E, dentro das atividades pecuárias, uma em especifico vem chamando a atenção nos últimos anos, sendo o ponto focal das discussões de mercado: a produção de bezerros.
Desde o final dos anos 2000, com as transformações que a cadeia pecuária vinha passando – abertura de capital das empresas, busca por eficiência industrial, crescimento da renda da população, demanda por mais qualidade de carne, necessidade de a fazenda alavancar sua produção –, os investimentos na produção de cria começaram a ganhar força. Pelo lado do consumidor, o crescente e capitalizado mercado doméstico naquele período influenciou o crescimento de projetos de carne de qualidade (por meio de boutiques, marcas, etc.), começando um processo de busca e pagamento por qualidade dos animais.
No campo, o primeiro grande movimento foi a busca pelo cruzamento industrial, que ajudou a alavancar as vendas de sêmen no mercado brasileiro, principalmente de genética taurina para uso em vacas nelore. Números da Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial) mostram que, de 2006 a 2025, as vendas de doses de sêmen quase quadruplicaram (avanço de 275%), saltando de 6,7 milhões em 2008 para mais de 25 milhões de 2025. Dados do Cepea mostram que, em 2014, foram inseminadas 5,93 milhões de matrizes de corte, enquanto que, em 2025, o total atingiu 15,77 milhões de matrizes, crescimento de 166% ou quase 10 milhões de matrizes a mais.
E a falta de animais padronizados fez com que o movimento de investimento em cria e em gados com maior genética ganhasse força e estimulasse esse segmento a construir projetos com o intuito de ofertar um volume maior de animais de qualidade.

O que se viu foi uma grande transformação, com a produtividade saltando fortemente nas fazendas brasileiras. No início dos anos 2000, 100 vacas produziam cerca de 40 bezerros a um peso médio de 170 quilogramas e em 250 hectares. Nos dias atuais, 100 vacas estão produzindo, em apenas 150 hectares, cerca de 70 bezerros a um peso médio de 210 quilogramas. Ou seja, mais bezerros, mais pesados e em menos área.
A própria terminação dos animais dos bovinos passa por mudança estrutural, com muita intensificação da engorda, com o crescimento de animais em confinamento. Em 2018, cerca de 3,83 milhões de cabeças foram confinadas no Brasil, o que representou 12% do total abatido, enquanto que, em 2025, esse montante chegou a 9,25 milhões de cabeças, totalizando 21,7% do abate total.
O peso dos animais na engorda também evoluiu. Em 2006, a produtividade média do rebanho brasileiro (boi, vaca, novilho e novilha) foi de 226,73 quilos por animal, enquanto que, em 2025, chegou a 258,52 quilos – ressalta-se que o ano passado registrou recordes de produção e do número de animais abatidos. A produtividade média cresceu 14%, e a categoria que mais se destacou foi de novilha, com um incremento de 18,8% em produtividade, chegando a 211 quilos por animal em 2025. A média de produtividade de um boi gordo chegou a 299 kg/animal no ano passado, com alta de quase 40 quilogramas em duas décadas.
Esse incremento ano após ano na produtividade e na produção, que foi sempre observada em atividades como soja e milho, vem contribuindo para os ganhos econômicos da pecuária como um todo e fazendo com que haja uma poupança da terra, ou seja, com mais produtividade, os custos são reduzidos e a escala, ampliada.
E, mais ainda, os ganhos em termos de avanço de preço vem ficando bem acima do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), seja pela ótica do preço do bezerro, seja pelo do boi gordo, contribuindo para elevados ganhos reais da atividade, como mostra a Figura 1.
Figura 1: Evolução mensal dos preços agropecuários e do acumulado IGP-M (base 100 = janeiro de 2004) – Fontes: Cepea, FGV. Elaboração do Autor.



