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Barragens subterrâneas permitem que agricultores ganhem R$ 7 mil a mais por ano
Estudo considerou um período de 18 anos, de 2006 a 2023, em que houve um aumento médio anual de 375 kg na produção.

Um estudo realizado pela Embrapa Solos avaliou os impactos econômicos para agricultores que têm uma barragem subterrânea em suas propriedades no Semiárido brasileiro. O estudo considerou um período de 18 anos, de 2006 a 2023, em que houve um aumento médio anual de 375 kg na produção, gerando uma renda extra de R$ 7.361,10 para todos aqueles que adotaram essa tecnologia social em relação aos que não a têm em suas propriedades.

Fotos: Fernando Gregio
Há anos, a Embrapa realiza um estudo de avaliação dos impactos econômicos, sociais, ambientais e institucionais proporcionados pelas barragens subterrâneas, e os resultados são descritos anualmente no Relatório Social da Embrapa. Em 2023, o estudo mostrou que a relação custo-benefício foi de 2,27, ou seja, para cada US$ 1,00 investido pela Embrapa nessa tecnologia social, a sociedade ganhou de volta US$ 2,27.
A barragem subterrânea é uma tecnologia bem-sucedida no Semiárido brasileiro, pois permite que áreas secas que seriam inadequadas para a agricultura se tornem terras de cultivo cultivadas por agricultores familiares. Atualmente, existem cerca de 3.000 barragens subterrâneas no Nordeste brasileiro, e essa tecnologia tem como alvo propriedades de pequena escala.
Segundo Veramilles Aparecida Fae , analista da Embrapa Solos e uma das autoras do estudo, os impactos econômicos das barragens subterrâneas foram avaliados sob dois aspectos: aumento da produtividade e expansão da produção. “A produtividade calculada no estudo de viabilidade econômica considerou um cenário de chuvas normais, e a média do excedente do produtor rural que adotou a tecnologia foi obtida por meio de dados históricos da avaliação econômica de barragens subterrâneas, que é realizada anualmente por uma equipe da Embrapa, entre os anos de 2006 e 2023”, explica a economista.
Ela acrescenta que o preço médio estimado da produção em quilos foi calculado com base em pesquisas em mercados locais, verificando 78 itens que podem ter sido produzidos pelos agricultores. “O estudo mostrou uma estimativa de R$ 19,65 por quilo, que, multiplicado pelo excedente de produção anual de 375 Kg, resulta em uma renda média anual de R$ 7.361,10 por hectare para quem tem barragem subterrânea em sua fazenda”, comenta Faé.
Para analisar os dados, o investimento para construir a barragem subterrânea e o tempo para recuperar o investimento foram calculados usando parâmetros de lucratividade em dois cenários diferentes. O primeiro considerou que o agricultor recebeu subsídios do governo ou de ONGs e gastou R$ 20.000; o segundo levou em consideração que o agricultor não recebeu nenhum apoio e gastou R$ 27.000.
Os especialistas da Embrapa constataram que, em todos os cenários analisados, a Taxa Interna de Retorno (TIR) foi superior ao índice oficial de inflação brasileiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o que garante o retorno econômico do valor investido a partir do terceiro ano para os produtores que contaram com apoio financeiro, e a partir do quarto ano para os que pagaram sozinhos todos os custos da construção.
“Em relação aos aspectos econômicos e considerando todos os índices disponíveis, podemos dizer que a tecnologia é benéfica e viável, apresentando resultados positivos em todos os indicadores que foram levantados”, afirma Igor Rosa Dias de Jesus , supervisor do Setor de Gestão de Prospecção e Avaliação Tecnológica da Embrapa Solos e responsável pelos estudos de impactos de barragens subterrâneas.
Ele explica que a cadeia produtiva nas áreas mais áridas do Semiárido brasileiro é fortemente ancorada na agricultura e na pecuária para consumo humano e animal, e os produtores vendem o excedente em mercados agroecológicos locais. “A grande vantagem das barragens subterrâneas é a nova adequação de áreas que não seriam apropriadas para cultivo antes de sua construção. A disponibilidade de novas terras de cultivo ao longo do ano representa impactos significativos nos locais onde as barragens são instaladas”, completa.
A disponibilidade de água também melhora a qualidade do solo e proporciona a reabilitação de terras anteriormente degradadas no Semiárido, uma vez que evita a perda de nutrientes por erosão e lixiviação. Além disso, as barragens contribuem para a valorização da terra, de acordo com o estudo de avaliação de impactos tecnológicos.
Produção em áreas com barragens subterrâneas
O cultivo em áreas de barragens subterrâneas avaliadas no estudo realizado pela Embrapa Solos e parceiros é basicamente para autoabastecimento, pois produzem milho, feijão, mandioca, batata-doce, cenoura, inhame, alface, cebolinha, beterraba, coentro, alho, repolho, couve, quiabo, tomate, chicória, pimentão, abóbora, chuchu, melancia, melão, acerola, goiaba, manga, mamão, abacaxi, maracujá, graviola, caju, coco e cana-de-açúcar, além de capim-forrageiro e palma forrageira, armazenados como silagem para alimentação animal.
Com o uso da tecnologia, cada família passa a ter de seis a oito cabeças de gado, geralmente duas delas produzindo leite; cerca de 10 a 15 cabeças de frango ou peru; e de cinco a dez ovelhas ou porcos. “Na época das chuvas, o número de animais tende a aumentar, possibilitando que os agricultores vendam excedentes, como leite e ovos. Alguns agricultores chegaram a ter 30 cabeças de gado e 50 aves; o número de animais varia conforme a intensidade da seca. Em épocas mais secas, estima-se uma redução de 60% a 70% em relação aos períodos chuvosos. Alguns agricultores têm apiários e outros produzem e vendem sementes crioulas de melancia, feijão e outros grãos para as lavouras locais”, acrescenta Igor de Jesus.
Como funcionam as barragens subterrâneas
A tecnologia chamada barragem subterrânea consiste basicamente em uma camada feita de lona plástica colocada de 3 a 5 m de profundidade em valas que são cavadas em áreas agrícolas íngremes. Assim, a água não escoa rio abaixo porque é interceptada pela lona plástica, então o solo rio acima permanece úmido por muitos meses, e se torna adequado para o cultivo. Um vertedouro também é construído para que, quando há vazões acima do esperado, a água excedente seja armazenada em poços construídos rio acima da barragem subterrânea.
A ideia é armazenar a pouca água das chuvas que ocorrem durante o ano em áreas de escassez hídrica, como o Semiárido brasileiro, permitindo o cultivo do solo de 3 a 5 meses após o período chuvoso, dependendo de quanta chuva houve no ano. “Algumas barragens subterrâneas, construídas em ambientes apropriados, produzem o ano todo, inclusive em períodos de escassez de chuvas”, afirma Albani Vieira da Rocha, coordenador executivo do Centro de Desenvolvimento Comunitário de Maravilha (Cdecma), entidade de referência para apoiar, informar e fortalecer agricultores familiares que vivem no território do Médio Sertão de Alagoas.
A tecnologia, que é de domínio público, vem sendo desenvolvida desde a década de 1980. A princípio, a Embrapa Semiárido foi a responsável pelo projeto, incluindo seu modelo atual e algumas modificações, como o uso de lona plástica em vez de pedras e cimento. A partir de 2007, a Embrapa Solos, por meio de sua Unidade de Execução de Pesquisa e Desenvolvimento do Recife ( UEP Recife ), passou a desenvolver ações de P&D utilizando as barragens subterrâneas para contribuir com a mitigação e o enfrentamento das mudanças climáticas na região.
Projeto GuardeÁgua
O estudo de avaliação de impacto, que vem sendo desenvolvido nas últimas décadas, mostra que os agricultores familiares redesenharam seus agroecossistemas usando barragens subterrâneas e fazendo parte de diversos projetos ligados à tecnologia. No entanto, o relatório do estudo enfatiza que essa tecnologia social requer que as equipes de especialistas ajudem constantemente os agricultores que a adotam.
Nesse sentido, o projeto GuardeÁgua foi elaborado em julho de 2023, no estado de Alagoas, a partir da demanda dos agricultores locais, pela Embrapa Solos e parceiros – como a Articulação Semiárido Brasileiro ( ASA Alagoas ), representada pelo Centro de Apoio Comunitário de Tapera em União a Senador (Cactus), Centro de Desenvolvimento Comunitário de Maravilha (Cdecma), Associação de Agricultores Alternativos (Aagra) e Instituto Terra Viva (ITViva); Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Alagoas ( Faeal ) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural ( Senar-AL ). O objetivo é codesenvolver e aprimorar sistemas de gestão de água, solo e plantio para aumentar a sustentabilidade dos agroecossistemas com barragens subterrâneas no estado de Alagoas, fortalecendo a reprodução social, econômica e ecológica dos agricultores familiares residentes no Semiárido gaúcho. , permitindo-lhes ser menos dependentes de políticas compensatórias.
Desde 2007, a UEP Recife desenvolve pesquisas no Semiárido Alagoano com agricultores experimentais, uma rede de parceiros da sociedade civil, governo e terceiro setor, com o objetivo de prevenir a fome e acabar com a pobreza por meio da tecnologia social de barragens subterrâneas, que promove melhor uso e acesso à água.
O GuardeÁguais, com conclusão prevista para maio de 2026, está sendo desenvolvido em comunidades difusas em territórios do baixo, médio e alto Semiárido alagoano, para e com agricultores que sejam referência e lideranças reconhecidas pelas comunidades. Eles devem ser vistos como multiplicadores irradiadores das inovações tecnológicas desenvolvidas
“Contamos com a consolidação e participação ativa de uma rede sociotécnica que espera capacitar agricultores locais, planejando e implementando estratégias para fortalecer espaços solidários com autogestão e protagonismo das famílias. Essa rede de instituições prevê estratégias metodológicas, tecnológicas e práticas que viabilizarão a inclusão socioprodutiva das famílias e da comunidade”, detalha Maria Sonia Lopes da Silva , pesquisadora da UEP Recife e líder do projeto.
O pesquisador ressalta que, além do investimento do Sistema de Gestão da Embrapa, o projeto busca recursos do governo federal, do governo do estado de Alagoas e das prefeituras, por meio de programas sociais e políticas públicas, além de emendas parlamentares e fontes de financiamento para projetos de pesquisa e desenvolvimento e parcerias com o terceiro setor.
Os agricultores exigiram o projeto
A região Semiárida do estado de Alagoas é composta por 38 municípios, sendo caracterizada por frequentes ausências, escassez e alta variabilidade espacial e temporal de precipitação pluviométrica, com média anual entre 400 e 800 mm, e valores médios de evapotranspiração entre 1.400 e 1.500 mm.
Pesquisadores e técnicos do projeto afirmam que a implantação de tecnologia social de captação e armazenamento de água da chuva para usos múltiplos vem aumentando nos últimos anos, por meio de programas governamentais e iniciativas individuais de agricultores, buscando inclusão socioprodutiva para geração de renda, valor, autonomia e dignidade das famílias agricultoras locais.
“A barragem subterrânea é uma tecnologia hídrica social já validada pelas comunidades do Semiárido Alagoano, mas ainda precisamos enfrentar alguns desafios, principalmente quanto ao local adequado para implantação da tecnologia e uso e manejo da água, do solo e das culturas”, afirma Maria da Paz Souza Pimentel, coordenadora institucional da Cactus.
Maria Sonia da Silva explica que a Embrapa já resolveu o problema de locais apropriados para barragens subterrâneas no projeto ZonBarragem Alagoas em 2019. A Embrapa elaborou e entregou ao governo estadual oito mapas de áreas potenciais apropriadas para barragens subterrâneas. “No início de 2020, a Embrapa Solos foi solicitada por agricultores locais, representados pela Cactus, a desenvolver em conjunto pesquisas para definir práticas agrícolas de base ecológica, bem como a cocriação de ferramentas digitais para ajudar a definir áreas potenciais para construção de barragens. Essa ideia surgiu com o projeto GuardeÁgua”, comenta Flávio Adriano Marques, coordenador técnico da UEP Recife.
Segundo Antônio Gomes Barbosa, coordenador do Programa P1 +2 da ASA, o alto risco de variações climáticas no bioma Caatinga é outro desafio que justifica estudos sobre práticas de armazenamento de água no solo e cultivos adequados, contribuindo para a inclusão produtiva de famílias agricultoras para o enfrentamento do ambiente Semiárido.
Leia mais sobre o projeto GuardeÁgua clicando aqui .

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Resultados de pesquisa fortalecem a tomada de decisão no campo
Iniciativas da Aprosoja MT e do Iagro MT, auxiliam produtores com dados técnicos para manejo, redução de riscos e aumento da eficiência produtiva.

A pesquisa tem papel fundamental na tomada de decisões no campo, especialmente em momentos estratégicos como o atual, em que a segunda safra de milho já está em desenvolvimento. É nesse período que o produtor acompanha o desempenho da lavoura, observa os impactos das escolhas feitas no plantio e no manejo, e começa a avaliar, de forma mais concreta, o que está funcionando e o que pode ser ajustado.
Nesse cenário, os centros tecnológicos (CTECNOS), iniciativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), em parceria com o Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT), ganham ainda mais relevância ao aproximar o produtor da informação técnica.

Foto: Divulgação
Os trabalhos desenvolvidos nos CTECNOS se destacam como importantes aliados ao oferecerem dados técnicos comparativos e resultados de pesquisas aplicadas à realidade do campo. As informações geradas nesses espaços contribuem para orientar decisões ainda durante a safra, além de servirem como base para o planejamento do próximo ciclo, com foco em maior eficiência produtiva, redução de riscos e melhor aproveitamento dos recursos.
O vice-presidente oeste, Gilson Antunes de Melo, ressalta que a agricultura mato-grossense se destacou e continua se destacando, em grande parte, devido à pesquisa. Tanto no milho quanto na soja, assim como em outras culturas, grande parte da tecnologia aplicada no dia a dia da lavoura é resultado de estudos e pesquisas desenvolvidas.
“Os CTECNOS têm um papel fundamental nesse processo. Eles realizam uma pesquisa diferenciada, pois partem das demandas do próprio produtor. Quando surge uma dúvida no campo, essa necessidade é levada ao CTECNO, que, por meio de estudos, valida e retorna os resultados ao produtor. Dessa forma, há maior confiança nas informações apresentadas, o que facilita a adoção das práticas na lavoura e contribui para a obtenção de melhores resultados”, destaca Gilson.

Foto: Jaelson Lucas/AEN
O coordenador do CTECNO Araguaia, André Somavilla, explica que o período de colheita da soja é fundamental para o potencial produtivo da lavoura do milho. Ele destaca que, se a soja for semeada de forma mais tardia, fazendo com que a colheita avance para os meses de fevereiro/março, consequentemente a entrada da cultura do milho também ocorrerá mais tarde.
“Basicamente, o período vegetativo do milho vai corresponder ao período em que ainda há ocorrência de chuvas, que, em anos normais, se estende até início de abril. Então, o período de colheita da soja impacta diretamente na disponibilidade hídrica para a segunda safra. E a pesquisa se encaixa perfeitamente nesse momento de colheita da soja e plantio da segunda safra, de modo que a gente consegue estimar os potenciais de risco para cada região”, complementa o coordenador.

Foto: Divulgação
Para a pesquisadora do CTECNO Parecis, Daniela Basso Facco, os resultados obtidos nos centros de pesquisa, ajudam os produtores desde o planejamento da lavoura até a fase de condução dos tratos culturais. “Desde a semeadura, os resultados das vitrines de híbridos, por exemplo, podem auxiliar os produtores na escolha do híbrido, no posicionamento em função do ambiente e da época de semeadura”, explica Daniela Basso Facco.
Neste mês, a programação dos CTECNOS ganha reforço com a realização das visitas técnicas nos centros Araguaia e Parecis. Os encontros acontecem nos dias 23 e 29 de abril, respectivamente, e serão uma oportunidade para que produtores e profissionais do agro acompanhem de perto os resultados das pesquisas e levem esse conhecimento para a prática no campo.
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Gramíneas elevam produtividade da soja em até 15% no Brasil
Estudo com 55 pesquisas em 33 localidades aponta ganhos de até 515 kg por hectare e melhora na saúde do solo.

Uma análise em escala nacional confirmou o potencial das gramíneas tropicais de raízes profundas, como a braquiária, para impulsionar a produtividade da soja e promover a saúde do solo. O estudo, liderado pela Embrapa e publicado na Revista Agronomy, consolida evidências de diferentes pesquisas realizadas no Brasil e reforça o papel dessas plantas na intensificação sustentável da agricultura.

Foto à direita: Lourival Vilela (sistema radicular de braquiária)
As informações foram obtidas a partir de uma meta-análise conduzida por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF), em parceria com a Embrapa Solos (RJ), o Instituto Federal Catarinense (IFC) e a Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR). A meta-análise é um método científico que reúne e analisa resultados de diversos estudos sobre um mesmo tema, permitindo conclusões mais robustas.
“As gramíneas tropicais estão cada vez mais presentes nos sistemas agrícolas brasileiros. No entanto, ainda faltava uma avaliação em escala nacional sobre os impactos dessa prática na saúde do solo e na produtividade da soja. Realizamos esse trabalho para cobrir essa lacuna”, afirmou a pesquisadora da Embrapa Cerrados Ieda Mendes.
Segundo Mendes, a meta-análise publicada na revista Agronomy utilizou 55 trabalhos publicados até fevereiro de 2026 (confira critérios de inclusão no quadro abaixo), abrangendo ensaios de campo conduzidos em 33 localidades no Brasil. O objetivo foi avaliar os efeitos de gramíneas tropicais de raízes profundas, utilizadas como culturas antecessoras (plantas cultivadas antes da implantação da cultura principal anual), sobre indicadores biológicos da saúde do solo e a produtividade da soja.
Resultados
Os resultados mostraram que as gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente do gênero Urochloa (antes chamado Brachiaria, que originou o termo braquiária), promovem aumento de 15% na produtividade da soja, o que representa um incremento médio de 515 kg por hectare e uma receita adicional de US$ 198 por hectare. A análise de diferentes espécies forrageiras, sistemas de manejo, cultivares de soja e condições edafoclimáticas indicou efeitos positivos em todas as situações avaliadas.
No caso das braquiárias, considerando que são utilizados de 3 a 10 kg por hectare de sementes para o seu estabelecimento, com preço médio de três dólares por quilo, o custo para sua introdução nos agroecossistemas é relativamente baixo, variando entre US$ 9 e US$ 30 por hectare.
De acordo com a pesquisadora, os indicadores de saúde do solo nas áreas cultivadas com as braquiárias também apresentaram incrementos expressivos, com destaque para a atividade das enzimas arilsulfatase (+35%) e β-glicosidase (+31%), seguidas pela fosfatase ácida (+20%), e pelo carbono da biomassa microbiana (+24%) e carbono orgânico (+11%).

Efeito de gramíneas tropicais de raízes profundas como culturas antecessoras, na produtividade de grãos de soja e atributos do solo (atividade enzimática, biomassa microbiana e carbono orgânico total). Os valores representam as médias dos efeitos, e as barras horizontais indicam os intervalos de confiança de 95%, com o número de comparações apresentado entre parênteses. Os círculos pretos indicam a média do efeito para cada variável. A área em verde destaca a produtividade de grãos de soja como a principal variável de resposta agronômica
“De forma geral, as enzimas do solo responderam com maior intensidade ao uso de gramíneas tropicais, com aumentos médios de cerca de 31% — quase três vezes superiores aos observados para o carbono orgânico. Esse resultado reforça o potencial dessas enzimas como indicadores sensíveis das mudanças na saúde do solo. É importante destacar que durante a busca na literatura foram identificadas publicações sobre os efeitos das gramíneas tropicais nos atributos químicos e físicos do solo. No entanto, devido ao baixo número de comparações disponíveis, esses estudos não puderam ser incluídos na meta-análise”, explicou a pesquisadora.
Das 55 publicações avaliadas, nenhuma corresponde ao período entre 2000 e 2010. Dezoito estudos foram publicados entre 2011 e 2020, enquanto 37 foram publicados entre 2021 e 2025. Esse aumento expressivo ao longo do tempo reflete o crescente interesse pelo uso de gramíneas de raízes profundas na agricultura brasileira.
Outro dado relevante é que, de um total de 173 comparações avaliadas, 154 apresentaram ganhos de produtividade, variando de 30 a 2.200 kg por hectare. Apenas 19 comparações (11%) indicaram reduções, com perdas entre 11 e 672 kg por hectare. Na maioria dos casos, essas reduções não foram estatisticamente significativas e estavam associadas a falhas de manejo no estabelecimento das gramíneas.
Segundo a pesquisadora, os resultados confirmam os efeitos benéficos das gramíneas tropicais de raízes profundas e destacam sua contribuição para a intensificação sustentável dos sistemas agrícolas tropicais, especialmente pela capacidade de melhorar a saúde do solo. “Isso, por sua vez, resulta no aumento da produtividade da soja na maioria das condições agronômicas e ambientais”, afirmou.
Implicações para a intensificação sustentável
De acordo com a pesquisadora, essa meta-análise forneceu evidências robustas de que gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente espécies do gênero Urochloa, devem ser reconhecidas não apenas como plantas de cobertura, mas como poderosos insumos biológicos em sistemas agrícolas regenerativos e conservacionistas.
“Sua capacidade de fornecer múltiplos serviços ecossistêmicos — como a promoção da atividade microbiana, a melhoria da agregação do solo e da ciclagem de nutrientes, o aumento dos estoques de carbono orgânico e a maior infiltração de água — posiciona essas gramíneas na vanguarda das soluções baseadas na natureza para a intensificação sustentável”, afirma.
Nesse contexto, essas gramíneas funcionam como bioinsumos vivos, capazes de regenerar simultaneamente a saúde do solo e aumentar a produtividade das culturas. Segundo Ieda Mendes, essa abordagem amplia o conceito de bioinsumos: passa a incluir não apenas produtos formulados, mas também organismos vivos como as plantas, que interagem com os agroecossistemas para promover resiliência, eficiência e sustentabilidade.
“A adoção em larga escala dessas gramíneas como culturas antecessoras em sistemas de produção de soja representa, portanto, não apenas uma solução tecnológica, mas um investimento estratégico no solo como um ativo vivo, que reforça o papel central da funcionalidade biológica na promoção da sustentabilidade, da produtividade e da resiliência dos agroecossistemas”.
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Itaipu avalia potencial de ampliar geração com energia solar no reservatório
Estudos indicam capacidade teórica relevante ainda dependente de avanços técnicos regulatórios.

O reservatório de água da usina de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, na Região Sul do país, possui cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados (km²) de perímetro, com quase 170 km de extensão, desde a barragem até o lado oposto, e uma largura média de 7 km entre as margens direita e esquerda.

Toda a capacidade hidrelétrica contida na área inundada do Rio Paraná, que move turbinas que geram até 14 mil megawatts (MW) de energia elétrica, também pode ser aproveitada para gerar eletricidade a partir de painéis solares instalados justamente sobre o espelho d’água. Esse é o experimento que vem sendo estudado por técnicos brasileiros e paraguaios desde o fim do ano passado.
Ao todo, foram instalados 1.584 painéis fotovoltaicos em uma área de menos de 10 mil metros quadrados (m²) sobre o lago, a apenas 15 metros de um trecho da margem no lado paraguaio, com profundidade de aproximadamente 7 metros.
A planta solar de Itaipu tem capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), unidade de medida para a capacidade máxima de geração de energia. Essa energia é equivalente ao consumo de 650 casas e só é utilizada para consumo interno, sem comercialização e sem ligação direta com a rede de geração hidrelétrica.
Na prática, o objetivo atual da “ilha solar” de Itaipu é funcionar como um laboratório de pesquisa para futuras aplicações comerciais. Os engenheiros envolvidos no projeto analisam todos os aspectos, como a interação das placas com o ambiente, incluindo eventuais impactos no comportamento de peixes e algas, na própria temperatura da água, influência dos ventos sobre o desempenho do painéis, a estabilidade da estrutura, dos flutuadores e da ancoragem com o solo.
A ideia, no futuro, é expandir a geração de energia elétrica por esta via, algo que precisará ser atualizado no próprio Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre Brasil e Paraguai e que viabilizou a colossal obra de engenharia compartilhada. “Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa”, apontou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.
Estimativas preliminares indicam que seriam necessários pelo menos quatro anos de tempo de instalação para atingir uma geração solar de 3 mil megawatts (algo como 20% da capacidade instalada da hidrelétrica atualmente).
O investimento é de US$ 854,5 mil (cerca de R$ 4,3 milhões na cotação atual). As obras de instalação foram tocadas por um consórcio binacional formado pelas empresas Sunlution (brasileira) e Luxacril (paraguaia), vencedor da licitação.
Uma usina, muita fontes
A diversificação de fontes de energia na Itaipu Binacional não se limita aos estudos em energia solar, mas envolve projetos ousados com hidrogênio verde e baterias.
Essas iniciativas estão em desenvolvimento no Itaipu Parquetec, um ecossistema de inovação e tecnologia, criado em 2003 pela Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu (PR). Conta com parceria de universidades e empresas públicas e privadas e já formou mais de 550 doutores e mestres em diferentes áreas.
Ali, funciona o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, que desenvolve o hidrogênio verde. O hidrogênio é denominado “verde”, ou sustentável, porque ele pode ser obtido sem emissão de gás carbônico (CO₂), causador do efeito estufa e, por consequência, do aquecimento global.
A técnica usada no Itaipu Parquetec é o processo da eletrólise da água, que promove a separação dos elementos químicos a partir de moléculas como a da água (H₂O), por meio do uso de equipamentos em processos químicos automatizados feitos em laboratórios.
O hidrogênio verde é versátil e pode servir como insumo sustentável para a cadeia de produção industrial, incluindo siderúrgica, química, petroquímica, agrícola, alimentícia entre outras, e como combustível para o mercado de energia e transporte. Em Itaipu, uma planta de produção do hidrogênio verde serve como uma plataforma para desenvolvimento de projetos-piloto.
“Nós somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para atender, por exemplo, projetos de pesquisa [científica] ou projetos para indústria nacional. Existem algumas empresas nacionais que estão fazendo seus desenvolvimentos de carreta [movida] a hidrogênio, de ônibus a hidrogênio, por exemplo. Aqui é o lugar para testar e validar esses projetos”, explica Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec.
Uma dessas iniciativas foi apresentada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, quando um barco movido a hidrogênio, a partir de uma pesquisa no Itaipu Parquetec, foi entregue para atuar na coleta seletiva das comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense.
Outro destaque no Itaipu Parquetec é um centro de gestão energética, que alavanca pesquisas na área de desenvolvimento de células e protótipos para fabricação e reaproveitamento de baterias, para o armazenamento de energia, especialmente em sistemas estacionários, voltados para empresas ou outras estações fixas, que demandam, por exemplo, uma reserva energética.
Biogás e SAF
A Itaipu também vem apostando na geração de biogás a partir de resíduos orgânicos gerados pelos restaurantes espalhados por diferentes alas da usina e de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA-Vigiagro), em fiscalização de fronteira.
Tudo isso, em vez de ser descartado em aterro, transforma-se em biogás e biometano.
A convite da Itaipu Binacional, a Agência Brasil acompanhou, no último dia 13 de abril, a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis que fica no complexo da usina. O local é gerido pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), uma empresa fundada por Itaipu voltada a soluções na área de combustível limpo.
Por um processo de biodigestão realizado em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos gerados na região são transformados em combustível limpo, capaz de abastecer carros que circulam dentro de Itaipu, abastecidos por meio de cilindros de gás instalados nos veículos.
Em quase nove anos de operação, segundo a usina, foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, volume que resultou na geração de biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros, o equivalente a 12 voltas ao redor da Terra.
A planta também desenvolve, de forma experimental, o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser usado na produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação, na sigla em inglês).
“Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento”, destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.





