Avicultura
Avicultura brasileira enfrenta desafios e mantém crescimento apesar de obstáculos internacionais
Produção e exportação seguem firmes com margens positivas e protocolos fortalecidos.

Após um primeiro trimestre bastante positivo para a avicultura de corte, com preços fortalecidos e custos relativamente controlados, sustentando as boas margens observadas no ano passado, foi detectado, em meados de maio, o primeiro caso de gripe aviária no sistema de produção comercial do Brasil, em uma granja de matrizes localizada em Montenegro (RS).
Apesar dos impactos, o evento não foi uma grande surpresa, dado que, nos dois anos anteriores, já haviam sido registrados mais de 170 casos em aves silvestres. Esse episódio exigiu a adoção de auto embargos às exportações brasileiras por alguns mercados com protocolos que exigem tal medida, como China e União Europeia.

Foto: Freepik
Até a última semana de junho, momento em que este texto foi escrito, mais de uma dezena de países ainda mantinham restrições à carne de frango brasileira, mesmo com o caso do RS já oficialmente encerrado. Isso ocorreu após o cumprimento dos 28 dias de vazio sanitário e desinfecção da granja, com reconhecimento ratificado pela Organização Mundial de Saúde Animal (Omsa), que restabeleceu o status de livre de gripe aviária ao país. Contudo, esse reconhecimento não implica desbloqueio imediato, mas fortalece as negociações para reabertura dos mercados, o que acreditamos que não deverá demorar a acontecer.
Vale lembrar que, há um ano, um episódio de doença de Newcastle também resultou em bloqueios por diversos países. Embora o Brasil tenha sido reconhecido novamente como livre da doença pela OMSA em outubro, alguns países, com destaque para a China, levaram até sete meses para retirar completamente as restrições.
Apesar desses obstáculos, apenas em agosto de 2024 as exportações in natura registraram uma queda mais significativa em relação ao ano anterior, com recuo de 13,3%. No fim, o ano de 2024 terminou com volume de embarques bastante semelhante ao de 2023. O preço doméstico praticamente não caiu, enquanto os preços de exportação subiram, impulsionados por um cenário internacional de menor oferta, devido a casos de gripe aviária na Europa e nos Estados Unidos, e à redução da produção na Ucrânia. De forma geral, os impactos foram limitados e rapidamente revertidos.
Desta vez, os efeitos observados nos 45 dias após o caso, 16 de maio a 30 de junho, incluem uma redução nas exportações in natura (maio de 2025 vs. maio de 2024: -13,4%; junho de 2025 até a 3ª semana vs. junho de 2024: -21,6%), além da perda de sustentação dos preços no mercado interno, com recuo de 16% no atacado. O mercado doméstico não foi capaz de absorver o excedente sem ajustes nos preços. Vale dizer, que, apesar do maio fraco, o total exportado in natura e industrializado nos cinco primeiros meses do ano foi 4,7% maior sobre o mesmo período do ano anterior.
Exportações de carne de frango e Preço da ave abatida em São Paulo

O paralelo com o episódio de Newcastle é válido especialmente pela lentidão de reabertura por parte dos mesmos países importadores. No entanto, a gripe aviária desperta maior preocupação com a saúde humana, o que pode gerar reações mais cautelosas e lentas. Além disso, a doença de Newcastle é mais rara globalmente, enquanto a H5N1 e suas variantes são altamente transmissíveis entre aves e endêmicas em várias regiões.

Apesar do impacto, há alguns fatores atenuantes. O principal é o fato de o surto ter se restringido, até o momento, a um único caso em granja comercial, o que demonstra eficiência dos protocolos de biosseguridade, e não falhas generalizadas. Outro ponto relevante é que, ao contrário de episódios anteriores em bovinos (como febre aftosa em 2005 e 2006 e encefalopatia espongiforme bovina em 2012 e 2021), neste caso, as ações de detecção, notificação e contenção da gripe aviária foram rápidas e transparentes, o que transmite maior confiança aos parceiros comerciais.
O bom momento das margens observado até o surgimento do caso também aumenta a capacidade de absorção dos impactos pelo setor, o que atua como mitigante. Mesmo em junho, apesar da queda de preços no mercado interno, o spread permaneceu próximo da média histórica. Do lado dos custos, a consolidação de uma safrinha de milho robusta reduz a chance de nova disparada nos preços do cereal, como a observada entre agosto do ano passado e março deste ano. O cenário atual é mais favorável sob a ótica dos compradores.
Quanto ao farelo de soja, a tendência é de continuidade da pressão sobre os preços, devido às boas safras no Brasil e na Argentina e ao aumento do esmagamento para atendimento ao programa de biodiesel no Brasil. Isso eleva a oferta do subproduto e limita a alta de preços, mesmo com a perspectiva positiva para o consumo de ração animal.
Custos, preços e spread do frango abatido


Avicultura
Queda no preço dos ovos reduz poder de compra de avicultores em abril
Mesmo com insumos mais baratos, recuo mais intenso nas cotações dos ovos pressionou a relação de troca, segundo o Cepea.

O poder de compra dos avicultores paulistas frente aos principais insumos da atividade, milho e farelo de soja, recuou na parcial de abril (até o dia 22), após registrar avanço por dois meses consecutivos.
Segundo pesquisadores do Cepea, embora os preços dos insumos também tenham diminuído entre março e a parcial deste mês, a queda mais intensa dos ovos pressionou a relação de troca frente ao cereal e ao derivado da oleaginosa.
De acordo com o Centro de Pesquisas, a combinação de oferta mais elevada e demanda retraída tem pressionado as cotações dos ovos nesta parcial de abril.
Neste contexto, consumidores seguem atentos ao avanço da colheita da safra verão, à melhora do clima para o desenvolvimento da segunda safra e à forte queda do dólar, negociando apenas de forma pontual, quando há necessidade de recomposição de estoques ou quando vendedores aceitam patamares menores.
Avicultura
Salmonella expõe limites de coordenação da cadeia avícola
Persistência da bactéria revela falhas de integração entre áreas e reacende debate sobre gestão centralizada do problema dentro das agroindústrias.

A avicultura brasileira construiu, ao longo das últimas décadas, um dos sistemas sanitários mais organizados entre os grandes produtores globais. Protocolos, monitoramentos e rotinas estão bem estabelecidos em praticamente todas as etapas. Ainda assim, um dado insiste em permanecer: a Salmonella segue presente. Não por ausência de controle, mas, cada vez mais, por limites na forma como esse controle se articula ao longo da cadeia.
Foi nesse ponto que o médico-veterinário Marcos Dai Pra concentrou sua análise durante o Seminário Facta sobre Salmonelas, realizado em 19 de março, em Toledo (PR). Ao reunir dados de campo acumulados ao longo de anos dentro da agroindústria, ele trouxe uma leitura direta: o problema não está concentrado em um elo específico, mas está distribuído.

Médico-veterinário Marcos Dai Pra durante o Seminário Facta sobre Salmonelas – Foto: Giuliano De Luca/OP Rural
“Qual é a origem da Salmonella que aparece no frango de corte? A gente tem transmissão vertical, transmissão horizontal, mas a grande dificuldade está justamente em entender essa relação”, afirmou. Embora a transmissão vertical ainda exista, Dai Pra destacou que a maior pressão sanitária hoje vem da transmissão horizontal, que ocorre dentro da própria granja e no ambiente ao redor. “É contaminação lá na granja, que é o grande problema”, disse.
Segundo ele, o desafio não está apenas dentro dos galpões. Tudo o que circunda a produção interfere diretamente nos índices sanitários. “Tudo que está no entorno da granja acaba influenciando nos índices de Salmonella”, pontuou, citando presença de outros animais, lavouras e estruturas próximas como fatores de risco. De acordo com o palestrante, essa característica difusa da contaminação dificulta a rastreabilidade precisa das origens e reforça a necessidade de abordagem sistêmica.
Controle existe, mas dados ainda são fragmentados
Um dos pontos mais críticos levantados na palestra foi a fragmentação das informações ao longo da cadeia produtiva. Cada área, como fábrica de ração, granja, transporte e abatedouro, realiza seus próprios monitoramentos. No entanto, essas informações nem sempre convergem de forma estruturada. “Com esse conjunto de informação, a gente consegue trabalhar muito bem o programa de controle”, afirmou, ao apresentar resultados internos. Ainda assim, a fala revela um ponto implícito: os dados existem, mas nem sempre estão conectados.
Para ele, essa desconexão limita a eficiência das ações e ajuda a explicar por que a Salmonella persiste mesmo em sistemas altamente tecnificados.
Biosseguridade vai além do galpão
Dai Pra detalhou a estrutura operacional das granjas em três níveis: interior do aviário, zona de segurança (dentro do cercado) e área externa. Todos, sem exceção, influenciam os resultados sanitários. “Tudo isso tem uma grande interferência”, ressaltou.
Ele reforçou que medidas básicas continuam sendo decisivas: controle de acesso, troca de calçados, barreiras sanitárias e manutenção de áreas limpas, sem abrigo para pragas. “Tem que ter uma barreira sanitária, tem que ter uma cerca, não pode passar nada direto de fora para dentro”, destacou.
Intervalo sanitário curto aumenta risco
Entre os pontos mais sensíveis da palestra está o intervalo sanitário — período entre a saída de um lote e a entrada do próximo. “Na minha opinião, o desejável seria 18 dias”, afirmou. Na prática, no entanto, esse tempo raramente é alcançado. O próprio palestrante reconheceu a limitação estrutural do setor. “Nas condições de hoje é praticamente impossível conseguir 18 dias.”
Ele alertou que trabalhar com menos de 12 dias já compromete o controle adequado e que ciclos ainda mais curtos elevam significativamente o risco sanitário. “Com oito dias é crítico. Não tem como fazer um controle adequado.”
Cama, ambiência e manejo
Outro eixo importante da apresentação foi o papel da cama e da ambiência dentro do aviário. O frango passa praticamente toda sua vida em contato direto com esse ambiente, o que transforma a qualidade da cama em um fator central. “Se a cama tem boa qualidade, o frango vai ter boa qualidade. E o contrário também é verdadeiro”, explicou. Ventilação, umidade e execução dos procedimentos completam esse conjunto de fatores que impactam diretamente o status sanitário.
Cascudinho e roedores
Entre os vetores, o cascudinho aparece como um dos principais desafios. Dados apresentados por Dai Pra indicam alta taxa de positividade para Salmonella nesse inseto. “O cascudinho, disparadamente, é o elemento que tem mais problema”, afirmou.
O controle de pragas, segundo ele, precisa seguir etapas bem definidas – da inspeção à avaliação – e não pode ser tratado como ação isolada.
Mudança de prática reduziu índices
Um dos pontos mais relevantes da palestra foi a revisão de um procedimento tradicional: o uso de água no intervalo sanitário. “A gente só conseguiu reduzir os índices de Salmonella quando abandonou o uso de água no intervalo sanitário”, afirmou. A mudança, segundo ele, não foi simples dentro da agroindústria, mas trouxe resultados consistentes.
Dia zero
Dai Pra também apresentou o conceito de “dia zero” – etapa inicial do processo, quando o aviário é fechado, baseada em diagnóstico, definição de ações e avaliação de resultados. “É diagnóstico, ação e resultado”, resumiu. O uso de mapeamentos epidemiológicos permite identificar pontos críticos dentro da granja e direcionar intervenções com maior precisão.
Problema exige coordenação
Ao longo da palestra, ficou evidente que o controle da Salmonella já é tecnicamente conhecido. O que está em jogo agora é a capacidade de coordenar essas ações dentro de um sistema complexo. A dispersão do problema entre ambiente, manejo, nutrição, pragas e logística indica que soluções isoladas tendem a perder eficiência.
Por isso, ganha força dentro do setor a discussão sobre a necessidade de uma gestão mais integrada, capaz de conectar dados e decisões ao longo de toda a cadeia produtiva. Mais do que novos protocolos, na opinião de Dai Pra, o desafio passa a ser articulação.
Avicultura
Vigilância e biosseguridade definem a linha de defesa contra a Influenza aviária, aponta FAO
Documento técnico detalha como monitoramento contínuo, resposta rápida e integração entre saúde animal e humana reduzem o risco de disseminação do vírus nas granjas.

A Influenza aviária segue como uma das principais ameaças sanitárias à avicultura mundial, com potencial de provocar mortalidade elevada nos plantéis, embargos comerciais e impactos diretos na renda dos produtores. Em documento técnico recente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura sistematiza recomendações práticas para vigilância, prevenção e controle da doença, com foco na detecção precoce e na contenção rápida de focos.

A base da estratégia, segundo a entidade, está na vigilância contínua. Isso inclui monitoramento ativo em granjas comerciais, criações de subsistência e mercados de aves vivas, além da observação de aves silvestres, especialmente migratórias, que podem atuar como reservatórios do vírus. A eficácia desse sistema depende de notificação imediata de sinais clínicos suspeitos e de capacidade laboratorial para diagnóstico rápido e confiável.
A biosseguridade aparece como o principal filtro para impedir a entrada do vírus nas propriedades. O controle rigoroso de acesso de pessoas, veículos e equipamentos, a separação física entre aves domésticas e silvestres, a desinfecção sistemática de instalações e o manejo correto de resíduos e carcaças são medidas consideradas críticas. A origem da água e da ração também é citada como ponto sensível.
Quando há suspeita ou confirmação da doença, a orientação é agir sem atraso: isolamento imediato da propriedade, abate sanitário das aves infectadas e expostas, desinfecção completa das instalações e restrição de movimentação na área afetada. A comunicação rápida entre produtores e autoridades sanitárias é tratada como componente operacional do controle.
A vacinação é descrita como ferramenta complementar, aplicável conforme o cenário epidemiológico local. A decisão de utilizá-la deve considerar a circulação do vírus, a capacidade de monitorar a eficácia da imunização e os possíveis efeitos sobre o comércio internacional.
O documento também reforça a dimensão transfronteiriça da Influenza aviária. O compartilhamento de dados epidemiológicos e laboratoriais entre países é apontado como condição para respostas regionais mais eficazes. Algumas cepas do vírus podem infectar humanos, o que exige integração entre saúde animal e saúde pública dentro do conceito de Uma Só Saúde.
Para a FAO, sistemas de vigilância bem estruturados, protocolos rígidos de biosseguridade e coordenação entre os diferentes níveis do serviço veterinário oficial são os elementos que determinam a capacidade de um país em reduzir riscos sanitários, econômicos e de saúde pública associados à Influenza aviária.



