Conectado com

Notícias No Paraná

Avaliação participativa da qualidade do solo pelos agricultores contribui na sustentabilidade da produção agropecuária paranaense

Intensificação da produção agrícola, em especial a monocultura, o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas, o desmatamento e as mudanças climáticas têm causado degradação do solo e da água, o que pode levar à diminuição da produtividade agrícola, à escassez hídrica, à perda da biodiversidade e à emissão de gases de efeito estufa.

Publicado em

em

Foto: Divulgação/Nepar

A necessidade de desenvolver sistemas de manejo que promovam o equilíbrio entre a qualidade do solo e a produção de alimentos é cada vez mais desafiador. Neste aspecto, a extensão rural tem um papel fundamental ao aplicar o conceito de qualidade do solo de forma participativa, com o intuito de garantir a sustentabilidade da produção agropecuária.

Este conceito está relacionado à ideia de que a gestão e conservação do solo deve ser feita de forma que envolva todos os interessados no uso do solo, incluindo agricultores, extensionistas, técnicos, comunidade, entre outros atores.

A abordagem participativa busca criar um diálogo aberto e transparente entre os participantes, reconhecendo e valorizando seus conhecimentos e experiências para promover a tomada de decisão conjunta. O objetivo é desenvolver práticas e estratégias de manejo do solo que sejam socialmente justas, ambientalmente competitivas e economicamente viáveis.

Entretanto, a intensificação da produção agrícola, em especial a monocultura, o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas, o desmatamento e as mudanças climáticas têm causado degradação do solo e da água, o que pode levar à diminuição da produtividade agrícola, à escassez hídrica, à perda da biodiversidade e à emissão de gases de efeito estufa.

É aí que entra o importante trabalho desenvolvido pela extensão rural, que tem por objetivo comunicar ao produtor rural os conhecimentos gerados pela pesquisa. Isto é, levar informações, tecnologias e técnicas atualizadas aos agricultores, pecuaristas e demais membros da comunidade rural, a fim de que possam aplicá-las em suas atividades e melhorar sua produção e renda.

Para minimizar os problemas relacionados ao solo paranaense, como a erosão, por exemplo, extensionistas têm abordado a relevância da adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como a cobertura do solo, a formação de palhadas, a rotação de culturas e o não revolvimento do solo.

Para isso, os produtores rurais do estado do Paraná vêm participando de oficinas sobre a avaliação participativa da qualidade do solo, uma metodologia utilizada no estado de Santa Catarina, conhecida como “Avaliação participativa da qualidade do Solo em Sistema Plantio Direto de Hortaliças” (SPDH), desenvolvida por professores e pesquisadores da UFSC, Epagri e UDESC (Comin et al., 2020. Guia prático de avaliação participativa da qualidade do solo no Sistema Plantio Direto de Hortaliças, Florianópolis: UFSC, 18 p.) Essa metodologia, apesar de ser nominada para Hortaliças, pode ser aplicada em todos os sistemas produtivos agrícolas com o objetivo de verificar os efeitos positivos e negativos das práticas de manejo na sustentabilidade dos agroecossistemas

O extensionista Júlio Carlos Bitencourt Veiga Silva, especialista e assessor da área de Agroecologia do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), explica que esse trabalho reúne agricultores e técnicos nas oficinas que avaliam e pontuam os indicadores de qualidade do solo, como a estrutura, a compactação, a erosão, os microrganismos, a matéria orgânica, a profundidade de raiz, a retenção de água e a cobertura. “Existe uma tabela com características pré-determinadas para cada um dos indicadores com pontuação de zero a dez”, diz ele.

Júlio Carlos conta que as pontuações são disponibilizadas num gráfico radar, em que a imagem construída facilmente demonstra quais aspectos contribuíram para a condição da qualidade do solo avaliada. “Cada um dos participantes emite uma pontuação para cada indicador. Ao final da dinâmica, debatemos quais as práticas de manejo necessitamos implementar na referida região para obtermos melhorias no solo, para evitar erosão, estresse hídrico, poluição da água, indisponibilidade de nutrientes entre outros tipos de degradação”, explica.

“Hoje, temos uma porcentagem boa de produtores que aderiram a práticas como a rotação de cultura e formação de palhadas, mas precisamos avançar, pois ainda temos muitos problemas com erosão”, afirma Júlio Carlos.

A erosão é um dos um dos processos que vem sendo estudado pela Rede Paranaense de Agropesquisa, em seis mesorregiões. As estações de estudo apresentam megaparcelas com e sem terraço, instaladas em áreas rurais de sete municípios. Assim é possível obter informações hidrossedimentológicas e avaliar como as boas práticas no manejo do solo proporcionam ganhos financeiros, ambientais e sociais não só aos produtores, mas a toda a sociedade.

Esse trabalho de longo prazo trará aos técnicos e produtores uma ferramenta robusta e assertiva no estabelecimento do manejo e controle dos processos erosivos.

Entre as técnicas agrícolas mais indicadas para combater a erosão, o Sistema Plantio Direto ganha relevância pelo seu pioneirismo no Paraná.
As práticas agrícolas baseadas nos três princípios básicos do Sistema Plantio Direto – considerado um dos sistemas agrícolas mais revolucionários do país – envolvem a ausência de revolvimento do solo, cobertura do solo e rotação de culturas. “O que acontece é que a maioria dos agricultores faz a cobertura para um plantio só e acaba revolvendo o solo, isso porque o uso do maquinário no Brasil é cultural, enraizado no comportamento do produtor. Então, a gente não tem uma linearidade”, opina.

Em contrapartida, a avaliação da qualidade do solo com a metodologia participativa tem uma visão sistêmica e não imediatista, ou a curto prazo. Segundo o extensionista, os produtores que estão há pelo menos 5 anos no SPDH já constataram que o solo fica muito mais friável, com boa drenagem e com facilidade para o desenvolvimento radicular das culturas.

“Esse trabalho de avaliação participativa da qualidade do solo vem contribuindo para a construção de soluções mais efetivas e adaptadas às necessidades locais, bem como para o fortalecimento da capacidade dos participantes envolvidos em lidar com os desafios da gestão do solo”, diz Júlio Carlos.

Agricultura familiar adota manejo do solo com sucesso

O engenheiro agrônomo e extensionista do IDR-Paraná, Felipe Youssef Abboud, vem trabalhando a campo, na região de Irati, com assistência e extensão rural atendendo agricultores familiares nas áreas de fruticultura, olericultura e, mais recentemente, erva-mate, tanto na produção convencional como na produção orgânica. Dentro dessas áreas, a importância do manejo e conservação de solos e sua aplicabilidade são abordadas, enfatizando que é fundamental em qualquer cadeia produtiva, pois do seu cuidado vai resultar no sucesso de qualquer produção.

“Ao tratar de manejo e conservação de solo, precisamos incluir a água que faz parte do sistema (solo, água, planta), pois um solo bem cuidado, resultará em água de qualidade e em quantidade para as culturas, animais e para nós, seres humanos”, afirma Felipe.

No manejo e conservação de solo e água estão relacionadas várias práticas entre elas manejo adequado da adubação (tanto mineral quanto orgânica) e dos agroquímicos de modo geral, sistema plantio direto, plantas de cobertura, rotação de culturas, plantio em nível, construção de terraços, e outras práticas se necessário.

“Essas práticas são o foco do nosso trabalho de extensão rural, pois sabemos que um solo mal manejado, não dará o resultado esperado de produção para o agricultor. Além disso, o solo mal manejado vai encarecer o custo produtivo, reduzindo sua rentabilidade, perdendo solo, água e nutrientes, resultando na degradação do mesmo, onde sua recuperação é onerosa e muitas vezes inviável, pois seu uso e aptidão não serão mais os mesmos”, afirma Felipe.

Segundo ele, independente da cultura a ser cultivada (grãos, hortaliças e frutíferas), se o produtor adotar as práticas de manejo e conservação de solo e água preconizadas pela pesquisa, terá sucesso na sua atividade, devido a melhoria da qualidade de solo, o que proporcionará desenvolvimento de plantas saudáveis e menos suscetíveis à incidência de pragas e doenças, atingindo o potencial produtivo esperado com sustentabilidade.

“O solo é um bem finito. Para a natureza formar um centímetro de solo leva algumas centenas de anos, dependemos dele para nossa sobrevivência. O seu cuidado hoje refletirá no futuro das próximas gerações”, ressalta Felipe

Solo saudável impulsiona o potencial produtivo da cultura

Manejar corretamente o solo é uma das principais práticas para o bom cultivo de grãos. Antes mesmo da semeadura, é necessário que o solo esteja em condições ideais para impulsionar todo o potencial produtivo da cultura.

Seguindo à risca essa dica, os extensionistas trabalham com as boas práticas e vários manejos, entre elas, o manejo de solo e água no sistema de produção de grãos. “Todo manejo da produção de grãos acaba refletindo no manejo da conservação de solo”, comenta o engenheiro agrônomo Edvan José Possamai, coordenador Estadual do Programa Grãos Sustentáveis do IDR-Paraná.

O Índice de Qualidade Participativo do Sistema Plantio Direto (IQP) é uma ferramenta de extrema importância que vem sendo adotada em várias regiões do Estado. Trata-se de uma Metodologia Participativa de Avaliação da Qualidade do Sistema Plantio Direto – Índice de Qualidade Participativo (IQP 3) desenvolvida pela FEBRAPDP e Itaipu Binacional em parceria com IDR-Paraná, Embrapa e outros.

Esse indicador auxilia a técnicos e produtores rurais na tomada de decisão com vistas às práticas agrícolas, que levam à melhoria da qualidade do manejo do solo em áreas sob Sistema Plantio Direto. Na avaliação participativa da qualidade do sistema plantio direto, os envolvidos se questionam quanto à forma de produção, ao uso do solo e ao reflexo de suas ações para o solo cumprir adequadamente suas funções.

“Esse trabalho é uma ferramenta importante que vem sendo aplicada em algumas regiões do Paraná e auxilia no monitoramento da qualidade do Sistema Plantio Direto. Por meio dos indicadores de qualidade, pode-se verificar os efeitos negativos ou positivos das práticas de manejo na qualidade do solo”, enfatiza. A região de Toledo, por exemplo, é uma das que realizaram avaliações do Índice de Qualidade Participativo para identificar as boas práticas de manejo de solo implementadas por produtores de grãos paranaenses.

Segundo Possamai, o IDR-Paraná procura fazer um trabalho de referência acerca da conservação do solo. Agricultores que adotam as boas práticas recomendadas pela pesquisa, contribuem para o sistema de produção sustentável e aumento de produtividade. “Temos enfatizado fortemente a rotação de culturas com espécies que produzem boa palhada para uma melhoria de manejo e conservação do solo”, acrescenta.

Ele tem observado que o produtor tem conseguido manejar a água no sistema de produção, um dos principais elementos para o sistema. “Percebemos, que nas últimas safras, a água tem influenciado no aumento ou redução da produtividade”.

Região dos Campos Gerais é referência em manejo sustentável de solo

Pioneira do sistema plantio direto, a região dos Campos Gerais é uma referência de altas produtividades. “Cada vez mais a qualidade do solo é fundamental para o estabelecimento da agricultura sustentável, por isso trabalhamos com análises de enzimas justamente para avaliar melhor a qualidade do solo e não somente fazer uma análise clássica”, explica Gabriel Barth, coordenador de pesquisa na área de solos e nutrição de plantas da Fundação ABC, instituição voltada para pesquisa em agricultura e pecuária, mantida pelo Sistema Cooperativista da Capal, Frísia e Castrolanda.

A instituição trabalha também com manejo de dejetos animais e preservação da água e solo. “O dejeto bem manejado pode ser um grande aliado do produtor”, afirma Barth.

Segundo ele, a região dos Campos Gerais é a que mais respeita os três pilares do sistema plantio direto: não revolvimento do solo, palhada na superfície e rotação de culturas. “O fato de estarmos numa região de clima subtropical traz uma possibilidade maior de rotação de cultura e cobertura de solo”, diz Barth. Podemos ter de duas a três safras por ano usando diferentes culturas.

“Trabalhar a agricultura de forma sustentável é nossa linha mestra na Fundação ABC, que há mais de 30 anos vem inovando e investindo em capacitação técnica de agrônomos, zootecnistas e veterinários para prestar uma boa assistência aos produtores”, pontua Barth, acrescentando que o papel da Fundação ABC é buscar na pesquisa informações para comunicar aos produtores sobre o manejo mais adequado tanto para a pecuária quanto para a agricultura. “Nossas recomendações são no sentido de oferecer o manejo mais correto e sustentável ao produtor”, finaliza.

Saúde do solo influencia na produção de alimentos

Com o aumento da população global até 2050, o mundo terá que elevar a produção de alimentos em 50%, de acordo com estudos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Cada vez mais será necessário produzir com sustentabilidade para garantir a saúde do solo como um recurso natural não-renovável.

Dentro deste contexto, deve-se levar em consideração o quanto as boas práticas conservacionistas do solo podem influenciar na produção de alimentos em um futuro próximo.

Para isso, é preciso destacar a importância de iniciativas que ajudem a avaliar a qualidade do solo, bem como implantar técnica adequada para diferentes culturas agrícolas, pecuárias e florestais, que gerem ganhos significativos na qualidade e conservação do solo, no aumento da produção e renda do produtor.

Fonte: Assessoria

Notícias

Brasil amplia acordos de cooperação com a Coreia do Sul

Intercâmbio técnico, cooperação em sanidade e pesquisa de bioinsumos, buscando tecnologia e sustentabilidade para o campo brasileiro busca ampliar competitividade e fortalecer a produção sustentável.

Publicado em

em

Foto: Caroline de Vita/Mapa

O Ministério da Agricultura e Pecuária assinou, nesta segunda-feira (23), em Seul, dois memorandos de entendimento com o governo da Coreia do Sul voltados ao fortalecimento da cooperação bilateral em agricultura, sanidade, inovação e desenvolvimento rural. Os atos foram celebrados na Casa Azul durante a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país asiático. “A Coreia do Sul é um parceiro estratégico e esta agenda inaugura uma nova etapa de cooperação baseada em confiança, diálogo e complementaridade econômica. Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar”, afirmou o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.

Ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro: “Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar” – Foto: Caroline de Vita/Mapa

O primeiro acordo, firmado entre os ministérios da Agricultura dos dois países, estabelece a ampliação do intercâmbio técnico e institucional com foco em ciência, tecnologia, agricultura digital, segurança alimentar e cadeias de abastecimento. O memorando inclui a cooperação em medidas sanitárias e fitossanitárias (SPS), com previsão de harmonização de normas e troca de informações para avançar em temas de interesse comum.

O documento também prevê cooperação em infraestrutura agrícola, promoção de investimentos, intercâmbio científico e criação de um Comitê de Cooperação Agrícola Brasil-Coreia para acompanhar a implementação das iniciativas conjuntas.

O segundo memorando reúne o Ministério da Agricultura e Pecuária, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Administração de Desenvolvimento Rural da Coreia. O acordo estabelece uma estrutura de cooperação voltada ao registro, avaliação e gestão de agrotóxicos e bioinsumos, além do intercâmbio de informações e desenvolvimento de pesquisas conjuntas.

Foto: Caroline de Vita/Mapa

Entre as ações previstas estão o compartilhamento de dados técnicos, intercâmbio de especialistas, programas de capacitação e realização de workshops e projetos científicos conjuntos.

Os acordos integram a agenda da missão oficial brasileira na Ásia e reforçam a parceria estratégica entre Brasil e Coreia do Sul, com potencial para ampliar o intercâmbio tecnológico, estimular a inovação no campo e fortalecer a cooperação sanitária e regulatória no setor agropecuário.

Fonte: Assessoria Mapa
Continue Lendo

Notícias

Países em desenvolvimento buscam protagonismo na redefinição da ordem econômica mundial

Integração entre economias emergentes mira maior autonomia financeira, tecnológica e comercial.

Publicado em

em

Foto: Divulgação

A defesa de maior articulação entre países em desenvolvimento marcou o encerramento da agenda presidencial na Ásia. Na madrugada deste domingo (22), antes de deixar a Índia rumo à Coreia do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a sustentar que o chamado Sul Global precisa atuar de forma coordenada para alterar a atual estrutura do comércio e das decisões econômicas internacionais.

Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva: “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças” – Foto: Ricardo Stuckert/PR

O argumento central é que economias emergentes enfrentam assimetrias estruturais nas negociações com grandes potências. Segundo ele, acordos bilaterais diretos tendem a reproduzir desequilíbrios históricos, reduzindo a margem de barganha de países menos desenvolvidos. “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças”, afirmou, ao citar Índia, Brasil e Austrália como exemplos de nações que podem ampliar seu poder de influência quando atuam em bloco.

O presidente associou essa defesa a um diagnóstico histórico. Na avaliação dele, a inserção internacional de diversas economias emergentes ainda carrega traços de dependência tecnológica e financeira herdados do período colonial. A crítica não se limita ao passado político, mas alcança a estrutura contemporânea de cadeias globais de valor, nas quais países exportadores de commodities permanecem, em muitos casos, na base da pirâmide produtiva.

A proposta apresentada envolve intensificar parcerias entre países com níveis de desenvolvimento semelhantes, com foco em cooperação tecnológica, agregação de valor e ampliação do comércio intra-bloco. O objetivo estratégico é reduzir vulnerabilidades externas e aumentar a autonomia decisória.

Nesse contexto, o BRICS aparece como instrumento central dessa reconfiguração. O presidente afirmou que o grupo deixou de ser

Brics – Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

periférico para assumir papel mais estruturado na governança internacional. Destacou a criação do Novo Banco de Desenvolvimento como exemplo de mecanismo financeiro alternativo às instituições tradicionais dominadas por economias avançadas.

Ele também buscou afastar a narrativa de confronto direto com o Ocidente. Ao mencionar a preocupação dos Estados Unidos, sobretudo em relação à China, afirmou que o objetivo não é reeditar divisões geopolíticas típicas da Guerra Fria, mas fortalecer a capacidade de articulação dos emergentes dentro da própria arquitetura global, inclusive com eventual ampliação da interlocução com o G20.

Outro ponto sensível abordado foi a discussão sobre moeda comum. O presidente voltou a negar a intenção de criar uma divisa própria do bloco. A proposta, segundo ele, limita-se a ampliar o uso de moedas nacionais nas transações comerciais entre os países-membros, como forma de reduzir custos cambiais e dependência do dólar. Trata-se de uma agenda pragmática, voltada à eficiência comercial, ainda que com implicações estratégicas no sistema financeiro internacional.

A fala reforça uma linha de política externa que combina multilateralismo, diversificação de parceiros e busca por maior protagonismo das economias emergentes. A agenda na Índia e na Coreia do Sul integra essa estratégia de aproximação com a Ásia, região vista como eixo dinâmico da economia global nas próximas décadas.

ONU

Ao defender o fortalecimento da Organização das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou a necessidade de resgatar o papel institucional do organismo em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões geopolíticas. Segundo ele, a entidade precisa “voltar a ter legitimidade e eficácia” para cumprir sua missão central de manutenção da paz.

O presidente relatou ter feito contatos diretos com outros chefes de Estado diante de crises recentes. “Esses dias eu liguei para quase todos os presidentes, propondo que a gente tem que dar uma resposta ao que aconteceu na Venezuela, ao que aconteceu em Gaza, ao que aconteceu na Ucrânia”, afirmou.

Para Lula, não se pode permitir que decisões unilaterais de grandes potências interfiram na soberania de outros países. “Você não pode

Foto: Divulgação

permitir que, de forma unilateral, nenhum país, por maior que seja, possa interferir na vida de outros países. Precisamos da ONU para resolver esse tipo de problema. E, por isso, ela precisa ter representatividade”, reiterou.

Relação com os Estados Unidos

Ao tratar da relação bilateral com os Estados Unidos, Lula condicionou o aprofundamento de parcerias à disposição americana de enfrentar o crime organizado transnacional. “O crime organizado hoje é uma empresa multinacional. Por isso, nossa Polícia Federal precisa construir parcerias com todos os países que tenham interesse em enfrentá-lo conosco”, disse. Ele acrescentou que, havendo cooperação efetiva, o Brasil estará “na linha de frente”, inclusive solicitando o envio de brasileiros envolvidos com organizações criminosas que estejam em território americano.

O presidente também defendeu que a atuação americana na América do Sul e no Caribe seja pautada pelo respeito. Classificou a região como pacífica, sem armamento nuclear e focada no desenvolvimento econômico e social. Segundo Lula, esse será um dos temas a serem tratados em encontro previsto com o presidente Donald Trump. “Quero discutir qual é o papel dos EUA na América do Sul, se é de ajuda ou ameaça. O que o mundo precisa é de tranquilidade”, afirmou, acrescentando que o atual momento registra o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Sobre a recente decisão da Suprema Corte dos EUA que derrubou tarifas impostas pelo governo americano, Lula evitou juízo de valor. Disse que não cabe ao presidente do Brasil comentar decisões internas de outras jurisdições.

Índia, comércio e agregação de valor

Na agenda asiática, Lula destacou os encontros com o primeiro-ministro Narendra Modi, em Nova Delhi. Segundo ele, o foco foi a ampliação do comércio e da cooperação econômica. “Tratamos muito da nossa relação comercial. Não entramos em detalhes sobre geopolítica internacional. Discutimos o que nos une, em especial fortalecer nossas economias para nos tornarmos países altamente desenvolvidos”, afirmou.

O intercâmbio bilateral, atualmente em US$ 15,5 bilhões, tem meta de alcançar US$ 30 bilhões até 2030. Lula classificou as conversas com empresários indianos como positivas. “Todos os empresários indianos que investem no Brasil elogiam o país e dizem que vão aumentar seus investimentos”, reteirou.

O presidente voltou a defender que a exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil esteja condicionada à agregação de valor no território nacional. “O processo de transformação precisa acontecer no Brasil. O que não vamos permitir é que aconteça com nossas terras raras o que aconteceu com nosso minério de ferro”, afirmou, criticando o modelo histórico de exportação de commodities sem industrialização local.

Após a passagem pela Índia, Lula seguiu para Seul, onde foi recebido a convite do presidente Lee Jae Myung. A visita prevê a adoção de um Plano de Ação Trienal 2026-2029, com o objetivo de elevar a relação bilateral ao patamar de parceria estratégica, consolidando a ofensiva diplomática brasileira na Ásia.

Fonte: O Presente Rural com Agência Brasil
Continue Lendo

Notícias

Trump eleva tarifa global para 15% e testa novos limites legais após revés na Suprema Corte

Presidente norte-americano amplia sobretaxa temporária sobre todas as importações e anuncia nova estratégia jurídica para sustentar política comercial.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no última sábado (21) a elevação de 10% para 15% da tarifa temporária aplicada sobre todas as importações que entram no país. A medida ocorre poucos dias após a Suprema Corte dos EUA derrubar o programa tarifário anterior, baseado em poderes de emergência econômica.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump reage à decisão da Suprema Corte e sinaliza aumento imediato da tarifa global sobre importações, reforçando a centralidade das barreiras comerciais em sua estratégia econômica – Foto: Divulgação

Na sexta-feira (20), em reação direta ao julgamento, Trump já havia determinado a aplicação imediata de uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos importados, adicional às tarifas já existentes. Agora, decidiu ampliar o percentual ao limite máximo permitido pela legislação invocada.

Pela lei comercial americana, o presidente pode instituir uma taxa de até 15% por um período de 150 dias, mecanismo previsto para situações consideradas excepcionais. A utilização desse dispositivo, contudo, pode enfrentar questionamentos judiciais, especialmente após a Corte ter delimitado o alcance dos poderes presidenciais em matéria tarifária.

Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que a elevação da tarifa ocorre com efeito imediato e justificou a decisão como resposta a décadas de práticas comerciais que, segundo ele, prejudicaram a economia americana. Disse ainda que o percentual de 15% representa o nível totalmente permitido e legalmente testado.

O presidente também sinalizou que a medida é transitória. Durante os 150 dias de vigência, o governo trabalhará na formulação de novas tarifas consideradas legalmente admissíveis, indicando que a estratégia comercial será reestruturada para se apoiar em fundamentos jurídicos distintos daqueles rejeitados pela Suprema Corte.

A decisão reforça que, apesar do revés judicial, a política tarifária permanece no centro da agenda econômica do governo. Ao mesmo tempo, amplia a tensão institucional em torno dos limites entre Executivo e Congresso na condução da política comercial dos Estados Unidos.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo