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Peixes Maré alta de inovação

Automação está oxigenando a aquicultura brasileira; saiba o que vem por aí

Há poucos anos era vista como um luxo acessível apenas a grandes operações, começa a se consolidar como uma ferramenta indispensável para produtores que buscam aumentar a eficiência, reduzir custos e operar de maneira mais sustentável.

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Foto: Shutterstock

A aquicultura, um dos setores mais promissores do agronegócio brasileiro, está passando por uma transformação silenciosa, mas impactante. A automação, que há poucos anos era vista como um luxo acessível apenas a grandes operações, começa a se consolidar como uma ferramenta indispensável para produtores que buscam aumentar a eficiência, reduzir custos e operar de maneira mais sustentável. Em meio a esse cenário de mudanças rápidas, João Bordignon, engenheiro de aquicultura, pós-graduado em Engenharia de Controle e Automação Industrial e mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental, traz uma perspectiva valiosa sobre o futuro da automação na aquicultura.

Atuando como com equipamentos agroindustriais em uma grande empresa do setor desde 2019, Bordignon compartilha nesta entrevista uma visão abrangente do panorama atual da automação no setor aquícola brasileiro. Ele destaca as tecnologias que já estão em uso, como os alimentadores automáticos, e explora as inovações emergentes que prometem liderar o processo de automação nos próximos anos. Além disso, Bordignon aborda os desafios e as oportunidades que essa transformação digital traz para os produtores, enfatizando a importância da sustentabilidade ambiental e da capacitação dos profissionais.

Nesta entrevista, ele oferece um panorama completo sobre o que já está em prática, o que está por vir e como esses avanços tecnológicos podem ajudar a criar uma aquicultura mais eficiente e sustentável no Brasil.

O Presente Rural – Como você avalia o estágio atual da automação da aquicultura brasileira?

João Bordignon – A automação na aquicultura brasileira está avançando, entretanto, é fato que ainda temos um longo caminho para percorrer e com ele diversos desafios, como a redução dos custos de implantação, adaptação para as condições locais de algumas propriedades/espécies e a própria aceitação dessas novas tecnologias por alguns produtores.

O Presente Rural – Quais são as principais tecnologias que já estão em uso e como elas têm impactado a produtividade dos produtores?

João Bordignon – Atualmente o principal equipamento automatizado nas propriedades aquícolas brasileiras são os alimentadores automáticos. A automação nativa desses equipamentos é extremamente simples, sendo responsável pelo acionamento/desacionamento do alimentador de forma automática em horários programados. Embora seja uma automação simples, os alimentadores automáticos garantem diversas vantagens como:

·         Precisão na alimentação: Devido a grande precisão na alimentação esses equipamentos evitam tanto excessos quanto déficits nutricionais, garantindo a saúde dos animais, auxílio na manutenção de parâmetros adequados de qualidade de água além, da redução de custos relacionados a desperdícios.

·         Eficiência operacional: A automação da alimentação reduz a necessidade do trabalho manual dentro da propriedade, economizando tempo e, portanto, podendo reduzir custos relacionados a mão de obra. Além disso, a alimentação torna-se totalmente independente de fatores externos ou da presença de operadores, garantindo que os animais tenham uma consistência na alimentação.

·         Melhoria na saúde e crescimento dos peixes: A alimentação regular, consistente e com ampla distribuição no tanque, garante uma menor competição pelo alimento, reduzindo os níveis de estresse nos animais, o que se reflete em animais mais saudáveis.

De modo geral, a utilização de alimentadores automáticos em pisciculturas tende a gerar uma operação mais eficiente, econômica e sustentável, trazendo benefícios tanto para os produtores quanto para a saúde e crescimento dos animais.

Alimentador automático

Alimentador automático – Foto: Divulgação

O Presente Rural – Quais são as tecnologias emergentes que você acredita que liderarão o processo de automação na aquicultura nos próximos anos?

 

João Bordignon – Sem sombra de dúvidas as principais tecnologias do setor aquícola para os próximos anos serão as relacionadas com a qualidade de água e gestão das propriedades, embora sejam tecnologias recentes, esses tipos de sistema já são uma realidade em uma pequena parte das propriedades.

Poderíamos dar exemplos específicos e explicar como essas inovações podem transformar o setor?

João Bordignon – Os sistemas de automação relacionados aos parâmetros de qualidade de água são sistemas mais avançados tendo em vista que vão muito além de acionar equipamentos em horários programados. Esses sistemas são projetados para monitorar os parâmetros de qualidade de água durante todo o dia por meio de sensores, esses sensores coletam as informações dos viveiros em tempo real e as enviam (sinal de rádio) para uma central de monitoramento, que compara os dados coletados com os valores pré-estabelecidos pelo operador e a partir daí toma a decisão sobre o que fazer com os equipamentos da propriedade (aeradores, alimentadores, exaustores, luzes, etc.), o que permite o ajustar e/ou manter os parâmetros de qualidade de água de forma automática e precisa.

No caso dos aeradores, esse tipo de sistema aciona somente os equipamentos necessários para manter os níveis de oxigênio dissolvido/temperatura adequados naquele momento. No caso dos alimentadores, é possível acionar ou não o alimentador de acordo com os níveis de oxigênio e/ou temperatura, além de ajustar os percentuais de trato com base nesses e outros valores, garantindo maior assertividade na operação, além de facilitar ajustes diários de trato, de acordo com o aumento de biomassa, por exemplo.

Central de monitoramento

Central de monitoramento – Foto: Divulgação

O Presente Rural – O uso de automação e inteligência artificial tem sido amplamente discutido em diversas áreas do agronegócio. Como essas tecnologias podem ser aplicadas na aquicultura e quais benefícios práticos elas podem trazer para o produtor?

João Bordignon – A automação e a inteligência artificial têm o potencial de transformar a aquicultura de maneira significativa, trazendo uma série de benefícios práticos para os produtores. Isso se torna muito evidente quando unimos os dados coletados pelo sistema de automação, com os dados inseridos em  plataformas de gestão, pois, a partir daí, com o auxílio de inteligência artificial conseguimos cruzar as informações em tempo real a fim de identificar situações inadequadas de qualidade de água, por exemplo, podendo intervir imediatamente para corrigir o problema (acionando uma bomba para renovação de água ou acionando aeradores para auxiliar na desestratificação, dentre outros) ou gerando insights de possíveis soluções para o produtor por exemplo.

O Presente Rural – A sustentabilidade é uma preocupação crescente na aquicultura. Como as novas tecnologias de automação podem contribuir para práticas mais sustentáveis, especialmente em termos de gestão de recursos hídricos e controle de resíduos?

João Bordignon – De fato, a sustentabilidade é uma questão crucial na aquicultura e as novas tecnologias têm um papel importante no aprimoramento das técnicas utilizadas, a fim de as tornar cada vez mais sustentáveis.

Propriedades automatizadas e com um bom sistema de gestão resultam em uma análise de dados mais simples e assertiva, permitindo ao produtor gerenciar eficientemente os recursos da propriedade, como ração, energia e água.

Quando os sistemas de alimentação automatizados são instalados em uma propriedade, esses podem ajustar a quantidade e o tempo de alimentação dos organismos aquáticos utilizando por vezes algoritmos que passam a considerar a biomassa e as necessidades nutricionais dos animais, com isso evitamos situações de superalimentação, por exemplo, o que por sua vez reduz a quantidade de resíduos gerados e melhora os parâmetros de qualidade de água.

Podemos citar novamente os sistemas de automação para controle dos parâmetros de qualidade de água, que além de reduzirem a necessidade de trocas frequentes de água, economizando recursos e minimizando o impacto ambiental, também garantem que os animais vivam em um ambiente saudável, o que possibilita um melhor aproveitamento da ração fornecida.

Também podemos citar os sistemas de recirculação de água (RAS), que por vezes usam equipamentos e sistemas automatizados para tratar e recircular a água. Esses sistemas reduzem o consumo de água e minimizam o descarte de efluentes, promovendo uma gestão mais sustentável dos recursos hídricos.

O Presente Rural – A automação é frequentemente vista como um meio de aumentar a rentabilidade ao reduzir custos operacionais. Quais são as áreas da aquicultura onde a automação pode ter o maior impacto na redução de custos e aumento da eficiência?

João Bordignon – De acordo com diversos estudos, os principais custos operacionais dentro de uma propriedade aquícola são os relacionados com energia e alimentação, podendo ser responsáveis por cerca de 80% do custo total da operação e, portanto, essas são as principais áreas onde observamos reduções significativas de custos.

Propriedades com sistemas automatizados de qualidade de água têm a garantia de que a energia utilizada na operação é somente a necessária (nada a mais, nada a menos) ou seja, a propriedade tem a máxima eficiência energética possível de acordo com os equipamentos e infraestrutura da propriedade.

Já com relação à alimentação, observamos resultados significativos de melhora na conversão alimentar, pois, como é de saber notório, animais que vivem em um ambiente saudável (com níveis adequados de oxigênio) têm retornos de conversão alimentar superiores.

O Presente Rural – Quais são os principais desafios que os produtores enfrentam ao adotar novas tecnologias?

João Bordignon – A adoção de novas tecnologias na piscicultura, assim como em outras áreas, pode trazer muitos benefícios, mas também pode apresentar alguns desafios.

·         Custo Inicial: O custo inicial para adquirir e implementar alguns tipos de tecnologias pode ser significativo.

·         Adaptação: Novas tecnologias podem exigir habilidades e conhecimentos específicos. Além de alterar alguns hábitos existentes no dia a dia dos piscicultores.

·         Manutenção e suporte técnico: O suporte técnico acessível e rápido é fundamental para resolver possíveis problemas e manter essas tecnologias funcionando.

·         Incerteza sobre retorno de investimento: A incerteza sobre o retorno de investimento pode desencorajar a adoção de novas tecnologias. Os produtores podem hesitar em adotar tecnologias até que possam comprovar seus benefícios financeiros e operacionais.

·         Impactos na gestão e cultura organizacional: A introdução de novas tecnologias pode exigir mudanças na estrutura de gestão e na cultura organizacional da propriedade. A resistência à mudança por parte dos funcionários e a necessidade de novas abordagens de gestão podem ser desafios significativos. É importante ressaltar que a aceitação e adaptação dos funcionários às novas tecnologias são cruciais, pois, a resistência à mudança ou falta de habilidades podem afetar a eficácia da implementação.

O Presente Rural – Como a assistência técnica tem abordado esses desafios para facilitar a transição para tecnologias mais avançadas?

João Bordignon – Acredito que o principal papel dos técnicos em relação a simplificação do processo de transição para novas tecnologias é no que se refere a transferência de conhecimento, cabe aos técnicos realizar esse papel, nós, enquanto técnicos temos a obrigação de nos mantermos atualizados a respeito das novas tecnologias, pesquisas e experimentos realizados dentro das empresas/universidades e repassar esse conhecimento para os produtores, tornando-os cada vez mais técnicos dentro da atividade, fazendo com que entendam de fato os reais benefícios das mudanças sugeridas.

É de suma importância que cada vez mais as empresas e instituições públicas forneçam apoio ao aprendizado dos produtores, por meio de eventos, vídeos, palestras, dias de campo, workshops etc., a fim de fomentar e demonstrar a simplicidade e os benefícios da utilização dessas novas tecnologias.

O Presente Rural – Existe algum exemplo internacional de automação na aquicultura que possa servir como referência para o Brasil?

João Bordignon – Sim, a aquicultura brasileira embora esteja crescendo ano após ano, ainda está muito atrás em nível tecnológico de outros mercados como o da indústria salmonera de países como Noruega e Chile, por exemplo. Uma tecnologia muito interessante utilizada nesse mercado parte do uso da inteligência artificial aliada a sistemas de visão, onde câmeras monitoram 24h por dia os animais, a fim de identificar padrões de comportamento, e através disso, saber se os animais estão ou não com fome e a partir daí acionar automaticamente alimentadores (variando até mesmo a taxa/quantidade de arraçoamento ao longo do dia). Além disso, esse tipo de sistema pode realizar diversas outras funções, como identificar lesões e doenças nos animais, realizar biometrias, gerar relatórios, controlar sistemas de aeração, prevenir escapes e muito mais, tudo de modo automático.

O Presente Rural – Como essas experiências podem ser adaptadas à realidade brasileira?

João Bordignon – Ainda existe uma dificuldade de implantação desse tipo de tecnologia nos sistemas brasileiros, devido ao alto custo de implantação, tendo em vista que as espécies de produção brasileira têm uma margem de lucro menor quando comparada à produção de salmão. Além disso, o tipo de produção brasileira, que é predominantemente composta por produção em tanques escavados, e isso dificulta o uso desse tipo de tecnologia, pois a água possui uma turbidez maior quando comparada à produção de salmão, que é predominantemente realizada em sistemas de tanque rede em alto mar, essa turbidez prejudica muito a qualidade das imagens, dificultando a inserção desse tipo de tecnologia.

O Presente Rural – Como você vê a evolução da automação na aquicultura impactando o mercado brasileiro nos

Engenheiro de aquicultura, João Bordignon – Foto: Divulgação

próximos cinco anos? Podemos esperar um aumento significativo na competitividade e na produção nacional?

João Bordignon – Nos próximos cinco anos, a automação na aquicultura brasileira deverá transformar o mercado de maneira significativa. A adoção de tecnologias avançadas promete aumentar a produtividade e a eficiência das propriedades, reduzindo custos operacionais e melhorando a qualidade e consistência dos produtos. Isso permitirá que os produtores se tornem mais competitivos tanto no mercado nacional quanto internacional. Além disso, a automação ajudará a promover práticas mais sustentáveis, minimizando o impacto ambiental e atendendo às regulamentações mais rigorosas.

No entanto, como mencionado anteriormente, temos desafios que incluem o alto custo inicial e a necessidade de adaptação às novas tecnologias. Nesse sentido, a automação também poderá gerar novas oportunidades de emprego e estimular a inovação no setor. O sucesso dessa transição dependerá de políticas públicas favoráveis e do apoio à formação e capacitação da mão de obra necessárias para operar as tecnologias emergentes.

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Fonte: O Presente Rural

Peixes No Paraná

Startup com gel à base de tilápia entra na incubadora da UEPG

Cicatripep foi selecionada pela Agipi e vai desenvolver produto inovador na área de saúde com apoio da universidade.

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Foto: Jefferson Christofoletti

A Agência de Inovação e Propriedade Intelectual da UEPG (Agipi) terá novas empresas incubadas em 2026. As startups Cicatripep e Muush passaram por avaliação e vão receber o apoio da Incubadora de Projetos Tecnológicos (Inprotec) em projetos inovadores e no desenvolvimento de seus empreendimentos.

A Agipi oferece às empresas incubadas um conjunto de serviços voltados ao fortalecimento e à consolidação dos negócios, como infraestrutura física e compartilhada, apoio ao planejamento e acompanhamento do desenvolvimento dos negócios, além de capacitações, assessorias e consultorias nas áreas de empreendedorismo, tecnologia, mercado, capital e gestão. Também atua como ponte com instituições de ensino e pesquisa, pesquisadores e especialistas e apoia a elaboração de projetos para captação de recursos junto a agências de fomento e investidores.

Foto: Aline Jasper/UEPG

“Estamos muito felizes por receber duas novas empresas que estão tentando se viabilizar para ir ao mercado de produtos inovadores”, enfatiza o vice-reitor da UEPG e membro da banca de avaliação, professor Ivo Mottin Demiate. “Uma empresa que trabalha com materiais alternativos e ecológicos, biodegradáveis, sustentáveis a partir de fungos, a Muush; e um outro projeto muito interessante na área de saúde animal, em um primeiro momento, mas que também pode ser expandida para a saúde humana, que é um gel cicatrizante à base de subproduto da tilápia, a Cicatripep”.

“O processo de avaliação das potenciais startups significa que a aplicação do planejamento estratégico da Inprotec da Agipi, com vistas a consistir o processo de inovação, empreendedorismo e tecnologia da universidade em relação à comunidade e empresas, está em pleno andamento, pois cada uma, em que pese tenham vieses diferentes em princípio, poderão atuar em parceria, não só entre si, como também com outras áreas”, destaca o chefe da Incubadora de Projetos Tecnológicos, Carlos Ubiratan da Costa Schier.

Em nível avançado no processo de incubação, as empresas avaliadas ampliam a carteira de startups da Agipi e contribuem para a qualificação da Agência para obter certificações Cerne (Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos) nos níveis 2, 3 e 4, além de ampliar sua evidência e importância no ecossistema de inovação e empreendedorismo na cidade, região e mesmo em nível estadual.

“Ambas fazem parte do esforço da equipe da Agipi em tornar a agência uma das referências na parceria da universidade com as políticas públicas do Estado em integração com o mercado na busca dos melhores resultados possíveis, tanto em termos de desenvolvimento econômico-social, quanto em soluções para aplicação efetiva na vida das pessoas e empresas”, complementa Schier.

Além das duas startups que entrarão no rol da Agipi, são cinco empreendimentos incubados atualmente: Blue Rise, Breven Law, Expurgos, Peplus e Virtwell. A agência também presta apoio a modelos de negócios ou projetos e encaminha para pré-incubação no Centro de Educação Empreendedora (CEE).

Cicatripep

O potencial já é reconhecido: o projeto que deu origem à Cicatripep já participou do Programa de Propriedade Intelectual com Foco no Mercado (Prime), do Governo do Paraná, no qual foi um dos projetos premiados.  Agora, o objetivo é partir da pesquisa científica para a aplicação comercial. “Nosso interesse em procurar a Agipi é a gente tirar do balcão do laboratório e ter esse olhar e experiência mais comercial para nos ajudar a alavancar nosso projeto de uma escala mais acadêmica para uma escala mais comercial”, conta o professor Flávio Luís Beltrame.

O sucesso do produto também pode gerar um incentivo maior à pesquisa e incitar novos projetos, melhorias e testagens cada vez mais rápidas, além de potencializar a conquista de bolsas para pesquisadores. “É empolgante ver que um produto de pesquisa, de dentro do laboratório, pode chegar no mercado e, mais do que isso, ajudar pessoas e animais, no nosso caso. Isso é muito enriquecedor e satisfatório. Eu acho que isso é o objetivo principal”, complementa.

Fonte: AEN-PR
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Peixes

Justiça autoriza desembarque de tilápia vietnamita em Santa Catarina

Decisão do TJ-SC libera apenas cargas contratadas antes da portaria estadual, mas mantém veto à venda e impõe exigências sanitárias rigorosas para evitar riscos à aquicultura local.

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Foto: Claudio Neves

Uma decisão do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) autorizou, de forma excepcional, a entrada no Estado de cargas de tilápia importadas do Vietnã que já haviam sido contratadas, pagas e embarcadas antes de 17 de dezembro de 2025. A liberação, no entanto, não permite a comercialização do pescado, que seguirá proibida até nova manifestação da autoridade sanitária estadual.

Foto: Claudio Neves

A decisão foi proferida pelo desembargador João Henrique Blasi, relator de uma ação ajuizada por uma empresa importadora que buscava suspender os efeitos da Portaria SAQ nº 010/2025. A norma, publicada pelo governo catarinense em dezembro, proibiu a entrada e a comercialização da tilápia vietnamita no Estado, alegando risco sanitário.

Ao analisar o pedido, o magistrado reconheceu a possibilidade de prejuízo irreversível ao importador, especialmente diante de custos elevados com demurrage, armazenagem portuária e do risco de perecimento da mercadoria. Segundo ele, havia plausibilidade na tese de que a portaria estadual poderia extrapolar a competência do Estado ao vedar o ingresso e o trânsito de um produto cuja importação foi autorizada por órgão federal. “A solução adequada consiste em resguardar a saúde pública sem sacrificar contratação perfeita, adotando-se medidas de rastreabilidade, testes laboratoriais e segregação para mitigar o alegado risco à incolumidade dos possíveis consumidores”, afirmou o desembargador na decisão.

Leia mais: Santa Catarina proíbe entrada de tilápia do Vietnã para proteger cadeia produtiva e segurança sanitária

Risco sanitário no centro do debate

A restrição imposta por Santa Catarina está fundamentada em pareceres técnicos elaborados pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e

Foto: Jaelson Lucas

Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os estudos apontam risco potencial associado ao vírus da tilápia do lago (Tilapia Lake Virus – TiLV), patógeno que pode provocar elevada mortalidade em plantéis e comprometer a sanidade da cadeia aquícola.

Leia mais: Saiba porque Santa Catarina decidiu barrar a tilápia importada do Vietnã

De acordo com o entendimento do magistrado, embora exista preocupação sanitária legítima, ainda não foi concluída uma Análise de Risco de Importação (ARI) por parte do órgão federal competente, o que fragiliza a adoção de medidas definitivas de bloqueio com base apenas em normas estaduais.

Mesmo assim, a liberação concedida pela Justiça é parcial e condicionada. As cargas autorizadas só poderão ingressar em Santa Catarina mediante o cumprimento de exigências sanitárias rigorosas, como apresentação de documentação aduaneira e sanitária, armazenamento em instalações sob inspeção oficial e laudo laboratorial oficial que comprove a ausência do TiLV. Até que haja parecer favorável da autoridade sanitária estadual, a venda do produto permanece proibida.

Portaria segue valendo para novos contratos

A decisão do TJ-SC não altera a validade da portaria para novas importações. Contratos firmados após 17 de dezembro continuam

Foto: Shutterstock

proibidos, reforçando o posicionamento do governo catarinense de adotar o princípio da precaução diante das incertezas científicas.

Segundo o Estado, o congelamento tradicional não assegura a completa inativação do vírus, o que amplia o risco de introdução do patógeno em áreas produtoras. Em encontros com representantes da embaixada do Vietnã no Brasil, o governo catarinense já havia rejeitado pedidos de revogação da norma.“Santa Catarina tem responsabilidade com seus produtores e com a segurança sanitária. Sem garantias científicas que afastem os riscos apontados pelos estudos técnicos, a proibição será mantida”, afirmou o secretário de Estado da Aquicultura e Pesca, Tiago Bolan Frigo.

O caso evidencia o embate entre segurança sanitária, competência federativa e segurança jurídica no comércio internacional de pescados, em um momento em que a tilapicultura brasileira busca consolidar mercados e proteger sua base produtiva.

Fonte: O Presente Rural
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Peixes

Falta de frigoríficos habilitados limita exportações de tilápia em Minas Gerais

Terceiro maior produtor do país, estado ainda não conta com plantas certificadas para o mercado internacional.

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Apesar de ocupar a terceira posição no ranking nacional de produção de tilápia, Minas Gerais ainda está fora do mapa das exportações do pescado. O entrave não está na criação, mas na etapa industrial: o estado não conta, até o momento, com frigoríficos certificados para atender às exigências sanitárias do comércio internacional.

Presidente da Associação dos Aquicultores e Empresas Especializadas do Estado de Minas Gerais (Peixe MG), Pedro Rivelli: “Existem duas ou três empresas trabalhando nesse processo de habilitação, porque é uma demanda enorme para o desenvolvimento da cadeia no estado, mas, até agora, Minas não é exportador” – Foto: Arquivo pessoal

Segundo dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), a produção mineira avança em ritmo consistente, sustentada majoritariamente por pequenos e médios produtores. No entanto, a falta de unidades de processamento habilitadas obriga o setor a buscar alternativas fora das divisas estaduais. “A produção de tilápia em Minas é uma das maiores do país, mas ela está pulverizada. São produtores independentes, frigoríficos pequenos, muita agricultura familiar, e não temos hoje nenhum frigorífico habilitado para exportação”, afirma o presidente da Associação dos Aquicultores e Empresas Especializadas do Estado de Minas Gerais (Peixe MG), Pedro Rivelli, complementando: “Existem duas ou três empresas trabalhando nesse processo de habilitação, porque é uma demanda enorme para o desenvolvimento da cadeia no estado, mas, até agora, Minas não é exportador.”

Na prática, parte significativa do pescado mineiro precisa ser enviada para outros estados para passar pelo processamento industrial. Paraná e São Paulo, líderes nacionais na produção e exportação de tilápia, concentram boa parte desse fluxo, mas frigoríficos em Santa Catarina, Ceará, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro também absorvem a matéria-prima produzida em Minas.

Do ponto de vista institucional, a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG) reconhece o desafio e afirma que atua para estruturar a cadeia. Em nota, a pasta informa que trabalha com o “objetivo central de profissionalizar a cadeia produtiva do pescado, promovendo a integração de seus diversos elos – insumos, produção, processamento e comercialização, por meio da organização em arranjos produtivos locais”. Ainda assim, não há previsão oficial para o início das exportações de tilápia a partir do estado.

Foto: Jonathan Campos

Enquanto Minas tenta superar gargalos internos, o cenário externo também se tornou mais adverso para a tilapicultura brasileira. Em 2025, o país exportou 15,1 mil toneladas de tilápia, volume 8,5% inferior ao registrado em 2024, quando as vendas somaram 16,5 mil toneladas, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A receita acompanhou o movimento e recuou 4%, passando de US$ 59,8 milhões para US$ 55,6 milhões no período.

A queda ocorreu principalmente no segundo semestre, após a imposição de sobretaxas de 40% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O país norte-americano é, disparado, o principal destino da tilápia nacional, respondendo por cerca de 90% das exportações. E mesmo com o anúncio, em novembro, de retirada de grande parte das taxas para produtos brasileiros, a tilápia não foi contemplada, situação que permanece até hoje.

Rivelli acrescenta que o mercado interno também influenciou a redução das exportações. “A queda tem dois grandes fatores. O preço do peixe subiu no mercado doméstico e tivemos o tarifaço, que travou as vendas a partir do meio do ano, justamente no principal período de compras externas”, pontua.

Mesmo diante das dificuldades conjunturais, o setor mantém perspectivas otimistas no médio e longo prazo. Rivelli destaca que a tilápia

Foto: Shutterstock

foi a proteína animal que mais cresceu no país na última década e que o Brasil já ocupa a quarta posição no ranking mundial de produção. “Nos últimos 10 anos é a proteína que mais cresceu em produção nacional. O Brasil é hoje o quarto maior produtor do mundo, com potencial para se tornar o segundo até 2030 e, mais à frente, assumir a liderança global”, projeta.

Para Minas Gerais, o desafio passa por transformar volume em competitividade, com investimentos em industrialização e acesso aos mercados internacionais.

Fonte: O Presente Rural
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