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Automação da produção de leite devolve tempo e qualidade de vida à família Macari

Com ordenha robotizada, família do Sudoeste do Paraná alia tradição e tecnologia para ampliar a produção e transformar a rotina no campo.

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Fotos: Arquivo pessoal

Produzir leite já foi sinônimo de uma das rotinas mais exigentes e exaustivas do campo. Por décadas, o dia do produtor começava ainda de madrugada, muito antes do sol nascer. Em propriedades rurais por todo o Brasil, era preciso reunir o rebanho, conduzir as vacas, uma a uma, até o espaço de ordenha, muitas vezes improvisado e com condições precárias, amarar as patas, puxar o banquinho e então tirar o leite manualmente de cada animal. Uma tarefa que demandava não apenas força física, mas uma dedicação incessante, sem folgas ou feriados, sob sol ou chuva, calor ou frio.

Com o avanço da tecnologia, a ordenha mecânica trouxe um primeiro alívio, substituindo parte do esforço físico braçal. Equipamentos auxiliavam na extração do leite, mas ainda assim, o processo continuava exigindo uma intervenção humana constante. Era preciso colocar e retirar as teteiras, higienizar os tetos com cuidado e acompanhar de perto cada animal para garantir a saúde e a qualidade da produção. O tempo dedicado a essa atividade variava conforme o tamanho do rebanho e o número de pessoas envolvidas, podendo se estender por horas a fio. E, quando a ordenha enfim terminava, mal havia tempo para descanso: era preciso limpar os equipamentos, alimentar os animais, cuidar da propriedade e, em poucas horas, reiniciar todo o ciclo, numa jornada quase sem fim que exauria o corpo e a mente.

Irmãos produtores de leite em Chopinzinho (PR), Maicow e Nicolly: “Antes da ordenha robotizada, o custo diário da vaca por litro de leite produzido podia chegar até R$ 1,50. Com a automação, reduzimos em R$ 0,40 o custo de alimentação por litro de leite”

Hoje, o uso de tecnologias está mudando completamente essa atividade. Na vanguarda dessa transformação, a Leitaria Macari, localizada em Linha São Luiz, no interior de Chopinzinho, na região Sudoeste do Paraná, é um exemplo dessa mudança. Com a adoção da ordenha robotizada, as vacas passaram a ser ordenhadas de forma voluntária, sem a necessidade de intervenção humana. Essa inovação, além de melhorar o bem-estar dos animais, tem devolvido aos produtores algo que sempre foi escasso: tempo.

É esse tempo recuperado, somado ao cuidado com os animais e ao olhar estratégico dos irmãos Maikow e Nicolly Macari para a gestão da propriedade que tem redesenhado a atividade, entrelaçando tradição familiar, inovação tecnológica e bem-estar para criar um modelo produtivo que beneficia tanto os animais quanto os humanos que dedicam suas vidas à produção de leite.

Implantação

Com 75 hectares de área total, sendo 20 dedicados à produção leiteira, a propriedade pertence à família há 30 anos. Desde o início, o leite foi a principal fonte de renda e, há cerca de uma década, os Macari decidiram apostar em melhorias e na profissionalização da atividade para elevar a eficiência da produção. “Foi quando começamos a intensificar a atividade leiteira. Buscamos mais qualidade e tecnologia para conseguir crescer”, conta Maikow, que é engenheiro agrônomo, e divide a lida diária da propriedade com a irmã Nicolly, estudante do oitavo período de Medicina Veterinária.

A decisão de implantar a ordenha robotizada na Leitaria Macari foi motivada por um fator cada vez mais recorrente e desafiador no meio rural brasileiro: a dificuldade de encontrar e, principalmente, reter mão-de-obra qualificada. “Chegamos num ponto em que comprávamos a ordenha robotizada ou teríamos que contratar funcionários. Só que mão-de-obra em todas as áreas está difícil, e na produção de leite é ainda mais complicado, porque é um trabalho que exige muita dedicação e é oneroso”, explica Maikow, detalhando o dilema enfrentado por tantos produtores rurais Brasil afora.

Essa alternativa tecnológica surgiu como a forma mais viável de permitir o crescimento sustentável do negócio sem sobrecarregar a estrutura familiar já existente. “O pai e a mãe queriam descansar um pouco mais, e eu, minha irmã e minha esposa não conseguiríamos continuar crescendo da forma que a gente trabalhava. Com a ordenha robotizada, conseguimos alcançar outros objetivos pensando em melhorias para a produção leiteira, porque agora temos tempo para gerir a propriedade de forma mais estratégica e não apenas para apagar incêndios”, pontua os irmãos.

A sucessão familiar, muitas vezes apontada como um dos maiores desafios do campo, se desenha com naturalidade na Leitaria Macari. “Nossos pais nos ajudam muito ainda. Trabalhamos juntos e todas as decisões são tomadas sempre em conjunto”, afirma Maikow, contando que a mãe Adriana e o pai Antônio seguem ativos na propriedade, compartilhando com eles a experiência de uma vida dedicada à produção leiteira.

Sem funcionários contratados, é a família quem conduz todas as tarefas. Além dos irmãos e dos pais, a esposa de Maikow, Fernanda Roncalho Macari, também participa da rotina. “Um dos principais fatores pra gente continuar aqui é o amor pela atividade e a boa relação entre todos nós. Temos um bom convívio familiar e isso é fundamental para seguir na produção de leite”, reforçam os irmãos, com a cumplicidade de quem constrói o futuro lado a lado.

Qualidade de vida

Maikow ao lado da esposa Fernanda, com o primeiro filho do casal: “A adoção do robô foi decisiva pra isso acontecer. Se ainda tivéssemos a ordenha manual, seria muito mais difícil. Hoje conseguimos aproveitar a família e continuar produzindo leite”

A ordenha robotizada permite que as vacas sejam ordenhadas de forma voluntária, quantas vezes quiserem ao dia, sem precisar ser conduzidas ou manipuladas. O robô reconhece cada animal individualmente, realiza a higienização dos tetos com precisão, acopla as teteiras, coleta o leite e ainda fornece os dados sobre a produção e a saúde de cada vaca. “É um sistema que facilita muito a nossa vida”, resume Nicolly.

Mas o impacto da robotização vai muito além da produção. Com a automatização da ordenha, os Macari passaram a ter mais tempo livre para cuidar de outras tarefas da propriedade, para fazer uma gestão mais eficiente, planejar melhorias estratégicas e, principalmente, para viver com mais qualidade. “Hoje conseguimos tomar café da manhã todos juntos, tomar um chimarrão com calma, até acordar um pouco mais tarde. Antes isso era impossível. A gente começava o dia por volta das 04h30 da manhã, agora, iniciamos nosso dia de um outro jeito, muito mais tranquilos”, relata Maikow, destacando que essa mudança no estilo de vida também permitiu, por exemplo, que a família possa passar um período mais longo fora da propriedade, algo impensável no tempo da ordenha manual.

Acompanhamento remoto

Os irmãos contam que a implantação do sistema, feita há cerca de um ano e meio, provocou diversas mudanças na rotina e nos resultados da Leitaria. “A maior mudança foi a flexibilização de horários. A gente consegue acompanhar tudo o que acontece sem estar perto do animal. Eu posso estar na lavoura, a Nicolly pode estar na faculdade, e conseguimos monitorar a saúde das vacas, se estão no cio, se precisam de tratamento”, detalha Maikow.

Essa conectividade trouxe agilidade também para as decisões. “Se eu cadastro um tratamento pela manhã antes de sair, o Maikow abre o sistema e já vê quais vacas devem ser inseminadas ou medicadas. A gente consegue orientar quem está em casa mesmo à distância”, exemplifica Nicolly.

3ª geração graças ao robô?

Além de melhorar a gestão, a tecnologia teve impacto direto na vida pessoal da família. “A adoção dessa ferramenta foi decisiva para eu e minha esposa termos filhos. Se ainda tivéssemos a ordenha manual, seria muito mais difícil. Hoje conseguimos aproveitar a família e continuar produzindo leite”, afirma Maikow, entre risos, ao dizer que o filho recém-nascido é “um dos frutos do robô”.

Rotina flexível

Para Nicolly, o ganho foi ainda na possibilidade de equilibrar os estudos com o trabalho. “Hoje, chego da faculdade por volta das 14 horas, almoço e, se preciso sair um pouco mais cedo à tarde, consigo adiantar as tarefas, verificar como está o robô e se há alguma vaca que precisa de atenção. A tecnologia trouxe essa flexibilidade na rotina. E todo esse avanço que conseguimos implementar foi pensando em melhorar o bem-estar das vacas e o nosso. Esse, para mim, é o maior ganho da tecnologia na propriedade”, menciona.

Ganho também em litros

A modernização da Leitaria Macari também se reflete no manejo e na estrutura da produção. Com um rebanho formado por 56 vacas em lactação e outras oito vacas secas, os animais são mantidos em sistema free stall, com ambiente controlado, conforto térmico e alimentação balanceada. Essa combinação contribui para manter uma média de produção diária entre 35 e 36 litros por vaca, um ganho de mais de dez litros por vaca em relação ao sistema antigo. Essa produtividade reflete não apenas o potencial genético do rebanho, mas também a eficiência dos processos adotados na propriedade.

Grande parte da alimentação dos animais é produzida na própria fazenda, uma estratégia que otimiza custos e garante qualidade. “A parte dos volumosos, como silagem, feno e parte do grão úmido, somos nós que produzimos. Já os concentrados, como farelo de soja, DDG e parte do pré-secado, são adquiridos fora”, expõe Maikow, ressaltando que os investimentos em nutrição e no bem-estar refletiram diretamente na produtividade.

Antes da ordenha robotizada, no sistema compost barn com ordenha manual, a produção média era de 23 a 24 litros por vaca. “Na época da transição, com a mudança para o free stall e a ordenha mecânica, chegamos a uma média de 26 litros. Mas as vacas estavam no barracão e a ordenha era apertada, não estava bom”, recorda Nicolly. Com a instalação do robô, a média saltou para 36 litros por animal/dia, um aumento de 38,5% em relação ao sistema anterior. “E ainda estamos crescendo. Temos metas a superar. A ordenha robotizada trouxe mais eficiência, mais sanidade, mais bem-estar animal e muito mais tranquilidade para nós”, frisa Maikow, resumindo os múltiplos benefícios.

Usina supre energia

Outra grande aliada desta nova fase da Leitaria Macari é a usina solar instalada na propriedade, que gera de 6 a 7 mil kWh por mês, energia suficiente para abastecer todas as operações da leitaria. A sustentabilidade energética complementa o ciclo de inovação e autonomia buscado pela família, tornando o negócio ainda mais robusto e ecologicamente responsável.

Colares da saúde

Na parte sanitária e reprodutiva, a tecnologia também trouxe ganhos significativos. “O sistema da ordenha é interligado com os colares das vacas, o que nos permite monitorar ruminação, atividade, detectar cio e identificar sinais de doenças precocemente. Antes, era tudo feito no olho. Hoje temos muito mais precisão, o que nos permite agir rapidamente e prevenir problemas maiores”, pontua Nicolly, ressaltando a inteligência embarcada que protege o rebanho.

A gestão da Leitaria Macari é conduzida com atenção aos detalhes e foco em eficiência. A implantação de todas essas tecnologias trouxe não apenas melhorias no processo produtivo e mais tempo livre, mas também um novo olhar sobre os dados gerados. “A equipe que nos atendeu sempre disse que, além do aumento na produção, o maior ganho viria quando a gente conseguisse traduzir os números. O robô gera mais de 60 tipos de relatórios e conseguimos, junto aos técnicos responsáveis pela nutrição, reprodução e sanidade, analisar com precisão o desempenho individual dos animais. Isso nos ajuda, por exemplo, a decidir com base técnica quais vacas devem sair do plantel ou quais precisam de um cuidado específico”, explica Maikow.

O papel ainda tem espaço

Apesar do avanço na coleta e análise de dados zootécnicos, a parte financeira ainda é feita de forma manual. “Tudo o que o robô não entrega, como controle de estoque e financeiro, a gente faz no papel. Mas isso é algo que quero melhorar no futuro. Ter um sistema que nos ajude com o controle de estoque de comida, medicamentos e na gestão financeira”, projeta Maikow, destacando que as decisões são sempre tomadas em conjunto com a família.

Custo R$ 0,40 menor por litro

Foto: Shutterstock

Com o olhar voltado para a viabilidade do negócio, a família mantém controle rigoroso dos custos de produção. “Levantamos quanto gastamos com alimentação por litro de leite e quanto conseguimos produzir com cada real investido em comida”, comenta Maikow, explicando que atualmente o custo alimentar gira em torno de R$ 1,10 por litro de leite, um valor considerado positivo e competitivo. “Conseguimos boas safras de silagem e produzimos boa parte do que os animais consomem. Isso inclui o grão úmido, que é bem mais barato do que comprar milho seco. Nosso objetivo é produzir o máximo possível dentro da propriedade”, afirma.

Contudo, antes da automação, os custos eram mais altos. “A vaca custava praticamente o mesmo por dia, só que produzia menos. O custo por litro podia chegar a R$ 1,50. Hoje, com a ordenha robotizada, ganhamos em eficiência e reduzimos em cerca de R$ 0,40 o custo de alimentação por litro produzido”, detalha Maikow.

Passando o bastão

Embora ainda dividam as decisões com os pais, os irmãos Maikow e Nicolly já assumem boa parte da condução da propriedade, com um protagonismo crescente. “Não dá pra dizer que estamos totalmente à frente, mas meu pai sempre diz que todas as melhorias que estamos implementando hoje são porque eu e minha irmã estamos mais envolvidos nas decisões”, conta Maikow, frisando que isso vem acontecendo de forma mais efetiva nos últimos três anos, com ideias voltadas à melhoria dos processos e à busca constante por eficiência e inovação.

Mais do que garantir a permanência da família no campo, essa sucessão bem-sucedida representa o reconhecimento do esforço de quem construiu tudo com as próprias mãos. “Vi o quanto meus pais sofreram para conquistar cada centímetro desse chão. Nada foi herdado. Cada palanque, cada metro da propriedade, foi fruto do trabalho deles. Hoje, a gente consegue oferecer uma renda que permite a eles aproveitarem melhor a vida. Isso é muito gratificante”, enfatiza Maikow.

Melhorias constantes

Foto: Shutterstock

O planejamento para o futuro da Leitaria Macari segue em ritmo firme e constante. “Quem visita a propriedade hoje e a conheceu há cinco anos se surpreende com a transformação. Não que sejamos grandes produtores, mas pelo quanto investimos, pela busca de melhoria contínua. E ainda temos planos. Para este ano queremos melhorar o conforto das novilhas e das vacas secas. Para o ano que vem, nosso objetivo é adquirir mais um robô e dobrar o número de animais, expandindo a nossa capacidade de produção”, adianta Maikow. “O crescimento é construído aos poucos, dando um passo de cada vez, com calma e responsabilidade”, complementa Nicolly.

O que sustenta o trabalho diário no campo

Com a bagagem acumulada nos últimos anos à frente da propriedade, os irmãos Macari compartilham uma mensagem inspiradora aos jovens que desejam permanecer no campo ou assumir os negócios da família. Para eles, mais do que o acesso à tecnologia e à informação, hoje amplamente disponíveis, o que realmente faz a diferença é o relacionamento entre as pessoas. “O diálogo entre pai e filho, entre irmãos, é o mais importante”, exalta Maikow, ressaltando: “Muitas coisas que fazemos hoje talvez não façam sentido para nossos pais, que vêm de outra geração. Mas eles sempre nos apoiaram, mesmo quando não viam necessidade”. “Além disso, é preciso ter paciência e, acima de tudo, amor pelo que se faz”, reforça Nicolly.

Fonte: O Presente Rural

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Concurso de Carcaças Angus valoriza boas práticas e eleva padrão da carne bovina

Iniciativa reuniu produtores de diferentes regiões e avaliou mais de 4,1 mil novilhas com critérios técnicos de qualidade.

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Foto: Divulgação/Angus

Realizado entre os meses de outubro e dezembro, o Concurso de Carcaças Angus teve como foco estimular a adoção de boas práticas pecuárias e valorizar a produção de carne bovina de alta qualidade no Brasil. A iniciativa reconhece produtores que se destacam no manejo, na genética e no acabamento de animais da raça Angus, contribuindo para a padronização do produto e para a elevação dos padrões de qualidade exigidos pelo mercado.

Foto: Shutterstock

A ação foi promovida pela Associação Brasileira de Angus, em parceria com a Minerva Foods, e reuniu produtores de diferentes regiões do país. As avaliações técnicas das carcaças ocorreram em unidades localizadas em Barretos, no interior de São Paulo; Bataguassu, no Mato Grosso do Sul; Rolim de Moura, em Rondônia; Palmeiras de Goiás, em Goiás; e Tangará da Serra, no Mato Grosso.

Ao longo do concurso, os produtores encaminharam animais previamente selecionados para análises que levaram em conta critérios técnicos como conformação, acabamento e rendimento de carcaça. A iniciativa reforça o papel da genética Angus como instrumento de agregação de valor à pecuária de corte brasileira e de alinhamento às demandas de consumidores e mercados cada vez mais atentos à qualidade, à padronização e à origem da carne.

Neste processo, foram observados aspectos como padrão racial, faixa etária e nível de acabamento, assegurando uma avaliação criteriosa e

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alinhada aos mais elevados protocolos de qualidade. A partir desses parâmetros, cada carcaça foi classificada, permitindo o cálculo do desempenho médio dos lotes avaliados e a valorização objetiva dos melhores resultados.  “O Concurso de Carcaças é uma ferramenta estratégica para fortalecer a pecuária de qualidade no Brasil. Ao incentivar boas práticas, reconhecer o trabalho dos produtores e valorizar a raça Angus, criamos um ciclo virtuoso que beneficia toda a cadeia produtiva e para o posicionamento da carne brasileira nos mercados mais exigentes do mundo”, frisou o  gerente executivo de Relacionamento com Pecuaristas da Minerva Foods, Rostyner Costa.

Nesta edição, mais de 4,1 mil novilhas foram avaliadas, número recorde do concurso promovido pela Companhia, refletindo o crescente engajamento dos produtores e a consolidação da iniciativa como referência no setor. Os vencedores receberam um troféu e um avental personalizado da Associação Brasileira de Angus, como forma de reconhecimento pela excelência alcançada.

Fonte: Assessoria Minerva Foods
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Salvaguarda da China à carne bovina impõem teste à estratégia exportadora do Brasil

Medida eleva tarifas, expõe dependência do mercado chinês e pressiona a diversificação dos destinos da carne brasileira.

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A decisão da China de impor medidas de salvaguarda às importações de carne bovina adiciona um novo grau de complexidade ao comércio global da proteína e expõe, de forma direta, a elevada dependência brasileira do mercado chinês. A partir de 2026, volumes que excederem a cota de 1,1 milhão de toneladas estarão sujeitos a tarifas que podem chegar a 67%, o que inclui um adicional de 55 pontos percentuais sobre a alíquota já vigente de 12%.

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O impacto potencial é relevante. Em 2025, a China absorveu cerca de 1,7 milhão de toneladas da carne bovina exportada pelo Brasil, respondendo de longe pelo principal destino do produto nacional. O segundo maior mercado, os Estados Unidos, importou pouco mais de 200 mil toneladas de carne in natura no mesmo período, evidenciando a dificuldade de uma realocação rápida e volumosa dos embarques brasileiros.

Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, a necessidade de diversificação dos destinos se torna inevitável, ainda que operacionalmente desafiadora. O relatório destaca que o cenário global de escassez de proteína bovina tende a amortecer parte dos efeitos adversos da medida chinesa, especialmente em um momento em que a oferta mundial encontra limitações estruturais.

Do lado doméstico, a perspectiva é de retração. A projeção aponta para uma queda de aproximadamente 2% na produção brasileira de carne bovina em 2026, o equivalente a cerca de 200 mil toneladas a menos de oferta. Esse volume corresponde a cerca de um terço do excedente que precisaria ser redirecionado caso as compras chinesas repitam, no próximo ano, o recorde observado em 2025. Após quatro anos consecutivos de elevado descarte de fêmeas, analistas não descartam que essa estimativa de redução possa, inclusive, ser conservadora.

No tabuleiro internacional, a imposição das salvaguardas tende a provocar uma reorganização dos fluxos comerciais. Argentina e Uruguai

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receberam cotas superiores aos volumes que efetivamente exportaram para a China em 2025, o que abre espaço para ajustes regionais. Nesse contexto, o Brasil pode ampliar o fornecimento ao mercado argentino, liberando parte da produção daquele país para atender a demanda chinesa.

Os Estados Unidos aparecem como outro vetor relevante. Com o déficit norte-americano de carne bovina projetado em 1,3 milhão de toneladas em 2026, cerca de 100 mil toneladas acima de 2025, há margem para expansão das exportações brasileiras, especialmente após a retirada de entraves tarifários. Ainda assim, esse movimento não seria suficiente, isoladamente, para compensar uma eventual redução abrupta dos embarques à China.

No curto prazo, a expectativa é de aceleração dos envios ao mercado chinês até o preenchimento da cota sujeita à tarifa reduzida. Após esse ponto, pode haver maior pressão sobre os preços do boi gordo, sobretudo em períodos de maior oferta sazonal, como a transição das águas para a seca e o pico dos confinamentos. A avaliação do Itaú BBA, contudo, é de que esses efeitos tendem a ser moderados pela retração da oferta brasileira ao longo do ano e pelas limitações de expansão da produção nos principais países exportadores.

Em síntese, a salvaguarda chinesa funciona como um alerta estratégico. Mais do que um choque conjuntural, a medida reforça a urgência de o Brasil avançar na diversificação de mercados e na consolidação de uma agenda comercial menos concentrada, em um momento em que o ciclo pecuário e o equilíbrio global da oferta impõem limites claros à expansão da produção.

Fonte: O Presente Rural
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Leite A2 chega gratuitamente à população e melhora qualidade de vida no interior paulista

Projeto pioneiro beneficia cinco mil moradores em Novo Horizonte e amplia acesso a alimento de melhor digestibilidade.

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Foto: Divulgação/IZ-APTA

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, por meio do Instituto de Zootecnia (IZ-APTA), foi parte determinante para que a cidade de Novo Horizonte, localizada no interior paulista, distribuísse, gratuitamente, leite do tipo A2 para a população. De acordo com os dados do município, o projeto pioneiro no Estado já beneficiou cerca de 5 mil habitantes, com o fornecimento de mais de 13 mil litros de leite.

Esta variedade é recomendada às pessoas que sofrem com desconforto gastrointestinal ao ingerir a bebida e derivados. Pioneiro na identificação do leite A2 no país, o laboratório de Genética e Biotecnologia do IZ realiza análises que garantem a pureza, possibilitando sua certificação e garantindo mais segurança ao consumidor.

“A parceria foi fundamental para consolidar o que nós temos em Novo Horizonte. O Instituto disponibilizou o espaço (Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Genética e Biotecnologia do IZ) para realizar os exames nas vacas e identificá-las como A1 e A2, além de realizar a aferição da qualidade e pureza do leite A2”, relatou o prefeito da cidade, Fabiano Belentani.

Pesquisador do Instituto de Zootecnia, Anibal Eugênio Vercesi Filho: “Em alguns indivíduos, a BCM-7 é considerada fator de risco, pois pode afetar o processo digestivo e desencadear a inflamação das mucosas gástrica e intestinal” – Foto: Divulgação/IZ-APTA

Inicialmente, o projeto beneficiou os alunos matriculados na rede de ensino municipal e depois se expandiu para os demais setores, como unidades de saúde e postos de assistência social. “Nós fornecemos o alimento na merenda escolar, na saúde para pacientes crônicos e idosos e também na assistência social”, comenta o prefeito.

Como é o caso da senhora Fátima Aparecida, beneficiada com a distribuição do leite A2 no município. Há cinco anos, ela precisou passar por uma cirurgia delicada por conta de um câncer de intestino. Depois do procedimento, Fátima até tentou o consumo da bebida, e somente com o A2 foi possível a ingestão sem ocasionar qualquer desconforto intestinal. “Eu tinha tomado vários tipos de leite, e nenhum deu certo. Até chegar o A2, que foi muito bom para mim, porque, se eu tomo, de fato, não acontece nada: não tenho diarreia, cólica, nem nada”, relata.

Variedade do leite A2

Estimativas apontam que parte dos brasileiros tem algum tipo de problema intestinal com o consumo de leite. O pesquisador Aníbal Eugênio Vercesi Filho, diretor da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Genética e Biotecnologia do IZ, ressalta que, durante a digestão do leite que contém beta-caseína A1, se forma um peptídeo, a beta-casomorfina 7 (BCM-7), e isso pode inflamar o intestino. “Em alguns indivíduos, a BCM-7 é considerada fator de risco, pois pode afetar o processo digestivo e desencadear a inflamação das mucosas gástrica e intestinal, causando sintomas como inchaço, gases, dor abdominal e diarreia. Este peptídeo não é formado com a digestão do leite A2”, menciona.

A nutricionista da Diretoria de Segurança Alimentar da SAA, Sizele Rodrigues, explica que esse problema é muito comum logo nos primeiros anos de vida. “A alergia à proteína do leite de vaca (APLV) é o tipo de alergia alimentar mais comum em crianças até três anos de idade e é caracterizada pela reação do sistema imunológico às proteínas do leite, principalmente à caseína e às proteínas do soro”, aponta.

Sizele ainda ressalta que pesquisas realizadas sobre esta variedade trouxeram resultados positivos, mas é fundamental manter a constância para novas descobertas e confirmações. “Alguns estudos já sugerem diversos benefícios na troca do consumo do leite comum pelo A2, que pode fortalecer a imunidade e evitar o aumento da inflamação e dos problemas gástricos. Esse tipo de leite pode sim ser uma alternativa para pessoas com maior sensibilidade no sistema digestivo, por ser notoriamente de mais fácil digestão”, expõe.

Investimento na Pecuária Paulista de Leite

Com a finalidade de apoiar o desenvolvimento da pecuária leiteira paulista, por meio da modernização de técnicas de manejo e da adoção de tecnologias de produção, a Secretaria de Agricultura, por meio do Fundo de Expansão do Agronegócio (FEAP), mantém a linha de crédito Leite Agro SP.

Em 2025, mais de 60 produtores foram beneficiados pela linha. “A linha representa uma oportunidade para o produtor modernizar sua atividade, melhorar a qualidade do leite e reduzir custos de produção. Com crédito acessível, em condições diferenciadas, o produtor consegue investir em genética, nutrição e infraestrutura, garantindo mais produtividade e competitividade. É o apoio direto do Governo, por meio da SAA, para fortalecer a pecuária leiteira no Estado e assegurar o sustento das famílias no campo”, destaca o secretário executivo do FEAP, Felipe Alves.

Além da linha de financiamento para o produtor, a SAA também possui uma iniciativa que permite ao poder público estadual adquirir produtos diretamente de agricultores familiares, por meio de suas cooperativas: o Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS). O leite está entre os produtos que integram o programa. Somente este ano, foram mais de R$ 53 milhões em compras públicas da agricultura familiar.

Fonte: Assessoria SAA-SP
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