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Ausência sentida

Há 23 anos desaparecia Aury Luiz Bodanese, uma das maiores lideranças do cooperativismo brasileiro. O fato é, ainda, muito recente para dele se extrair todas as avaliações que uma perspectiva histórica pode proporcionar, mas não existem dúvidas sobre sua influência na estruturação e na evolução do sistema cooperativista catarinense.

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Há 23 anos desaparecia Aury Luiz Bodanese, uma das maiores lideranças do cooperativismo brasileiro. O fato é, ainda, muito recente para dele se extrair todas as avaliações que uma perspectiva histórica pode proporcionar, mas não existem dúvidas sobre sua influência na estruturação e na evolução do sistema cooperativista catarinense.

A extraordinária trajetória desse homem fascina a todos que o conheceram em vida ou que estudaram seus feitos. De origem humilde, tinha total obstinação pelo trabalho e entregou-se, precocemente, a tarefas laborais como, por exemplo, aos treze anos, transportar cereais do Alto Uruguai gaúcho até Porto Alegre, pilotando um caminhão Ford 1946, em viagens que duravam até oito dias. Nasceu em Barão do Cotegipe, na época (1934), distrito de Erechim (RS) e ainda jovem transferiu-se, com a família, para o distrito de Alto da Serra, em Chapecó (SC). Ali dedicou-se ao comercio de cereais até entrar em contato com o cooperativismo na década de 1960.

Aury teve participação decisiva na implantação e fortalecimento do cooperativismo. Em 1967 concebeu e coordenou a fundação da Cooperchapecó que, anos depois, viria a transformar-se na Cooperalfa, a maior cooperativa singular catarinense. Dois anos depois, em 1969, percebeu que era imperiosa a industrialização dos produtos primários para evitar que a região se limitasse a simples produtora/fornecedora de matérias-primas para a indústria de alimentos. Para materializar essa visão avançada, constituiu a Cooperativa Central Oeste Catarinense (atual Aurora Coop) e idealizou a compra de um frigorífico em situação falimentar. Nascia ali aquela que transformou-se em uma das duas maiores cooperativas centrais brasileiras. Perseguiu tenazmente a idéia de estruturar as cooperativas para que tivessem condições de transformar, beneficiar, industrializar a produção primária, agregando-lhe valor.

O sucesso da Cooperalfa e da Aurora Coop torna possível afirmar que Bodanese criou, dirigiu e estruturou o maior complexo cooperativo de Santa Catarina, oferecendo aos pequenos e médios produtores rurais condições de competitividade em todos os mercados. Fomentando a produção pecuária e de cereais, transformou o Oeste catarinense em um dos maiores produtores mundiais de alimentos.

Além de constituir e presidir as maiores sociedades cooperativistas de SC, Aury fundou e dirigiu todas as entidades do setor, como Ocesc, Fecoagro, Cocecrer (atual Sicoob), Itec, etc. Não acalentava projetos político-partidários nem pretensões eleitorais, mas foi homenageado como Cidadão Honorário de Santa Catarina em 1997 (por minha iniciativa) e de dezenas de municípios. Recebeu honrarias e prêmios de instituições nacionais e internacionais e, repetidas vezes, foi eleito liderança nacional dos segmentos agroindustrial avícola, agroindustrial suinícola, cooperativo etc.

Atuou no universo cooperativista, mas os efeitos de seus atos atingiram toda a sociedade pelo aumento da oferta de alimentos, pela geração e distribuição de riquezas, pela abertura de novos mercados.

Ausência sentida em milhares de corações, Aury será sempre lembrado em cada assembléia que se realizar, em cada tijolo que se assentar, em cada projeto que se implantar. Sua memória será cultuada em cada semente que plantarmos, em cada safra que colhermos, em cada nova fábrica que inaugurarmos, em cada gesto laboral de seus milhares de ex-colaboradores. Será honrado pelas milhares de famílias que o elegeram seu líder e porta-voz; pelos operários das indústrias erguidas pelas cooperativas e pelos dirigentes de dezenas de cooperativas criadas pela sua influência e pelo seu estímulo.

Fonte: Artigo escrito por José Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC).

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Agro amplia presença feminina, mas liderança segue concentrada com homens

Participação cresce na gestão e na produção, enquanto homens ainda respondem por 59% das decisões. Diferença expõe limite no acesso à liderança no setor.

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A presença feminina no agronegócio brasileiro deixou de ser periférica há algum tempo, mas a distribuição de poder dentro do setor ainda não acompanhou esse movimento na mesma velocidade.

Dados levantados pela PwC mostram que mais mulheres estão no campo, na gestão de propriedades, na assistência técnica, no marketing, na pesquisa e na condução de negócios rurais, porém a tomada de decisão segue majoritariamente concentrada nas mãos dos homens. Há uma evidente assimetria que não pode ser tratada apenas como pauta de representatividade.

Quando a pesquisa aponta que mulheres agregam capacidade analítica, visão crítica, adaptação e resolução de problemas, o dado não deveria ser lido como elogio institucional, mas como indicativo objetivo de competências que hoje fazem diferença em ambientes produtivos mais expostos a risco e transformação.

Artigo escrito pela advogada Gabriela Veloso – Foto: Gabriela Veloso/Martorelli Advogados

O avanço feminino no agronegócio foi sendo construído por mulheres que precisaram conquistar legitimidade técnica, espaço comercial e presença em ambientes historicamente masculinos, muitas vezes tendo de provar mais para ocupar o mesmo lugar. O fato de esse percurso hoje parecer mais improvável do que há duas décadas revela mudança, mas não autoriza a conclusão apressada de que a barreira foi superada.

Esse ponto fica ainda mais evidente quando a expansão da presença feminina é comparada ao acesso efetivo à liderança. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, as mulheres já representam 27,59% das propriedades atendidas pela assistência técnica e gerencial do Senar/MS, além de ampliarem participação em cadeias como olericultura, leite, corte e agroindústria.

Ao mesmo tempo, o estudo da PwC indica que, nas organizações do setor, 59% das decisões ainda permanecem sob responsabilidade dos homens, enquanto apenas 17% são protagonizadas por mulheres. O contraste é eloquente porque mostra que entrada e permanência não significam, automaticamente, influência sobre a estratégia.

Isso importa porque, no agro, decidir não é apenas ocupar um cargo. É participar da definição sobre investimento, diversificação de cultura, contratação de equipe, adoção de tecnologia, alocação de capital, gestão financeira da propriedade, relacionamento com fornecedores, planejamento sucessório e reação a ciclos de mercado.

Essa assimetria de gêneros, faz com que o próprio setor perca a chance de incorporar repertórios diferentes justamente onde eles poderiam alterar a forma de gerir risco e enxergar oportunidades.

O avanço feminino no agro, portanto, merece ser lido com mais sofisticação. O que precisa demonstrar sua capacidade de atualizar seus próprios centros de decisão para lidar melhor com um ambiente de negócios cada vez mais complexo.

Fonte: Artigo escrito pela advogada Gabriela Veloso
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A vida invisível do solo e o futuro da agricultura tropical

Microbiologia do solo ganha protagonismo ao elevar produtividade, reduzir dependência de insumos e fortalecer a resiliência das lavouras tropicais diante das mudanças climáticas.

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A próxima revolução agrícola talvez não esteja baseada nas máquinas, nas sementes ou nos fertilizantes, mas no que acontece abaixo da superfície do solo. Nos sistemas tropicais, compreender e manejar a microbiologia do solo deixou de ser uma discussão restrita à academia para se tornar um dos pilares da produtividade e da resiliência do agronegócio moderno.

O solo é, essencialmente, um organismo vivo. Em poucos gramas de terra fértil convivem bilhões de microrganismos responsáveis por processos que sustentam toda a produção agrícola: bactérias fixadoras de nitrogênio, fungos micorrízicos, que ampliam a absorção de nutrientes, e microrganismos capazes de solubilizar fósforo e outros minerais. Esse conjunto invisível de organismos é o que mantém o ciclo produtivo ativo e a estrutura o solo e sustenta a saúde das plantas.

Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.

Nos trópicos, essa dinâmica ganha características próprias. Diferentemente dos solos de clima temperado, onde a decomposição da matéria orgânica ocorre de forma mais lenta, os solos tropicais vivem sob temperaturas elevadas e intensa atividade biológica. Isso acelera a decomposição e, ao mesmo tempo, revela um potencial extraordinário: uma biodiversidade microbiana altamente adaptada a solos naturalmente ácidos e de baixa fertilidade.

É justamente essa biodiversidade que abre caminho para uma agricultura mais eficiente. Estudos conduzidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que o uso de inoculantes microbiológicos adaptados às condições locais podem elevar a eficiência nutricional em culturas como soja e milho em até 30%, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e ampliando a sustentabilidade econômica das lavouras.

O desafio se torna ainda mais relevante diante das condições climáticas que caracterizam os grandes biomas agrícolas brasileiros. Em regiões como o Cerrado e a Amazônia, produtores convivem com pressão constante de pragas, eventos recorrentes de seca e oscilações climáticas cada vez mais frequentes. Nesse contexto, fortalecer a eficiência biológica do sistema produtivo passa a ser uma estratégia central de adaptação.

Práticas como cobertura permanente do solo, rotação diversificada de culturas e uso estratégico de bioinsumos ajudam a estimular a microbiota e melhorar o funcionamento do solo como sistema. Os resultados vão além da nutrição das plantas: solos biologicamente ativos apresentam maior retenção de água, menor lixiviação de nutrientes e maior capacidade de sequestrar carbono. Em sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, produtores já relatam maior estabilidade produtiva mesmo em ciclos de estresse climático.

O Brasil, aliás, já lidera um dos capítulos mais importantes dessa transformação. A inoculação biológica está presente em cerca de 85% da área cultivada com soja no país, a maior taxa de adoção do mundo. O mercado de bioinsumos cresce de forma consistente, com taxas anuais acima de 15%, refletindo uma mudança estrutural na forma como o produtor enxerga o manejo agrícola.

Mas a próxima etapa dessa evolução não será apenas ampliar o uso de produtos biológicos. O verdadeiro salto de eficiência virá da capacidade de medir e compreender melhor o funcionamento do solo. Indicadores como respiração microbiana, biomassa ativa e diversidade biológica já começam a ser utilizados como ferramentas de diagnóstico, permitindo decisões agronômicas mais precisas e adaptadas à realidade de cada área produtiva.

Se o Brasil pretende consolidar sua liderança na agricultura tropical, será necessário avançar também em políticas públicas e instrumentos econômicos que valorizem essa abordagem biológica. Mecanismos de remuneração por carbono no solo, linhas de crédito voltadas à transição para sistemas mais regenerativos e plataformas tecnológicas capazes de conectar microrganismos específicos a diferentes tipos de solo são caminhos que começam a ganhar relevância.

A ciência do solo aponta, com cada vez mais clareza, que produtividade e biologia caminham juntas. Empresas de inovação agrícola já investem em pesquisa para desenvolver bioestimulantes e soluções microbiológicas adaptadas aos diferentes biomas brasileiros, ampliando a possibilidade de manejar o solo com o mesmo nível de precisão com que a medicina trata um paciente.

Para o produtor rural, o primeiro passo pode ser mais simples do que parece: conhecer melhor a vida que existe no próprio solo. Um diagnóstico microbiológico é capaz de revelar se aquele sistema está biologicamente ativo, equilibrado e preparado para expressar todo o potencial produtivo da lavoura.

No fim das contas, a agricultura tropical do futuro será construída menos pela força de insumos externos e mais pela capacidade de ativar essa complexa máquina viva que existe debaixo dos nossos pés. Uma máquina silenciosa, invisível, e absolutamente essencial para produzir mais, com mais resiliência e inteligência agronômica.

Fonte: Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.
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Saúde Única exige mudança prática no uso de medicamentos e no manejo nas propriedades

Conceito que integra saúde humana, animal e ambiental avança no debate, mas ainda esbarra no uso indiscriminado de antibióticos, falhas em biosseguridade e risco de resíduos na produção de alimentos.

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Apesar de ter suas raízes há mais de dois séculos, o conceito de Saúde Única ainda tem um longo caminho a percorrer até, de fato, atingir a abrangência e a consciência necessárias. Alguns avanços já foram alcançados, mas os pilares que sustentam este conceito ainda precisam ser disseminados, popularizados e colocados em prática por empresas, profissionais autônomos e pela sociedade como um todo. É preciso ter em mente que vivemos em um grande ecossistema, onde a saúde de um está diretamente relacionada à saúde do outro e ao ambiente onde vivemos.

Apenas para contextualizar, o conceito de “One Health” é uma espécie de evolução de estudos desenvolvidos desde meados de 1800. Foi no final do século XIX que surgiu o conceito de zoonoses. Naquele momento, foi comprovado que algumas doenças podiam ser transmitidas de animais para humanos. Logo em seguida, surgiu o conceito “One Medicine”, que já trazia a ideia de integração entre a medicina humana e veterinária. No entanto, demorou quase 100 anos para o termo ganhar força. A repercussão mundial começou mesmo após a publicação do livro do médico veterinário Calvin Schwabe, Veterinary Medicine and Human Health, com uma visão mais aprofundada da relação entre a saúde humana e animal.

Chegando ao século XXI, mais um marco importante: a publicação dos 12 Princípios de Manhattan. Foi neste momento que surgiu, pela primeira vez, o conceito “One World, one Helth”, incluindo a questão do meio ambiente na discussão. De lá para cá, fóruns, congressos e até a definição de uma data mundial para reflexão sobre Saúde Única deram amplitude à discussão. A questão agora é sair do papel, aplicando todos esses conceitos no dia a dia em diferentes frentes e iniciativas.

Saúde é um conceito amplo e há uma fragmentação de cuidados por segmentos. E, por este motivo, é preciso disseminar boas práticas que visem a aplicação de estratégias integradas.

Como exemplo dessa integração, podemos citar a indústria de medicamentos veterinários. A ligação desse setor com a saúde humana é direta. Todo animal de produção, por exemplo, que recebe um medicamento veterinário, pode deixar resíduos no alimento que, em algum momento, chegará à mesa do consumidor, caso os produtores não respeitem o período de carência preconizado pela indústria farmacêutica.

Ainda sobre medicamentos, importante fazer uma ressalva específica sobre os antibióticos. Esses medicamentos devem ser utilizados para tratamento e não para a prevenção de doenças. Ou seja, devem ser utilizados apenas em casos realmente necessários e jamais como medida preventiva. Esta informação merece destaque pois, além de possíveis resíduos, o uso indiscriminado de algumas substâncias pode fazer com que o animal – e até mesmo de todo um rebanho – crie resistência às bactérias, gerando a necessidade de mais medicamentos ou, dependendo da gravidade, o abate dos animais.

Prevenção de doenças deve ser feita com manejo adequado e medidas de biosseguridade. Estas medidas envolvem desde higiene e sanitização das instalações, vacinação, quarentena de animais adquiridos recentemente, controle de acesso a pessoas ou veículos e isolamento dos animais doentes. Ao manter o rebanho saudável, o produtor garante também alimentos seguros e saudáveis para o ser humano.

Se, mesmo com os cuidados, a doença aparecer e o caso for para antibióticos, deve-se ter atenção redobrada à dose correta, a aplicação e ao descarte de embalagens. Essa última etapa impacta diretamente o meio ambiente.

Vivemos em um grande ecossistema e, quando falamos em saúde, a responsabilidade é ainda maior. Cada um, em sua área de atuação, precisa ter a consciência dos impactos de suas ações. Desde a medicação desnecessária, a negligência com a higiene ou o descarte irresponsável, todas estas atitudes afetam a saúde de todos. Este é o princípio básico da Saúde Única. E devemos tê-lo sempre em mente na hora de tomarmos qualquer decisão.

Fonte: Artigo escrito por Lilian Abreu, gerente de Assuntos Técnicos e Regulatórios da Chemitec Agro-Veterinária.
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