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Suínos Implicações econômicas

Aumento na mortalidade de leitões eleva custo de produção em 1%

Leitões que demonstram baixo tônus muscular, palidez ou sinais de hipóxia durante o parto têm taxas de mortalidade mais elevadas.

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O melhoramento genético na criação de suínos para aumento do tamanho de leitegada tem sido uma conquista significativa nos últimos anos. No entanto, esse avanço não vem sem seus próprios desafios. A jornada para otimizar esse progresso e garantir que ele contribua para a produtividade e rentabilidade da indústria suína é uma tarefa complexa, que demanda um equilíbrio delicado entre seleção genética e cuidados ambientais.

Embora esse progresso seja positivo, ele trouxe consigo desafios adicionais, como aumento da duração de parto, aumento da competição por colostro e, se não bem trabalhado no índice de seleção de cada linhagem, pode também ocasionar maior variação de peso ao nascimento e aumento na ocorrência de neonatos de baixa vitalidade. “Esses desafios podem aumentar a probabilidade de mortalidade pré-desmame em programas genéticos que não são balanceados. Além disso, diversos outros fatores, relacionados à fêmea, aos leitões e ao ambiente, podem afetar direta ou indiretamente os índices de mortalidade” adverte a médica-veterinária, com mestrado e doutorado em Ciências Veterinárias pelo Setor de Suínos, Kelly Jaqueline Will, em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.

A especialista enfatiza que a perda de leitões reduz o potencial de desmame, diminuindo o número de leitões desmamados por fêmea/ano o que, consequentemente, impacta na lucratividade do produtor. “Além disso, altas taxas de mortalidade muitas vezes implicam em custos adicionais e esforços extras de mão-de-obra” ressalta Kelly, que será uma das palestrantes do 16º Simpósio Internacional de Suinocultura (Sinsui), evento que O Presente Rural é parceiro de mídia.

Em sua palestra, a especialista vai tratar sobre “Desafios de manejo da mortalidade pré-desmame: como a análise de fatores de risco pode nos auxiliar?”. O Sinsui será realizado entre os dias 23 e 25 de julho no Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Implicações econômicas

Médica-veterinária, com mestrado e doutorado em Ciências Veterinárias pelo Setor de Suínos, Kelly Jaqueline Will: “Garantir que as fêmeas estejam em ótimas condições no parto, com cuidados físicos, nutrição adequada e condições sanitárias ideais, ajuda a promover um parto bem-sucedido e reduzir natimortos” – Foto: Arquivo pessoal 

Um estudo realizado em 2023 revelou que cada aumento de 1% na mortalidade pré-desmame resulta em um aumento de 1% no custo de produção por leitão desmamado. “Se o número de tetos das fêmeas não é adequado, se faz necessário uma maior quantidade de mães de leite, que é um fator que implica em maior mão de obra, acarretado em um custo elevado ao produtor, para evitar uma maior mortalidade pré-desmame” expõe a médica-veterinária.

Segundo a profissional, a análise de fatores de risco ou associados podem maximizar a eficiência e a lucratividade do sistema de produção, pois ao identificar e compreender esses fatores os produtores podem direcionar seus esforços de forma mais assertiva, mesmo que isso não garanta uma precisão absoluta. “Essa abordagem permite uma alocação mais estratégica de recursos, concentrando-os em áreas onde as decisões são baseadas em probabilidades e na avaliação da sua própria realidade e desafios, em vez de apenas em intuição ou empirismo. Isso pode resultar em decisões mais informadas e, em uma intervenção mais eficiente e lucrativa” considera Kelly.

Fatores de risco

A análise de fatores de risco é essencial para os produtores identificarem e lidarem com as principais causas de mortalidade pré-desmame em suas instalações, uma vez que permite a identificação de variáveis importantes associadas à mortalidade, características dos animais, manejo, condições das instalações, ambiência, saúde e nutrição.

No entanto, dada a complexidade do problema, Kelly menciona que encontrar os fatores controláveis pode ser desafiador, já que muitas vezes estão interligados e podem se manifestar em conjunto, dificultando a separação de seus efeitos isolados e a determinação das áreas prioritárias para intervenção. “Nesse contexto, a análise multivariada surge como uma ferramenta interessante para elucidar essas interações e desenvolver estratégias de manejo mais eficazes, visando à redução consistente da mortalidade pré-desmame” expõe a doutora em Ciências Veterinárias.

Quando associados à mortalidade pré-desmame em suínos, os fatores de risco podem ser agrupados em três categorias principais: fatores relacionados aos leitões, às fêmeas e ao ambiente. Kelly explica que em relação aos leitões o peso ao nascimento e a vitalidade são de extrema importância. “Neonatos com baixo peso ao nascer e aqueles com baixa vitalidade têm maior chance de não sobreviverem. Especificamente, leitões que demonstram baixo tônus muscular, palidez ou sinais de hipóxia durante o parto têm taxas de mortalidade mais elevadas. Por isso é importante trabalhar o fator genético relacionado à uniformidade e maior peso ao nascimento, mesmo em leitegadas mais numerosas” pontua.

Quanto às fêmeas, o comportamento desempenha um papel fundamental, visto que matrizes com pouca habilidade materna ou que estão sob condições de estresse têm maior probabilidade de esmagar os leitões. Além disso, fêmeas agitadas podem ter menos tempo de exposição dos tetos, o que afeta a capacidade dos leitões de consumir colostro e leite. “A produção adequada de colostro e leite, em termos de quantidade e qualidade, é determinante para a imunidade e desenvolvimento dos leitões. O número e qualidade dos tetos da fêmea devem ser condizente ao tamanho da leitegada. Leitegadas maiores podem prolongar o parto e reduzir a vitalidade dos leitões, aumentando a competição por colostro/leite, elevando as taxas de mortalidade, especialmente se houver um número insuficiente de tetos” explica Kelly.

O terceiro ponto diz respeito ao ambiente. A profissional salienta que temperaturas extremas podem aumentar as taxas de mortalidade, uma vez que o frio pode levar os leitões a se agruparem, aumentando o risco de esmagamento, enquanto o calor pode afetar a ingestão de ração e a produção de leite das fêmeas, predispondo também a esmagamentos devido à agitação. “A relação entre mão de obra e tamanho do plantel é também relevante, pois pode resultar em negligência de cuidados na maternidade, contribuindo para o aumento da mortalidade pré-desmame” observa Kelly.

De acordo com a especialista, monitorar regularmente esses fatores, através de análises da condição física e da saúde dos animais, inspeções das instalações e avaliações das práticas de manejo e nutrição, é essencial para identificar áreas de melhoria e implementar medidas preventivas. Além disso, oferecer assistência ao parto, auxílio para a primeira mamada e aquecimento de neonatos com baixa vitalidade podem ser determinantes para a sobrevivência desses leitões. “É fundamental adaptar essas práticas de acordo com os desafios específicos de cada realidade” sugure Kelly.

Métricas e indicadores para análise de fatores de risco

Segundo a médica-veterinária, ao analisar os fatores de risco da mortalidade pré-desmame, é importante considerar diversos indicadores para uma compreensão completa e identificação de áreas para melhoria. “Sabemos que a disponibilidade de dados pode variar, podendo ser obtidos de forma individualizada, semanalmente, por lotes ou de outras maneiras, mas é fundamental reunir o máximo de dados possível” ressalta.

Kelly menciona alguns exemplos de métricas e indicadores importantes, entre os quais incluem taxa de mortalidade pré-desmame, duração do parto, número de nascidos, peso médio ao nascimento, consumo de colostro, condição corporal das fêmeas, descrição da infraestrutura, protocolos de manejo, índices produtivos, temperatura, umidade, manejo nutricional e padrão sanitário. “Avaliar a porcentagem de mães de leite também é essencial para eficiência do sistema, já que um grande uso delas pode representar perda de eficiência e maior demanda de mão de obra, que está cada vez mais escassa” pontua, acrescentando: “Ao acompanhar sistematicamente essas métricas e indicadores de forma contínua, os produtores podem identificar padrões, tendências e áreas de preocupação, permitindo intervenções direcionadas e eficazes para reduzir a mortalidade pré-desmame e melhorar o desempenho geral”.

Redução de riscos de mortalidade pré-desmame

Kelly destaca que a implementação de protocolos de biosseguridade desempenha um papel fundamental na redução dos riscos de mortalidade pré-desmame, especialmente relacionados a doenças entéricas em leitões, que podem resultar em altas taxas de mortalidade.

Ao adotar medidas como limpeza e desinfecção regular das instalações e equipamentos, controle de acesso de pessoas e veículos, monitoramento frequente do status sanitário do plantel e implementação de protocolos vacinais, os produtores podem mitigar os riscos e proteger a saúde dos animais, ajudando a reduzir as perdas pré-desmame.

Saúde das matrizes e suas leitegadas

De acordo com a médica-veterinária, para reduzir a mortalidade pré-desmame e melhorar o bem-estar dos suínos, é necessário focar em dois pontos principais: a condição da fêmea e a vitalidade dos neonatos. “Garantir que as fêmeas estejam em ótimas condições no parto, com cuidados físicos, nutrição adequada e condições sanitárias ideais, ajuda a promover um parto bem-sucedido e reduzir natimortos” afirma.

Neste contexto, Kelly reforça que a seleção genética também desempenha um papel importante, influenciando a resistência a doenças, o desempenho do parto e a produção de colostro e leite de qualidade. “Estudos mostram que a herdabilidade do prolapso chega a 35%, destacando a importância da seleção genética para enfrentar esse desafio” aponta.

Outro aspecto que a profissional destaca é a importância de garantir a vitalidade dos neonatos, não apenas que os leitões nasçam vivos, mas também que possam mamar colostro e se desenvolver adequadamente. “Medidas práticas incluem assistência durante o parto, garantindo acesso ao colostro e fornecendo fontes adicionais de calor, dada a imaturidade do sistema de termorregulação dos leitões” evidencia Kelly, enfatizando: “Embora esses pontos possam parecer simples, na prática diária da granja, garantir seu cumprimento muitas vezes é um grande desafio, desde a seleção da linhagem genética até a decisão do manejo adequado. Portanto, concentrar esforços nesses aspectos básicos é fundamental para aumentar as taxas de sobrevivência dos neonatos antes de considerar estratégias mais elaboradas”.

Identificação precoce dos problemas de saúde

A análise de dados, o desenvolvimento de modelos de predição, e o uso de tecnologias de monitoramento têm um potencial enorme para auxiliar os produtores na identificação precoce de problemas de saúde e bem-estar que possam levar à mortalidade pré-desmame.

No entanto, a doutora em Ciências Veterinárias diz que esse potencial ainda é pouco explorado. “Muitas vezes, ocorre o registro inadequado das informações nas granjas, sem seguir um padrão definido, o que pode levar a erros na tomada de decisão. Nesse contexto, destaco a relevância crítica do registro preciso e padronizado de todas as informações. Isso não apenas assegura a qualidade dos dados, mas também a confiabilidade das respostas obtidas por meio das análises realizadas” reforça.

Além disso, a especialista menciona que ainda há poucas pessoas com habilidades para realizar análises mais complexas aplicadas a produção de suínos, o que limita ainda mais a capacidade dos produtores de aproveitar ao máximo essas ferramentas poderosas de identificação precoce de desafios.

Implementação de estratégias de manejo

Segundo Kelly, os desafios práticos na implementação de estratégias de manejo para reduzir a mortalidade pré-desmame são diversos. Em primeiro lugar, a médica-veterinária diz que é preciso capacitar os profissionais para o uso eficaz dessas ferramentas de análise e expandir o conhecimento sobre elas, uma vez que atualmente há uma escassez de profissionais que dominam e aplicam essas ferramentas na produção de suínos, o que limita a sua adoção e impacto. “Embora seja coletada uma quantidade considerável de dados, muitas vezes não os utilizamos plenamente para gerar informações úteis e auxiliar na tomada de decisões. Em vez disso, frequentemente nos concentramos em corrigir problemas imediatos, negligenciando a análise da relação complexa entre vários fatores. Isso resulta em uma abordagem reativa em vez de proativa, comprometendo nossa capacidade de prevenir ou mitigar os riscos de mortalidade pré-desmame” detalha.

Outro desafio significativo está relacionado a realização consistente e eficiente de práticas básicas de manejo. Embora muitos procedimentos possam ser eficazes individualmente, sua implementação precisa ser feita de forma coerente e integrada para alcançar bons resultados. “Os principais fatores de risco para a mortalidade pré-desmame são dinâmicos e variam conforme o período, a granja, a região e outros fatores. Por isso é essencial adotar uma abordagem flexível e adaptativa, capaz de ajustar as estratégias de manejo de acordo com as condições específicas. Superar esses desafios requer educação contínua, aprimoramento das práticas de manejo e integração eficaz de dados e análises para orientar as decisões. Escolher uma linhagem genética alinhada aos objetivos da granja também é fundamental para a sustentabilidade e rentabilidade a longo prazo” salienta.

Melhorias devem ser contínuas

A mortalidade pré-desmame é um desafio persistente na produção de suínos. Para melhorar esse índice, é fundamental implementar práticas básicas de manejo eficazes, como garantir condições ideais durante o parto para as fêmeas e a vitalidade dos leitões recém-nascidos. “A seleção genética cuidadosa de fêmeas com alta habilidade materna, o correto consumo de colostro pelos leitões e o fornecimento de fontes adicionais de calor são medidas essenciais para diminuir a mortalidade pré-desmame” afirma Kelly.

No Brasil, a diversidade de instalações, práticas de manejo e condições climáticas pode afetar a mortalidade pré-desmame de forma direta ou indireta. “Compreender as particularidades de cada sistema e os principais desafios em diferentes contextos é essencial para garantir uma boa produção”, pontua, destacando que apesar da abundância de dados disponíveis, muitas vezes técnicos e produtores falham em utilizá-los de forma eficaz. “É fundamental coletar e analisar cuidadosamente esses dados para identificar os desafios específicos de cada sistema e desenvolver estratégias direcionadas. Ferramentas de análise de fatores de risco e modelos de predição desempenham um papel importante nesse contexto. É essencial expandir o conhecimento e promover o uso rotineiro desses métodos no campo” salienta.

Kelly ainda lembra a importância da colaboração entre produtores, pesquisadores e profissionais da indústria para buscar estratégias para enfrentar os desafios da mortalidade pré-desmame de forma eficaz. “Ao compartilhar conhecimentos, experiências e resultados, podemos desenvolver soluções mais robustas e sustentáveis para garantir o sucesso de todo o sistema de produção de suínos”, ressalta.

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Fonte: O Presente Rural

Suínos

Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos

Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

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Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition

Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.

Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.

Impactos de alto custo

A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.

O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.

Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.

Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.

Controle fúngico

Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.

Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.

Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos

O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.

Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.

Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.

Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.

Abordagem preventiva e integrada

O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.

Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos

Cinco passos para maximizar o desempenho das leitoas

Primeiro parto define o “piso” de desempenho da primípara e influencia custo, permanência no plantel e eficiência reprodutiva.

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Artigo escrito por Amanda Pimenta Siqueira e João Victor Facchini Rodrigues, Serviços Técnicos da Agroceres PIC

A produtividade de uma a granja é determinada, em grande parte, pela capacidade de transformar leitoas em matrizes eficientes. A reposição costuma ser conduzida como rotina, mas pode operar como um dos motores mais efetivos de eficiência econômica da granja.

O ponto-chave é técnico e direto. O desempenho em nascidos totais no 1º parto tende a orientar o desempenho dos partos seguintes. Quando o primeiro resultado é limitado por falhas de manejo, a granja carrega esse “teto” reprodutivo para frente.

Isso significa que uma boa preparação de leitoas é uma pré-condição absolutamente essencial para desempenho e longevidade. Quando as primíparas entram na reprodução com preparo padronizado, monitorado e bem realizado, eficiência reprodutiva e retenção são consequências imediatas e os resultados aparecem.

Onde nasce o desempenho da primípara

A preparação não começa na cobertura. Ela atravessa pré-desmame, recria, pré-cobertura/cobertura, gestação e se confirma na 1ª lactação. Pequenas falhas repetidas acumulam efeito: atrasam puberdade, comprometem cio e ovulação, reduzem taxa de concepção e limitam nascidos no 1º parto. A seguir, cinco pilares que sustentam desempenho e longevidade.

1) Gestão da informação

Gestão de fêmeas é gestão de dados. Sem registro, não há identificação de oportunidades e correções. O objetivo é quantificar a qualidade do manejo, e não “checar se foi feito”. O que não é medido vira variabilidade e variabilidade vira perda ao longo do processo de produção.

Um checklist de rotina ajuda a quantificar o que antes era “impressão”: assiduidade no diagnóstico de cio, exposição ao macho para 100% das leitoas elegíveis, precisão no manejo alimentar e efetividade do flushing.

Checklist de rotina:

Assiduidade no diagnóstico de cio: meta operacional de 100% dos dias com rotina executada.

Exposição ao macho: todas as leitoas elegíveis, sem exceção por “falta de tempo”.

Manejo alimentar: alimentação à vontade, sem interrupções.

Flushing: aplicação conforme protocolo, com registro de início, duração e lote.

Número de doses: uso racional baseado no protocolo de inseminação, diagnóstico de cio assertivo e conhecimento da fisiologia animal.

Número de coberturas por semana: garantir mão de obra treinada e em número suficiente para uma correta execução.

2) Pré-cobertura e cobertura

Entre a seleção e a cobertura, a maior causa de falhas costuma ser ausência de método. Sem rotina, não há controle: estímulo ao cio irregular, detecção inconsistente e falta de registro reduzem previsibilidade e aumentam o erro.

Estímulo diário à puberdade: usar machos rufiões de qualidade, com contato direto sempre que possível.

Detecção e registro são indispensáveis: registrar cio de forma sistemática sustenta decisões e reduz variação entre lotes.

Cobrir no 2º cio: está associado ao ponto de equilíbrio entre preparo fisiológico da futura matriz e retorno econômico.

Flushing é complementar: deve estar integrado ao manejo nutricional e respeitar tempo mínimo de adaptação.

Referências sólidas: peso, idade e condição corporal, ajustadas à genética e ao sistema, são fundamentais para o sucesso.

3) Inspeção diária: prevenção é parte do preparo

O acompanhamento “de rebanho” vem dando lugar ao cuidado mais personalizado das fêmeas. No caso da preparação de leitoas essa observação diária é ainda mais importante.

O princípio é simples: olhar individual, todos os dias, com checklist. Checar se a leitoa está comendo e bebendo, se levanta e se locomove bem, se está em conforto térmico e medicada. A inspeção inclui também o ambiente. Conferência de comedouros/drops, oferta correta de ração, vazão e qualidade da água, ventilação e piso.

Os benefícios são mensuráveis. Em plantéis onde essa rotina é bem implementada, observa-se redução média de 4 pontos percentuais na mortalidade. Com um responsável definido pela rotina, o manejo deixa de ser reativo e passa a ser preventivo e isso se traduz em um número maior de leitoas aptas para iniciar a vida reprodutiva.

4) Padronização: o básico bem-feito todos os dias

As granjas mais produtivas não fazem “manejo especial”; fazem o padrão sem variação: mesmo protocolo para todas as leitoas, todos os dias, com monitoria do gerente, revisão periódica e responsabilização do time. Constância de execução é o que transforma protocolo em resultado.

5) 1ª lactação: a primípara se confirma no 1º desmame

O desempenho da leitoa termina no primeiro desmame. Sem estímulo e consumo alimentar adequados, a primípara perde condição corporal, compromete retorno ao cio e reduz desempenho no parto seguinte. O manejo deve priorizar consumo, conforto térmico e acompanhamento diário. O uso estratégico da primípara como mãe de leite pode gerar ganhos, desde que preserve ingestão e condição corporal.

Genética entrega, manejo concretiza

Produtividade e longevidade se conectam no mesmo ponto: manejo executado com rigor e disciplina. O primeiro parto não é apenas um número; é um indicador de preparo. Sem padronização e inspeção diária, a granja não perde “um evento”, perde leitões ao longo da vida útil.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos

Duas estratégias nutricionais para melhor utilização de gorduras na suinocultura

Uso de emulsificantes e triglicerídeos de cadeia média aumenta a digestibilidade das gorduras na ração, fornecendo energia mais eficiente para fêmeas suínas e melhorando desempenho e saúde reprodutiva.

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Artigo escrito por Flávia Cristina Silva, médica-veterinária, MBA Gestão Empresarial, coordenadora Técnica Nacional – Suinocultura, Sanex

Sabe o que a Síndrome de 2º parto, a Síndrome do Outono e a queda nos resultados da maternidade no verão têm em comum? Energia! É claro que eu estaria sendo muito simplista reduzindo duas síndromes (que pela própria definição são multifatoriais) e um conjunto de índices de um setor em uma estação do ano a um único fator. Mas este fator, energia, é essencial para mitigar esses eventos. Logo, entender como a fêmea consegue energia e como isso pode ser otimizado é básico para a definição de estratégias nutricionais efetivas contra esses processos naturais.

Os mamíferos conseguem energia através de três macronutrientes, basicamente: carboidratos, lipídeos (gorduras) e proteínas, nesta ordem de utilização pelo organismo. As rações de suínos, por sua vez, são compostas geralmente por produtos de origem vegetal (farelos de milho e soja) e têm composição (em porcentagem) de carboidratos (de 50 a mais de 70%), proteínas (entre 16 e 20%) e gorduras (de 3 a 7%), nestas proporções. Se as gorduras são a segunda fonte de energia mais importante na ordem de utilização pelo organismo, por que uma inclusão tão baixa?

Entre os principais motivos, está a facilidade da quebra de carboidratos (no caso, o amido de milho) para conversão em energia pelo corpo. Este é um sistema em 3 etapas: na boca, com a saliva – amilase salivar; no duodeno, com o suco pancreático – amilase pancreática; na superfície dos enterócitos em todo o intestino delgado – dissacaridases, maltase em especial. O produto é a glicose, que fornece 4 kcal/g. Sua absorção é por transporte ativo facilitado através do enterócito e necessita de sódio. A glicose cai na corrente sanguínea e é levada diretamente para o fígado pela veia porta. Esse processo é rápido, dura de 1 a 2 horas.

Já as gorduras têm um processo um pouco mais longo e complexo, mas também pode ser dividido em 3 etapas: no estômago – lipase gástrica; no duodeno – emulsificação pelos sais biliares; ainda no duodeno – lipase pancreática. Os produtos são os ácidos graxos e os monoglicerídeos. Só assim poderão ser absorvidos pelo corpo. Ambos têm aproximadamente 9 kcal/g, a forma mais concentrada de energia em uma dieta, mais que o dobro da glicose e da proteína. No jejuno e no íleo, os ácidos graxos e os monoglicerídeos são absorvidos pelos enterócitos por difusão passiva, mas têm que passar por um processo de ressíntese e transformação em quilomícrons. Esses quilomícrons são muito grandes para serem lançados nos capilares sanguíneos, por isso são liberados nos vasos linfáticos, daí em vasos sanguíneos maiores e depois distribuídos para tecidos adiposos e musculares. Todo esse processo é lento, podendo levar de 6 a 8 horas (Figura 1).

Figura 1 – Processamento dos lipídeos da dieta em vertebrados. (Adaptado de Lehninger, 2022).

Energia

A principal finalidade da utilização de proteínas na ração não é a obtenção de energia. O corpo usa as proteínas para sua construção, como músculos, órgãos, pelos, pele etc. Apesar disso, em último caso (jejum prolongado) ou quando estão em excesso, a proteína pode ser utilizada como fonte de energia. Esse processo é metabolicamente caro e menos eficiente do que usar carboidratos e gorduras para obtenção de energia. Por isso, não vamos nos aprofundar nele aqui.

Em uma avaliação reducionista, poderíamos concluir que, do ponto de vista apenas da obtenção de energia, deveríamos usar somente carboidratos como fonte energética nas rações. Bom, isso poderia dar certo (em parte) se os animais tivessem livre acesso à ração e o consumo fosse relativamente equânime e constante ao longo do dia. O que não acontece em algumas situações na suinocultura: animais que têm restrição de consumo diário natural (leitões recém-desmamados e leitoas em lactação por causa do tamanho do estômago) ou imposto (fêmeas em gestação e machos reprodutores para manutenção do peso) e animais sob estresse térmico (como fêmeas lactantes no verão e terminados com alto índice genético, já que a lactogênese e a síntese proteica são termogênicos).

Em todas essas situações, poderíamos usar duas estratégias nutricionais para tornar a utilização de gorduras na ração mais eficiente e maior. A primeira é a utilização de emulsificantes para ampliar a eficiência da ação dos sais biliares, já produzidos pelo animal, e melhorar a digestibilidade das gorduras, evitando que essa energia seja eliminada pelas fezes. De acordo com a Figura 1, essa estratégia atuaria na etapa inicial do processo de digestão dos lipídeos, já que as etapas anteriores são menos relevantes. O principal emulsificante utilizado tanto pela indústria alimentícia humana quanto pela de rações animais é a lecitina de soja. A lecitina de soja atua na etapa de emulsificação das gorduras reduzindo o tamanho das partículas, quebrando-as em micelas e tornando-as estáveis em água (Figura 2). Essa estratégia aumenta a energia metabolizável pelo animal aumentando a eficiência da utilização das gorduras na ração.

Figura 2 – Formação de micelas (gotículas emulsionadas) através da emulsificação das gorduras pelos sais biliares (The A-level Biologist, 2026).

Segunda estratégia

Uma segunda estratégia nutricional, que não exclui a primeira, é a adição de gorduras ricas em triglicerídeos de cadeia média (TCMs) ou ácidos graxos de cadeia média (AGCMs), como o óleo de palmíste e de coco. Os TCMs são hidrolisados mais rápido e facilmente e são absorvidos no intestino, não dependem de sais biliares e quilomícrons para sua metabolização. Diferentemente dos triglicerídeos de cadeia longa (TCL), não precisam do sistema linfático para serem transportados e vão diretamente para o fígado pela veia porta. O que resulta em um metabolismo mais rápido que as gorduras convencionais. Além disso, o organismo os usa preferencialmente como fonte de energia imediata e tem menor tendência de armazenamento como gordura corporal. Os TCMs também são fonte de energia rápida para os enterócitos.

Essas duas estratégias podem ser consorciadas, pois nenhuma gordura ou óleo natural é puro; o que há é o predomínio de cadeias longas, médias ou curtas (assunto para outro artigo). O fato é que a suinocultura tem ferramentas efetivas, conceitos já consolidados em outras espécies e que podem auxiliar na mitigação dessas síndromes e prejuízos mencionados no início do artigo.

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Fonte: O Presente Rural
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