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Aumento expressivo dos grãos gera descompasso com outras atividades
Saca de milho lidera valores significativos registrados de um ano para cá, com recorde de 259,46%; soja acumula alta de 85,14% e trigo subiu 51,66%

Análise divulgada há pouco mais de uma semana pelo Sindicato Rural de Toledo, no Oeste do Paraná, destaca, comparativamente, os valores expressivos que as commodities tiveram de um ano para o outro. Considerando as datas de 23 de abril de 2020 e 23 de abril de 2021, o milho registrou o maior aumento, passando de R$ 37 a R$ 96, ou elevação de 259,46%. A saca da soja saltou de R$ 87,50 a R$ 162, ou 85,14% de elevação. Já o trigo avançou de R$ 60 para R$ 91 a saca, perfazendo 51,66% de aumento.
O preço do quilo do suíno pago ao produtor aumentou de R$ 3,61 para R$ 6,72 (86,14%), a arroba da vaca passou de R$ 170 para R$ 285 (67,64%) e a arroba do boi gordo aumentou de R$ 180 para R$ 300 (66,66%). Já o litro do leite pago ao produtor avançou de R$ 1,33 para R$ 1,60, o que significa 20,30% de expansão.
Descompasso
Para o presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, também no Oeste do Estado, Edio Chapla, o aumento das commodities ao longo dos últimos meses gerou discrepância em relação aos outros ramos da agricultura. “Desde o início de 2020 acompanhamos uma grande alta principalmente nas sacas do milho e da soja, o que motivou descompasso considerável nas outras atividades que dependem desses itens que fazem parte da ração para alimentar os animais”, expõe.
O que vem acontecendo desde o ano passado, pontua Chapla, é um aumento de custos ao agricultor em termos de aquisição de produtos e insumos diversos seja na parte agrícola, como adubos, nitrogenados, pois praticamente todos são importados e por isso cotados em dólar. “O alto valor dessa moeda também contribuiu à elevação de custos na aquisição desses produtos, assim como ao que diz respeito aos produtos veterinários utilizados nas atividades pecuárias”, observa.
Segundo ele, isso tudo gera maior desgaste ao produtor de leite, especialmente, porque a venda do leite do início do ano passado para este não teve aumento na mesma proporção do que os custos de produção da soja e do milho, incluindo o quesito forragem. “O produtor é quem mais sofre com essa questão da alta de preços, não tendo seu produto elevado a níveis que garantam receita e um bom resultado. Claro que nos suínos e nas aves também impacta, porque milho e soja representam em torno de 60% a 70% do custo total dos insumos de alimentação para esses animais”, pontua.
Chapla comenta que a indústria não tem como repassar este custo por não conseguir comprar com valor mais elevado, então não tem como fornecer aos produtos custos menores. “Além disso, a região tem parcerias com integradoras, que também têm custo elevado”, destaca.
Reajuste
O presidente do Sindicato Rural lamenta o cenário atual para a bovinocultura. “A gente vê no mercado o leite praticado muitos anos a esse preço, a exemplo de derivados como o queijo. Muito queijo consta com valor agregado, talvez o consumidor vê como se o produtor ganhasse muito dinheiro. Acreditamos que o atacado esteja ficando com a fatia maior de resultado, portanto há desproporção de preços, mas não é o que a indústria e o produtor estão ganhando. Vamos ter de sentar com o varejo, com os supermercados, para alinhar esta questão e ver quais os custos para equilibrar esta cadeia para todo mundo ter resultado na atividade”, expõe.
Liquidez de mercado
Especialista em agronegócio, João Luiz Raimundo Nogueira afirma que os preços das commodities dos grãos estão nos níveis mais altos da história. “O milho a R$ 98 é algo que não poderíamos imaginar um ano e meio atrás, bem como a soja a R$ 162 a saca. Isso é devido à altíssima liquidez nos mercados interno e externo. Exportou-se muito no ano passado e neste ano o ritmo segue. O consumo interno aumenta, mesmo que a exportação tenha subido, pois tais insumos são usados na produção de carnes, lácteos e outros. Além do mais, países como a China não são autossuficientes na produção de insumos como milho e soja para atender a própria demanda na produção de carnes”, explica.
Nogueira destaca que Brasil e Estados Unidos se tornaram referências de produção para a China, assim como o Norte da África, para quem o Brasil exporta. “Temos no mercado uma liquidez sem precedentes, então não sabemos onde vai parar. O custo para quem produz carne e leite está muito elevado. Nós temos de levar em consideração na cadeia alimentar a produção, transformação e o consumidor que está dentro dessa cadeia alimentar, seja o externo, mas sobretudo o consumidor interno. Temos dificuldades em relação aos insumos básicos para produtos com maior valor agregado, o que gera mais empregos e renda, algo que precisamos muito no Brasil”, evidencia.
O complexo de produção nacional tem muita qualidade, avalia o especialista. Prova disso, aponta ele, é que o frango brasileiro é exportado para mais de 150 países. “Mas estamos com problema no abastecimento interno, que está chegando até o bolso do consumidor, que também faz parte dessa cadeia. Se torna sério porque a renda está baixa devido à pandemia do coronavírus e ao desemprego. Há um mês a Confederação Nacional do Comércio divulgou pesquisa na qual 63,3% das famílias brasileiras estão endividadas, e com dívida o consumo cai. No setor leiteiro, por exemplo, em que não existe exportação, há uma barreira na hora que chega ao consumo. O produtor é pressionado por baixo com consumo elevado e você tem uma demanda restrita pela baixa renda no mercado interno”, analisa.
Disparidade
Ele comenta que os preços pagos pelo suíno e frango aos produtores não acompanham o aumento de valores dos insumos. “Isso mostra que devemos cuidar um pouco mais dos nossos insumos. É preciso haver mecanismos para segurar parte dos insumos para o nosso abastecimento sem custo tão elevado na produção de carnes. Esse peso fica para os produtores de carnes. Os frigoríficos devem melhorar essa questão e o governo federal deve trabalhar melhor os estoques reguladores, assunto no qual historicamente há desempenho muito bom. Porém, de alguns anos para cá foi abandonada essa política de estoque regulador, que em momentos difíceis com escassez o governo abre mão dos estoques através de leilões, e com preço mais acessível ao pequeno produtor é possível reduzir um pouco as dificuldades que o produtor passa em momentos como este”, salienta.
De acordo com o especialista, não há como mensurar quanto tempo vai durar esse cenário, no entanto, tudo sinaliza que 2021 terá alta liquidez desses produtos nos mercados nacional e internacional em virtude da demanda. “Portanto, vamos passar por um ano muito difícil. Dependemos e muito dessa safra de milho que está em curso, todavia o clima seco é um problema e isso vai influenciar muito os preços. A safra de milho é importantíssima para o abastecimento interno. Além da safra norte-americana, que deve ser semeada entre o final de abril e o início de maio”, menciona.
Até a semana passada, informa Nogueira, regiões nos Estados Unidos apresentavam dificuldades de semeadura em virtude do clima muito gelado. “Precisamos acompanhar a nossa safra de milho que ainda tem caminho longo a ser percorrido, e com clima seco que preocupa, além da safra americana”, enaltece.
Essas variáveis que chegam aos agentes de mercado dão suporte aos preços. “Os três fatores são demanda aquecida, estoques baixos e clima que afeta a nossa safra de milho. Falta chuva e o mercado trabalha com essas informações, deixando o preço sustentado. Em função disso também há a expectativa da safra americana. A Argentina também está no radar dos grandes consumidores de milho, soja e trigo. E hoje os produtores de carne estão de olho no trigo para substituir o milho na formulação de rações”, comenta o especialista.
Ele espera, assim como todos os produtores da região, que o clima colabore daqui para frente. “É urgente que nos próximos dez dias ocorram chuvas de forma mais abrangente no Oeste”, frisa.

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Registros genealógicos de Girolando crescem 5% e atingem marca histórica em 2025
Demanda por animais mais produtivos sustenta mercado aquecido apesar do baixo preço do leite.

Por mais um ano consecutivo, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando encerrou 2025 com um novo recorde histórico no Serviço de Registro Genealógico da raça. Ao todo, foram realizados 113.690 registros em todo o país, resultado 5% superior ao de 2024, quando a entidade contabilizou 108.404 animais registrados.
O desempenho chama atenção especialmente diante do cenário adverso enfrentado pela pecuária leiteira ao longo do ano. “Apesar de ter sido um ano difícil para o produtor, por conta do aumento significativo das importações de leite e do baixo preço pago pelo litro do produto, conseguimos superar tanto os números de 2024 quanto a meta estabelecida para 2025, que era de cerca de 111 mil registros. Isso confirma que a demanda pela raça Girolando segue muito firme”, afirma o presidente da Associação, Alexandre Lacerda.
Além do avanço no volume total, duas categorias do Serviço de Registro Genealógico também alcançaram marcas inéditas. O Registro Genealógico de Nascimento (RGN) fechou o ano com crescimento de 11,23%, somando 48.052 registros, enquanto o Registro Genealógico Definitivo (RGD – Genealogia Conhecida) apresentou alta de 3,69%, com 46.671 registros.
Única entidade delegada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para executar o Serviço de Registro Genealógico da raça Girolando no Brasil – atribuição exercida desde 1989, a associação ultrapassou a marca de 2,45 milhões de registros acumulados em seu banco de dados.

Foto: Divulgacao/Girolando
Para o superintendente técnico da entidade, Leandro Paiva, a sequência de recordes está diretamente ligada à mudança de postura dos produtores diante da crise do setor. “Embora a pecuária leiteira venha enfrentando dificuldades, o mercado de animais Girolando segue aquecido. O produtor percebeu que trabalhar com animais de alto valor produtivo e genética agregada permite aumentar a produção de forma sustentável, sem elevação significativa dos custos”, explica.
Segundo Paiva, a estratégia adotada nas propriedades tem sido a substituição de vacas de baixa produção ou em final de lactação por animais mais jovens, eficientes e geneticamente superiores. “Isso tem garantido maior rentabilidade ao produtor”, ressalta. Ele acrescenta que o melhoramento genético passou a ser visto como um processo contínuo. “Quem trata o investimento em genética como uma ação pontual dificilmente alcança o ganho genético esperado. O Serviço de Registro Genealógico é a base de qualquer programa de seleção animal”, afirma.
Recém-empossado para o mandato até 2028, Alexandre Lacerda destaca que a prioridade da associação nos próximos três anos será ampliar o acesso dos criadores a tecnologias que permitam produzir mais leite com menor custo. “Dos pequenos aos grandes produtores, queremos levar soluções mais eficientes para a atividade”, pontua.
Dados da própria entidade indicam que, além do registro genealógico, os criadores têm intensificado o uso de ferramentas do Programa de Melhoramento Genético do Girolando (PMGG), como genômica, controle leiteiro, avaliações genéticas e teste de progênie. “Vamos continuar aprimorando o PMGG, que foi pioneiro na adoção da genômica no Brasil, ampliar o número de eventos oficializados e ranqueados da raça e defender políticas públicas mais justas em relação ao preço do leite”, conclui Lacerda.
Atualmente, o Girolando é a raça leiteira nacional líder na comercialização de sêmen no Brasil e na produção de embriões, consolidando sua posição estratégica na cadeia do leite.
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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.



