Notícias Opinião
Área de grãos na safra 2020/21 pode encostar em 70 milhões de hectares
Boletim Agro30: resumo do agro de agosto e os cinco pontos selecionados para setembro

Artigo escrito por Marcos Fava Neves, professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo e especialista em planejamento estratégico do agronegócio
Nosso resumo mensal traz os eventos principais de agosto e o que observar em setembro. Na economia brasileira, as projeções do mercado melhoram timidamente a cada semana trazendo maior alento. O relatório Focus (Bacen 28 de agosto) mostra expectativas para o IPCA de 2020 em 1,77% e de 2021 em 3,00%. O PIB deve fechar este ano em -5,28% e +3,50% em 2021. Já para taxa Selic se esperam 2,00% e 2,88%, respectivamente, e no câmbio, R$ 5,25 no final de 2020 e 5,00 no final 2021.
No mais, os radares começam a se voltar para as eleições nos EUA, que mostram favoritismo do candidato Democrata Joe Biden, mas em se tratando de 2020, tudo pode mudar, até porque a distância entre os dois vem caindo. No Brasil também a situação política oscila com as contínuas especulações da permanência do Ministro Paulo Guedes e os anúncios de programas na área econômica. No lado da pandemia, os números no Brasil começam a ceder, apesar de ainda extremamente altos. No fechamento desta coluna, foi anunciado a continuidade do apoio mensal, mas agora em R$ 300 por mais 4 meses, e a Bolsa operava acima de 100.000 pontos com o Real se valorizando a 1 US$ a R$ 5,35.
A safra 2019/20 de grãos caminha para seu fechamento com novo recorde na produção de 253,7 milhões de toneladas, incremento de 4,8% frente ao ciclo passado, de acordo com 11º levantamento da Conab. As culturas de primeira safra já foram totalmente colhidas, as de segunda estão em fase de conclusão, remanescendo ainda as de inverno e terceira safra. Para soja e milho houve produção recorde: a oleaginosa com 120,9 milhões de toneladas (+5,1%), e o grão amiláceo com 102,1 milhões de toneladas (+2,1%). Para o algodão, são estimadas 2,93 milhões de toneladas de pluma (+5,4%) com previsão de finalização da colheita em setembro. A maioria das culturas de inverno já foram semeadas, crescendo 12,1% em área; o grande destaque vai para o trigo que aumentou 14,1% sua área e deve produzir 6,8 milhões de toneladas. Resta ver os efeitos da geada que atingiu o RS no final de agosto.
A grande aposta agora é quanto será plantado nesta safra que começa. A CONAB estima que a produção brasileira saltará de 254 para 278 milhões de toneladas (8% a mais) e a área deve aumentar entre 2 a 2,5 milhões de hectares. Esse volume representa a produção de 15 grãos, sendo que milho, soja, algodão, arroz e feijão participam com 95% do total. No caso da soja, a área aumenta de 36,84 para 37,85 milhões de hectares, a produção salta de 124 para 133,50 milhões de toneladas com uma produtividade 4,4% maior (3.530 t/há) e as exportações de 82 para 86,8 milhões de toneladas. Seu uso para biodiesel aumenta de 44,6 para 47,3 milhões de toneladas e a China deve importar 100 milhões de toneladas, a grande maioria vinda do Brasil. No caso do milho, a área aumenta 7,2% para 19,8 milhões de hectares, a produção salta 12,3% para 113 milhões de toneladas (apesar da produtividade 1% menor), a exportação vai a 39 milhões de toneladas (7% maior), e a demanda interna fica em 72 milhões de hectares. São números que impressionam, torcer para que se realizem.
No comparativo entre as safras 2018/2019, a área cultivada no Brasil (respeitando-se a dupla contagem das segundas e terceiras safras) foi de 65,9 milhões de hectares, um crescimento impressionante de 2,64 milhões. Vendo a euforia que os preços atuais tem trazido, principalmente a soja e o milho, neste momento de preparo de solos e tomadas de decisões de plantio, com vendas antecipadas de parte das safras futuras e ainda avanço dos grãos na área de cana e pastagens, é possível que cheguemos bem perto dos 70 milhões de hectares, um aumento impressionante.
As exportações do agro chegaram à incrível marca de US$ 10,0 bilhões em julho, um crescimento de 11,7% em relação ao mesmo mês de 2019, representando 51,2% de toda exportação do país, de acordo com dados do MAPA. A soja em grão segue sendo a locomotiva da nação, exportando 10,4 milhões de toneladas (+39,4%) e US$ 3,61 bilhões (+39%). Somente a China comprou 76% desse volume. As carnes ocuparam a segunda posição em vendas, com US$ 1,5 bilhão, destaque para bovina com US$ 776 milhões (+23%), enquanto que a carne de frango caiu 27,2%, chegando a US$ 490 milhões. Também houve queda nas vendas externas de produtos florestais (-10,5%), totalizando US$ 925 milhões; e dos cereais, farinhas e preparações também (-26,4%), chegando a US$ 1,07 bilhão. No tocante às importações, estas totalizaram US$ 982 milhões (queda de 16,3%), consolidando o saldo da balança do mês em US$ 9,03 bilhões (+15,9%). No acumulado desde o início do ano, o setor já exportou US$ 61,19 bilhões, 9,2% a mais que em 2019, evidenciado valor recorde na série histórica que começou 1997. Com as importações acumuladas em US$ 7,22 bilhões, o saldo da balança do agro é de US$ 53,97 bilhões.
Nestes números, a China segue preponderante. As exportações de soja e carnes para lá somaram US$ 24 bilhões entre janeiro e julho de 2020, 29% a mais que a o mesmo período do ano passado, chegando a 39,2% do total exportado pelo Brasil. Somente neste julho, a China importou cerca de 7,9 milhões de toneladas de soja, segundo o MAPA, com negócios em torno de US$ 2,75 bilhões. Nas carnes, o país asiático comprou cerca de US$ 375,50 milhões, aumento de 143,3% em comparação ao mesmo mês de 2019. No total, a China representou 38,4% de participação nas exportações de agro-produtos brasileiros, frente aos 32% do mês anterior.
O MAPA elevou as estimativas para o valor bruto da produção (VBP) agropecuária no Brasil em 3,5% na comparação com o previsto em julho. O valor deve ser de R$ 742,4 bilhões (10,1% maior que em 2019), sendo que soja deve responder por R$ 181,5 bilhões (24%) e as cinco cadeias da pecuária por R$ 248,5 bilhões (33%). Já a CNA aponta crescimento de 12,5% no VBP da agropecuária, que deve alcançar R$ 770,3 bilhões em 2020. Na produção agrícola, a Confederação estima um aumento de 17,1% em comparação à 2019, com R$ 493 bilhões, e na pecuária de 5,2%, que deve fechar em torno de R$ 277,3 bilhões. São quase R$ 85 bilhões a mais que a safra passada.
De acordo com ABPA, a produção brasileira de carne de frango deve alcançar 13,7 milhões de toneladas (+4%) com expectativa de exportação de 4,45 milhões em 2020. Já para carne de porco, a associação estima produção de 4,25 milhões (+6,5%) e exportações chegando a 1 milhão.
Após o comunicado de contaminações por COVID-19 em embalagens de asas de frango brasileiro, pela China, o Ministério da Agricultura negocia um novo protocolo de regras com país asiático, a fim de evitar quebras nas relações comerciais e novos episódios como esse. Mesmo sem evidências claras sobre a contaminação o governo Chinês já havia suspendido as importações de 6 frigoríficos do Brasil e foi seguido pelas Filipinas. Precisamos aprender com este evento visando neutralizar futuros problemas.
De acordo com o CNA, as propostas em debate no Congresso Nacional podem aumentar a carga de tributos no agronegócio e prejudicar a competitividade do Brasil. A PEC 45/2019, por exemplo, pode exigir a cobrança de impostos aos insumos agrícolas, atualmente isentos. Caso aprovado, o projeto elevaria os custos de produção em até 20%. Dados do Imea apontam que, se aprovada, a PEC 45/2019 poderia causar um aumento de R$ 6,3 bilhões em custos anuais na produção agrícola do Mato Grosso. Isso significaria um aumento de 15% nos custos de produção da pecuária, 11% para a de soja e 10% para o milho. A proposta sugere uma alíquota de 25% como Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) para o setor no estado. Há problemas também na atual reforma que podem tornar muito difícil o processamento de oleaginosas no Brasil. Ponto de imensa atenção, creio ser difícil onerar a agricultura para nossa missão de seguir conquistando mercados internacionais.
Segundo a ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos), o volume total de fertilizantes vendidos em 2020 deverá crescer 2%, chegando à 37 milhões de toneladas. Desse total, cerca de 27,8 milhões (75%) já foram negociados, volume 10% superior aos 25,2 milhões registrados em agosto passado. Em 2019, o Centro-Oeste consumiu 36,5% do total de fertilizantes, o Sul do país 26%, o MATOPIBA 12,8% e a região Sudeste com 22%, de acordo com a associação. Dados da StoneX apontam que o volume de fertilizantes comercializados no Brasil em 2020 chegou à 77% do total projetado para o ano. O destaque fica com as regiões Sul e Centro-Oeste, com alcance de 80% do volume total projetado, e o MATOPIBA, com 74%. A consultoria também aponta que 31% do volume estipulado para os primeiros 6 meses de 2021 já foram comercializados.
Um estudo feito pela WRI (World Resources Institute) mostrou o imenso potencial do Brasil para pauta de economia verde. A organização aponta que o PIB brasileiro pode crescer em até 15% na próxima década em função da priorização de tecnologias de baixo carbono. Em termos reais, esse aumento traria um acréscimo de 2,8 trilhões de reais para a economia brasileira, e poderia gerar mais de 2 milhões de empregos. Temas como produção sustentável, agricultura de baixo carbono (ABC) e créditos de descarbonização devem ganhar cada vez mais espaço no mercado. Segundo o MAPA, o potencial de investimentos em agricultura sustentável pode chegar a US$ 692 bilhões até 2030. A construção pelas organizações e pelo setor de uma “agenda verde” é prioridade absoluta daqui pra frente.
Grandes organizações do agro vêm dando passos no combate ao desmatamento ilegal. Cargill e Marfrig se comprometeram a monitorar suas cadeias de suprimentos, até 2030, vetando fornecedores que apresentem inconformidades ambientais. A medida é importante para garantir a originação sustentável da produção, corroborando com a imagem ambiental do Brasil e dando certo, pode servir de benchmark para outras empresas.
A pandemia do Covid-19 intensificou a corrida por novos fornecedores internacionais de alimentos, favorecendo a abertura de novos mercados ao Brasil. De acordo com o MAPA, apenas neste ano, 50 novas iniciativas foram evidenciadas, contra 35 do ano passado. Em julho, o Egito liberou a entrada das carnes de aves, Mianmar a carne de porco e seus derivados, além de aberturas em Cingapura, Vietnã, México, Coreia do Sul, Irã e Peru. É muito importante esta expansão e diversificação de mercados.
Os cinco fatos do agro para acompanhar agora diariamente em setembro são:
- As expectativas de plantio e as previsões do clima para a safra 2020/21 de grãos no Brasil;
- O comportamento do clima na safra dos EUA que vem até o momento sem problemas, bem como as relações China e EUA e importações chinesas;
- Retomada e programas de apoio dos Governos nas economias mundiais e do Brasil, com a redução das infecções e outros números da pandemia;
- Os resultados das ações do Governo na questão do desmatamento ilegal e impactos nas pressões contra o Brasil;
- Necessidades e volumes de importações de grãos pelo Brasil para cobrir a lacuna de estoques baixos e necessidades do setor de carnes e ovos.

Notícias
Atualização do EUDR mantêm pressão sobre exportadores de soja no Brasil
Apesar da simplificação, exigências de rastreabilidade e segregação física de grãos continuam a desafiar a cadeia produtiva nacional.

As novas exigências do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR) entram oficialmente em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores, e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas. O novo cronograma é resultado de um adiamento de 20 meses aprovado pela Comissão Europeia (CE) dentro de um pacote de simplificação regulatória. Contudo, a medida mantém a pressão sobre a cadeia produtiva global e impacta diretamente os exportadores no Brasil.

Martina Torma, responsável pelo Desenvolvimento de Mercado e Assuntos de Partes Interessadas da RTRS para Europa – Foto: RTRS
As últimas atualizações apresentadas pelo CE têm como objetivo reduzir a carga administrativa sem renunciar aos propósitos ecológicos. Entre as novidades estão mecanismos de declaração menos burocráticos para operadores de países considerados de baixo risco e a criação da categoria ‘downstream‘, que passam a participar de um regime de conformidade mais leve, visando evitar a duplicidade de checagens durante a entrada de um produto no mercado europeu.
Na indústria brasileira, as atualizações trazem desafios operacionais específicos para os elos iniciais da cadeia de suprimentos. “Apesar da flexibilização, para os produtores e exportadores nos países de origem, como o Brasil, os requisitos fundamentais de rastreabilidade e geolocalização permanecem os mesmos”, pontua a responsável pelo Desenvolvimento de Mercado e Assuntos de Partes Interessadas da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS) para Europa, Martina Torma.
Desafios para exportação
Um dos principais impasses apontados por representantes da cadeia de soja no Brasil é a validação de ferramentas de monitoramento capazes de atender às regras da União Europeia (UE), uma vez que a simplificação tem como foco principal os produtores e exportadores europeus. Com isso, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), usado para verificar a regularidade das propriedades em solo nacional, deixa de contemplar critérios aceitos integralmente pelos Estados-membros da UE.

Foto: Claudio Neves
Outro ponto que preocupa o setor brasileiro é a exigência de segregação total física do grão, que proíbe a mistura de lotes em silos e portos. A indústria defende a adoção do balanço de massa, que reflete o padrão atual de armazenamento e transporte de granéis agrícolas. No entanto, a CE tem mantido a rigidez quanto a decisão, forçando as companhias a aportarem investimentos expressivos na reestruturação de seus sistemas de originação e na identificação detalhada até o nível do talhão da terra.
Ademais, a legislação europeia se sobrepõe ao Código Florestal Brasileiro no que diz respeito à conversão do solo. Áreas cuja abertura de vegetação nativa é autorizada legalmente por órgãos ambientais nacionais não podem ser destinadas à exportação para o bloco europeu caso o desmatamento tenha ocorrido após a data de corte da UE.
Diante dessa complexidade, plataformas globais e certificações voluntários têm buscado oferecer módulos de conformidade para auxiliar na organização dos dados. Segundo Martina Torma, o certificado de Produção de soja RTRS pode servir como uma ferramenta de suporte para os operadores, pois engloba critérios centrais da norma europeia. “Possuir o certificado não cria conformidade legal automática. A responsabilidade jurídica pela Due Diligence permanece estritamente com os operadores comerciais, porém o reconhecimento pode ser um diferencial durante a justificativa da declaração”, explica.
Por outro lado, Martina também destacou as características do Padrão RTRS de Cadeia de Custódia que inclui um módulo opcional alinhado à EUDR, desenvolvido para apoiar operadores em aspectos relacionados à rastreabilidade e à coleta das informações necessárias para os processos de diligência devida.
As novas etapas de desenvolvimentos e implicações para a cadeia de suprimentos de soja foram debatidas durante um webinar promovido pela RTRS. O encontro contou com exposições do Secretário-Geral Adjunto da Federação Europeia dos Fabricantes de Rações (Fefac), Anton van den Brink; do Diretor de Estratégia para Commodities, Ariel Zorrilla e do Especialista Sênior em Sustentabilidade, Iván Bermejo Barbier, da Preferred by Nature; do Gerente de Sustentabilidade da Asociación de Cooperativas Argentinas (ACA), Juan Manuel Bazán; e do Gerente de Sustentabilidade da (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Pedro Garcia.
O conteúdo está disponível na integra no canal no Responsible Soy, no Youtube.
Notícias De Chapecó ao Cerrado
Conheça a trajetória de um produtor que acompanhou a transformação agrícola de Mato Grosso
Após formação na Suíça, Vitório Cella migrou para o Centro-Oeste nos anos 1970, participou da abertura de novas áreas agrícolas e expandiu sua atuação para a produção de grãos e a suinocultura.

Quando chegou a Mato Grosso, em 1975, Vitório Ângelo Cella encontrou um Cerrado que ainda iniciava sua trajetória como fronteira agrícola. Quase cinco décadas depois, o catarinense cultiva cerca de 2.940 hectares entre Sorriso e Nova Mutum, participou da implantação de um projeto de integração da suinocultura na região e acompanhou de perto uma das maiores expansões da produção de grãos no país.

Vitório, a esposa Carme e o genro Leandro na Fazenda Araras, em Sorriso (MT)
A decisão de migrar para o Centro-Oeste foi precedida por uma experiência pouco comum para um jovem agricultor brasileiro da época. Natural de Chapecó (SC), Cella havia acabado de cumprir o serviço militar quando foi aprovado para estudar em um colégio agrícola na Suíça. Entre 1970 e 1973, viveu e trabalhou no país europeu, período que, segundo ele, influenciou sua forma de administrar uma propriedade rural. “Aprendi a trabalhar e economizar, a fazer a relação custo-benefício de uma atividade agrícola”, recorda o produtor.
Ao lembrar da escola, faz uma brincadeira: tratava-se de uma “grande propriedade de 28 hectares”.
De volta ao Brasil, decidiu buscar oportunidades em Mato Grosso. O primeiro trabalho foi em Barra do Garças, onde participou da abertura de áreas destinadas ao cultivo de grãos. Durante três anos, trabalhou sem salário fixo, recebendo apenas participação sobre os resultados obtidos.
Em 1978, se mudou para Nobres para atuar em uma fazenda pertencente a um tio. Cinco anos depois, conseguiu financiamento junto ao Banco do Brasil para adquirir 360 hectares de terra, com dois anos de carência e oito anos para quitação. No mesmo período, mudou-se para a cidade de Nobres para que as três filhas, do casamento com Carme, pudessem estudar.
Da lavoura de arroz à soja
A primeira safra em terras próprias foi dedicada ao arroz de sequeiro, cultivado em uma área de 300 hectares. Nos primeiros anos, toda a família participou da construção da propriedade. “A Carme me ajudava em tudo. Fazia comida para os peões, puxava arroz de caminhão”, lembra Cella, ao destacar a participação da esposa na fase inicial do negócio.
A queda da rentabilidade do arroz levou o produtor a mudar de estratégia. Em 1985, passou a investir na soja e, na década seguinte, incorporou o milho ao sistema produtivo.
A adaptação ao Cerrado exigiu investimentos em correção do solo, principalmente com a aplicação de calcário. O esforço, segundo ele, foi recompensado pelos resultados obtidos nas primeiras safras. “Tive que fazer a correção do solo com calcário, mas a soja rendia de 34 a 38 sacas por hectare e dava lucro”, recorda.
Com a expansão da atividade, a propriedade cresceu. Atualmente, Cella mantém uma fazenda de 1.740 hectares em Sorriso e outra de 1.200 hectares em Nova Mutum. Segundo o produtor, a produtividade média alcança 75 sacas por hectare na soja e 163 sacas por hectare no milho.
Entre as práticas adotadas estão o plantio direto e a semeadura de braquiária ainda durante o cultivo do milho safrinha. A planta de cobertura contribui para proteger o solo, reduzir a ocorrência de plantas daninhas, melhorar a infiltração de água e favorecer o desenvolvimento das raízes.
Diversificação da atividade
Além da produção de grãos, Cella participou da implantação de um projeto que resultou na construção de granjas e de um frigorífico para abate e processamento de suínos em Nova Mutum. A iniciativa buscava diversificar a atividade agropecuária na região e permanece em operação.
Para ele, ampliar as fontes de renda sempre fez parte da estratégia de crescimento da propriedade.
Gestão e valorização da equipe
A experiência adquirida na Suíça também influenciou a forma como administra o negócio. Segundo Cella, há cerca de 25 anos a atividade é conduzida exclusivamente com recursos próprios. Ele atribui parte dos resultados ao trabalho da equipe que o acompanha há anos. “Ninguém constrói riquezas sozinho”, afirma.
Dos 19 funcionários fixos da propriedade, a maior parte trabalha com ele há longo tempo. O reconhecimento, segundo explica, ocorre por meio de remuneração variável vinculada ao desempenho. “Eles ganham prêmios por desempenho. Cuidam para que a lavoura vá bem, trabalham e ganham bem”, ressalta.
Sucessão planejada
O planejamento também alcançou a sucessão familiar. Das três filhas, duas atuam diretamente na gestão das fazendas. Carla é engenheira agrônoma e acompanha a produção. Ester, advogada, responde pelas áreas jurídica e tributária da propriedade. A primogênita, Sílvia, é bioquímica e atua no setor de análises clínicas.
Ao comentar a participação da família, o produtor mantém o bom humor. “Elas me deram três bons genros”, brinca.
Na sede da fazenda em Sorriso, construiu uma casa para reunir filhos, genros e netos nos tradicionais almoços de domingo. Para ele, entretanto, o principal legado construído ao longo da vida não está no patrimônio material. “O maior patrimônio não é casa, é a família”, resume.
Depois de visitar cerca de 60 países, Cella mantém uma convicção sobre a região onde decidiu construir sua história. “A melhor região do mundo para o agronegócio é a de Nova Mutum e Sorriso”, avalia.
Notícias
Brasil reduz compra de fertilizantes no exterior e busca alternativas para diminuir dependência
Queda nas importações ocorre enquanto indústria nacional amplia investimentos em novas fontes de nutrientes e tecnologias de aplicação.

As importações das principais matérias-primas de fertilizantes recuaram 8,6% do volume importado no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da consultoria StoneX. Em 2025, o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas do insumo, o maior volume da série, de acordo com a Companhia Nacional De Abastecimento (Conab).
A retração foi puxada por produtos essenciais à nutrição das lavouras. As compras externas de ureia caíram 32% no período, enquanto o MAP (Fosfato Monoâmonico) recuou 24% e o nitrato de amônio e o enxofre registraram quedas de 42% cada. Na contramão, o cloreto de potássio e o TSP avançou , com a migração da demanda diante da oferta restrita de MAP e DAP (Fosfato Diamônico) no mercado internacional.

Segundo a StoneX, o movimento reflete a cautela dos compradores diante das incertezas no cenário internacional e de relações de troca entre as mais desfavoráveis dos últimos anos, o que tem levado produtores e importadores a postergar negociações. O problema é que a janela logística se estreita: historicamente, a maior parte das compras de fosfatados ocorre entre abril e agosto, para garantir a disponibilidade no plantio da safra de verão, enquanto o pico de aquisição dos nitrogenados se estende de junho a dezembro, com foco na segunda safra.
O cenário expõe, mais uma vez, uma fragilidade estrutural do agronegócio brasileiro. O País importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), e é hoje o maior importador mundial do insumo. A conta chega ao campo: os fertilizantes representaram, em média, 23% dos custos totais nas culturas de soja, milho e algodão, segundo a Conab, e no mato Grosso, principal estado produtor de soja, respondem por 46,7% do custeio da oleaginosa na estimativa para a safra 2026/27, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea)
Diante desse quadro, o agronegócio brasileiro pode estar passando por uma das maiores oportunidades da história no fortalecimento da indústria nacional de fertilizantes. A produção nacional passa a ganhar relevância estratégica em duas frentes: o Ministério da Agricultura e Pecuária prevê que cerca de 50% da demanda interna de fertilizantes seja atendida pela indústria doméstica até 2050, com movimentos já em curso, como a retomada de fábricas de nitrogenados.

Foto: Claudio Neves
No curto prazo, o segmento de fertilizantes líquidos, foliares e produtos para fertirrigação já oferece resposta imediata: o setor faturou R$ 26,9 bilhões em 2024, alta de 18,9% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), com destaque para o crescimento de 23,2% dos foliares e de 36,1% dos produtos via fertirrigação e hidroponia.
Para o engenheiro agrônomo Leonardo Sodré, uma das únicas empresas de fertilizantes de capital 100% nacional. “O agronegócio brasileiro se deparou com um ano de elevada complexidade. O país enfrenta um cenário marcado por adversidades climáticas, custos de produção em alta e um mercado volátil, mas também por oportunidades estratégicas capazes de reposicionar o produtor no centro da economia global”, menciona, ressaltando: “Como protagonista na exportação de commodities como soja, milho e carne, o Brasil entra em um momento decisivo em que planejamento inteligente e ferramentas ágeis de gestão serão fundamentais para transformar riscos em vantagens competitivas”.

No cenário nacional, o estado de Minas Gerais concentra cerca de 70% das reservas nacionais de potássio, insumo vital para o agro, e abriga a maior mina em operação no Brasil, em São Gotardo. A capacidade produtiva atual, de 3 milhões de toneladas por ano, tem planos de expansão que podem chegar a 23 milhões e, posteriormente, a 50 milhões de toneladas anuais, quase o equivalente ao consumo total do país, hoje em torno de 60 milhões de toneladas.
O especialista em fertilizantes Fellipe Parreira, afirma que o país precisa de uma abordagem integrada, com mais jazidas nacionais e validação científica para mitigar riscos geopolíticos sem comprometer yields recordes. “É o momento para um planejamento maior no setor, dentro de um contexto de uma indústria nacional de nutrição vegetal que cresce dois dígitos ao ano e oferece ao agricultor alternativas produzidas aqui, com menor exposição cambial e logística mais previsível”, reforça.




