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Agro brasileiro se destaca no PIB e pressiona modelos sustentáveis no Cerrado

Setor avança com força no mercado global, enquanto especialistas alertam para impactos ambientais e uso intensivo de recursos na região.

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Fotos: Fernando Frazão/Agência Brasil

O agronegócio do Brasil é apontado como “motor” do crescimento econômico do país. Por outro lado, é criticado pelo potencial de concentração de terras e renda, além dos danos ambientais em larga escala. 

Entre os problemas está o desmatamento da savana brasileira, o Cerrado, tido como “berço das águas” por sediar as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas do país. Para pesquisadores, ambientalistas e ativistas, o avanço do desmatamento no bioma coloca em risco a segurança hídrica do país ao agravar a redução das vazões dos rios.

Carolina MA), 12/10/2025 – Vista do Rio Itapecuru. em meio à vegetação do cerrado, que abastace mais de 50 municípios do Maranhão. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vista do Rio Itapecuru. em meio à vegetação do cerrado, que abastece mais de 50 municípios do Maranhão

O Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que reúne 56 movimentos sociais, acusa “estados nacionais e estrangeiros, além de empresas e instituições do Brasil e do exterior” de “ecocídio” do Cerrado, que é o crime de destruição do bioma.  E chamam de “genocídio” o que ocorre com povos tradicionais expulsos dos seus territórios. “O veredito do júri foi unânime na condenação e reconhecimento da responsabilidade objetiva e compartilhada entre Estados nacionais e estrangeiros, além de empresas e instituições do Brasil e do exterior, pela destruição e perda do ecossistema do Cerrado como um todo”, diz o documento de 2022.

 

A savana mais biodiversa do planeta já teve sua vegetação nativa suprimida em 47,9% ao longo da história, segundo dados do Mapbiomas. As atividades agropecuárias são as que mais pressionam o Cerrado, ocupando 24% do bioma após expandir sua área de atuação em 74% entre 1985 e 2024.

Do Cerrado ainda em pé, quase metade (47,8%) está na região do Matopiba (região que abarca Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde se concentram as maiores taxas de desmatamento do bioma e onde segue ativa a expansão da fronteira agrícola brasileira.

O que é agronegócio?

Balsas (MA), 09/10/2025 – Fazendas de cultivo de soja vistas ao longo da rodovia MA-140. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Fazendas de cultivo de soja vistas ao longo da rodovia MA-140

Antes de delimitar a contribuição econômica dessa atividade, existe uma disputa em torno do que pode ser considerado agronegócio. O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e economista Danilo Araújo Fernandes alertou que há setores do agro que tentam incluir toda produção agrícola dentro do conceito, mas que é preciso diferenciar o agronegócio da chamada agricultura familiar. “Agronegócio é um termo meio fantasia que é muito genérico. Eu classifico de agro essa agricultura patronal, ou seja, onde você tem a massa da mão de obra assalariada, em grande parte mecanizada, mas não necessariamente”, explicou.

 

Para o professor de economia política da Universidade Federal do Pará (UFPA) Gilberto de Souza Marques, o termo agronegócio deve ser restrito aos grandes conglomerados econômicos controlados por complexos financeiros de larga escala, que financiam, junto com o Estado, toda essa atividade. “O agro, na realidade, é a grande produção, as grandes propriedades, os grandes conglomerados e os grandes complexos financeiros”, classificou.

Peso econômico

Ao mesmo tempo em que acumula danos ambientais, o agronegócio brasileiro é tido pelos governos e especialistas como fundamental para economia do país, ao criar superávits na balança comercial que ajudam a estabilizar a moeda, além de gerar renda e empregos e impulsionar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Balsas (MA), 10/10/2025 – Criação de gado em fazenda na comunidade São Pedro, nos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Criação de gado em fazenda na comunidade São Pedro, nos Gerais de Balsas

O setor primário – que reúne agricultura e pecuária, mas também mineração – foi diretamente responsável por 6,2% do PIB em 2024. Porém, pesquisas apontam que o peso do agro pode chegar a até 25% do PIB quando considerado o efeito cascata dessa produção nos setores de transporte, insumos e da agroindústria, conforme calcula a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP).

No primeiro trimestre de 2025, o governo federal comemorou o crescimento do PIB puxado pelo agronegócio. O setor cresceu 2,9% se comparado ao primeiro trimestre de 2024. Em relação ao trimestre anterior, o crescimento foi de 12,2%. “O agro foi o grande responsável por esse crescimento. É a força da economia brasileira puxada pela agropecuária”, destacou, à época, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.

A Agência Brasil procurou o ministério para uma entrevista sobre o tema, mas não houve disponibilidade até o fechamento da reportagem.

Transformação de áreas pobres

Para compreender a expansão da produção sobre o Matopiba e seu efeito para a segurança hídrica do país, a Agência Brasil visitou o município de Balsas, no extremo sul do Maranhão, um dos epicentros dessa fronteira agrícola.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais do município (Sindi Balsas), Airton Zamingnan, destacou que o agronegócio trouxe emprego, renda e desenvolvimento para a região que, sem essa atividade, seguiria com os piores índices socioeconômicos do país. “Nós temos a vocação, temos o clima, temos o porto [de Itaqui, em São Luís] e temos os solos. 100% do Maranhão tem precipitação para se fazer no mínimo uma cultura. Qual a possibilidade que tem o estado sem seu agronegócio? Você acha que vai se instalar uma Volkswagen ou Mercedes para montar caminhão? Muito pouco provável. O agronegócio é a oportunidade de levar renda, trabalho e economia para essas regiões”, afirmou.

Balsas (MA), 09/10/2025 – A professora Maria de Lourdes Lopes em transporte com alunos na comunidade do Brejão, nos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Alunos na comunidade do Brejão, nos Gerais de Balsas

A avaliação do empresário é compartilhada por parte da população de Balsas, que vê no agronegócio uma via de sobrevivência. Questionadas, crianças de zonas rurais de Balsas respondem que querem ser “operadoras de máquinas” agrícolas ou “motoristas de caminhão” quando crescerem.

Mesmo críticos reconhecem que a atividade é importante, como o agricultor familiar José Carlos dos Santos, que vive em zona rural a cerca de 300 km do centro de Balsa e denuncia o desmatamento na região.  “Ele tem o lado destruidor, mas, por outro lado, ele traz o alimento para mesa porque são várias comunidades e famílias que dependem do agro para sobrevivência. Ao mesmo tempo, a gente vive lutando para pôr um limite para o grande produtor não acabar com o nosso bioma”.

Muito além do PIB

Para o economista da UFPA Danilo Fernandes, que estuda o desenvolvimento econômico sustentável, não podemos limitar a avaliação do papel do setor ao PIB, sendo necessário incluir na equação a área total que a atividade usa para gerar essa riqueza. “Não é só o PIB. Quanto você imobiliza o território nacional para produzir aquele PIB? O quanto você destrói de outras possibilidades, de desmatamento, de impacto sobre a biodiversidade? Ou seja, naquele momento você gera uma riqueza que usa bastante terra, desmata a floresta, destrói a biodiversidade e pode diminuir o nível da chuva”, ponderou.

Apesar de reconhecer a importância econômica do agronegócio empresarial para a economia nacional, o professor Danilo Fernandes defende que é preciso barrar a expansão desse modelo para novas áreas.  “O agro é importante, portanto, a gente não pode eliminar o agronegócio. Esses empresários têm um papel muito grande na economia, na política e na influência cultural. Mas a gente precisa, de alguma forma, conter essa expansão”, afirmou.

Negócio financiado pelo Estado

Os economistas ouvidos pela reportagem destacaram que o agronegócio brasileiro se tornou um dos mais competitivos do mundo graças ao apoio do Estado ao longo das últimas décadas.

Atualmente, o Brasil lidera a produção do principal grão do mercado mundial, a soja, com 169 milhões de toneladas na safra 2024/2025, o que representa 40% de toda produção mundial.

Em seguida, vêm os Estados Unidos (EUA), com 118 milhões de toneladas, e, em terceiro, a Argentina, com aproximadamente 51 milhões de toneladas, volume semelhante ao que é produzido apenas no Mato Grosso (MT).

Segundo os pesquisadores, fatores que contribuíram para a competitividade do agro brasileiro foram terras abundantes e baratas, em alguns casos fruto da grilagem; e o apoio estatal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal que desenvolveu tecnologias que permitiram a expansão das culturas para regiões mais áridas, como o Cerrado.

Os especialistas também destacam os incentivos fiscais, em especial por meio da Lei Kandir, de 1996, que isenta do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) os produtos primários ou semielaborados usados na exportação.

Ao criticar iniciativas de mudanças na Lei Kandir no Congresso Nacional, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc), José Zeferino Pedrozo, reconheceu o papel fundamental da medida. “A Lei Kandir permitiu que os produtos agropecuários brasileiros se inserissem no mercado internacional de maneira competitiva, chegando a tornar-se um dos setores mais dinâmicos da economia nacional e um dos principais fornecedores de alimentos para o mundo”.

Além disso, o setor é beneficiado com centenas de bilhões de reais anuais em empréstimos com juros subsidiados por meio do Plano Safra do governo federal. Em 2025, o valor bateu o recorde de R$ 516,2 bilhões. Já para a agricultura familiar, o total destinado foi de R$ 89 bilhões no ano agrícola 2025/2026.

Brasília (DF), 01/07/2025 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa do lançamento do Plano Safra 2025/26, no Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa do lançamento do Plano Safra 2025/26, no Palácio do Planalto

Para o professor de economia política da UFPA, Gilberto de Souza Marques, a capacidade de geração direta de empregos do agronegócio empresarial é limitada diante do montante de capital envolvido. “E, principalmente, diante do montante de isenção fiscal que o Estado dá para esses setores e de crédito subsidiário que o Estado concede, além de outros favores”.

Dados do Censo de 2022 apontam que 7,5% da população total ocupada no Brasil está na agricultura, pecuária, produção florestal e pesca e aquicultura. O dado não diferencia agricultura familiar da empresarial.

Como foi o Estado que direcionou a economia brasileira para o agro de exportação, por meio de décadas de investimentos, o economista Danilo Araújo Fernandes avalia que deve ser o Estado a projetar outro tipo de expansão econômica que seja social e ambientalmente mais sustentável. “Se não quero a expansão do agro, que tipo de expansão econômica queremos? Aí entra outra discussão. Quais as alternativas que você tem para o desenvolvimento de regiões como o Matopiba ou Amazônia?”, questiona.

Mercado interno de alimentos

Brasília (DF) 30/06/2025 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado dos ministros do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, da Fazenda, Fernando Haddad e da Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, participa da cerimônia de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026 Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Mosaico de alimentos decora a cerimônia de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026

E se os incentivos fiscais do governo dão competitividade aos produtos nacionais no mercado mundial, o economista Danilo Fernandes, por sua vez, destacou que o apoio ao agronegócio de exportação, ao longo das décadas, contrasta com o apoio à agricultura voltada para o mercado interno, o que teria criado distorções que prejudicaram o abastecimento nacional, pressionando o preço dos alimentos aqui no Brasil. “Esse apoio do Estado foi sendo direcionado aos poucos, com muito investimento, para o mercado externo. Ao mesmo tempo, o mercado interno ficou dependendo da agricultura familiar que, por sua vez, recebeu muito menos apoio. Durante o regime militar, por exemplo, é absurda a diferença”, disse.

 

Com a redemocratização do país, na década de 1980, Fernandes disse que o Estado voltou elaborar políticas focadas na agricultura familiar, em especial por meio do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1995.

O atual governo afirma que aumentou em 47,5% o valor do Pronaf em relação à gestão anterior.

Domínio internacional

Enquanto o Brasil participa como um dos maiores produtores mundiais de alimentos, esse mercado é controlado, em sua maior parte, por quatro grandes conglomerados multinacionais.  “Elas controlam entre 50% e 80% do mercado mundial de grãos do planeta, dependendo da estimativa. De toda forma, isso é um absurdo em relação à concentração de mercado”, afirmou o economista Gilberto Marques.

Devido a essa estrutura de oligopólio, o especialista argumenta que essas multinacionais exercem amplo controle do mercado, incluindo dos preços, e financiam boa parte dos produtores brasileiros por meio de compras futuras.  “Eles não são, em geral, produtores. São controladores do mercado. E hoje, em grande medida, são financiadores também. Eles já fazem contratos com preços fixados para as safras seguintes. E muitas vezes, nesses contratos, eles já adiantam parte do pagamento. Nesse sentido, o produtor direto, o chamado agro brasileiro, fica ali preso a eles”, explicou.

Por conta dessa dinâmica, o empresário brasileiro só tem ganhos em uma economia “de escala”, ou seja, de grandes proporções. “Esse preço tem uma margem pequena de lucro, mas, quando você produz em enorme quantidade, isso se transforma numa massa de lucro grande. E essa economia de escala, por outro lado, impõe que essa produção seja uma produção cada vez mais mecanizada, o que repercute em um baixo nível de emprego”, acrescentou

CNA: setor é parte da solução

O empresário Airton Zamingnan, presidente do Sindi Balsas, ao minimizar os efeitos ambientais das lavouras no Maranhão, afirma que elas ocupam na macrorregião sul apenas 2,9% de todo o estado, ao mesmo tempo que trariam benefícios para um milhão de pessoas que habitam esse pedaço do Nordeste. “O agronegócio do Brasil gera por ano R$ 1,4 trilhão em receitas. O Fundo Amazônia, financiado por Alemanha e Noruega, não dá 0,1% do que o agro traz para economia brasileira”, disse. As receitas incluem os lucros e outros bônus destinados aos empresários, CEOs e acionistas.

Rio de Janeiro (RJ), 12/10/2025 – Entrevista com o presidente do Sindicato Dos Produtores Rurais De Balsas (Sindibalsas), Airto Zamignan., que atua no cultivo de soja. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Presidente do Sindicato Dos Produtores Rurais De Balsas, Airton Zamingnan, destaca receita de mais de R$ 1 trilhão do setor

Zamingnan enfatizou que não é de interesse do agronegócio prejudicar o meio ambiente, até porque eles seriam prejudicados por mudanças no clima. “A gente tem que fazer de forma correta. Você não adentra o rio. Ele tem que ser preservado. Não tem que querer gostar ou não gostar. Nós somos favoráveis à lei que tem e eu acho que o meio ambiente tem que ser preservado”, acresentou.

Presente na 30ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP30), que ocorre neste mês, em Belém (PA), a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) quer mostrar que o setor é parte da solução do problema ambiental. “Além da produção sustentável da agropecuária brasileira, o objetivo é mostrar ao Brasil e ao mundo que o agro tem um papel fundamental para contribuir com as soluções climáticas e garantir a segurança alimentar e energética”, afirmou em publicação no site da CNA, o vice-presidente da entidade, Muni Lourenço.

A CNA, assim como outras organizações que representam o setor, foram procuradas para se manifestarem especialmente para a série, mas não houve resposta. As entidades que se pronunciaram estão nesta reportagem da série.

Representação parlamentar

“De Olho nos Ruralistas”, projeto que monitora de forma crítica o agronegócio empresarial brasileiro, vem alertando para as ligações entre esses empresários e o Poder em Brasília, por meio de lobby e atuação parlamentar.

O coordenador do projeto, Bruno Bassi, argumenta que as elites econômicas no Brasil se formaram, ao longo dos séculos, por meio da propriedade de enormes parcelas de terra, que descendem das chamadas capitanias hereditárias do período colonial. “É impossível você explicar a história da riqueza no Brasil, a formação das elites econômicas brasileiras, sem falar de terra e território, e da ocupação desse território, muitas vezes ilegal, através de grilagem”, explicou.

Brasília (DF) - 31/08/2023 - Vista do prédio do Congresso Nacional.Foto: Joédson Alves/Agência Brasil/Arquivo

Vista do prédio do Congresso Nacional

Essa estrutura fundiária concentrada, na avaliação do pesquisador, conduz a uma concentração de poder político, por exemplo, no Congresso Nacional. “Esse setor de grandes proprietários, que representa cerca de 1% ou 2% do total das terras agrícolas do Brasil, segundo dados do Censo Agropecuário [de 2017], são donos de uma bancada com 300 deputados e mais de 50 senadores. Como a gente pode falar em democracia, em representação política, quando você tem uma disparidade tão grande de representação de uma classe?”, completou.

Para o coordenador de No Olho dos Ruralistas, mesmo setores do agro que demonstram maior interesse na agenda ambiental ficam ao lado de setores considerados “negacionistas climáticos” na hora da aprovação de projetos considerados retrocessos ambientais. “Por mais que as empresas estejam captando recursos internacionais de bilhões de dólares para planos de ação [climática], o que a gente vê na prática é que, no Congresso, continua uma agenda de desregulamentação ambiental”, disse o especialista, citando o projeto de lei (PL) que flexibilizou o licenciamento ambiental no Brasil e foi apontado por especialistas e pelo governo federal como grave retrocesso.

O PL foi parcialmente vetado pelo presidente Lula que, no lugar, editou uma Medida Provisória e enviou um outro projeto de lei com o argumento de minimizar supostos danos ao meio ambiente. O Congresso Nacional ainda precisa analisar os vetos, a MP e o novo projeto.

Governo federal

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora responsável pelo Departamento de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Iara Bueno Giacomini, explicou que a estratégia do governo é trabalhar em parceria com o agronegócio empresarial, com políticas públicas que incentivem o setor a desenvolver a atividade de forma mais sustentável possível. “Não é apontar um dedo e falar que ‘você é errado’. Mas no sentido de falar, ‘olha, o seu negócio está em risco. A gente gostaria de ajudar você a pensar como fazer isso de uma maneira mais adequada, mais eficiente e sustentável’”, afirmou.

Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Vista de barcos de pescadores nas águas do Rio Tocantins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vista de barcos de pescadores nas águas do Rio Tocantins

O MMA reconhece que o desmatamento do Cerrado, permitido pelo atual Código Florestal, pode colocar em risco a segurança hídrica do país, afetando não apenas a geração de energia elétrica, mas também o abastecimento humano e o próprio agronegócio.

A pasta destacou, entre outras medidas adotadas, o projeto Ecoinvest, que captou R$ 30 bilhões para recuperação de pastagens degradadas e aumento da produtividade agrícola, assim como antecipou que o governo trabalha para publicar, “em breve”, decreto para regulamentar Áreas Prioritárias para Conservação de Águas do Cerrado (APCACs) como forma de preservar os recursos hídricos do país.

Fonte: Agência Brasil

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Baixa adoção de sementes certificadas liga sinal vermelho no trigo do Rio Grande do Sul

Avanço genético das cultivares não chega ao campo e compromete o desempenho de mais da metade das áreas plantadas.

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Foto: Cleverson Beje

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de trigo do Brasil, responde por quase metade da produção nacional. São milhares de famílias envolvidas em um ciclo que inicia no plantio e termina na mesa das famílias brasileiras, passando pelo melhoramento genético, produtores de sementes, agricultores, moinhos, indústrias alimentícias e o comércio. Segundo estimativas de mercado da StoneX, a safra brasileira 2025/26 deve alcançar 7,5 milhões de toneladas, impulsionada principalmente pelo desempenho do Rio Grande do Sul.

Só no Rio Grande do Sul, a produção deve superar 3,7 milhões de toneladas, com produtividade média próxima de 3.261 kg/ha e área estimada de 1,14 milhão de hectares, segundo levantamento da Emater/RS-Ascar. “O agricultor diante das adversidades climáticas da safra de verão, precisou definir com cautela em quais culturas investir no inverno”, salienta Arthur Machado, Desenvolvedor de Mercado da Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul (Apassul). Para ele, o trigo deveria ser uma aposta atrativa, impulsionada pelas cultivares mais produtivas, de alta qualidade industrial e com maior tolerância a doenças, fruto de anos de aprimoramento genético feito no RS.

No entanto, o que deveria ser um motivo de orgulho vem acompanhado de preocupação. Segundo estimativas da APASSUL, a taxa de uso de sementes certificadas caiu para o menor patamar dos últimos anos, chegando em 48%, considerando a safra gaúcha atual. Isso significa que mais da metade das áreas de trigo no Estado ainda são semeadas com sementes salvas ou de origem desconhecida, um cenário que compromete a qualidade, a rastreabilidade, a segurança alimentar e a padronização exigida pela indústria. Em outras palavras, de cada 10 hectares cultivados, apenas 4,8 utilizam sementes certificadas, o que impacta diretamente o desempenho das lavouras e a reputação do trigo gaúcho.

Evolução Genética: um salto que não pode ser desperdiçado

Nos últimos anos, o avanço genético das cultivares de trigo foi impressionante. As novas variedades apresentam maior resistência a doenças, estabilidade produtiva e melhor perfil industrial, adequando-se a todas às exigências previstas pelos rigorosos controles industriais. “A semente é o início de tudo. Sem ela, não há genética, produtividade, qualidade industrial ou segurança alimentar. O que está em jogo é o futuro do trigo gaúcho e a credibilidade de toda a cadeia produtiva”, pondera Arthur Machado.

Desde a safra de 2013, o uso de sementes certificadas manteve-se acima de 60%, reflexo dos avanços do melhoramento genético que proporcionaram o desenvolvimento de cultivares com maior potencial produtivo e melhor qualidade industrial. Esse salto tecnológico proporcionou retorno econômico mais consistente e ganhos de sustentabilidade para muitos triticultores do Estado, ampliando a competitividade do trigo gaúcho no mercado nacional. “Mas diante do cenário produtivo geral é preciso que um número maior de produtores invista em sementes de alta qualidade, para que a produção de trigo do RS seja – realmente – maior e melhor”, salienta o Pedro Basso, CEO da SCV e Conselheiro para Trigo e Soja da Apassul.

Segundo dados da Embrapa Trigo, por exemplo, há programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento em novas cultivares e manejos. Contudo, todo esse potencial depende de uma base sólida. “O uso insuficiente de sementes certificadas impede que esse salto tecnológico chegue ao campo de forma consistente”, afirma Giovani Faé, agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo de Passo Fundo/RS. Na prática, segundo ele, sementes salvas ou de origem incerta rompem a rastreabilidade do sistema “Por isso, não faz sentido o que alguns produtores fazem, agindo apenas por um ganho momentâneo, quando escolhem sementes sem origem certificada e de baixa qualidade, sem pensar em toda a cadeia produtiva que é prejudicada”, pondera Faé.

A cadeia do trigo é uma das mais integradas e estratégicas do agronegócio brasileiro. Ela tem papel fundamental na segurança alimentar do país – pois impacta diretamente grande parte da indústria de alimentos. A Cadeia do Trigo gera valor em cada elo. “Os obtentores e multiplicadores de sementes asseguram a pureza genética e a rastreabilidade; o agricultor planta o futuro, investindo em tecnologia e na sustentabilidade do sistema de plantio direto; os moinhos transformam o grão em farinha padronizada e de alta qualidade; e a indústria alimentícia converte esse insumo em emprego, renda e alimento”, explica Arthur Machado. A demanda do mercado interno fez com que a indústria moageira intensificasse as importações, isto porque o Brasil não produz, ainda, o trigo suficiente para suprir a demanda interna. Segundo a Secex/Cepea, até maio de 2025 o Brasil já havia importado 3,092 milhões de toneladas de trigo, o maior volume em 24 anos. Além disso, dados oficiais trazidos pelo analista de mercado da Embrapa Trigo, Alvaro Dossa, mostram que o Brasil gastou mais de US$ 11,3 bilhões na compra (líquida) de trigo nos últimos 10 anos.

Um alerta e uma oportunidade

O trigo gaúcho vive um momento decisivo. Este é um alerta que a Apassul vem fazendo. A redução no uso de sementes certificadas, somada à entrada de produtos substitutivos em uma mesma área de cultivo, aliado às pressões de custo, falta de crédito e às instabilidades climáticas, acendem um alerta sobre o futuro da cultura no país. “Se o produtor não investe em sementes de qualidade certificada, não há como garantir a produtividade”, afirma Márcio Só e Silva, CEO da Semevinea Genética Avançada. Mas, em cada desafio, segundo a Apassul, há também uma oportunidade. O agricultor que escolhe a semente certificada não está apenas produzindo mais, está garantindo rastreabilidade, inovação e segurança para sua lavoura e para toda a sociedade. “O trigo produzido a partir de sementes certificadas e manejado de forma adequada contribui para o sequestro de carbono. Ou seja, é um produto que impacta positivamente toda a cadeia de forma sustentável. Este é um grande ativo, que parece não estar sendo percebido como merece pelo mercado e por uma parcela dos produtores infelizmente”, pondera Giovani Faé, da Embrapa Trigo. Para ele, apesar dos grandes desafios que o produto brasileiro sofre quando sai da porteira para fora, como o pesado valor logístico, por exemplo, ainda assim, o produtor que investe em sementes com genética superior associado a um manejo que cuida do solo, ele consegue obter ganhos que valem a pena. “O Rio Grande do Sul tem potencial de aumentar em mais de 40% hoje sua produção de trigo de alta qualidade e gerando retorno ao produtor. Mas não há mágica, o produtor tem que fazer a sua parte usando sementes com procedência e genética garantida”, afirma Faé.

E como funciona o financiamento para que a pesquisa continue? É preciso que o produtor entenda a lógica para manter o ciclo do aprimoramento genético em constante evolução na cadeia do trigo, pois o investimento em desenvolvimento genético é vital. Dessa forma, o valor do royalty de germoplasma faz parte dessa equação gira em torno de R$ 11 a R$ 12 por saca de 40 kg, o que equivale, em média, a cerca de R$ 0,30 por kg. “É difícil determinar com precisão quanto desse montante é reinvestido, especificamente, em pesquisa e desenvolvimento para o trigo, mas estima-se que empresas do setor destinem, em média, cerca de 20% do faturamento em P&D, parcela que sustenta programas de melhoramento genético e inovação”, podera o desenvolvedor de mercado da Apassul, Arthur Machado.

Fonte: Assessoria Apassul
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Lista preliminar de espécies exóticas gera preocupação no campo

Produtores apontam riscos para cadeias como tilápia, pirarucu, frutas e florestas plantadas se cultivos tradicionais forem classificados como invasores.

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A lista de espécies exóticas elaborada pela Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio), vinculada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), foi tema de intenso debate nesta quarta-feira (10) na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado. Após atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e de entidades do setor produtivo, o governo anunciou a suspensão temporária do processo de elaboração do documento.

João Paulo Capobianco, ministro substituto do Meio Ambiente, representou a pasta na audiência em lugar da ministra Marina Silva, inicialmente convidada para esclarecer pontos críticos da resolução. Diante da ausência da ministra, os senadores aprovaram novo requerimento de convocação, apresentado pelo senador Jorge Seif (PL-SC), também responsável por propor a realização da audiência.

Seif reforçou as críticas à falta de diálogo e de transparência do Executivo. “O governo avançou com uma lista dessa magnitude sem transparência e sem diálogo mínimo com quem será diretamente afetado. O setor produtivo ficou sabendo depois, quando o impacto já estava colocado na mesa”, afirmou. O senador também alertou para riscos econômicos e jurídicos: “A inclusão de espécies como tilápia, pirarucu, mangueira, jaqueira, goiabeira e eucalipto criaria um ambiente de completa insegurança jurídica. Isso afetaria licenciamento ambiental, acesso a crédito e certificações sanitárias.”

Senador Zequinha Marinho: “Isso comprometeria a competitividade do Brasil no mercado internacional”

O presidente da CRA, senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), compartilhou a preocupação, ressaltando que classificar espécies de alto valor produtivo, como a tilápia, como invasoras criaria entraves para financiamento, licenciamento e exportações. “Isso comprometeria a competitividade do Brasil no mercado internacional”, afirmou.

O senador Jaime Bagattoli (PL-RO) lembrou que cultivos como pinus e eucalipto foram incentivados pelo antigo IBDF desde a década de 1960 justamente para impulsionar economias regionais. Ele destacou que “essas espécies não avançaram sobre áreas nativas e hoje sustentam cadeias industriais inteiras, com ciclos produtivos mais curtos que os europeus”. Para ele, considerar essas culturas prejudiciais traria impacto desproporcional sobre estados do Sul.

Senador Jaime Bagattoli: “Essas espécies não avançaram sobre áreas nativas e hoje sustentam cadeias industriais inteiras, com ciclos produtivos mais curtos que os europeus”

Bagattoli também chamou atenção para diferenças agroclimáticas que impedem generalizações. “Manga, castanheira e mogno não se desenvolvem no Sul, assim como espécies amazônicas como pirarucu e tambaqui não se adaptam ao frio. A simples classificação como ‘invasora’ não reflete a realidade produtiva do país”, afirmou.

O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) reforçou o impacto na piscicultura, lembrando que a tilápia diversificou economias regionais e impulsionou renda de pequenos produtores. “Somos o quarto maior produtor de tilápia do mundo e podemos chegar ao primeiro lugar. Uma restrição mal formulada prejudica um setor que emprega, gera renda e funciona muito bem”, disse. Heinze também alertou para riscos de repercussão internacional: “Essa lista pode nos colocar em uma lista negra ambiental. Nenhum país preserva como o Brasil, e precisamos que a política ambiental reconheça isso.”

Capobianco afirmou que a elaboração da lista atende a compromissos assumidos pelo Brasil na COP 15, dentro da meta 6 do Acordo Kunming-Montreal, voltada à redução da introdução de espécies exóticas invasoras até 2030. Ele disse que o intuito é identificar espécies mais agressivas e dialogar com os setores produtivos para mitigar impactos sem inviabilizar a produção. Bráulio Dias, diretor do Departamento de Conservação da Biodiversidade do MMA, esclareceu que a meta se refere à introdução de novas espécies invasoras, não às já consolidadas no país.

Além de espécies da piscicultura como tilápia, tambaqui, pirarucu e camarão-branco, responsáveis por mais de 840 mil toneladas anuais e por mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, a lista preliminar também inclui culturas tradicionais da fruticultura, como mangueira, goiabeira e jaqueira. No setor de silvicultura, aparecem eucalipto, pinus taeda e pinus caribaea, base da cadeia de papel e celulose e da produção de madeira de reflorestamento.

O debate deve prosseguir no Senado, com a expectativa de que o MMA apresente critérios mais claros, respaldo técnico sólido e diálogo real com o setor produtivo, garantindo proteção à biodiversidade sem comprometer atividades econômicas estratégicas para o país.

Fonte: Assessoria FPA
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Coopavel celebra 55 anos de protagonismo no desenvolvimento agroindustrial

Cooperativa marca mais de meio século de expansão produtiva, fortalecimento regional e contribuição decisiva ao crescimento do agro paranaense.

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Sede da Coopavel, em Cascavel: atualmente, são oito mil funcionários na estrutura da cooperativa - Foto: Coopavel

A Coopavel Cooperativa Agroindustrial comemora na próxima segunda-feira (15), os seus 55 anos de fundação. Uma das mais antigas do Paraná e atualmente uma das 20 maiores do Brasil, a Coopavel historicamente dá inúmeras contribuições ao processo de desenvolvimento agropecuário de Cascavel e dos municípios nos quais atua no Oeste e Sudoeste do Estado.

“Nossa cooperativa é moldada pelos princípios da cooperação, do planejamento, do trabalho e da visão de compartilhamento de oportunidades e prosperidade”, comenta o presidente do Conselho de Administração Dilvo Grolli. Uma missa, às 17h da segunda-feira, 15, no complexo industrial, vai reunir cooperados, diretores e funcionários para agradecer a trajetória de trabalho, realizações e sucesso da Coopavel.

Atualmente com 8,2 mil cooperados e oito mil funcionários, a Coopavel é uma força transformadora em atuação em 21 municípios do Oeste e Sudoeste do Paraná. “Ficamos felizes de contribuir para o fortalecimento do campo, à produção de alimentos e por levar desenvolvimento a tantas comunidades. A Coopavel é uma imensa família alicerçada no trabalho, respeito e valorização das capacidades humanas”, comenta Dilvo, estimando o faturamento da cooperativa em 2025 na casa dos R$ 6 bilhões.

História

A Coopavel foi oficialmente criada em 15 de dezembro de 1970 por um grupo de 42 produtores rurais. Eles buscavam o apoio do cooperativismo para deixar a desfavorável política de preços de grandes empresas nacionais e multinacionais e criar um modelo no qual todos decidem sobre seu futuro e o crescimento da atividade rural. A cooperativa expandiu suas fronteiras e atualmente atua em 18 áreas agroindustriais, o que faz dela uma das mais diversificadas em atuação no Paraná, considerado o estado no qual o cooperativismo está mais aprimorado e fortalecido no País.

Fonte: Assessoria Coopavel
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