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Agricultura global perde trilhões com secas e mudanças climáticas, alerta estudo
Relatório alerta que mudanças climáticas impactam diretamente produção agrícola e pecuária, equivalendo a cerca de 5% do PIB agrícola global por ano.

O calor extremo, a irregularidade das chuvas e as secas prolongadas não são apenas uma ameaça para lavouras e pastagens, são um choque econômico global. Um estudo da Allianz Research, divulgado na semana passada, revela que nas últimas três décadas os desastres naturais ligados às mudanças climáticas custaram à agricultura e à pecuária mundial US$ 3,8 trilhões, uma média de US$ 123 bilhões por ano, equivalente a cerca de 5% do PIB agrícola global.
O documento, intitulado Alimentando um mundo em aquecimento: garantindo a estabilidade alimentar e econômica em um clima em mudança, coloca o setor agrícola no epicentro do debate climático. Segundo os autores, a produção de alimentos não apenas sofre com os efeitos das alterações climáticas, mas também contribui significativamente para o problema, sendo uma das principais fontes de emissões de gases de efeito estufa e de uso da terra.
Para dimensionar o impacto, o estudo aponta que as perdas acumuladas nos últimos 30 anos equivalem aproximadamente ao PIB do Brasil em 2022, ressaltando a magnitude do problema. A pesquisa alerta que, sem estratégias de adaptação, mitigação e investimento em tecnologias resilientes, o setor continuará vulnerável, com consequências diretas para a estabilidade econômica e alimentar global. “A agricultura está no centro do desafio climático, pois é uma das fontes de emissões, consumidora intensiva de recursos naturais e, paradoxalmente, a mais afetada pelas mudanças do clima”, destacam os economistas da Allianz Research.
O levantamento reforça a necessidade urgente de políticas públicas, inovação tecnológica e planejamento estratégico que integrem resiliência climática, eficiência produtiva e sustentabilidade, não apenas para proteger a produção agrícola, mas para garantir segurança alimentar e estabilidade econômica global.
Cenário do Brasil
Os economistas apontam que o Brasil se destaca em particular, não apenas pela escala de sua perda florestal, mas também pela dinâmica das commodities por trás dela. A Figura abaixo traça o desenvolvimento do desmatamento brasileiro ligado à cultura de soja.

A análise relembra que a partir de 2015, a produção de soja subiu de cerca de 100 milhões de toneladas para quase 120 milhões de toneladas, no entanto, o desmatamento relacionado à soja diminuiu em mais da metade no mesmo período.
Esse desacoplamento reflete a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo de cadeia de suprimentos que restringiu a conversão direta de floresta amazônica para soja, reduzindo a participação de novos plantios em terras recentemente desmatadas em aproximadamente -1% até 2014, mesmo com o aumento da produção.
No entanto, os economistas afirmam que o sucesso dessa iniciativa não veio sem compensações (trade-offs): a pressão se espalhou (spill-over) para outros ecossistemas sensíveis, especialmente o Cerrado, uma savana onde a alta biodiversidade e o endemismo são ameaçados pela conversão contínua. Modelos recentes sugerem que estender regras estilo moratória ao Cerrado poderia evitar a perda de mais de 3,6 milhões de hectares de vegetação nativa até 2050, embora sem medidas abrangentes, o vazamento (leakage) possa apagar até metade dos ganhos.
Expansão agrícola e desmatamento
O relatório mostra ainda que a expansão agrícola tem sido o motor mais importante da mudança no uso da terra ao longo do último século (Gráfico 6). Desde 1900, tanto as terras cultiváveis quanto as pastagens se expandiram significativamente, com meados do século XX mostrando o crescimento mais acentuado à medida que a demanda global por alimentos e produtos pecuários se acelerou.

Enquanto as terras cultiváveis continuaram um aumento gradual desde a década de 1990, as pastagens permaneceram o componente dominante, sublinhando o peso da produção de carne e laticínios na moldagem das paisagens (Gráfico 6a).
O documento mostra que essa expansão de longo prazo está diretamente ligada à crescente trajetória do desmatamento (Gráfico 6b). A perda anual de cobertura arbórea flutua com os ciclos regionais de incêndios e colheitas, mas a tendência agregada permanece alta, com Brasil, Canadá, Rússia e EUA consistentemente entre os maiores contribuintes.

Paradoxo da agricultura moderna
Um dos capítulos do documento reforça que a agricultura moderna incorpora uma profunda contradição: ela é indispensável para alimentar um mundo em crescimento, mas, ao mesmo tempo, mina os sistemas ecológicos dos quais depende. Conforme os Gráficos 7 a, b, c e d abaixo, essa tensão surge em várias dimensões críticas.

- A agricultura é responsável por cerca de 26% das emissões globais de gases de efeito estufa (Gráfico 7a). Essa participação, embora menor do que a de setores não alimentares, é excepcionalmente difícil de descarbonizar porque está enraizada em processos biológicos, como as emissões do solo e a digestão do gado.
- A pegada espacial do setor é igualmente notável. Metade da terra habitável do planeta é agora dedicada à agricultura (Gráfico 7b), refletindo décadas de expansão de terras cultiváveis e pressão do pastoreio. Isso ocorreu à custa de florestas e habitats naturais, alimentando a perda de biodiversidade e o desmatamento, particularmente em regiões tropicais, como o Brasil.
- A agricultura é também a maior usuária de recursos de água doce (Gráfico 7c), respondendo por 70% das captações globais. Essa dependência expõe os sistemas alimentares a riscos crescentes de seca, esgotamento de águas subterrâneas e variabilidade climática.
- Finalmente, o escoamento de nutrientes de fertilizantes e esterco torna a agricultura o principal motor da eutrofização (Gráfico 7d), responsável por quase 80% do problema em todo o mundo. O resultado é a poluição generalizada da água, a proliferação de algas (algal blooms) e as zonas mortas costeiras, com consequências em cascata para os ecossistemas e a saúde humana.
Para acessar o relatório completo em inglês, clique aqui

Colunistas
Eficiência, segurança e sustentabilidade: tripé tecnológico molda futuro da logística no agronegócio
Integração de dados, videotelemetria e inteligência artificial já permite reduzir acidentes em até 93% e cortar custos operacionais no transporte.

A cadeia logística do agronegócio na América Latina atravessa um momento decisivo. Pressionada por margens estreitas, riscos operacionais elevados e exigências crescentes de ESG, a logística deixou de ser um elo de apoio para ocupar o centro da estratégia competitiva do setor. Nesse cenário, eficiência, segurança e sustentabilidade formam um tripé que está sendo profundamente redesenhado pela tecnologia.
Um dos principais entraves ainda é a fragmentação tecnológica. Segundo o Guia de Tendências do setor, 35% das empresas seguem na Zona Travada, com integração manual ou inexistente entre sistemas. Esse cenário compromete a eficiência operacional e amplia riscos. Ao mesmo tempo, 90% das empresas apontam a redução de custos como prioridade máxima, o que explica o movimento de 64,1% delas em retomar a frota própria para conter a inflação logística e retomar o controle da operação. No agronegócio, desafios como baixa conectividade em áreas remotas e alta incidência de acidentes agravam esse contexto.

Artigo escrito por Rony Neri, formado em Ciência da Computação, com especialização em Gestão de Negócios e Liderança, além de MBAs em Gestão Comercial e em Executive Business Management.
A modernização, porém, avança de forma desigual. O chamado Paradoxo da IA evidencia esse descompasso: enquanto 43,5% dos profissionais usam inteligência artificial para produtividade pessoal, apenas 13,5% das empresas conseguiram integrá-la de forma profunda à operação. A diferença entre usar tecnologia como ferramenta e adotá-la como estratégia define quem ganha competitividade.
Plataformas digitais e análise de dados em tempo real vêm transformando a gestão. Soluções capazes de mapear trajetos mesmo em regiões sem conectividade garantem a continuidade dos dados ao longo da jornada do agro. A análise em tempo real reduz a ociosidade, otimiza rotas e permite o monitoramento do comportamento do motorista por meio de videotelemetria.
Na segurança, a IA permite abandonar a lógica de retrovisor, que apenas registra o evento após o fato, para adotar a prevenção preditiva. O impacto é transformador: casos reais, como o da transportadora Transpanorama, indicam reduções de até 93% na taxa de acidentes rodoviários. Além disso, tecnologias de monitoramento de cabine reduziram em 86% as ocorrências de fadiga e em 70% os excessos de velocidade. A gestão de dados também mitiga riscos de roubos e desvios, combinando tecnologia com investimento em capacitação, prioridade para 62,1% das empresas até 2026.
Essa sinergia entre dados e comportamento humano gera resultados diretos no balanço financeiro, como demonstra o case da Terra Minas: a precisão no monitoramento e a condução técnica otimizada resultaram em uma economia de 20% no consumo de combustível, além de uma redução de 25% nos custos de manutenção de pneus e molas, provando que a segurança preditiva é, também, um motor de rentabilidade.
No pilar ambiental, a tecnologia viabiliza ganhos mensuráveis. A otimização de rotas reduz a queima de combustível e a manutenção preditiva diminui emissões. A sustentabilidade, nesse contexto, é consequência direta da eficiência operacional.
O futuro da logística do agronegócio passa por plataformas abertas, IA de profundidade e uma força de trabalho digital, impulsionada pela Geração Z, que já representa 18,5% do setor. Investir em tecnologia deixou de ser opcional. Em um mercado que não tolera mais ineficiência, somente operações orientadas por dados serão capazes de crescer com competitividade, resiliência e responsabilidade.
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Safra de soja 2025/26 pode superar 183 milhões de toneladas
Avaliações em mais de 1,2 mil lavouras apontam bom desempenho em diversos estados, apesar de desafios climáticos em algumas regiões.

Resultados parciais das avaliações de campo do Rally da Safra indicam aumento na estimativa de produção de soja no Brasil para a safra 2025/26. A projeção passou para 183,1 milhões de toneladas, volume 6,4% superior ao registrado na temporada anterior. O número representa um acréscimo de 850 mil toneladas em relação à estimativa inicial divulgada em janeiro. A produtividade média estimada é de 62,5 sacas por hectare.
A área plantada permanece estimada em 48,8 milhões de hectares, o que representa crescimento de 2,1% em relação à safra passada. Desde o início da expedição técnica, em janeiro, as equipes percorreram mais de 40 mil quilômetros em 11 estados e no Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rondônia, Tocantins, Pará, Maranhão, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, e avaliaram mais de 1,2 mil lavouras.

Foto: Divulgação/Aprosoja-MT
Apesar de desafios climáticos em algumas regiões, houve melhora nas estimativas de produção na maioria dos estados. A colheita da soja alcançava 44% da área plantada no país até 26 de fevereiro, abaixo dos 52% registrados no mesmo período do ano passado.
Nove estados apresentam potencial produtivo superior a 62 sacas por hectare: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Rondônia e Bahia.
No Mato Grosso, a produtividade média está estimada em 66 sacas por hectare, próxima do recorde da safra anterior, de 66,5 sacas. Em Goiás, a estimativa é de 67 sacas por hectare, embora a colheita esteja atrasada e cerca de 60% da área ainda permaneça no campo. O Mato Grosso do Sul apresenta produtividade projetada de 62,5 sacas por hectare.
No Paraná, a expectativa é de novo recorde, com média de 67 sacas por hectare. Em São Paulo, a produtividade pode alcançar 63,5 sacas, enquanto Minas Gerais tem média estimada em 66,5 sacas por hectare. Rondônia apresenta estimativa de 62,5 sacas, e a Bahia, de 68 sacas por hectare.

Foto: Jaelson Lucas/AEN
Entre os estados com produtividade estimada entre 55 e 62 sacas por hectare estão Tocantins, com média de 59,5 sacas, e Maranhão, Piauí e Pará, com estimativa de 60 sacas por hectare cada.
O Rio Grande do Sul é o único estado com perdas consolidadas até o momento. A irregularidade das chuvas entre janeiro e fevereiro, especialmente nas regiões sul e das Missões, comprometeu o potencial produtivo, com perdas estimadas em 2 milhões de toneladas.
As avaliações de campo seguem nas próximas semanas. As equipes ainda devem realizar levantamentos no Maranhão, Piauí, Bahia e Rio Grande do Sul, etapa considerada decisiva para a consolidação das estimativas finais da safra brasileira de soja.
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Governo gaúcho firma parceria para ampliar uso de dados e tecnologia no agro
Protocolo assinado com a Cooperativa Central Gaúcha Ltda. prevê integração da plataforma SmartCoop com sistemas agroclimáticos e desenvolvimento de ferramentas de apoio à gestão rural.

A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e a Cooperativa Central Gaúcha Ltda. (CCGL), por meio da filial SmartCoop, assinaram um protocolo de intenções para ampliar o uso de tecnologias digitais no agronegócio do Rio Grande do Sul. A formalização ocorreu na terça-feira (10), durante o Fórum da Soja da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, com a presença do vice-governador Gabriel Souza, do secretário da Agricultura e de outras autoridades e lideranças do setor.
O documento estabelece o alinhamento institucional entre o governo estadual, a CCGL e a FecoAgro/RS para a futura assinatura de um termo de cooperação técnica. A iniciativa pretende ampliar o uso integrado da plataforma digital SmartCoop e desenvolver novas funcionalidades tecnológicas voltadas à gestão e ao monitoramento da produção agropecuária.
Entre as diretrizes previstas estão a ampliação da adesão de produtores à plataforma, a integração de dados agroclimáticos e o desenvolvimento de ferramentas digitais que apoiem a gestão das propriedades rurais. O projeto também prevê a conexão entre a SmartCoop e o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro/RS), além da criação de sistemas de alerta epidemiológico e de predisposição climática para doenças em culturas agrícolas.
Ampliação tecnológica
Para o secretário da Seapi, Edivilson Brum, a parceria representa um avanço na integração entre governo e cooperativismo para impulsionar a inovação no campo. “A partir desse alinhamento, avançamos na construção de soluções tecnológicas que ampliem o uso da plataforma SmartCoop, integrem dados agroclimáticos e ofereçam ferramentas que auxiliem o produtor na gestão das propriedades. A ideia é conectar informações estratégicas e desenvolver sistemas de alerta que permitam antecipar riscos climáticos e sanitários, contribuindo para decisões mais seguras e para o fortalecimento da agropecuária gaúcha”, afirmou.
O vice-governador Gabriel Souza destacou que o uso de tecnologia e inteligência de dados tornou-se fundamental diante dos desafios enfrentados pelo setor.”O agro gaúcho precisa cada vez mais de tecnologia, informação e inteligência de dados para enfrentar os desafios do clima e do financiamento da produção. Iniciativas como essa fortalecem a gestão das propriedades, qualificam a tomada de decisão e ajudam a dar mais segurança para quem produz no campo”, disse.
O presidente da FecoAgro/RS, Paulo Madalena, ressaltou que a parceria também contribui para o avanço da digitalização no setor e pode facilitar o acesso dos produtores ao crédito.
Segundo ele, além de ampliar o monitoramento da atividade agrícola, o projeto cria um ambiente mais seguro para a organização das informações produtivas e financeiras. “A proposta está alinhada à estratégia de modernização da agricultura gaúcha, com foco na inserção dos produtores no ecossistema de inovação digital, na sistematização de informações produtivas e no aprimoramento da inteligência agropecuária aplicada à gestão pública”, afirmou.
Geração de dados para tomada de decisão
O vice-presidente da CCGL, Guillermo Dawson Jr., destacou que a cooperação deve fortalecer a geração e a organização de dados técnicos do setor produtivo, ampliando a capacidade de análise e planejamento tanto nas propriedades quanto na gestão pública.
“Este ato representa um passo importante na construção de uma inteligência coletiva voltada ao agro do Rio Grande do Sul. Atualmente, já contamos com 23 mil propriedades integradas a esse ecossistema de gestão”, informou.
O protocolo assinado tem caráter institucional e não prevê, neste momento, transferência de recursos financeiros. Os detalhes da cooperação deverão ser definidos posteriormente em um termo de cooperação técnica específico entre as instituições.



