Bovinos / Grãos / Máquinas
Agricultor de MS vira referência no uso de tecnologias
Adoção das novas tecnologias que surgem no mercado e cuidados altos com o solo fazem a diferença em propriedades como a do produtor Everaldo dos Reis, de Mato Grosso do Sul
Estamos na era digital. A expressão, já quase um clichê, demonstra a realidade do momento que o mundo vive. A alta tecnologia que vem sendo desenvolvida ano a ano é algo que agregou muito, ainda mais para aqueles que sabem usar a seu favor. E o agronegócio tem usado, com inteligência, as novas alternativas que surgem para aumentar a produtividade. Um exemplo é o produtor de Itaquirai, em Mato Grosso do Sul, Everaldo Jorge dos Reis. Com uma propriedade de 1,7 mil hectares, ele utiliza as mais variadas tecnologias para garantir uma boa produtividade e sustentabilidade. Já virou referência para outros produtores.
O produtor começou sua jornada como consultor e técnico agrícola na Cooperativa Copasul, em Naviraí, MS, em 1993. Na época, surgiu a oportunidade para que começasse a plantar em uma área de 160 hectares, em princípio algodão. “Eu conciliava as duas atividades, dando consultoria e plantando”, lembra. Ele conta que no início teve algumas dificuldades, como todos têm com frustração de safra, seca e preço baixo. Com o passar do tempo, trocou a cultura e passou a plantar soja e milho. No início, Reis se juntou com alguns sócios, que compraram algumas propriedades para plantar. “Mas, com o tempo os sócios foram indo embora do Estado e eu fui ficando sozinho com a propriedade. E comecei a pensar: sou da área, tenho formação e experiência, dou consultoria, tenho que ter produtividade”, conta.
Com uma grande propriedade, Reis passou a prestar mais atenção nas tecnologias que estavam presentes para auxiliar o produtor rural. De acordo com ele, viajou para muitos locais, no Brasil e no exterior, para ver o que havia no mercado e o que estava dando certo. “Começamos então a trabalhar com agricultura de precisão. Fomos os primeiros da região a utilizar. Na época era de outra forma, não havia empresas especializadas nisso, e fomos conversando com outros produtores, trocando ideias e fazendo de uma forma mais caseira”, diz. Ele conta que a atividade foi dando certo e passou a investir mais em equipamentos para fazer as análises. “E depois veio outras tecnologias que fomos adotando, como o piloto automático (tratores e colhedeiras), por exemplo”, comenta.
Solo
E para o produtor sul-mato-grossense o grande diferencial para uma boa produtividade está, acima de tudo, nos cuidados com o solo. “O solo nós temos e podemos aproveitar mais. É preciso tratar a terra com carinho. Este é o principal, a grande produtividade vem do tratamento com o solo, este é o nosso maior diferencial”, afirma. E ele sabe o que diz. Nos 15 anos que vem investindo em altas tecnologias, a maioria sempre voltada para ele ter certeza da qualidade do solo. O que não dava certo, corrigia. “Estamos sempre muito focados no solo. Fazemos perfil e investimos na qualidade”, diz. Além do mais, o produtor informa que são feitas correções com cálcio e fósforo, por exemplo, no que for preciso. “Tentamos sempre buscar isso. Acredito que se não seguirmos esse caminho não vamos para lugar algum”, destaca. Sem contar que Reis ainda tem um controle rigoroso de custos, gastos e preços. “Sabemos quantos custa um saco de soja ou de milho, um trator, a manutenção de um maquinário”, diz.
O produtor destaca ainda que investir em tecnologia não é somente em maquinários ou novos softwares. “Utilizar tecnologia é um pacote de ações. Nós fazemos na fazenda ainda o manejo de pragas, vemos os índices de lagarta, percevejo e dessecação, por exemplo. O que temos que fazer hoje é trabalhar para aumentar a produtividade, e não há outro jeito se não utilizar a tecnologia que temos disponível para isso”, afirma. E o que o Reis destaca ainda é a importância de o produtor adquirir as tecnologias gradualmente. “Se começar tudo de uma vez só, ela se torna inviável. Alguns equipamentos têm um custo mais elevado, por isso adquirir tudo de uma única vez é mais difícil”, comenta. Porém destaca que é importante todos os anos o produtor ir se aperfeiçoando, já que, desta forma, a tecnologia adquirida “se paga”.
Maquinários
Entre as tecnologias utilizada por Reis na fazenda está a mecanização. Hoje, todos os tratores possuem piloto automático. “Isto, apesar de um pouco mais caro, se paga. Porque o tratorista ao invés de trabalhar 10 horas cansado, vai ficar 14-15 horas, mas mais sossegado, porque ele não cansa. Ele vai render muito mais”, destaca. Há também nas colheitadeiras, que seguem certo a linha da soja ou milho, já que também possuem piloto automático. “Então, as duas máquinas ‘se falam’ e a produção sai muito mais alinhada”, destaca Reis.
O produtor destaca que a economia que ele tem no desperdício de semente a adubo é a forma que faz com que a tecnologia seja amortizada. “É difícil mensurar o ganho da tecnologia em ganho financeiro. Mas você sabe que está ganhando porque você remontou menos, não há grande rotatividade de pessoal, entre outros ganhos que temos”, diz.
O produtor precisa da prova real, explica. Para isso, ele faz ainda o monitoramento da colheita. “Quando faço a agricultura de precisão e mapeio o solo, para saber a quantidade de corretivo de determinados pontos, eu preciso confirmar se isto está funcionando e se transformando em produtividade. Com isso, vem a colheita monitorada, em que eu consigo checar o que está no solo e o que eu estou realmente produzindo”, destaca. “A colheita monitorada é fundamental para eu tirar a prova real se o que estou fazendo está funcionando, o que está acontecendo na minha propriedade”, afirma.
A baixa rotatividade de pessoal é algo importante para Reis. Além dele, são mais três colaboradores na fazenda. Um trabalha com ele há 12 anos, outro há 11 e um último há cinco anos. “Esta tecnologia que você utiliza nos seus maquinários é também uma forma de valorizar seu colaborador. E isso também vale a pena”, afirma. O produtor ainda destaca que quando se insere alguém em um ambiente em que o processo já está indo bem, com um ambiente organizado, com tecnologias que funcionam, o próprio colaborador já aceita melhor e se adequa ao serviço com mais facilidade. “Eles aceitam a mudança mais facilmente e também é bom para eles. É uma forma deles próprios se sentirem valorizados”, diz. Além do mais, Reis destaca que seus três colaboradores sempre fazem cursos para se adequar e capacitar. “Sem contar que eles também buscam muita coisa sozinhos, e quando encontram algo que acreditam ser bom para a propriedade trazem para mim. Nós temos essa confiança, e isso é bastante positivo”, afirma.
Drone e Estação Meteorológica
Outra novidade em que o produtor investiu e está vendo a diferença é em um drone. “Há coisas que quando você olha para a lavoura no chão é uma coisa, de avião é outra. Mas com o drone, com as imagens que ele passa, é possível ver detalhes que antes eram imperceptíveis”, comenta. Reis diz que é possível detectar, somente pelas imagens, alguns problemas que podem ser evitados no próximo plantio. Ainda é possível ver as manobras feitas pelo pulverizador, há a possibilidade de descobrir se um stand estava falhando, se há mato ou lagarta, ferrugem. “São todos detalhes que eu consigo ver de perto com a imagem que o drone faz para mim”, conta.
Com o drone o produtor comenta que começou a analisar e observar melhor detalhes da propriedade. “Conseguimos ver algumas práticas que estamos desenvolvendo, se está funcionando. É um equipamento interessante. Eu gosto bastante”, afirma.
O que o produtor ainda tem na fazenda é uma estação meteorológica, que foi montada a partir de uma parceria com a empresa Basf e a Fundação ABC. Entre as informações que a tecnologia capta e repassa ao produtor estão a velocidade do vento, temperatura do solo, período de molhamento, humidade do solo, precipitação pluviométrica e previsão do tempo. “São informações importantes que eu posso utilizar para melhorar a minha produtividade. Sabendo a velocidade do vento eu posso ver se é melhor ou não fazer a aplicação de defensivo de forma aérea; com a temperatura do solo eu consigo determinar se consigo fazer um plantio mais cedo, por exemplo. É uma ferramenta que ficou muito boa, ajuda muito”, conta.
Novidade
A novidade adquirida há pouco tempo pelo produtor é um drive que pode ser acoplado em todos os maquinários, mesmo independente da marca. Junto, há ainda um tablet onde o produtor consegue fazer um controle maior e mais preciso de como está a produção. Entre os dados que podem ser obtidos estão a quantidade de combustível utilizado por hora, quantas sementes estão sendo jogadas por metro, quantos quilos de adubo estão indo por hectare, quantas horas o tratorista ficou parado, entre tantas outras informações. “Enquanto o aparelho estiver ligado, automaticamente ele joga as informações na rede e eu consigo ter acesso por aquela máquina naquele dia. Facilita totalmente o gerenciamento da propriedade para mim”, destaca Reis.
O diferencial deste drive é que ele pode ser transferido para outras máquinas, podendo ser passado de um trator para uma colheitadeira, por exemplo. “E na outra máquina ele faz a mesma coisa. Eu consigo ver a velocidade em que a máquina está andando, entre outros detalhes para auxiliar no meu gerenciamento”, diz. Para ele é uma tecnologia que veio para revolucionar a produção. “Sei de alguns produtores no Paraná que já estão utilizando”, comenta.
Porém, o produtor informa que a nova tecnologia não é barata. “O drive funciona por medida. A cada 500 hectares é necessário um drive. Então, você precisa comprar o drive de acordo com a sua propriedade”, conta. Por isso, Reis diz que agora adquiriu somente um, e que vai testar para comprovar sua eficiência, e só assim, então, adquirir mais equipamentos.
Busca de Conhecimento
Buscar conhecimento, novas tecnologias e atualização é o que Reis fez desde o início. O produtor sempre viajou para outros locais, no Brasil e exterior, para buscar coisas novas. “Mesmo que vamos para uma fazenda que tem a mesma área e as mesmas coisas que nós, sempre conseguimos aprender ou tirar algo novo e de bom”, diz. O agricultor conta que já viajou também diversas vezes para os Estados Unidos em busca das novas tecnologias. “Não é que eles estão mais avançados que nós, mas as tecnologias chegam primeiro para eles, já que as empresas estão lá, então vão testar primeiro lá”, comenta. Mas ele conta que é sempre bom ver como as tecnologias são utilizadas de outra perspectiva.
Reis afirma que para utilizar a tecnologia é preciso aprender, por isso a importância de viajar para outros locais. “Vemos sempre coisas interessantes, por isso, todos os anos procuramos viajar para conhecer o que há de novo”, comenta. Porém, ele frisa que não é preciso viajar para o exterior para buscar por novidades. “Aqui mesmo, no Brasil, temos muitas tecnologias e novidades interessantes. Já fui diversas vezes para o Mato Grosso e Paraná, onde encontrei muita coisa interessante. Falamos muito em Estados Unidos e Europa, mas, muitas vezes, o interessante está no nosso vizinho”, enfatiza.
Além do mais, o produtor ainda conta que os colaboradores sempre fazem cursos de capacitação. “Temos uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) aqui do Estado, em que todos os cursos do meio que eles podem fazer, eles estão participando”, diz. Eles também participam de feiras que acontecem em todo o Brasil.
Produtividade
Com a utilização de tanta tecnologia com o passar dos anos, o aumento expressivo da produtividade na fazenda foi perceptível, de acordo com Reis. “A cada ano que passa, com a utilização das novidades, a produtividade veio subindo uns 30%. No começo, a produção era de 40-42 sacas por hectare. Hoje estamos com uma média de mais de 72 sacas por hectare”, informa.
Com tanta tecnologia e uma produtividade acima da média, a propriedade de Reis é local de troca de ideias. Isso porque aqueles que querem conhecer alguma novidade vão até a fazenda para ver como determinada tecnologia funciona. “Há os filhos de outros produtores, onde o pai tinha a propriedade e agora está passando para a segunda geração, que estão vindo com uma cabeça diferente e se interessam pela tecnologia, querem aprender, ver o que está dando certo”, comenta. “Aos poucos, a novidade vai se espalhando e as pessoas vão conhecendo e querem saber como funciona para utilizar também”, entende.
Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

Bovinos / Grãos / Máquinas
Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


