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Aditivos devem melhorar potencial e não corrigir erros de manejo e nutrição
Aditivos não devem ser usados para corrigir erros de manejo ou déficit nutricional. Aditivos devem ser usados para sistemas equilibrados, define o professor doutor da FMVZ, da USP, Francisco Palma Rennó
Aditivos são todas as substâncias não naturais dos alimentos inseridos dentro da dieta dos animais de produção para melhorar seu desempenho zootécnico. Um exemplo é a monensina, usada em larga escala pela bovinocultura brasileira pela sua capacidade de melhorar a eficiência energética no processo fermentativo do rúmen, mas há outros compostos capazes de potencializar a eficiência dos rebanhos, como óleos essenciais e enzimas exógenas, que podem até ter efeitos microbianos e melhorar a saúde do animal. Muitas vezes, porém, o produtor usa equivocadamente os aditivos para tentar solucionar problemas já instalados na propriedade, e a eficácia desses produtos fica comprometida.
“Aditivos não devem ser usados para corrigir erros de manejo ou déficit nutricional. Aditivos devem ser usados para sistemas equilibrados”, define o professor doutor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Palma Rennó. Durante uma palestra que abriu o segundo dia de discussões do 14º Simpósio do Leite, em Erechim, RS, no mês de junho, Rennó alertou para os riscos de perder tempo e dinheiro usando aditivos para planteis que não estejam com a saúde, o manejo e a nutrição em dia.
“Temos que saber porque usar aditivos. Aditivo é tudo que se coloca na dieta que não é natural dos alimentos, mas o produtor precisa caracterizar seu propósito”, orienta. “O aditivo deve ser usado em um sistema de produção equilibrado, ou seja, quando a vaca tem garantido o fornecimento qualitativo e quantitativo dos nutrientes. Se não for assim, o sistema está em desequilíbrio”, destacou o médico veterinário.
Além disso, Rennó chamou a atenção para o manejo correto para potencializar os efeitos dos compostos. “É preciso um manejo que ofereça ao animal a oportunidade de expressar seu potencial”, sugeriu. Só assim, entende, o uso dos aditivos vai realmente trazer ganhos e não apenas custos. “Usados para sistemas em equilíbrio, há ganho extra de produtividade. Não é para corrigir erro de manejo ou estratégias nutricionais equivocadas. Não tem outra forma de ser (usado) a não ser em sistemas em equilíbrio”, ratificou.
Prova Real
Há algumas formas de saber se os aditivos incorporados à nutrição do rebanho de vacas leiteiras estão ou não fazendo efeito. De acordo com o professor, um deles é o aumento de produção de leite sem mudança no consumo de matéria seca e o outro é a manutenção da produtividade reduzindo o consumo de alimentos. “Em outras palavras, fazem mais com o mesmo ou fazem igual com menos”, caracteriza.
Estudos conduzidos pelo estudioso no campus de Pirassununga da FMVZ e apresentados durante sua explanação no Simpósio do Leite demonstram o potencial de aditivos na nutrição. De acordo com ele, em um primeiro cenário, sem interferir em consumo de matéria seca, o aumento da produção observado foi entre 3 e 6%. “Ou seja: 600 gramas a um quilo (de leite) dia. Isso a gente espera que aconteça”.
Em um segundo cenário, com menos consumo de matéria seca e mantendo a mesma produção, as vacas também se deram bem com os aditivos. A redução do consumo, sem afetar a produção, segundo o professor, foi de até 5%. “O aumento de eficiência pode ser expresso de várias formas”, comentou. “Conseguir um aumento de eficiência entre 4 e 6% é muita coisa”, opinou o pesquisador.
Ainda conforme Rennó, o uso de aditivos na nutrição pode melhorar a qualidade do leite, refletindo em mais lucros para o produtor, já que muitas indústrias remuneram o homem do campo de acordo com as características físico-químicas do leite, especialmente sobre a contagem de células somáticas, teor de gordura e proteína. “O aditivo também pode gerar ganho na composição do leite, na qualidade”, apontou.
Condições Adequadas
Na visão de Rennó, é preciso ter em mente o equilíbrio de baterias, fungos e outros microrganismos, que “são muito importantes para o animal, pois digerem celulose, produzem energia (ácidos graxos), produzem proteína microbiana, suprem em parte a vitamina do complexo B, ajudam na detoxificação de compostos nocivos ao hospedeiro”. “Quando trabalharmos com aditivos, de alguma maneira vamos selecionar microrganismos que, de alguma forma, terão a capacidade de digerir alimentos mais que o usual”, orientou.
Ainda conforme o palestrante, pode haver uma variação de resultados dependendo do ciclo produtivo e da alimentação da vaca. “Há variação de resultados quando usa aditivos porque a gente depende dos microrganismos, qual a fase do ciclo produtivo se encontra e qual a base de alimentação”, comenta. Por isso, segundo ele, as empresas e universidades pesquisam por aditivos que funcionem em um maior número de cenários possível.
Rennó resume a três pontos fundamentais a tomada de decisão para o uso de aditivos”: “melhoria na eficiência de utilização de nutrientes, relação custo/benefício e redução de microbianos na produção animal”.
Monensina
Segundo Rennó, “a monensina talvez seja a referência em aditivos na nutrição de ruminantes”. De acordo com o doutor, ele é usado como anti coccidiano e para ajudar na fermentação do rúmen. “A monensina é o aditivo mais usado em bovinos. Cerca de 90% dos profissionais indicam a monensina na ração. Ela melhora a eficiência energética no processo fermentativo do rúmen, aproveita a energia, fazendo sobrar mais energia pra vaca, que vai produz mais”, evidenciou.
Analisando 36 artigos e 71 experimentos, uma meta análise proposta por pesquisadores brasileiros, segundo Rennó, demonstrou a eficiência do produto. “O resumo da ópera é que o consumo foi 2% menor (0,3 kg/dia) e a produção de leite 2% maior (0,7 kg/dia)”.
Dosagem
Tanto a alta quanto a baixa dosagem, porém, pode trazer riscos ao produtor. “Inserir aditivos na dieta tem um problema. A dosagem precisa ser equilibrada. Ela varia de baixa, que são 12 miligramas por quilo de matéria seca, a alta, que são 35 mg/quilo de matéria seca. Quanto maior a dose, muda o efeito. Quanto menor, eu espero menores impactos sobre consumo. A gente recomenda de 15 a 24 mg por quilo de matéria seca. Se tem mais que isso, tem riscos”, sugere.
Óleos Funcionais
Outros aditivos, que agora ganham o marcado muito por conta da redução do uso de antibióticos na produção animal, são os óleos funcionais. O pesquisador explica que esse material, que são compostos de plantas, podem ter efeito medicamentoso nos animais e semelhante, por exemplo, à monensina. “Essa tecnologia dos óleos funcionais ainda é nova, está na primeira fase. Tem muita coisa para acontecer, mas já é reconhecido o efeito antimicrobiano, a otimização dos processos fermentativos no rúmen”, pontua.
Em sua opinião, os óleos devem ganhar mercado por pressão do mercado em reduzir o uso de antimicrobianos. “Existe uma discussão muito forte sobre a restrição ao uso de antimicrobianos, por preocupação em provocar resistência (bacteriana) em humanos. Há uma tendência de essa redução acontecer a curto prazo. Já existe (mais incisivamente) em suínos e aves”, alertou o médico veterinário.
Rennó também apresentou estudo demonstrando o efeito positivo na produtividade ao usar óleos funcionais na produção leiteira. “O grupo controle (sem aditivos) produziu 25,92 litros/dia e o grupo que recebeu óleos funcionais produziu média de 27,17 litros”, apontou.
Enzimas Exógenas
As enzimas exógenas também ganharam o mercado da pecuária de leite no Brasil, segundo Rennó, pela sua eficiência dentro do rúmen. “As enzimas exógenas aumentam o pool de enzimas ativas no rúmen. Ela provoca otimização dos processos digestivos e fermentativos ruminais, entre outros benefícios, como ajudar na produção de proteína”, comenta. De acordo com ele, com a enzima fibrolítica, por exemplo, “a vaca vai comer mais facilmente partículas maiores, o que é importante para evitar a seleção do alimento”, argumenta.
Combinação de Aditivos
Usar mais de um aditivo pode melhorar ainda mais a eficiência do rebanho? O professor da FMVZ/USP alerta para o uso desenfreado. “A combinação de aditivos é um assunto polêmico. Já vi dietas com até sete aditivos juntos, mas essa regra de quanto mais, melhor, não funciona. Não é bem assim”, orientou. “As associações entre aditivos na dieta animal devem ser estudadas com cautela e caso a caso. No Brasil, vemos isso acontecer muito porque o profissional quer corrigir erros de manejo e nutrição com aditivos”, apontou. Em sua opinião, “é melhor usar um, no máximo dois”.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


