Suínos Suinocultura
Abraves Paraná discute alternativas para um velho problema: a destinação de animais mortos
A visão de vários atores da cadeia produtiva foi apresentada no Encontro Regional Abraves-PR com o objetivo de lançar mão das melhores possibilidades de destinação, nos diferentes cenários da suinocultura brasileira. No Brasil, a pecuária precisa dar destinação a 1,6 milhão de tonadas de carcaças todos os anos.

O Encontro Regional Abraves (Associação de Medicos Veterinários Especialistas em Suínos) Paraná, que em março reuniu congressistas em dois dias de palestras técnicas sobre as atuais necessidades da suinocultura, promoveu um amplo debate sobre a destinação de animais mortos no setor produtivo. A visão de vários atores da cadeia produtiva foi apresentada no evento com o objetivo de lançar mão das melhores possibilidades de destinação, nos diferentes cenários da suinocultura brasileira. No Brasil, a pecuária precisa dar destinação a 1,6 milhão de tonadas de carcaças todos os anos.
O produtor rural Eloi Favero, da Associação Paranaense de Suinocultores (APS), falou sobre o destino de animais mortos nas granjas na visão do suinocultor. A visão da agroindústria e cooperativas foi abordada por Valdecir Mauerwerk, da Frimesa.
Já os desafios sanitários relacionados ao destino das carcaças de animais mortos foi o tema da palestra do presidente da Otamir Cesar Martins, da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). O impacto ambiental da destinação dos animais mortos também foi abordado em apresentação de Rodrigo da Silveira Nicoloso, pesquisador da Embrapa.
Ainda da Embrapa, o pesquisador Luizinho Caron falou dos riscos inerentes à remoção de animais mortos das granjas para centrais de transformação, uma prática que está sendo ventilada para o setor, mas sofre muita resistência de profissionais do setor por conta dos altos riscos sanitários que apresenta.
As palestras abordaram ainda a utilização de animais mortos para produção de biogás, com o pesquisador Airton Kunz, da Embrapa, centrais para destinação de animais mortos, com o chefe geral da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe, destino de carcaças de animais mortos no Paraná: aspectos legais, desafios estruturais e o que fazer para solucionar esse problema, com o presidente do Instituto Água e Terra (IAT Paraná), Volnei Bisognin, e demandas necessárias para elaboração de um programa nacional de destinação de animais mortos, novamente com o pesquisador Everton Krabbe.
Visão do suinocultor

Eloi Favero, da Associação Paranaense de Suinocultores
Favero, da APS, destacou que a ampla maioria dos produtores de suínos têm pequenas áreas de terra, composta basicamente com área de granja e lagoas, moradia de funcionários, pátios para caminhões, área de reserva legal e mata ciliar e uma parcela de área agricultável. Ele destacou que uma propriedade com mil matrizes gera cerca de 15 toneladas de animais mortos por ano.
Ele destacou que a primeira dificuldade é retirar os animais mortos das instalações, especialmente em granjas mais antigas, que não projetadas sem prestar atenção a isso. “Quando morre um animal dentro da sela parideira é muito difícil”, exemplificou.
Ele destacou as dificuldades da compostagem vivenciadas na propriedade, como falta de mão de obra para a tarefa. “As pessoas preferem pedir demissão do que ficar picando porco morto. Além disso, é uma tarefa repugnante, especialmente para mulheres. A gente houve relatos de que quando a pessoa vai para a composteira não consegue mais comer carne de porco”.
Ele destacou pontos importantes que devem ser considerados. “Temos que dar um destino adequado às carcaças sem correr nenhum risco sanitário, de estar disseminando doenças em nossos planteis, comprometendo a sustentabilidade da cadeia de produção. Precisamos de novos sistemas que otimizem o processo e o tempo de compostagem, mas que o custo seja acessível a todos os produtores. As empresas integradoras precisam se engajar para encontrar uma solução, já que os animais são de sua propriedade”, destacou, arrematando: “O atual sistema de compostagem está se tornando um problema social, na questão ambiental e na questão humana”.
Visão da agroindústria

Valdecir Mauerwerk, da Frimesa
O médico-veterinário Valdecir Mauerwerk, da Frimesa, destacou que o aumento de produtividade ano após ano nas granjas e do crescimento na produção previsto para os próximos anos vão aumentar ainda mais esse desafio. “Nossos clientes exigem cada vez mais onde estamos tratando esse material. Não podemos deixar de tratar desse assunto. Por outro lado, temos que pensar no bem-estar do produtor. A gente precisa olhar pra ele”, apontou.
Valdecir citou o caso da Frimesa, que hoje conta com 114 mil matrizes em seu processo produtivo. Somente a cooperativa gera cerca de 8.650 toneladas de animais mortos todos os anos, o equivalente a 24 toneladas por dia. “Detalhe: estamos falando de uma única integração. Veja a imensidão disso”, ressaltou.
Desse total, a ampla maioria é no processo de terminação dos suínos. São cerca de 1.140 toneladas de matrizes, 275 toneladas de leitões em maternidade, 1.235 toneladas de leitões em creche e 6 mil toneladas em suínos em terminações. “A destinação de carcaças de animais mortos e placentas ainda apresenta grandes dificuldades”, disse, citando as alternativas existentes, como “compostagem, rotoacelerador, triturador + tratamento térmico + biodigestor, desidratador de carcaças e enterrio”, mas também disse que “há necessidade de novas alternativas para a destinação”.
Entre as alternativas para o problema, citou “estratégias para redução de mortalidade, conscientização das pessoas envolvidas, necessidade de otimização de processos e a busca por novas tecnologias ou melhorarmos as já existentes”.
Desafios sanitários da destinação
Os desafios sanitários para a destinação de animais mortos foi o tema da palestra do presidente da Adapar, Otamir Cesar Martins. “Nós temos que pensar que temos aves, suínos e bovinos. Somos um Estado (Paraná) pequeno, com base na agricultura. Somos os maiores produtores de alimentos do Brasil. Somos o primeiro Estado em produção de aves, o segundo em suínos, o segundo maior produtor de leite, primeiro em piscicultura, segundo em ovos e décimo em carne bovina. Isso traz consequências, como aumento da população de animais, o aumento do risco sanitário, especialmente porque retiramos a vacina contra aftosa, necessidade de aumento da vigilância e destinação de dejetos e carcaças”, frisou. “Há no Paraná essa grande concentração de animais e temos que pensar na destinação de animais mortos”, ampliou.
Martins destacou que o Serviço Veterinário Oficial precisa da participação dos serviços veterinários não oficiais. “Isso é uma recomendação da OIE (Organização Mundial de Saúde Animal)”, orientou.

Presidente da Adapar, Otamir Cesar Martins
Em um ponto polêmico, Martins destacou a possibilidade de fazer o transporte de animais para fora das fazendas, em centrais de recebimentos desses resíduos, que seriam locais adequados para a destinação e eliminação de riscos. No entanto, frisou que a atividade, mesmo que autorizada por normativa de 2019 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, gera riscos no transporte. “O recolhimento de carcaças por empresa credenciada pode ocorrer quando houver morte natural do animal, morrer por doenças de produção, acidente de manejo, acidente no transporte, intempéries ou, com autorização da Adapar, em casos de doenças de programa”.
Ele destacou que os produtos gerados a partir desse processamento podem ser usados como insumos para as indústrias química e energética, adubo, biodiesel e insumos para produtos de higiene e limpeza.
“O recolhimento de carcaças é uma alternativa, porém há um risco sanitário. A disseminação de doenças, como a Peste Suína Africana, a Peste Suína Clássica e a Febre Aftosa, no transporte de animais vivos ou mortos é um ponto de risco, deve ser executado com muita responsabilidade por todos os envolvidos”, frisou.
Impacto ambiental da destinação

Rodrigo Nicoloso, da Embrapa
O engenheiro agrônomo Rodrigo da Silveira Nicoloso, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, destacou a importância de dar fim a esses resíduos orgânicos causando impacto de maneira controlada, especialmente usando esse material para produzir fertilizantes e usar nas lavouras. É preciso uma gestão integrada dos resíduos nas propriedades rurais”, pontuou.
Ele destacou uma nova forma de fazer leiras para a compostagem, que está sendo validada pela Embrapa, com animais inteiros. “É uma tecnologia que dá menos trabalho para o produtor com custo acessível”, pontuou.
Nesse sistema, destacou Nicoloso, é para todos, de pequenas a grandes propriedades. “Tem um baixo investimento, basicamente a cerca de contenção e isolamento, com tempo de compostagem de aproximadamente 60 dias, dependendo do tamanho do animal, e pode ser usado depois como adubo orgânico para áreas de grãos ou reflorestamento”, sustentou. Ele destacou que a tecnologia de compostagem com animais inteiros funciona melhor com cobertura de 60 centímetros. Isso evita o chorume e aumenta a temperatura nas leiras que inativa os microrganismos.
Ele destacou outras tecnologias, como compostagem tradicional, compostagem acelerada e biodigestão anaeróbia. Nicoloso destacou, no entanto, que cada é usada de acordo com o tamanho das propriedades.
Riscos de remoção de animais

Luizinho Caron, da Embrapa
Luizinho Caron, da Embrapa, demonstrou estudo sobre os riscos que a remoção das fazendas dos suínos mortos oferece. Ele recomenda mais estudos como a simulação da Embrapa apresentada por ele para garantir qualidade nesse tipo de serviço. No estudo foram listados perigos microbiológicos, dos quais 49 agentes bacterianos e 45 agentes virais. Desses, 46 agentes bacterianos e 24 agentes virais foram identificados em rebanhos brasileiros. O estudo da Embrapa, envolveu três cenários.
“As incertezas podem ser reduzidas caso mais dados científicos dos agentes infecciosos sejam obtidos”, destacou, lembrando que a Embrapa disponibiliza suas publicações que tratam da remoção de animais mortos e riscos microbiológicos envolvidos para toda a cadeia suinícola.
Carcaça produz mais biogás que o dejeto
“Eu começo com uma premissa. Para mim, (animal morto) não é resíduo, para mim é substrato. Esse material tem muita energia guardada e uma capacidade muito grande de geração de biogás”, introduziu o também pesquisador da Embrapa Airton Kunz, que destacou a oportunidade de transformar o passivo em um ativo.
Ele destacou que todos os dejetos e carcaças podem produzir energia. “Temos os dejetos, com diferentes composições e concentrações, em função dos diferentes tipos de sistemas produtivos, temos resíduos como placentas e natimortos e temos os animais mortos não abatidos, que não são uma novidade”, destacou, lembrando que a composição.

Airton Kunz, da Embrapa
No entanto, destacou que estudo da Embrapa demonstra que as carcaças são melhores substratos para a produção do gás. “A digestão anaeróbia é uma alternativa promissora. Se fizer manejo correto, a carcaça é excelente substrato para produção de biogás. A carcaça animal possui um potencial de produção de biogás cinco vezes maior do que os dejetos”, apontou Kunz. “Se você oferece carcaça para o biodigestor eu fico feliz”, emendou. No entanto, o excesso de carcaças nos biodigestores pode atrapalhar. “A gente faz uma codigestão, com dois substratos”, destacou, alertando para o equilíbrio do pH. “.
A trituração das carcaças também precisa ser feita para melhorar o processo de biodigestão, assim como a o tratamento térmico é indicado para inativação de patógenos. “A gente pode usar o calor do grupo motogerador. A gente perde calor dos nossos sistemas de geração de energia elétrica”, orientou. “Calor é energia, é dinheiro”, ampliou, destacando que todos esses processos, de trituração, higienização e alimentação do biodigestor precisam ser automatizados.
Outro desafios
Centrais para destinação de animais mortos, com o chefe geral da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe, e destino de carcaças de animais mortos no Paraná: aspectos legais, desafios estruturais e o que fazer para solucionar esse problema, com o presidente do Instituto Água e Terra (IAT Paraná), Volnei Bisognin, encerraram a programação sobre a destinação de animais mortos do Encontro Abraves Paraná.
Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Suínos
Biosseguridade exige constância e disciplina para proteger a suinocultura brasileira
Especialista alerta, no Congresso da Abraves, que o avanço da produção e do comércio global amplia riscos sanitários e exige ações preventivas cada vez mais rigorosas.

A biosseguridade permanece como um dos pilares mais estratégicos da suinocultura, especialmente em um cenário de intensificação produtiva, concentração regional de granjas e ampliação dos fluxos comerciais globais.
A biosseguridade reúne um conjunto de práticas voltadas tanto à prevenção da entrada de agentes patogênicos nos sistemas produtivos quanto ao controle da disseminação de doenças já presentes nas granjas. Trata-se de um conceito que ultrapassa os limites da propriedade rural e se estende aos níveis regional, nacional e até global, diante da interconexão sanitária entre os principais países produtores de suínos. “A suinocultura mundial convive com desafios sanitários importantes e interligados. Mesmo países com status sanitário favorável para determinadas doenças não estão livres de riscos, o que reforça a necessidade de vigilância permanente e protocolos rigorosos de biosseguridade”, alertou o médico-veterinário especialista em Saúde e Produção Suína, Maurício Dutra, durante sua participação no 21º Congresso Nacional da Abraves, realizado em meados de outubro, em Belo Horizonte (MG).

Dados internacionais mostram que grandes produtores, como União Europeia, Estados Unidos, China, Rússia, Vietnã e Brasil, enfrentam a circulação contínua de agentes como PED/TGE, influenza, PCV-2, Aujeszky e PRRS. No entanto, a Peste Suína Africana (PSA) figura como o maior desafio sanitário da atividade, após sua disseminação acelerada na Ásia a partir de 2018.
De acordo com Dutra, o setor não tem observado o surgimento de novos agentes etiológicos nas últimas décadas, mas sim um aumento expressivo na virulência e na capacidade de adaptação de patógenos já conhecidos, o que torna o controle mais complexo. “Os principais desafios continuam sendo enfermidades virais de elevado impacto econômico, seja pela ausência de vacinas efetivas, seja pela elevada letalidade. Isso justifica a adoção de ações efetivas de prevenção”, enfatizou.
Lições da Peste Suína Africana
Embora a PSA esteja ausente no Brasil há mais de 40 anos, o especialista ressaltou que o país pode e deve aprender com experiências internacionais e com seu próprio histórico. A enfermidade, descoberta em 1921 e endêmica na África, provocou três grandes ondas de disseminação global. Na segunda delas, nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil foi afetado após a introdução do vírus por restos de alimentos provenientes de voos internacionais. “A contaminação teve início em 1978, e o país só foi declarado livre em 1984, após perdas diretas estimadas em US$ 13 milhões, além de impactos sociais e econômicos expressivos, como falência de pequenos produtores, desemprego e queda de cerca de 40% no consumo de carne suína”, relembrou Dutra.

Foto: Ari Dias/AEN
O controle da doença, segundo ele, só foi possível com a adoção rigorosa de práticas de biosseguridade em duas fases distintas – emergencial e de erradicação, que deixaram como legado instrumentos ainda vigentes, como o monitoramento das Granjas de Reprodutores Suídeos Certificados (GRSC) e a regionalização sanitária para a Peste Suína Clássica.
Atualmente, mesmo com a existência de vacinas vivas contra a PSA, a baixa eficiência e o risco de reversão de virulência mantêm a biosseguridade como principal ferramenta de prevenção. Dutra destacou medidas como quarentena para animais de reposição, desinfecção adequada de caminhões, barreiras sanitárias com banho e troca de roupas e o controle rigoroso da entrada ilegal de produtos de origem animal no país.
PED e PRRS reforçam importância da prevenção
Outras enfermidades também reforçam o papel central da biosseguridade. A Diarréia Epidêmica Suína (PED), embora não seja nova, reemergiu com alta virulência após adaptação viral, causando mortalidade de até 100% em leitões lactantes sem imunização prévia. “Mesmo com vacinas disponíveis, a prevenção depende fortemente de cuidados com fômites, meios de transporte e contaminação alimentar”, explicou Dutra.

Já a Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína (PRRS), confirmada laboratorialmente desde 1991, segue como uma das doenças de maior impacto econômico, com perdas estimadas entre USD 6,25 e USD 15,25 por animal vendido. Estratégias combinadas de vacinação, manejo e biosseguridade, incluindo práticas como McRebel, carregamento escalonado e uso de filtros de ar em regiões de alta densidade produtiva, têm mostrado resultados relevantes.
“A adoção integrada dessas medidas caracteriza a chamada ‘nova geração da biosseguridade’, que reduziu significativamente os surtos de PRRS nos Estados Unidos quando aplicada de forma completa”, ressaltou.
Desafios crescentes no Brasil
No contexto nacional, Dutra alertou para o aumento dos desafios sanitários nas últimas décadas, com a presença de influenza desde 2009, Doença de Aujeszky em 2011, cepas multirresistentes de Brachyspira, além do crescimento de casos de salmonelose, Senecavírus Tipo A, encefalomiocardite e diferentes genótipos de PCV-2.
Apesar disso, levantamentos indicam que ainda há espaço relevante para avanços na adoção plena das práticas de biosseguridade no país. “Essas práticas têm sido eficientes, mas a jornada é longa, árdua e contínua. Novos desafios surgem com cepas mais virulentas, reemergência de doenças e novas formas de transmissão”, afirmou.
Para Dutra, o fato de enfermidades como PSA, PED e PRRS ainda serem exóticas no Brasil representa uma oportunidade estratégica. “Temos o privilégio de aprender com os erros e acertos de outros países e agir de forma proativa e responsável, protegendo cada sistema de produção e a sustentabilidade da suinocultura brasileira”, concluiu.
A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!
Suínos
ABCS aposta em campanha para impulsionar consumo de carne suína
Iniciativa busca ampliar demanda interna diante da pressão sobre preços e aumento da produção.

A Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) decidiu lançar uma edição especial da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” como resposta estratégica ao atual cenário da suinocultura, marcado pelo aumento da produção, retração do consumo interno e pressão sobre os preços pagos ao produtor, apoiando assim os produtores em um cenário desafiador.
Apesar do bom desempenho das exportações em 2026, que cresceram expressivamente no primeiro trimestre, o volume exportado não tem sido suficiente para equilibrar o mercado doméstico. Isso ocorre porque o setor enfrenta dois fatores simultâneos: o aumento da produção e a retração do consumo interno. Essa combinação pressiona as cotações e impacta diretamente a rentabilidade do produtor, exigindo ações coordenadas para estimular a demanda dentro do país.

É nesse contexto que a ABCS antecipa a campanha “Bom de Preço, Bom de Prato”, apostando de forma rápida e certeira no fortalecimento do consumo interno como principal alavanca para reequilibrar o mercado. A iniciativa reforça ao consumidor brasileiro que a carne suína é uma proteína com excelente custo-benefício, acessível, versátil, saborosa e adequada ao dia a dia, buscando ampliar sua presença na mesa das famílias e, consequentemente, aumentar sua venda no pequeno, médio e grande varejo.
A edição especial da campanha intitulada “A melhor escolha do momento” tem início imediato e deve alcançar milhões de consumidores com ações coordenadas em todo o país. A estratégia está estruturada em três frentes principais: varejo, influência digital e mobilização da cadeia produtiva. No varejo, a iniciativa prevê materiais de ponto de venda e comunicação em loja, com foco em destacar o custo-benefício e a versatilidade da carne suína, incentivando a decisão de compra e o aumento do giro da proteína.
Já no ambiente digital, a campanha contará com conteúdos e vídeos produzidos em parceria com influenciadores, como o médico, Dr. Bruno Monteze, o nutricionista, Jefferson Jorge, a nutrichef, Clariana Colaço, e o chef de cozinha Jimmy Ogro, que juntos somam mais de 3 milhões de seguidores nas redes, ampliando o alcance da mensagem e aproximando o produto do cotidiano do consumidor.

Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes: “A antecipação da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” representa, portanto, um movimento importante para fortalecer o consumo interno, equilibrar o mercado e dar mais sustentação à suinocultura brasileira” – Foto: Divulgação/ABCS
A terceira frente envolve a ativação de toda a cadeia, com a disponibilização gratuita de materiais e conteúdos para o sistema ABCS os demais agentes da cadeia que queiram se juntar a força tarefa de promover o consumo, permitindo a replicação da campanha em diferentes regiões e ampliando sua escala nacional.
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que com essa iniciativa, a ABCS reforça seu compromisso com o setor, mostrando ao produtor que está atenta ao cenário e atuando de forma proativa para enfrentar os desafios. “A antecipação da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” representa, portanto, um movimento importante para fortalecer o consumo interno, equilibrar o mercado e dar mais sustentação à suinocultura brasileira”, concluiu.
A ABCS realizou na última quarta-feira (22), uma reunião para entregar essa campanha e explicar a estratégia de utilização para todo o Sistema, contribuintes do FNDS e varejos parceiros, onde o presidente da ABCS, reforçou a importância da participação de todos para multiplicar a campanha, convocando os presentes para que a iniciativa chegue a todos os brasileiros.
A ABCS também aproveitou a ocasião para apresentar um panorama de mercado atual, para ajudar a explicar o momento que o setor tem vivido. Ao final, o presidente da Asemg, Donizetti Ferreira, parabenizou a ABCS pela campanha e reforçou a necessidade do engajamento de todos: “Acreditamos que vai nos ajudar a alavancar o consumo, é só nos dedicarmos a replicar o material”. Renato Spera, presidente da Asumas, concordou: “Achei fantástico. A campanha será crucial para atravessarmos a crise.” Iuri Pinheiro Machado, diretor executivo da Agigo também parabenizou a ABCS por acelerar essa campanha diante do momento atual, e da demanda dos suinocultores, segundo ele: “A crise sempre gera oportunidade, e essa é uma grande oportunidade para ganhar mais espaço no varejo pela competitividade da carne suína”, finalizou.
Suínos
Exportação recorde não segura queda das cotações do suíno
Alta de 32,8% nos embarques em março não impediu recuo dos preços no mercado interno, com pressão da oferta e piora na rentabilidade do produtor.

O Brasil segue mantendo crescimento significativo de exportações de carne suína. Em março deste ano o país exportou 152,2 mil toneladas entre in natura e processados (tabela 1), 32,8% acima do embarcado em março/25. O volume ficou 1,4% superior ao até então recorde mensal, que havia sido atingido em setembro/25. Março também foi o mês com a maior média diária embarcada de carne suína in natura (5.980 toneladas/dia útil), a maior da série histórica da Secex, iniciada em 1997.

Tabela 1. Exportações brasileiras de carne suína total (in natura e processados) em MARÇO de 2026, em toneladas, comparado a março de 2025. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
No acumulado do ano, fechamos o primeiro trimestre de 2026 com 15,3% (+44,5 mil toneladas) a mais de carne in natura que o mesmo período do ano passado (tabela 2), com destaque para as Filipinas, que no período representou mais de 30% do volume exportado.

Tabela 2. Exportação brasileira de carne suína in natura por destino no PRIMEIRO TRIMESTRE de 2026 (em toneladas) comparado com o mesmo período de 2025. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
Ainda não foram publicados os dados consolidados de abate do primeiro trimestre do ano, mas números preliminares do SIF (Serviço de Inspeção Federal), indicam um crescimento ao redor de 4% em número de cabeças em relação ao mesmo período de 2025, nos estabelecimentos sob esta inspeção. Se considerarmos que as exportações cresceram quase 16% no período, e que os embarques representam em torno de 25% da destinação da produção de carne suína do Brasil, pode-se inferir que quase tudo que se produziu a mais foi exportado, não havendo sobreoferta significativa no mercado doméstico. Porém, as cotações do suíno vivo e das carcaças (gráficos 1 e 2), especialmente nas últimas semanas, “derreteram”, indicando um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Gráfico 1. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, diário, nos últimos 30 dias úteis (até dia 20/04/26 em destaque). Fonte: CEPEA.

Gráfico 2. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, diário, nos últimos 60 dias úteis, até dia 20/04/2026. Fonte: CEPEA
No acumulado de abril/26, a queda acentuada do preço do suíno, concomitante à alta do boi gordo fez com que a competitividade da carcaça suína em relação à bovina atingisse o melhor patamar desde março de 2022 (gráfico 3). Por outro lado, em relação ao frango resfriado a competitividade da carcaça suína em abril/26 é a melhor desde setembro de 2022 (gráfico 4). Ou seja, no atacado o suíno está relativamente barato em relação ao boi e ao frango. Estas correlações não obrigatoriamente se repetem no varejo na mesma proporção, pois cada proteína e cada elo da cadeia de valor tem sua dinâmica, mas a tendência é que o consumidor, em algum momento, identifique estas diferenças que podem pesar na sua escolha.

Gráfico 3. Relação percentual (razão) entre o valor mensal do quilograma da carcaça suína e o valor do quilograma da carcaça bovina em São Paulo (SP). Em destaque o mês de abril/26 (média até dia 20/04) e o mês de março/22, último mês em que esteve abaixo de 38%. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do Cepea.

Gráfico 4. Relação percentual (razão) entre o valor mensal do kg de frango resfriado e o valor do quilograma da carcaça suína em São Paulo (SP). Em destaque o mês de abril/26 (média até dia 20/04) e o mês de setembro/22, último mês em que esteve acima de 78%. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do Cepea.
Com o plantio da segunda safra de milho finalizado a “sorte está lançada”. A irregularidade das chuvas em abril elevou os riscos de perdas. As cotações voltaram a cair (gráfico 5) e a percepção é que a safrinha, mesmo que ainda tenha perdas por clima, será grande. A Conab reviu a safra total de milho 2025/26 para 139,6 milhões de toneladas, mas, segundo o Mbagro, não está descartada uma alta de preços mais a frente caso a condição das lavouras piore.

Gráfico 5. Preço médio diário do MILHO (R$/SC 60kg) em CAMPINAS-SP, nos últimos 30 dias úteis, até dia 20/04/2026. Fonte: CEPEA
Mesmo com o recuo das cotações do milho e o farelo de soja estável, a queda acentuada do preço do suíno fez com que a relação de troca com os principais insumos da atividade despencasse para um patamar “perigoso”, abaixo de 5,0; um valor considerado de alto risco para determinar prejuízo na atividade, dependendo da produtividade da granja. A última vez que esta relação de troca esteve abaixo de 5,0 foi em dezembro de 2023 (gráfico 6).

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO: MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de abril/23 a abril/26 (até dia 20/04). Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de abril de 2026 até dia 20/04/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo
Considerações finais
Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, apesar das exportações em alta os meses de março e abril/26 são os piores no quesito preço pago ao produtor, desde que saímos da última crise. “O quadro só não é mais grave por conta de uma relativa estabilidade nos preços dos principais insumos (milho e farelo de soja), mas a relação de troca já determina margens negativas na produção. Há um evidente desequilíbrio entre oferta e demanda da carne suína em um cenário que não deve mudar no curtíssimo prazo. Torcemos para que a entrada do inverno e o início da Copa do Mundo de Futebol, além da aproximação das eleições possam aquecer a demanda no médio prazo. Um alento é que a competitividade da carne suína em relação às outras carnes oportuniza expandir o consumo e ocupar mais espaço na mesa do consumidor brasileiro”, conclui.



