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Bovinos / Grãos / Máquinas Perspectivas audaciosas

Abraleite potencializa importância da proteína e projeta Brasil como maior produtor e principal exportador de leite mundial

Em entrevista ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges, destacou que a retração do mercado no último trimestre do ano passado simultaneamente a alta no custo da produção praticamente inviabilizaram a atividade para milhares de produtores no país.

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Fotos: Arquivo/OP Rural

Elevação do custo para produção do leite no campo, baixa rentabilidade para o produtor e queda no consumo interno em decorrência da perda do poder de compra do consumidor brasileiro freou a demanda por lácteos, fazendo de 2021 mais um ano desafiador para o setor de bovinocultura leiteira.

Em entrevista ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite),

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges: “Que possamos superar essa crise sanitária que assola o mundo há dois anos e que possamos continuar a nossa missão de ser um grande país do agro” – Foto: Divulgação/Abraleite

Geraldo Borges, destacou que a retração do mercado no último trimestre do ano passado simultaneamente a alta no custo da produção praticamente inviabilizaram a atividade para milhares de produtores no país. “Foi um ano extremamente desafiador para a cadeia leiteira nacional, principalmente em decorrência dos custos de produção, comercialização e de transportes, que encareceram muito e dificultaram as atividades do setor. Vários pequenos produtores, indústrias e cooperativas estão passando por um momento permanente de dificuldade. Então a cadeia como um todo está tendo desafios muito grandes”, avalia Borges.

A forte valorização dos grãos, impulsionado pelo aumento dos preços internacionais e pela desvalorização do real frente a moedas estrangeiras – o que estimulou a exportação – e a baixa qualidade das pastagens e da silagem afetadas pelas mudanças drásticas de clima, com períodos longos de estiagem, geada e altas temperaturas, diminuíram ainda mais as margens dos pecuaristas. Somado a isso, outros insumos se valorizaram, como é o caso dos adubos e corretivos, combustíveis e suplementos minerais, reforçando ainda mais o estreitamento das margens aos produtores. “Tivemos e estamos tendo uma alta generalizada não só nas commodities que utilizamos na alimentação, mas também em todos os insumos que usamos na pecuária de leite, como fertilizantes e produtos médicos-veterinários, tudo está muito mais caro”, sentencia.

No acumulado dos 11 primeiros meses do ano passado, o preço do leite pago ao produtor foi de R$ 2,25/litro, 18,1% acima da média do mesmo período de 2020, em termos reais, conforme dados deflacionados em novembro pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) compilados através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, a alta dos custos de produção superou o aumento dos preços pagos aos produtores ao longo do ano.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – CEPEA-Esalq/USP, no mesmo período, o Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira acumulou alta de 17,25% na “Média Brasil”, puxado principalmente pelo grupo de adubos e corretivos, que registrou elevação de 70,52%, e pelo grupo dos suplementos minerais, que subiram 28,23%.

“O setor teve alta muito maior no custo de produção do que no preço do leite ao produtor. Nos últimos três meses do ano passado presenciamos uma queda generalizada no preço pago pelo leite, justamente em um momento que não poderíamos ter nenhuma queda na remuneração ao produtor, porque já estava gastando muito mais do que recebe na atividade”, analisa Borges.

Crescimento

Mesmo com todo cenário de altas, o presidente observa que o Brasil está, gradativamente, principalmente nos últimos dois anos, apresentando uma evolução significativa na pecuária leiteira. “A qualidade do leite produzido está com índices cada vez melhores, estamos conseguindo uma melhor produtividade por matriz, por rebanho, por propriedade. Essa evolução é resultado do melhoramento genético, dos processos mais técnicos da atividade e de uma melhor gestão, tudo isso vem fazendo com que o Brasil cresça na produção”, destaca o presidente da Abraleite.

De acordo com a entidade, em 2019 o Brasil produziu 34,8 bilhões de litros de leite e, em 2020, obteve crescimento superior a 2,8% em relação ao ano anterior, o que representa 35,4 bilhões de litros do produto. Entretanto, no acumulado dos 11 primeiros meses de 2021, há uma produção 1,2% inferior a 2020. A informação consta na Pesquisa Trimestral do Leite relativa ao terceiro trimestre do IBGE.

Apesar das melhores condições climáticas atuais, a menor produção interna é reflexo dos altos preços de insumos, combustíveis e energia elétrica. Com a valorização do dólar, os preços elevados do petróleo e a forte demanda por insumos para a safra 2021/2022, os custos de produção têm registrado altas sucessivas e nenhum espaço para repasse desses custos diante de um mercado interno enfraquecido. “Se não tivéssemos essa retração de mercado, com queda no preço do leite e custos altos de produção, principalmente no último trimestre, poderíamos ter um crescimento significativo de 2021 para 2022”, evidencia o presidente da Abraleite, ampliando: “De qualquer forma estamos observando um melhor profissionalismo do setor, apesar de todas essas dificuldades”.

Porém, segundo Borges, ainda falta muita estrutura de assistência técnica na grande maioria dos Estados, uma vez que não possuem as ABES (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental) funcionando plenamente para auxiliar os pequenos e médios produtores, que a nível de Brasil são bem mais numerosos. “Com isso eles ficam desassistidos. Os grandes produtores normalmente têm suas próprias consultorias, assistência técnica, então eles não têm essa dificuldade para melhorar a gestão e obter certificações”, expõe.

Importância da pecuária leiteira para o país

Entre os seis principais contribuintes do Valor Bruto de Produção Agropecuária (VBP) do Brasil, o leite movimentou no ano passado uma receita de R$ 51 milhões, obtendo um crescimento de 4,5% na produção nacional. Maior Estado produtor da pecuária de leite, Minas Gerais registrou um faturamento de R$ 14,4 milhões com a atividade em 2021, um incremento de 1,3% superior em relação ao ano anterior.

O presidente da Abraleite enaltece a importância da bovinocultura leiteira nacional, que atualmente soma em solo brasileiro cerca de 1,2 milhão de produtores, a maioria da agricultura familiar, segundo último censo do IBGE. O setor gera mais de 5,5 milhões de empregos diretos e indiretos no campo e em torno de 20 milhões de postos de empregos ao considerarmos a cadeia campo/cidade, envolvendo a tríade produção, comercialização e logística, movimentando anualmente mais de R$ 100 bilhões. “É uma atividade extremamente importante como fonte geradora de emprego e renda, mantém uma fatia grande da população empregada e bem situada na zona rural no interior do Brasil, o que diminui os inchaços dos grandes centros, que hoje enfrentam um grave problema, com cerca de 14 milhões de desempregados”, atesta.

Alta no preço dos lácteos

Com custos de produção elevados mundialmente, associados a dificuldades logísticas, é esperado que os preços se mantenham em patamares altos no médio prazo. Com uma demanda crescente da China e de países petrolíferos por produtos lácteos, bem como a retomada da economia no mundo, os preços ainda devem encontrar sustentação para aumentos no mercado internacional. “Estamos observando no mundo uma alta no preço dos lácteos, que deve acontecer de forma mais acentuada no começo de 2022, até para que a cadeia produtiva do leite nacional possa se recuperar, possa ter fôlego, porque nós não queremos e não podemos ter produtores saindo da atividade ou pequenas indústrias e cooperativas fechando as suas portas, porque isso traz um enorme prejuízo econômico e social para o país”, afirma.

Brasil entre os 5 principais produtores mundiais

A produção de leite nacional cresceu sete vezes nas últimas cinco décadas, saltando de cinco para mais de 35 bilhões de litros por ano. Entretanto, embora o país tenha se destacado na pecuária leiteira mundial, se consolidando entre os cinco maiores produtores globais, esse volume produzido é suficiente apenas para abastecer o mercado interno. Somente 1% da produção nacional de leite é exportado.

As exportações nacionais cresceram 18% em relação ao mesmo período de 2020, somando 35,2 mil toneladas de janeiro a novembro de 2021. Os derivados que contribuíram para o aumento dos embarques foram o leite em pó, com volume cinco vezes superior ao ano anterior, o soro de leite, com o dobro de negociações, e o leite fluído, com volume 95% maior que no mesmo período de 2020.

Com o real desvalorizado e o mercado interno muito fragilizado, a competitividade dos produtos importados é menor, o que também levou a uma queda nas importações no último trimestre de 2021. No acumulado dos 11 primeiros meses do ano, o volume de derivados lácteos importado pelo Brasil somou 126,4 mil toneladas, queda de 17% frente ao mesmo período de 2020, de acordo com dados da Secex. As menores aquisições de leite em pó influenciaram esse resultado, apresentando queda de quase 30% frente ao anterior, totalizando 70 mil toneladas, o que corresponde a 55% do total importado pelo país em 2021.

Por outro lado, após duas décadas sem exportar nenhum tipo de leite para a China – um dos países que mais consomem a proteína no mundo – o Brasil enviou no mês de novembro um lote experimental com vários tipos de leite em pó ao país asiático, marcando a reabertura do mercado chinês para o produto nacional. Foram enviados leite em pó integral, desnatado, semidesnatado e zero lactose, totalizando cerca de 40 quilos. A partir desta exportação, abre novas perspectivas para ampliar as vendas internacionais neste ano de 2022. “Mesmo tendo sido uma primeira exportação simbólica, estamos começando a abrir novos mercados como é o caso da China, que há 20 anos não enviávamos leite. Também enviamos queijo gorgonzola para a Rússia, mas são exportações muito pequenas perto do que podemos ter. Atualmente o Brasil é maior importador do que exportador de lácteos, mas nós precisamos melhorar isso”, evidencia.

Abraleite projeta Brasil como líder mundial da proteína

Com perspectivas de tornar o Brasil o maior produtor e o principal exportador de leite mundial, o presidente da Abraleite diz que não há prazo para alcançar esse patamar, mas que o trabalho para obter esse crescimento já começou. “Não sabemos quantos anos vamos levar para colocar o Brasil nesta posição, mas nós temos a obrigação de fazer o dever de casa, porque capacidade de ampliar a produção e de aumentar a produtividade do leite com qualidade o país dispõe, a exemplo de outras proteínas como as carnes suína, de aves e bovina. Então, os ajustes internos da cadeia e do setor como um todo já estão ocorrendo”, enfatiza.

Borges diz que a Abraleite tem cobrado e solicitado ajuda governamental com projetos de leis transitando e com algumas leis já sancionadas, além de vários pleitos no governo federal, a fim de tornar a cadeia produtiva mais competitiva. “Só assim vamos conseguir colocar o Brasil como um grande exportador de lácteos e com isso trazer um equilíbrio melhor para a cadeia produtiva do leite nacional, fazendo com que tenhamos momentos menos difíceis como este que estamos enfrentamos: de queda no consumo e no preço do leite ao produtor, que é o que mais sofre nestes momentos”, avalia.

Para conseguir espaço no mercado externo é preciso atender a uma série de exigências sanitárias, aliado a preços competitivos, porém, um dos entraves para a exportação é a tributação da carga tributária, que impacta no preço final. “Estamos trabalhando para que consigamos aumentar o fluxo de exportação para a China e para a Ásia, mais um dos empecilhos que encontramos é em relação a carga tributária para exportar produtos lácteos e que estamos tratando no Ministério das Relações Exteriores para que nos ajudem nas negociações com o governo chinês”, declara.

Borges explica que para exportar os produtos lácteos para o país asiático, o Brasil pagou 10% de imposto sobre a internacionalização da carga exportada, enquanto a Nova Zelândia para enviar a mesma carga paga em torno de 4% – agora conseguiu zerar esta tarifa para inserir seu produto no mercado chinês. “Nós precisamos que o governo brasileiro tenha uma boa negociação com o governo chinês para que possamos ter igualdade de condições como do país neozelandês por exemplo, que hoje é o maior exportador de lácteos do mundo. Outra dificuldade que o Brasil tem é com a logística mais cara, principalmente pela posição geográfica do país”, reconhece.

A primeira carga enviada foi negociada pela Central Cooperativa Gaúcha Ltda (CCGL), de Cruz Alta (RS), no entanto, outros 33 laticínios brasileiros também estão habilitados para exportar leite para a China desde 2019. As exportações até então não ocorriam porque o país asiático possuí elevados padrões de qualidade e não havia fiscalização suficiente para finalizar as negociações entre as duas nações.

Perspectivas para 2022

Com espaço para crescer e se posicionar como um dos principais players do mercado brasileiro, o presidente da Abraleite anseia por um melhor cenário na economia neste ano. “Nossa perspectiva é que 2022 será um ano promissor. Que o Brasil se ajuste para ter uma melhora econômica, a população melhore sua condição de consumo para que consigamos continuar aumentando a qualidade e a produtividade na produção do leite nacional, mas para isso é necessário que o mercado tenha uma reação”, frisa Borges, ampliando: “Que possamos superar essa crise sanitária que assola o mundo há dois anos e que possamos continuar a nossa missão de ser um grande país do agro, um grande fornecedor de alimentos para o mundo, e que na pauta de fornecimentos de alimentos o leite possa ser um grade player também”.

Mais informações sobre o cenário nacional de grãos você pode conferir na edição digital do Anuário do Agronegócio Brasileiro.

Bovinos / Grãos / Máquinas Sombra geracional

Por que o manejo das suas vacas secas está sabotando o futuro do seu rebanho

Estresse térmico no período seco compromete a programação fetal, reduz a produção futura das bezerras e pode gerar perdas produtivas e reprodutivas que se estendem por mais de uma geração no rebanho.

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Fotos: Divulgação/Afimilk

Artigo escrito por Wagner Mitsuo Nagao de Abreu Médico veterinário, pós-graduação em Nutrição Animal e MBA em Gestão de Projetos Diretor da área comercial da Afimilk no Brasil

Para a maioria dos produtores de leite, a “queda de verão” é um obstáculo sazonal conhecido, ainda que frustrante. Observamos o volume no tanque cair, acompanhamos o aumento da contagem de células somáticas e aguardamos o ar mais fresco do outono para recuperar alguma normalidade no pagamento do leite. Tradicionalmente, encaramos o estresse térmico como um imposto operacional temporário — um desconforto sazonal que termina quando os ventiladores finalmente desaceleram.

No entanto, pesquisas veterinárias modernas indicam que essa visão é perigosamente limitada. O estresse térmico não é apenas um evento climático passageiro; é uma “presença subclínica” que gera uma dívida biológica escrita hoje e que muitas vezes leva o rebanho ao limite quando combinada com fatores como superlotação. O dano não é apenas uma queda temporária na produção; é um erro silencioso de programação ocorrendo profundamente na biologia da vaca.

Esse fenômeno, conhecido como programação fetal, significa que o ambiente vivenciado pela vaca seca no final da gestação escreve o roteiro epigenético do desempenho vitalício de sua bezerra ainda não nascida – e até mesmo da futura progênie dessa bezerra. Se suas vacas secas estão sofrendo com o calor, você não está apenas perdendo leite hoje; está predispondo epigeneticamente o rebanho a uma eficiência metabólica subótima ao longo da próxima década.

O período seco não é férias, é reconstrução biológica

Um equívoco comum é considerar o período seco apenas como um “descanso” para a vaca. Na realidade, trata-se de uma fase intensa de involução e desenvolvimento da glândula mamária. Pesquisas do Dr. Geoff Dahl e da Dra. Jimena Laporta identificam o período seco como uma etapa obrigatória de “demolir para reconstruir melhor”.

O gatilho para falhas nesse período frequentemente está associado à disfunção placentária. Quando a vaca sofre estresse térmico, o desenvolvimento placentário é comprometido, desencadeando uma cadeia de efeitos negativos. Em um período seco saudável e fresco, ocorre renovação celular da glândula. De forma crucial, as pesquisas mostram que o estresse térmico não aumenta necessariamente a taxa de morte celular (apoptose). Em vez disso, ele inibe severamente a proliferação de novas células epiteliais secretoras altamente produtivas – os “trabalhadores da fábrica” da próxima lactação.

Como descreve a Dra. Laporta: “Gosto de pensar nisso como uma fábrica com menos trabalhadores. Você não vai conseguir fazer o trabalho… a glândula inicia a próxima lactação com células mais antigas; ela não conseguiu renová-las completamente e, por isso, produz menos leite.”

Tentar “encurtar” o período seco para contornar esses desafios é um erro fundamental de manejo. Sem essa janela de proliferação celular, a vaca inicia a lactação com uma arquitetura interna comprometida, algo que nenhuma dieta de alta qualidade consegue corrigir totalmente.

Impacto na F1

As descobertas mais impactantes da Universidade da Flórida e da UW-Madison envolvem a geração F1 – as filhas de vacas secas submetidas ao estresse térmico. Mesmo com manejo pós-nascimento exemplar, essas bezerras já nascem epigeneticamente prejudicadas. Bezerras gestadas sob calor apresentam déficits físicos e fisiológicos específicos:

Menor peso ao nascer e menor estatura, com dificuldade em atingir o mesmo ganho de massa magra até a puberdade.

Imunidade passiva comprometida: o problema não está na qualidade do colostro, mas na eficiência aparente de absorção da bezerra. O intestino é programado para fechar precocemente ou absorver imunoglobulinas de forma ineficiente, deixando o animal vulnerável mesmo recebendo colostro de alta qualidade.

Desenvolvimento mamário reduzido: o estresse térmico intrauterino inibe o crescimento exponencial do tecido mamário futuro, resultando em úberes menores na fase adulta.

O resultado é um déficit produtivo permanente:

Filhas de vacas estressadas pelo calor produzem de 3,5 a 4,5 kg de leite a menos por dia durante toda a primeira lactação.

Essa perda persiste nas lactações subsequentes, independentemente do alto mérito genético do animal.

Efeito F2

O impacto de um único verão quente pode atravessar gerações. Quando uma vaca gestante sofre estresse térmico, o calor também afeta a linhagem germinativa do feto que ela carrega. Os ovários fetais, que contêm os óvulos que darão origem às netas (F2), são diretamente expostos ao estresse térmico ainda no útero.

Essa exposição altera padrões globais de metilação — os interruptores químicos que regulam a expressão gênica. Ao modificar a eficiência da expressão dos genes, o estresse térmico garante que as netas também apresentem menor taxa de sobrevivência e menor produção de leite. Assim se forma uma “sombra geracional”, na qual um único verão quente pode comprometer desempenho e longevidade do rebanho por muitos anos.

Tecnologia como “eletricidade” — o novo padrão mínimo de sobrevivência

Para lidar com essas ameaças biológicas invisíveis, produtores mais avançados migraram para o conceito de “manejo por exceção”. Sistemas e softwares deixaram de ser vistos como luxo opcional; tornaram-se tão essenciais quanto a eletricidade na fazenda moderna. Essas tecnologias funcionam como a “voz” da vaca quando ela não consegue expressar seu desconforto.

Detecção precoce de mastite por meio da condutividade do leite.

Monitoramento de ruminação como indicador crítico de saúde metabólica e resposta ao calor.

Precisão reprodutiva ao identificar cios silenciosos e o momento ideal para inseminação, reduzindo a queda sazonal nas taxas de prenhez.

A regra dos 60 movimentos respiratórios

Termômetros e índices THI são úteis, mas a vaca é o sensor mais confiável do ambiente. Pesquisas destacam 60 movimentos respiratórios por minuto como o limiar fisiológico crítico. Um método simples é cronometrar o tempo para 10 respirações completas. Se levar menos de 10 segundos, a vaca está acima de 60 movimentos por minuto e já está sob estresse térmico.

O monitoramento da frequência respiratória, associado à análise do quartil mais sensível do lote, permite avaliar se o sistema de resfriamento está realmente funcionando ou se precisa de ajuste imediato.

A economia do “investimento óbvio”

Existe o mito de que o resfriamento intensivo de vacas secas é necessário apenas em regiões muito quentes. No entanto, análises de Valor Presente Líquido mostram retorno positivo mesmo em estados de clima mais ameno e sob preços de leite reduzidos. O investimento em ventiladores e aspersores para vacas secas é financeiramente justificável mesmo em cenários de margens apertadas. Quando se considera não apenas a recuperação produtiva da matriz, mas também as perdas evitadas nas gerações F1 e F2, o chamado “dividendo geracional” torna-se o argumento econômico mais convincente para investir em infraestrutura.

Conclusão: um mandato voltado para o futuro

O controle do estresse térmico deixou de ser apenas uma questão de bem-estar animal; tornou-se uma intervenção estratégica na programação fetal e no futuro produtivo do rebanho. Cada hora que uma vaca seca passa acima do limiar de 60 movimentos respiratórios por minuto representa um saque no banco genético e financeiro da fazenda.

Ao avaliar suas instalações e sua estratégia de investimento, a pergunta central é: você está manejando o rebanho para os próximos 12 meses ou para os próximos 12 anos? As vacas de 2030 já estão no seu barracão — e elas estão sentindo o calor.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: Artigo escrito por Wagner Mitsuo Nagao de Abreu Médico veterinário, pós-graduação em Nutrição Animal e MBA em Gestão de Projetos Diretor da área comercial da Afimilk no Brasil.
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Exportações para a China reforçam sustentação do boi brasileiro

Crescimento das vendas ao mercado chinês contribui para manter os preços em patamar elevado, ainda que o ritmo de avanço das exportações comece a se aproximar de limites de cota.

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Foto: Shutterstock

O cenário para a pecuária segue, em geral, favorável nos próximos meses, sustentado pela firmeza dos preços no mercado físico, pela oferta mais restrita de fêmeas e pela diversificação das exportações. Ainda assim, fatores como a reposição mais cara, a sazonalidade da oferta e incertezas externas exigem atenção do setor.

De acordo com dados da Consultoria Agro Itaú BBA, a firmeza dos preços no físico também influenciou o mercado futuro, que registrou forte alta nos últimos 30 dias, especialmente nos contratos de curto prazo. Em abril, a valorização foi de R$ 18 por arroba, enquanto em maio o avanço chegou a R$ 16 por arroba, abrindo oportunidades de hedge em níveis considerados atrativos para o produtor.

Já os vencimentos entre junho e setembro tiveram desempenho mais moderado e indicam preços abaixo dos atuais patamares. No ritmo atual de crescimento das exportações para a China, que avançaram 17% no primeiro trimestre de 2026 em relação a 2025, a cota de 1,1 milhão de toneladas deve ser atingida por volta de agosto. Para que isso ocorra antes do previsto, seria necessário um crescimento mais intenso das vendas. Ainda assim, no fim do ano, há expectativa de retomada das compras chinesas para o preenchimento da cota de 2027.

As exportações para outros destinos também seguem em fluxo positivo, o que ajuda a reduzir a dependência momentânea da China, embora o país continue sendo o principal comprador da carne bovina brasileira. No cenário estrutural, o setor mantém perspectiva favorável, com tendência de continuidade de preços sustentados pela menor disponibilidade de fêmeas para abate.

Entre os pontos de atenção, está o encarecimento da reposição de animais, que pode exigir valores mais altos do boi gordo no médio prazo. No mercado interno, fatores sazonais podem influenciar a demanda: a Copa do Mundo de futebol no meio do ano tende a impulsionar o consumo, enquanto a alta dos preços da carne bovina e a maior competitividade do frango podem limitar esse movimento.

Ao mesmo tempo, a oferta de gado deve crescer de forma sazonal nos próximos meses, embora os níveis de abate ainda possam permanecer abaixo dos registrados no ano anterior.

Fonte: O Presente Rural com Consultoria Agro Itaú BBA
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Exportações de carne bovina somam 234 mil toneladas em março

Volume representa recorde para o mês com alta de 8,7% na comparação anual.

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O mercado do boi gordo registrou valorização no primeiro trimestre de 2026, impulsionado pelo aumento das exportações e pela menor oferta de animais para abate, especialmente de fêmeas. O cenário também foi marcado por maior movimentação no mercado de reposição, com a alta do boi estimulando a demanda por bezerros.

Em março, o preço médio do boi gordo chegou a R$ 350 por arroba. Já na média dos primeiros dez dias de abril, o valor subiu para R$ 362/@, com negócios registrados a R$ 365,50/@ no fim da semana, de acordo com dados da Consultoria Agro Itaú BBA.

A oferta mais restrita de animais contribuiu para sustentar os preços. Dados preliminares indicam que o abate de bovinos foi 2% menor no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, com aumento de 1% no abate de machos e queda de 6% no de fêmeas.

No mercado de reposição, o bezerro também apresentou valorização. Em Mato Grosso do Sul, a alta foi de 3,4% em março, superando o avanço do boi gordo. Apesar da relação de troca seguir pressionada, em torno de 2,2 bezerros por boi vendido, a margem da reposição permaneceu atrativa, próxima de R$ 3.600 na parcial de abril, o que mantém a demanda aquecida.

As exportações de carne bovina in natura seguiram em ritmo forte. Em março, os embarques somaram 234 mil toneladas, recorde para o mês e alta de 8,7% em relação a março de 2025. No acumulado do primeiro trimestre, o crescimento foi de 19,7%. O preço médio da carne exportada também avançou 3,1% frente a fevereiro.

A China permaneceu como principal destino da carne bovina brasileira, com 102 mil toneladas embarcadas em março, alta de 6% na comparação anual. Outros mercados também ampliaram as compras, como Estados Unidos, Chile, Rússia, Egito, México, Filipinas e Emirados Árabes, reforçando a demanda externa pelo produto brasileiro.

Fonte: O Presente Rural com Consultoria Agro Itaú BBA
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