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ABPA apresenta projeções positivas para a avicultura brasileira

O ano de 2023 deve ser marcado por novos aumentos na produção e na presença internacional da avicultura brasileira.

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Foto: Divulgação/ABPA

Por meio de uma coletiva de imprensa, realizada no dia 16 de agosto, na sede da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), em São Paulo, SP, o presidente da entidade, Ricardo Santin, expôs as projeções da produção e das exportações de aves e de ovos do Brasil. Conforme a apresentação, o ano de 2023 deve ser marcado por novos aumentos na produção e na presença internacional da avicultura brasileira.

Presidente da ABPA, Ricardo Santin – Foto: Mario Castello/ABPA

O presidente Santin iniciou a exibição enaltecendo que o Brasil continua livre de Influenza Aviária nos plantéis comerciais, pois até o momento foram registrados apenas casos em aves silvestres e de fundo de quintal. “É importante frisarmos isso e também continuarmos atuando de forma preventiva, mantendo uma boa biossegurança e biosseguridade nas granjas”, mencionou.

Neste ano a disponibilidade de produtos no mercado interno deverá alcançar 9,85 milhões de toneladas, volume 1,5% superior às 9,70 milhões de toneladas registradas em 2022. Com isto, o consumo per capita de carne de frango deverá ficar em 46 quilos neste ano, o que corresponde a um aumento de 1,5%, ante aos 45,2 quilos per capita registrados no ano passado.

Pela primeira vez na história o setor deverá superar a barreira de 5 milhões de toneladas exportadas, se confirmadas as projeções da ABPA. Neste ano, a expectativa da entidade é de embarques totais de 5,20 milhões de toneladas, volume 8% superior aos embarques registrados em 2022, com 4,82 milhões de toneladas.

Conjuntura econômica

O presidente Santin explanou a respeito do panorama econômico do Brasil, evidenciando que o primeiro semestre de 2023 foi marcado por uma boa cotação do dólar, o que favoreceu as exportações brasileiras, pois propiciou que o país mantivesse uma boa competividade com relação aos preços. “A estabilidade do dólar deve manter a competitividade para as exportações brasileiras neste segundo semestre. Isso é muito benéfico e importante para o nosso setor”, avaliou.

Luis Rua – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Com relação aos dados que mostram um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), bem como a diminuição da taxa Selic, que deve propiciar condições melhores para empréstimos financeiros, o presidente destacou que este cenário deve favorecer ainda mais o mercado de aves para o ano de 2024.

No que diz respeito a queda no consumo no início deste ano, ele apontou que os números inferiores estão relacionados com o endividamento financeiro das famílias, que gerou uma menor renda. “Por outro lado, o governo federal acaba de apresentar ações que devem beneficiar para que as famílias superem dificuldades financeiras. É o caso do Bolsa Família que deve receber R$ 168 bilhões em 2024. Sabemos que grande parte de valor deverá ser utilizado com alimentação, o que deve beneficiar nosso setor”, afirmou.

Custo de produção das aves

Santin reforçou que os custos de produção da avicultura são diretamente influenciados pelo panorama global dos insumos. Ele relembrou que desde o ano de 2018 o setor enfrenta um aumento nos dois principais produtos que são utilizados como fonte de alimentação dos animais, que é a soja e o milho. “Nestes últimos quatro anos, registramos um aumento de 98% nos custos de produção das aves, o que trouxe muitas problemáticas para o setor. A boa notícia é que, neste ano, estes custos caíram cerca de 11%, o que está trazendo alento aos produtores”.

O presidente da ABPA reforçou as boas condições da safra de grãos no Brasil e no mundo. De acordo com Santin, não vai faltar milho no país, haja vista que as projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a safra deste ano deve bater um novo recorde para o Brasil. “Conforme a Conab, o Brasil deve produzir um volume de 129 milhões toneladas de milho, o que garante as nossas necessidades. Inclusive, este montante vai atender as demandas do mercado interno e deve ser escoado para exportação cerca de 45 milhões de toneladas. A boa safra é importante porque esse número positivo garante um preço mais razoável para todo o mercado”, observa.

Exportação da carne de frango

O líder da APBA também apresentou a projeção de um aumento de 8,2% de volume de exportação e mais 7% de receita, apontando que o Paraná foi o estado que mais vem crescendo. Ele enalteceu que o mais importante deste quadro é que o Brasil continua livre da IA nos planteis comerciais, e os casos diagnosticados em aves silvestres e de subsistência não afetaram os números da exportação. “Crescemos 8,2 %. Esse é um dado muito positivo e mostra que o mercado internacional reconhece e confia no trabalho que vem sendo desenvolvido no nosso país com relação a IA, que é um trabalho bastante sério e que conta com o apoio de muitas entidades, juntamente com o governo e os avicultores”, opina.

No que concerne aos maiores importadores de carne de frango do Brasil, Ricardo apresentou que a China e o Japão continuam sendo os maiores destinos dos produtos brasileiros e que este mercado deve crescer ainda mais. Ele evidenciou que o momento é de consolidação do Brasil como o maior exportador mundial, sendo que no panorama de médio prazo estão sendo registradas oportunidades muito positivas. “Quando verificamos os números de exportações, observamos que ano após ano eles crescem de forma significativa, o que também aponta para uma importante sustentabilidade brasileira no mercado externo”, sugere.

Outro apontamento significativo feito pelo presidente diz respeito ao aumento de exportações brasileiras, mas também ao aumento de renda nos países mais pobres. “Quando observamos a média de consumo de carne nos países asiáticos, que é bem abaixo da média mundial, verificamos que existe um grande mercado ainda a ser explorado, ou seja, existem muitos mercados que possuem grandes populações e que ainda não acessamos ou que podemos atender ainda mais, conforme o perfil econômico for melhorando em cada país”.

O presidente da ABPA destacou que o Brasil continua sendo o maior exportador mundial de carne de frango, seguido pelos Estados Unidos e depois pela Europa. Conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a soma das exportações dos EUA e da Europa não deve chegar ao montante de exportação brasileira. Ele frisou que a produção da Europa está estável, mas que a exportação caiu com bastante velocidade. “O mercado americano não é diferente da Europa, eles não diminuíram a produção, mas também não aumentaram. Ou seja, verificamos uma queda da Europa e uma estabilidade nos Estados Unidos, que é o nosso principal concorrente, o que deve possibilitar um desenvolvimento ainda maior das exportações do nosso país”, sugere.

Conforme relatórios disponibilizados pelo governo chinês e apresentados pelo presidente da ABPA, a produção de frango na China decaiu nos últimos meses, o que possibilitou maiores oportunidades para o Brasil, que conquistou mais espaço junto ao mercado chinês. Santin ainda destacou a competência que os EUA demonstrou ao lidar com a IA, que mesmo sendo registrada em solo americano, conseguiu manter a exportação para a China, por meio da regionalização dos estados. “Isso é um alento e traz esperança no caso da IA chegar em algum plantel comercial do nosso país. Caso isso aconteça esperamos receber um tratamento igual ao que foi dado aos Estados Unidos”.

Influenza aviária

O presidente Ricardo enalteceu que a imagem acima mostra que é preciso aprender a conviver com a gripe aviária. “Aliás, o mundo já está convivendo. A exemplo do EUA, China e Japão também possuem casos ativos, mas estão trabalhando na segregação dos estados ou até municípios, o que está favorecendo a continuação dos trabalhos. Aqui no Brasil também estamos preparados para enfrentar isso. Continuamos trabalhando fortemente nas medidas de biosseguridade, mas também estamos preparados caso a doença atinja algum plantel comercial”, assegurou.

O presidente também explicou sobre a importância das mudanças de emissão dos certificados sanitários, que podem ser alterados de país livre de IA, para zona, região ou até mesmo compartimento livre de IA. “Há pouco tempo participamos de reunião com os ministros da agricultura do Japão, Coreia e Arábia Saudita e nestes três destinos tivemos a confirmação da regionalização por estados. Eles também estão estudando os pedidos de regionalização por municípios. Acreditamos que estes procedimentos irão favorecer a manutenção dos negócios externos, caso sejam atingidos pela IA”, indicou.

De acordo com ele, a ABPA e o governo brasileiro devem continuar desenvolvendo este procedimento e manter um diálogo atento com os países que comercializam com o Brasil. “Estamos negociando e enviando documentos a todos os países que são nossos parceiros para alinharmos a regionalização do status sanitário. Caso o Brasil venha a ser atingido pela IA em planteis comerciais, devemos estar preparados para segregar o local do surto. Conforme indicação da OMSA, num primeiro momento deve-se fazer a delimitação de 10km de onde foi diagnosticado o surto. A segregação pode ser de município, estado, zona ou compartimento”, informou.

Conforme o diretor de mercados da ABPA, Luis Rua, o Brasil possui atributos muito importantes relacionados à exportação, porque existem mercados internacionais que exigem produtos bem específicos e que atualmente só o Brasil consegue produzir em grandes volumes. “Isso é muito benéfico para nós porque conseguimos atender demandas bem específicas de outros países e que dificilmente algum outro país vai conseguir atender. Desta forma, caso a IA chegue em algum plantel comercial brasileiro, temos muitas medidas para tomar e proteger o restante da produção”, afirma.

Com relação aos casos de IA registrados no Brasil, o presidente da ABPA destacou que embora o Japão tenha embargado o recebimento dos produtos brasileiros, a ABPA é contra esta prática até porque isso não é uma recomendação da OMSA. “Porém, nós precisamos respeitar a opinião contrária do Japão. Por outro lado, a partir deste caso do Espírito Santo pudemos observar a seriedade com que a IA está sendo trabalhada no Brasil, pois foi muito pouco tempo que durou o embargo, já que o Brasil foi bastante competente para testar e comprovar que havia superado a dificuldade”, apontou.

Ele acrescentou destacando que as medidas do governo japonês são justificáveis, haja vista que eles esperam relatórios comprovando as medidas que o Brasil está tomando no combate e na prevenção da IA. “O Japão é um país que exige ter ciência do que o Brasil está fazendo para combater esta enfermidade, essa é uma regra deles. O que é importante lembramos que o nosso governo fez a lição de casa, promovendo testes e fazendo os relatórios solicitados”, afirmou.

Projeções de carne de frango

O presidente também explicou que a projeção inicial deste ano, feita pela ABPA, no 1º semestre, apontava que a produção de 2023 seria superior a 15 milhões de toneladas. “Agora que iniciamos este 2º semestre observamos uma mudança no comportamento das empresas que estão fazendo ações preventivas, como diminuir o número de alojamentos ou diminuindo o peso médio das aves. Desta forma, acreditamos que a produção será de 14,8 milhões de toneladas. O que é um número bastante significativo”, sustentou Santin.

O presidente ainda argumentou sobre o aumento na disponibilidade e oferta da carne de frango, que pode fazer com que os preços pagos ao produtor também sejam ajustados. De acordo com ele, essa retomada que a economia brasileira está tendo deverá sustentar as demandas pela carne de frango. “O segundo semestre sempre é marcado por um consumo aumentado. Acreditamos que neste ano não será diferente, teremos uma maior oferta do produto, mas também teremos um maior consumo”.

O presidente frisou que estas projeções podem ou não se confirmar porque as empresas que trabalham neste mercado sabem da responsabilidade que elas possuem e estão sempre atentas às regulações do mercado. Desta forma, é possível que elas façam adequações com relação à produção, uma vez que a sustentabilidade delas no mercado depende de como esses quesitos são trabalhados nas empresas. “Neste momento é primordial que as empresas melhorem as questões de biosseguridade e estejam atentas às mudanças do mercado”, advertiu.

Para 2024, a ABPA projeta uma produção brasileira de 15,5 milhões de toneladas de carne de frango. “É claro que este número pode ser alterado, pois são inúmeras as variáveis, mas o cenário que temos hoje que é: a não chegada da IA nos nossos planteis comerciais, o mundo consumindo mais carne e o Brasil com a tendência de melhorar a capacidade econômica das pessoas noz faz acreditar e possibilitam vislumbrar um aumento na produção em 2024, bem como um aumento na exportação”, almeja.

Com relação ao aumento no volume de exportações, o presidente destacou, mais uma vez, que o Brasil pode absorver alguns mercados que eram atendidos pelos EUA. “As projeções em números mostram que temos um panorama muito positivo para o Brasil neste segundo semestre, principalmente quando olhamos para os países que são nossos concorrentes, mas que hoje estão abrindo novas oportunidades para os produtos brasileiros”.

Ovos

Relativamente ao mercado de ovos, a produção total do país deverá chegar a 52,55 bilhões de unidades em 2023, número 1% maior que as 52,06 bilhões de unidades produzidas em 2022. O consumo per capita de ovos do Brasil deverá encerrar o ano em torno de 242 unidades, número 0,5% maior que as 241 unidades per capita consumidas em 2022. Nas exportações, as projeções indicam embarques totais de 32,5 mil toneladas de ovos do Brasil, número 240% superior ao total exportado em 2022, com 9,47 mil toneladas.

Esses números foram apresentados pelo presidente Santin que exaltou a conquista do setor, que pela primeira vez, durante a presidência dele, vai exportar mais de 1% da produção, o que é um recorde. “Isso não acontecia desde 2006. Neste ano nossa exportação subiu 165%, sendo que Minas Gerais é o maior exportador, seguido por Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Outro fenômeno bastante positivo é que esta exportação, além do grande volume, é uma exportação que conseguimos valor agregado, pois também exportamos ovos líquidos, em pó e processados, o que mostra a capacidade da nossa indústria”, argumentou.

Maiores compradores

Santin informou que o Japão é o país que mais compra ovos do Brasil. Ele destacou também o mercado de Taiwan que não comprava nada do Brasil, mas que neste ano já ocupa a segunda posição. “Temos a esperança de que Taiwan reconheça a qualidade do nosso produto e continue importando ovos de galinha do Brasil. Os outros países que são nossos compradores também aumentaram bastante o consumo durante este ano de 2023. Isso é uma grande conquista para o setor”, destaca.

SIAVS 2024

Ainda durante a coletiva, o presidente Santin informou que o Salão Internacional de Avicultura e Suinocultura (Siavs) passa a ser chamado de Salão Internacional de Proteína Animal e vai abranger também a bovinocultura e piscicultura. A edição de 2024 está marcada para os dias 06 a 08 de agosto, no Parque Anhembi, SP. De acordo com ele, será mais um grande evento que vai trazer as principais tendências do setor de proteína animal.

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Fonte: O Presente Rural

Avicultura

Gestão, tecnologia e escala: os novos pilares da competitividade na produção de proteínas

Cenário de custos elevados, exigência por eficiência e mudanças na cadeia produtiva reforçam a necessidade de profissionalização, inovação e qualificação de mão de obra no setor.

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Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, professor embaixador no MBA em Agronegócios da USP/Esalq, pesquisador Cepea

A produção de proteínas animais no Brasil, especialmente nas cadeias de bovinos de corte, suínos e frango experimenta uma reformulação estrutural abrangente. Embora fatores tradicionais como clima e disponibilidade de terras ainda sejam relevantes, o verdadeiro diferencial competitivo do setor, estará cada vez mais concentrado em três pilares: gestão, tecnologia e capital humano.

Nos últimos anos, o produtor rural passou a operar em um ambiente de custos elevados e alta volatilidade. A dependência de insumos dolarizados, como fertilizantes, medicamentos, fosfatos e adubos faz com que o câmbio exerça influência direta sobre a rentabilidade da atividade. Nesse contexto, produzir bem já não é suficiente. É preciso produzir com eficiência, escala e estratégia.

O mercado também mudou. A crescente concentração de processadores e varejistas redesenhou a dinâmica de poder dentro da cadeia produtiva. Como consequência, o produtor que não acompanha esse movimento, profissionalizando sua gestão e adotando tecnologias capazes de elevar produtividade e previsibilidade, tende a perder competitividade. Comprar bem, vender melhor e entender quais investimentos realmente geram retorno deixou de ser diferencial, tornou-se requisito básico de sobrevivência.

Esse processo de mudança não é novo, mas vem se intensificando. A avicultura foi pioneira ao adotar a verticalização da produção. A suinocultura seguiu caminho semelhante, ainda que preservando alguma independência produtiva. Já a bovinocultura de corte caminha para um modelo distinto, marcado pelo aumento de escala e pela consolidação de grandes players. O avanço de contratos, parcerias e modelos mais formais de comercialização vem alterando profundamente a forma como o setor negocia, forma preços e organiza sua governança.

Nesse novo cenário, gestão não se limita às finanças. Envolve pessoas, meio ambiente, uso eficiente de recursos e estratégias de proteção de preços. O produtor que não domina esses aspectos corre o risco de ser excluído da atividade. Por outro lado, aqueles que investem em processos produtivos mais eficientes, tecnologia adequada e melhoria contínua da gestão ampliam sua capacidade de negociação e constroem uma base econômica mais sólida e sustentável.

O desafio, porém, vai além da porteira. O Brasil enfrenta um apagão de mão de obra qualificada, tanto no campo quanto nos elos industriais da cadeia. Investir em capital humano, da fazenda ao frigorífico, dos operadores aos tomadores de decisão é tão estratégico quanto investir em genética ou inovação tecnológica. A transformação digital já é uma realidade e impacta todas as etapas da produção, exigindo profissionais cada vez mais preparados.

No horizonte macroeconômico, a demanda global por alimentos mais saudáveis, o avanço da biotecnologia e o papel do Brasil como exportador não apenas de carne, mas também de genética, colocam o país em posição estratégica. Aproveitar essa oportunidade dependerá menos de expansão territorial e mais de eficiência, inteligência produtiva e capacidade de adaptação.

O futuro da produção de proteínas no Brasil será definido por quem compreender que escala sem gestão não sustenta resultados, tecnologia sem estratégia não gera valor e crescimento sem pessoas qualificadas não se mantém. O setor está mudando, e quem não acompanhar essa transformação corre o risco de ficar pelo caminho.

versão digital está disponível gratuitamente no site de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Mesmo em baixa concentração, micotoxinas comprometem intestino das aves e dificultam diagnóstico nas granjas

Exposição contínua, mesmo em níveis baixos, reduz desempenho produtivo, altera a microbiota e gera sinais sutis que dificultam a identificação precoce nas granjas.

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Fotos: Shutterstock

As micotoxinas seguem entre os principais entraves sanitários da produção avícola, com impacto direto sobre desempenho zootécnico, saúde intestinal e resposta imunológica das aves. Mesmo em níveis considerados baixos, a exposição contínua a essas toxinas pode comprometer funções fisiológicas essenciais, reduzindo a eficiência produtiva de forma silenciosa e dificultando o diagnóstico no campo.

De acordo com o médico-veterinário, mestre e doutor em Sanidade Avícola, Ricardo Hummes Rauber, o efeito cumulativo dessas substâncias interfere diretamente na integridade da mucosa intestinal e no equilíbrio da microbiota, com reflexos progressivos sobre a produtividade. “O problema é que, mesmo em baixos níveis, quando a exposição é crônica, as micotoxinas podem comprometer de forma importante a saúde intestinal. Elas reduzem a altura e a integridade das vilosidades, aumentam a profundidade das criptas, o que reduz a capacidade absortiva do intestino”, afirma.

Ele acrescenta que há impacto direto sobre as proteínas das tight junctions, estruturas responsáveis pela vedação entre as células epiteliais, cuja alteração aumenta a permeabilidade intestinal. Esse conjunto de alterações favorece um ambiente inflamatório persistente. “Ao mesmo tempo, há alteração da microbiota, com redução de bactérias benéficas, como alguns Lactobacillus spp., abrindo espaço para microrganismos oportunistas. O resultado é um intestino sob inflamação constante, menos eficiente e mais vulnerável, mesmo sem sinais clínicos clássicos de micotoxicose”, explica.

A discussão sobre esses efeitos será aprofundada durante o Bloco Sanidade no 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura, programado para ocorrer entre os dias 07 e 09 de abril, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC), ocasião em que o especialista abordará mecanismos fisiológicos, além de estratégias de monitoramento, prevenção e controle.

Sinais iniciais passam despercebidos no campo

Na rotina das granjas, os impactos das micotoxinas nem sempre são identificados de forma direta. Antes de perdas expressivas de desempenho, os primeiros sinais tendem a ser difusos e frequentemente atribuídos a outros desafios sanitários. “Os primeiros sinais costumam ser discretos. Em geral, o que aparece antes é perda de uniformidade do lote, piora leve da conversão alimentar, maior variação de consumo, fezes mais úmidas e um intestino menos estável diante de desafios rotineiros”, detalha Rauber.

Segundo ele, a dificuldade de diagnóstico está justamente na sobreposição desses sinais com outras afecções entéricas. “Muitas vezes, antes da queda evidente no desempenho, o que se observa é perda de resiliência intestinal. Esses sinais são comuns a diferentes problemas entéricos, o que leva a equipe de campo a considerar outras causas como primárias”, pontua.

Coocorrência de micotoxinas amplia os danos

Outro fator que amplia o impacto sanitário é a presença simultânea de diferentes micotoxinas na dieta, fenômeno conhecido como efeito coquetel. Na prática, a contaminação múltipla é mais regra do que exceção. “Esse é um ponto crítico, porque as micotoxinas raramente ocorrem isoladas. É comum encontrar aflatoxinas, fumonisinas, DON, NIV e toxina T-2 ao mesmo tempo na dieta”, detalha o especialista.

Mesmo quando matérias-primas apresentam contaminação individual, a formulação da ração tende a reunir diferentes perfis de micotoxinas, resultando em exposição combinada das aves. “Cada micotoxina age por mecanismos distintos. Isso leva, no mínimo, a um efeito aditivo. No entanto, o que ocorre na maioria dos casos é a potencialização dos impactos, caracterizando efeito sinérgico”, expõe, enfatizando que essa interação intensifica os danos à mucosa intestinal, agrava o desequilíbrio da microbiota e amplia a vulnerabilidade das aves a infecções secundárias, com reflexos diretos sobre desempenho e eficiência produtiva.

Causas que ampliam impacto sanitário

médico-veterinário, mestre e doutor em Sanidade Avícola, Ricardo Hummes Rauber: “Sem monitoramento das dietas, se perde a capacidade de relacionar histórico de contaminação com desempenho dos lotes e ajustar decisões nos ciclos seguintes”

A desorganização da barreira intestinal também tem efeito direto sobre a incidência de doenças entéricas. “Essa relação é bastante consistente. Quando as micotoxinas aumentam a permeabilidade intestinal, desorganizam a microbiota e mantêm um quadro de inflamação persistente, o intestino perde eficiência como barreira física e imunológica”, salienta Rauber.

Segundo ele, esse cenário favorece a translocação bacteriana, amplia a exposição a endotoxinas e compromete a resposta imune local. “Esse ambiente torna as aves mais suscetíveis a enterites bacterianas e a outros desafios entéricos, incluindo a coccidiose. É preciso entender que as micotoxinas podem atuar tanto como causas primárias quanto como fatores predisponentes”, diz.

Apesar da relevância do problema, as estratégias de controle ainda apresentam limitações quando aplicadas de forma isolada. O uso de adsorventes de micotoxinas na ração, prática difundida no setor, não resolve o problema de forma completa. “A principal limitação está na abordagem como solução única. Nenhum produto ou tecnologia será 100% efetivo, porque o desafio muda ao longo do tempo, tanto em intensidade quanto no perfil de micotoxinas presentes”, enaltece.

Ele destaca que o controle exige integração entre diferentes frentes. “O uso de aditivos anti-micotoxinas deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de saúde intestinal, envolvendo anticoccidianos, promotores de crescimento, eubióticos, biosseguridade e manejo. Essa discussão precisa ser feita de forma conjunta entre sanitaristas e nutricionistas”, evidencia.

Fatores que limitam resposta nas granjas

Na gestão da granja e da fábrica de ração, ainda há pontos críticos subestimados na prevenção da contaminação. Entre eles, o especialista destaca a baixa percepção sobre os efeitos de exposições crônicas em níveis reduzidos. “Ainda se subestima muito o efeito dos baixos níveis crônicos, que não provocam sinais clínicos evidentes, mas comprometem a saúde intestinal e a previsibilidade do lote”, aponta Rauber.

Além disso, fatores operacionais seguem influenciando diretamente o risco de contaminação. “Também se subestima a coocorrência de micotoxinas, a importância do armazenamento adequado e a necessidade de monitoramento sistemático das matérias-primas. Umidade, tempo de estocagem, pontos quentes e heterogeneidade nos silos seguem sendo fatores críticos”, menciona.

Outro entrave está na forma como os dados são utilizados. “O erro mais comum é olhar apenas o resultado analítico isolado, sem integrar essa informação com sinais de campo, saúde intestinal e desempenho”, salienta.

Ele chama atenção ainda para a baixa utilização de análises em rações prontas. “Muitas vezes se argumenta que, quando o resultado chega, a ração já foi consumida. Isso é verdadeiro, mas ignora a importância da previsibilidade. Sem monitoramento das dietas, se perde a capacidade de relacionar histórico de contaminação com desempenho dos lotes e ajustar decisões nos ciclos seguintes”, destaca.

Maior precisão na gestão do risco

Com o avanço das ferramentas de diagnóstico, nutrição e manejo, a tendência é de maior precisão na gestão do risco associado às micotoxinas. “O caminho é avançar para programas mais integrados e mais precisos”, reforça Rauber.

Entre as frentes prioritárias, ele cita o monitoramento analítico mais robusto de matérias-primas e dietas, a melhor avaliação do risco associado à coocorrência de micotoxinas e estratégias nutricionais voltadas à preservação da barreira intestinal. “Também devem ganhar espaço abordagens que combinem mitigação das toxinas com suporte à mucosa, modulação da microbiota e reforço da resposta imune”, relata.

Segundo o especialista, a eficiência no controle das micotoxinas dependerá menos de soluções isoladas e mais da capacidade de integrar informação, nutrição e manejo dentro de um mesmo sistema produtivo.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Microestrutura da ração e minerais definem eficiência produtiva na avicultura, apontam especialistas

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Pesquisador Wilmer Pacheco (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

Professora da Universidade de Maryland (EUA), Roselina Angel (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

A nutrição de precisão e seus reflexos no desempenho produtivo e na saúde das aves estiveram em pauta na manhã desta quarta-feira (8), durante o Bloco Nutrição do 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes em Chapecó.

O pesquisador Wilmer Pacheco iniciou o bloco com o tema “Granulometria e seu impacto no trato digestivo”, destacando como a estrutura física da ração influencia diretamente o desempenho produtivo e a saúde intestinal das aves. O especialista explicou que o tema vai além do tamanho das partículas, envolvendo dois níveis fundamentais: a microestrutura e a macroestrutura da ração. “Precisamos olhar para a microestrutura, que é controlada principalmente pelo processo de moagem, e para a macroestrutura, que está relacionada ao pellet e ao seu impacto na produtividade no campo”, destacou.

Segundo Pacheco, a granulometria refere-se ao tamanho das partículas obtidas após a moagem, sendo um fator determinante para a digestibilidade dos nutrientes e o funcionamento do trato digestivo. “A redução do tamanho das partículas aumenta a área de contato com o sistema digestivo, melhora a absorção de nutrientes e reduz a segregação dos ingredientes na ração.”

O pesquisador ressaltou que as aves possuem um sistema digestivo adaptado, com destaque para a moela, responsável pela trituração mecânica dos alimentos. Nesse contexto, a presença de partículas mais grossas também desempenha papel importante. “As aves precisam de partículas maiores na microestrutura, pois isso estimula o funcionamento da moela, reduz o pH e contribui para o controle de bactérias patogênicas, além de melhorar a absorção de minerais”, pontuou.

Outro aspecto abordado foi o impacto da estrutura da ração na qualidade do pellet e no desempenho das aves. De acordo com estudos apresentados pelo palestrante, dietas com partículas mais grossas podem melhorar a conversão alimentar, aumentar a digestibilidade de nutrientes e reduzir a umidade da cama o que reflete diretamente na eficiência produtiva.

Pacheco também destacou que o processo de peletização promove alterações adicionais na granulometria, exigindo controle rigoroso em todas as etapas da produção. “Esse método gera moagem adicional, por isso é fundamental entender como as partículas estão organizadas dentro do pellet para garantir uma dieta equilibrada.”

Como solução, o especialista reforçou a importância de ajustes nos equipamentos industriais, especialmente no moinho de martelo e nos parâmetros de peletização. Fatores como velocidade do rotor, número de martelos, tamanho da peneira e distância entre os componentes influenciam diretamente o tamanho e a uniformidade das partículas.

Além disso, aspectos como temperatura, tempo de condicionamento, teor de gordura e especificações da matriz também impactam a qualidade final do pellet e devem ser monitorados de forma integrada. O pesquisador destacou uma mensagem central para o setor. “A macroestrutura é importante, mas não podemos sacrificar a microestrutura. É o equilíbrio entre esses fatores que garante melhor desempenho, eficiência e saúde intestinal das aves”, concluiu.

Pesquisador Wilmer Pacheco (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

DIETAS MODERNAS DO FRANGO DE CORTE

Na sequência, a professora da Universidade de Maryland (EUA), Roselina Angel, abordou o tema “Níveis de Ca e P nas dietas modernas do frango de corte”. A palestra foi uma análise prática sobre o uso de minerais na nutrição avícola e seus impactos na produtividade e na sustentabilidade.

Com ampla atuação científica e de consultoria internacional, Roselina frisou que um dos principais desafios atuais está no uso inadequado do cálcio nas dietas. Segundo ela, o problema não está na falta, mas no excesso. “Muitas pessoas enxergam esse mineral apenas como um nutriente essencial, o que é verdade, mas o excesso causa problemas significativos que ainda são pouco compreendidos”, explicou.

Entre os impactos apontados, a pesquisadora destacou efeitos no ambiente de produção e no desempenho das aves. “O excesso de cálcio aumenta a umidade da cama, favorece problemas como lesões e piora a qualidade dos pés das aves, além de reduzir a digestibilidade de proteínas, energia e gordura, prejudicando a conversão alimentar”, afirmou.

Roselina também ressaltou que o desequilíbrio mineral afeta a absorção de micronutrientes, ampliando os prejuízos produtivos. “São efeitos negativos que passam despercebidos, mas impactam diretamente no resultado final da produção”, pontuou.

Outro ponto abordado foi a necessidade de ajustes nos processos industriais. Segundo a pesquisadora, parte do problema está na forma como o calcário é manejado nas fábricas de ração. “O calcário é um ingrediente mais leve e, quando pesado com sistemas ajustados para milho e soja, pode gerar erros significativos. Mesmo pequenas variações resultam em níveis muito altos de cálcio na ração final”, salientou.

Para Roselina, a solução passa por maior precisão no processo de formulação e fabricação. “Precisamos trabalhar junto às fábricas de ração para ajustar esses processos e garantir que os níveis de cálcio e fósforo estejam adequados às reais necessidades das aves, que muitas vezes são menores do que se imagina, especialmente no caso do fósforo”, destacou.

Para acompanhar a palestra e os demais conteúdos da programação científica é necessária inscrição no evento. O terceiro lote está disponível, com investimento de R$ 890,00 para profissionais e R$ 500,00 para estudantes. O acesso à 17ª Brasil Sul Poultry Fair custa R$ 200,00. As inscrições podem ser realizadas no site: https://nucleovet.com.br/simposios/avicultura/inscricao.

PROGRAMAÇÃO GERAL

26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura

17ª Brasil Sul Poultry Fair

DIA 08/04 – QUARTA-FEIRA

Bloco Conexões que Sustentam o Futuro

16h30 – Do conhecimento à ação: como transformar orientações em resultados na avicultura.

Palestrante: Kali Simioni e João Nelson Tolfo

(15 minutos de debate)

17h30 – Porque bem-estar é crucial para a sustentabilidade?

Palestrante: Prof. Celso Funcia Lemme

(15 minutos de debate)

18h30 – Eventos Paralelos

19h30 – Happy Hour na 18ª Brasil Sul Poultry Fair

DIA 09/04 – QUINTA-FEIRA

Bloco Sanidade

8h – Tríade do diagnóstico de Laringotraqueíte infecciosas – enfoque nos diferentes métodos de diagnóstico das doenças respiratórias

Palestrante: Prof. Renata Assis Casagrande

(15 minutos de debate)

9h Micotoxinas: a ameaça silenciosa à saúde intestinal das aves.

Palestrante: Dr. Ricardo Rauber

(15 minutos de debate)

10h – Intervalo

10h30 – Gumboro em foco: avanços recentes e novas fronteiras no controle da doença.

Palestrante: Gonzalo Tomás

(15 minutos de debate)

11h30 – Influenza aviária – plano de contingência em caso real.

Palestrante: Taís Barnasque

(15 minutos de debate)

Sorteios de brindes.

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