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A vida e os negócios da suinocultura em tempos de coronavírus
O problema é mundial e está impactando nosso modo de viver e de como encararmos a vida, e isso está afetando o cotidiano e os negócios de todos nós.

* Cesar da Luz
Sua presença entre nós já era anunciada, porém, jamais desejada. Mas se estamos diante da pandemia do coronavírus, com graves efeitos jamais vistos pela atual geração, é preciso pensar em como seguir adiante sem maiores consequências. O problema é mundial e está impactando nosso modo de viver e de como encararmos a vida, e isso está afetando o cotidiano e os negócios de todos nós.
Para vivermos o pós-pandemia e evitarmos maiores sequelas, isso dependerá muito do que fizermos ou deixarmos de fazer agora para debelar a crise e tentar retomar à vida normal, se é que isso será possível em um curto espaço de tempo, em que pese o fato de se estarem trabalhando na produção de uma vacina e no protocolo de um tratamento adequado, quem sabe à base da tão comentada cloroquina.
Em meio às chamas de um grande incêndio, é certo que sempre sairemos chamuscados, no entanto, podemos também sair vivos e até fortalecidos, aprendendo com esta dura experiência humana, e mesmo com cicatrizes pelo corpo não vamos deixar nos abater pelo quadro instalado no planeta desde que o vírus surgiu na China no último dia de 2019.
Aliás, uma pandemia provocada por um vírus já estava anunciada há anos. Em 2003, a revista médica “Vaccine”, periódico científico inglês especializado em Ciências da Saúde, já noticiava que haviam-se passados 35 anos desde a última pandemia de influenza, e que o período mais longo já registrado com precisão entre duas pandemias era de 39 anos. A revista destacava: “O vírus causador de pandemia pode surgir na China ou num país vizinho e pode incluir antígenos e características de virulência provenientes de vírus que atacam animais”, exatamente como o coronavírus.
Ou seja, há quase duas décadas, especialistas já afirmavam que a questão não era se um vírus violento – como o da Covid-19 – iria provocar um quadro como o que estamos vivendo hoje, mas sim, quando e como isso iria acontecer. E a certeza era que a cada 11 anos um vírus de influenza ocorre no mundo, e que um surto severo de um vírus atinge a humanidade a cada 30 anos aproximadamente. Então, a pandemia de agora já estava prevista e, mesmo atrasada, acabou chegando no final do ano passado.
Acerca ainda do vírus que surgiria no mundo, a mesma revista “Vaccine” já alertava que ele se espalharia rapidamente pelo mundo. “Acontecerão várias ondas de infecção. A morbidade será abrangente em todas as idades e haverá interrupção de atividades sociais e econômicas em todos os países. A enorme mortalidade será evidente na maioria das faixas etárias, para não dizer em todas. É improvável que os sistemas de saúde consigam lidar adequadamente com a demanda de assistência médica, mesmo nos países mais desenvolvidos em sentido econômico”, escreveu a publicação, que lida hoje parece ter sido escrita há poucos dias, descrevendo exatamente os efeitos da Covid-19.
Em se tratando de suinocultura, em julho de 2017, um estudo de nossa autoria encomendado por uma grande indústria alemã, que teve como foco o mercado da carne suína brasileira, mostrou que observadas as exportações de 2016 e do primeiro semestre de 2017, a China passaria a propiciar uma oportunidade gigantesca para a suinocultura brasileira, e que isso levaria à uma redução na participação do então maior importador, a Rússia, o que acabou se confirmando em 2018, até porque em setembro daquele ano o vírus da Peste Suína Africana (PSA) foi detectado em suínos de subsistência da China, e os chineses passaram a elevar as importações de carne suína, intensificadas em 2019 e mantidas em um patamar exponencial ao longo do primeiro trimestre deste ano.
Ou seja, ainda na metade de 2017 destacávamos que o crescimento nas exportações brasileiras em 2016 se devia justamente ao desempenho do mercado da China, que passara de apenas 5,2 mil toneladas importadas em 2015, para 87,8 mil toneladas em 2016, um acréscimo substancial de 1.582%. É claro que alguma coisa passava a influenciar nas importações dessa proteína animal pelos chineses.
Dessa forma podemos observar como o mercado se movimenta muito rapidamente, e que precisamos gerir nossos negócios com uma visão mais ampla, além do óbvio, fazendo uma leitura mais profunda dos acontecimentos acerca do que impacta a nossa vida e os nossos negócios. Precisamos aprofundar nossas análises e não ficarmos baseando nossas decisões em qualquer informação que recebemos desse ou daquele amigo ou contato, e até compartilhando informações distorcidas, leituras equivocadas e notícias falsas, as chamadas “fake news”.
Não podemos ser manipulados pelos oportunistas de plantão, que usam as oportunidades de negócios apenas para trazer benefícios à si, não para quem produz. E em momentos de grave crise, jamais dedicar nosso tempo para pensar de maneira simplista e amadora.
O mundo está mudando muito rapidamente. Até o grande perderá algo, o médio pode se apequenar, mas é certo que o pequeno que estiver despreparado, desinformado e desunido desaparecerá. E para que isso não ocorra, ele precisa tomar medidas na base da cautela e não acreditar em tudo que ouve e vê. Deve buscar ajuda em seus pares, para juntos pensarem nas soluções dos seus problemas em comum. Este é um momento de união entre os produtores. É um momento de muitas análises antes de se tomar decisões, pois o que está em jogo não é apenas a saúde física, mas também a forma de como cuidamos da saúde financeira dos nossos negócios.
A pandemia trouxe um cenário complicado também para a suinocultura, pois o produtor está trabalhando com queda no consumo interno pelas medidas restritivas e de isolamento social, e ao mesmo tempo com o aumento dos insumos e redução do preço do suíno vivo. Mas o que não se pode esquecer é que a exportação de carne suína se mantém em alta, e isso deveria servir para aquietar o mercado interno, onde o principal fato continua sendo a especulação, o oportunismo dos que se beneficiam da falta de união dos produtores e do vazamento de informações sobre a formação de um preço que seja suficiente para as necessidades do produtor.
Por fim, a extensão da quarentena em todo o mundo e os efeitos que causam na economia global deixam o cenário ainda mais intensa e severamente incerto, exigindo que os negócios tenham de ser ainda mais certeiros. Não se pode errar! O produtor precisa controlar os estoques, segurar as vendas e acompanhar os demais nas negociações e formação de preços, garantindo um valor que cubra seus custos de produção e deixe alguma margem de lucro. Não é uma tarefa fácil, e nem há uma fórmula certa, mas é nisso que o produtor precisa se focar neste momento, porque os grandes grupos já travaram suas vendas, compraram seus insumos e garantiram suas margens.
Mais do que qualquer coisa, precisamos estar conscientes de que já vivemos um novo cenário de crédito que será cada vez mais escasso frente a tantas incertezas. É preciso trabalhar com margem de segurança, escolher parceiros sólidos e tocar a comercialização dos produtos de forma muito eficiente. Do contrário, seremos descartados pela crise de um vírus cuja presença já era esperada, apesar de indesejada!

* Cesar da Luz é jornalista, bacharel em Direito, palestrante e escritor, Diretor dos Grupos Paraná Mais e C.Agro Consultoria e Assessoria no Agronegócio.

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Sementes sem comprovação de origem são apreendidas durante fiscalização no Rio Grande do Sul
Produtos permanecem retidos até julgamento dos autos de infração e podem ser condenados.

OMinistério da Agricultura e Pecuária (Mapa) realizou, na última semana, operação conjunta em Dom Pedrito (RS), que resultou na apreensão de 368 toneladas de sementes de azevém com irregularidades documentais e operacionais.
Durante a fiscalização, duas empresas produtoras de sementes de espécies forrageiras de clima temperado e duas empresas cerealistas foram inspecionadas. As irregularidades constatadas motivaram a autuação dos responsáveis e a apreensão de produtos avaliados em mais de R$ 1,5 milhão.
Além da apreensão, motivada pela ausência de comprovação de origem e procedência da produção e pela prestação irregular de serviço de beneficiamento, os estabelecimentos foram devidamente autuados pelos órgãos de defesa agropecuária. Como, a princípio, as irregularidades constatadas não podem ser sanadas, os produtos permanecem apreendidos até o julgamento dos autos de infração, podendo ser condenados.
A operação ocorreu em conjunto com a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI) e com a Polícia Civil do Rio Grande do Sul (PCRS), por meio das Delegacias de Polícia Especializadas de Combate aos Crimes Rurais e de Abigeato (DECRABs) de Bagé e Alegrete.
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Gargalos logísticos pressionam custos e desafiam a qualidade da produção no Mato Grosso
Pressão no corredor logístico da BR-163 tem aumentado preços dos fretes e prejudicado o escoamento de grãos.

A pressão operacional já aparece no frete e, para o produtor, isso significa menor margem em um cenário de preços internacionais mais comprimidos. Para a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), o quadro reforça a necessidade de melhorias estruturais de capacidade e previsibilidade logística.

Foto: RRRufino
O acesso atual aos terminais segue em processo de melhorias emergenciais, enquanto um novo acesso pavimentado, em traçado paralelo, está em construção com previsão de conclusão em novembro de 2026. Até lá, o sistema permanece sensível ao alto volume de caminhões e às limitações físicas do trecho.
De acordo com vice-presidente norte da Aprosoja MT, Ilson José Redivo, o crescimento do volume exportado não foi acompanhado por melhorias proporcionais na infraestrutura. “A produção aumenta ano após ano, mas as condições das rodovias continuam precárias. Há trechos finais de acesso que não são asfaltados e, em períodos de chuva, caminhões precisam ser rebocados um a um em subidas íngremes, formando filas que podem ultrapassar 30 quilômetros”, afirmou.
Segundo ele, o impacto econômico é direto na renda do produtor. “Hoje o frete entre Sinop (MT) e Miritituba (PA) gira em torno de R$ 20 por saca. Com a soja sendo comercializada próxima de R$ 106 bruto, e menos de R$ 100 líquidos após encargos, o custo logístico compromete significativamente a margem e reduz a competitividade do produtor”, destacou. Ilson Redivo também chama atenção para um problema estrutural adicional: a capacidade de armazenamento do estado, estimada em cerca de 52% do volume produzido, o que obriga a comercialização e o escoamento em ritmo acelerado.
A produtora do município de Santa Rita do Trivelato, Katia Hoepers, acrescenta que os custos operacionais e a estrutura insuficiente nos pontos de recebimento agravam o cenário. “Para nós, o que mais impacta a rentabilidade é o frete e o custo do diesel, que pressiona toda a conta do transporte. O problema também está no porto em Miritituba, onde falta estrutura para receber os caminhões e tudo acaba travando. Além disso, houve expansão das áreas plantadas sem crescimento proporcional da armazenagem, o que gera longas filas nas tradings durante a colheita”, relatou.

Foto: Fernando Dias/Seapi
No campo, os efeitos são percebidos no dia a dia da operação. A incerteza quanto a prazos de entrega e a elevação do custo logístico impactam decisões de manejo, armazenamento e comercialização, além de ampliar riscos ao produto até a chegada ao porto.
Produtor no extremo norte do estado, Mateus Berlanda relata que as dificuldades começam ainda nas estradas regionais. “Nossa região tem alto índice de chuvas e solos com muita argila, o que dificulta o tráfego. Há muitos trechos de estrada de chão, pontes e bueiros danificados e, em períodos críticos, os caminhões simplesmente não conseguem avançar”, explicou. Ele acrescenta que o problema se estende à etapa seguinte da cadeia: “Mesmo quando conseguimos transportar a produção, enfrentamos filas de três a quatro dias nos armazéns, reflexo do déficit estrutural de capacidade e da pressão logística sobre toda a região”.
Berlanda, que produz na região de Alta Floresta, ressalta que a combinação entre infraestrutura precária, chuvas intensas e limitações de armazenagem aumenta custos operacionais e amplia o risco de perdas indiretas. “O produtor da ponta do estado enfrenta uma sucessão de obstáculos desde a colheita até a entrega final, o que encarece o processo e aumenta a insegurança da operação”, afirmou.
A expectativa do setor produtivo é que a conclusão do novo acesso pavimentado traga maior fluidez ao corredor, reduzindo o tempo de viagem e contribuindo para estabilizar os custos logísticos. Até que as melhorias estruturais se consolidem, produtores de Mato Grosso seguem absorvendo os efeitos dos gargalos sobre a competitividade da produção destinada ao mercado internacional.
“O produtor contribui com o FETHAB esperando que os recursos sejam destinados à melhoria da logística e da infraestrutura das estradas. No entanto, esse retorno não tem chegado de forma efetiva à ponta. Reconhecemos os avanços promovidos pela atual gestão do governo do estado, mas, em um cenário de margens cada vez mais apertadas, é necessário reavaliar o FETHAB. O produtor não pode seguir arcando com esse custo sem perceber resultados concretos na infraestrutura fundamental para o escoamento da produção”, afirma o diretor administrativo da Aprosoja MT, Diego Bertuol.

Foto: Divulgação
Nesse cenário, o fortalecimento de políticas públicas voltadas à armazenagem rural se apresenta como estratégia complementar para reduzir a pressão sobre o sistema logístico. Com maior capacidade de estocagem nas propriedades, o produtor pode planejar melhor o escoamento e evitar a concentração do transporte no pico da colheita, quando a demanda por frete aumenta e o fluxo intenso de caminhões sobrecarrega os principais corredores de exportação.
Em uma perspectiva estrutural, a Ferrogrão, ainda não leiloada e distante da entrada em operação, é apontada pelo setor produtivo como um projeto estratégico e potencialmente disruptivo para o enfrentamento dos gargalos da BR-163. A migração de parte significativa das cargas para o modal ferroviário tende a reduzir o volume de caminhões nos acessos ao distrito de Miritituba, promovendo maior eficiência logística, melhor distribuição do fluxo de transporte e alívio da pressão sobre os principais corredores de exportação com destino aos portos do Arco Norte.
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LCAs alcançam R$ 589 bilhões e lideram financiamento privado do agro
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram alta de 11% no estoque e avanço de 34% nos recursos reaplicados diretamente no crédito rural.

As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) seguem como a principal fonte de recursos privados destinados ao financiamento das atividades agropecuárias no país. Em janeiro, o estoque desses títulos alcançou R$ 589 bilhões, crescimento de 11% na comparação anual. Desse total, ao menos R$ 353 bilhões foram reaplicados diretamente no financiamento rural – um avanço expressivo de 34% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os dados são da nova edição do Boletim de Finanças Privadas do Agro que já está disponível no site do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A publicação é elaborada pelo Departamento de Política de Financiamento ao Setor Agropecuário e reúne dados do Banco Central do Brasil, da Comissão de Valores Mobiliários e das registradoras B3, CERC e CRDC.
Outro instrumento relevante para o crédito do setor, as Cédulas de Produto Rural (CPRs), também apresentaram desempenho positivo. O estoque total chegou a R$ 560 bilhões em janeiro, alta de 17% nos últimos 12 meses. Na safra atual, entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram registrados R$ 231 bilhões em CPRs. Apesar do volume significativo, o montante representa queda de 5% frente à safra anterior.

Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) mantiveram a trajetória de crescimento e atingiram R$ 177 bilhões em estoque, com aumento anual de 16%. Embora movimentem valores inferiores aos das LCAs e CPRs, os CRAs exercem papel estratégico ao ampliar a presença dos títulos do agronegócio no mercado de capitais, aproximando cadeias produtivas de investidores institucionais e pessoas físicas.
Na direção oposta, os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs) registraram retração. O estoque recuou 15% na comparação anual, totalizando R$ 31 bilhões ao fim de janeiro. Esses títulos são emitidos exclusivamente por cooperativas de produtores rurais ou por entidades que atuam nas cadeias do agronegócio, com foco no financiamento de suas próprias operações.
O boletim mais recente também marca a retomada da divulgação dos dados sobre o desempenho dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio (Fiagro) no financiamento privado do setor. A divulgação havia sido interrompida em março do ano passado, em razão do período de adaptação desses fundos às novas regras do Anexo VI da Resolução CVM 175. Criados em 2021, os Fiagro alcançaram, após quatro anos de operação, um patrimônio líquido de R$ 47 bilhões em dezembro de 2025, distribuídos em 256 fundos em funcionamento.
Os dados podem ser consultados no Boletim de Finanças Privadas do Agro.



