Suínos Expedição Suinocultura- episódio 3
A inovação que brota do coração: tecnologia, bem-estar e sustentabilidade na suinocultura do Rio Grande do Sul
Muito antes de robôs percorrerem corredores automatizados ou de painéis solares alimentarem fábricas de ração, a inovação já era instinto.

O futuro sempre chegou mais cedo em algumas propriedades do interior gaúcho. Muito antes de robôs percorrerem corredores automatizados ou de painéis solares alimentarem fábricas de ração, a inovação já era instinto. Intuição. Um produtor apertava o play num toca-fitas e, ao som de Tonico & Tinoco, suas porcas pariam em paz. Isso foi em Charrua, na década de 1960.
“Ela não largava leite, queria matar o leitão. Aí eu peguei e disse: ‘Traz o toca-fita’. Tocamos música e ela parou. Queria música mesmo”, relembrou o suinocultor Vilceu Fontana, rindo de leve, mas com aquele brilho de quem descobriu um segredo. “Por isso mesmo eu trouxe Tonico e Tinoco pra cantar pros porcos dentro da instalação”, lembra Vilceu.
Era bem-estar animal quando o termo ainda nem existia. A terceira parada da Expedição Suinocultura percorreu o Rio Grande do Sul em municípios como Charrua, Rondinha, Estrela, Rodeio Bonito. A bordo de nossa van, botas sujas e câmeras ligadas, encontramos histórias onde a tecnologia não foi só implantada, ela foi cultivada.
Inovação antes da era digital

Vilceu Fontana praticava o bem estar-animal antes mesmo do termo existir: “Eu trouxe Tonico e Tinoco pra cantar pros porcos dentro da instalação”
Vilceu não apenas tocava música para as porcas. Criou brinquedos para os leitões. Bolas de plástico, correntes penduradas, formas rudimentares de enriquecer o ambiente. “Eles se entretinham. Se divertiam e paravam de morder uns aos outros”, lembra. O bem-estar era lógico, não protocolo.
Ao seu redor, os filhos observavam. “Na época a gente não entendia muito, mas hoje faz todo sentido. Aquilo era inovação. O pai tava muito à frente do tempo”, reconhece o filho Jean Marcelo, que segue na atividade com orgulho. “A gente ficou na suinocultura por livre e espontânea pressão (risos)… mas também por paixão.”
Naquela granja Fontana, há 35 anos, para entrar já era obrigatório tomar banho. O conceito de biosseguridade, hoje regra em cartilhas técnicas, já estava vivo. Não por exigência, mas por visão.
Do pigbook à genética líquida
A inovação genética também tem suas raízes fincadas no solo gaúcho. Nos anos 70, o Brasil ainda caminhava com suínos pesados, lentos e com excesso de gordura. A inseminação artificial em suínos era apenas uma ideia — e foi no Rio Grande do Sul que ela saiu dos laboratórios e chegou ao campo.
“Na época, não existia absolutamente nada. Só em bovinos. Em suínos, tínhamos alguns trabalhos experimentais na universidade. Mas campo, nada”, relembra um dos pioneiros do projeto, o médico-veterinário Werner Meincke.

Médico-veterinário Werner Meincke, responsável por pulverizar a inseminação genética no Rio Grande do Sul e no Brasil
O processo começou humilde. Reprodutores eram selecionados com base no fenótipo. Mamários, testículos, número de tetas, comprimento corporal – tudo anotado para formar o primeiro grande banco genealógico dos suínos brasileiros. Os registros de genealogia eram armas contra a consanguinidade.
Com a inseminação, veio a revolução. “O produtor tinha cinco porcas, por que manter um macho? Era caro e ocioso”, diz Werner. Em 1979, foi construída a primeira central definitiva na Acsurs. De lá saíram sêmen de reprodutores para centenas de granjas. A tecnologia se espalhou pelas cooperativas, prefeituras, sindicatos. Só por Werner, mais de 200 técnicos foram treinados em Estrela.
Hoje, a genética líquida é padrão. “Antes só se trabalhava com animais puros. Hoje são híbridos. A tecnologia está em outro patamar”, diz Werner.
Robôs no trato, dados no comando

Inseminação artificial nos anos 1970 começou no Rio Grande do Sul
Mas inovação não é só história. Em Charrua, no Noroeste gaúcho, a propriedade do visionário Vilceu Fontana opera com automação de trato e robôs que alimentam fêmeas gestantes com precisão cirúrgica. “O robô faz o trato individual. Montamos curvas de alimentação conforme a idade gestacional. Ganhamos em precisão, uniformidade e reduzimos desperdício”, explica o filho Jean. Com a escassez de mão de obra e a concorrência com outros setores da economia local, a automação deixou de ser opcional. Tornou-se vital.
A tecnologia veio além da necessidade de eficiência. Veio também da resiliência. Há oito anos, um vendaval destruiu as instalações de Vilceu Fontana. “Eu tava sozinho. Faltou luz, tudo escuro. Pedi a Jesus que me salvasse. E salvou. Não saíram nem as antenas da casa. O resto, tudo voou.”
A tragédia virou gatilho para modernizar. Novos galpões, novos sistemas. “Reconstruímos tudo. Ninguém se feriu. Foi um milagre.”
Sol, dejetos e economia circular

Suinocultura Gobbi apostou em mais de 2 mil painéis solares para gerar energia limpa e ampliar a sustentabilidade do negócio
A inovação também brilha do céu. Em Rondinha, placas solares alimentam toda a fábrica de ração, escritório e silos da Suinocultura Gobbi. “São 2 mil placas. A conta de energia caiu drasticamente. Fizemos no tempo certo, com a lei antiga. Hoje seria mais caro”, comenta Gobbi.
Já em Charrua, o destaque é o uso circular dos dejetos. O biodigestor gera energia. O biofertilizante alimenta as lavouras, que voltam para a granja em forma de milho. “É um ciclo completo. A granja alimenta a lavoura e a lavoura alimenta a granja”, cita Jean.
As soluções são múltiplas. Em algumas propriedades, o adubo gerado pelo biodigestor é até usado para produzir feno, vendido como renda extra. Tudo estudado. Nada feito no improviso. “Antes de começar, tem que ver com os olhos, visitar quem já fez, entender o que dá certo”, ensina o produtor Sadi Acadrolli.
Bem-estar, mais do que lei

Sadi Acadrolli lembra quando a tecnologia era escassa: “Abri mão de muito domingo para vir molhar a cabeça das porcas no calor”
Ao longo da expedição, ouvimos um ponto comum: bem-estar animal é técnica, não modismo. “É dar água, comida, conforto. Tratar se tiver doente. Já pensou se a gente ficasse doente e ninguém cuidasse?”, questiona Gobbi.
Outros recordam os tempos difíceis: “Lá em 1990, abri mão de muito domingo para vir molhar a cabeça das porcas no calor. Hoje tem exaustor, ar-condicionado, automatização. Mas tudo começou na base do esforço e do cuidado”, relembra Acadrolli.
Hoje, as propriedades seguem cartilhas técnicas, normativas e protocolos internacionais. Mas no fundo, tudo começa com quem abre o portão da granja. O que a lei exige, o produtor gaúcho fazia antes por convicção.
O futuro mora aqui
A inovação na suinocultura gaúcha não nasceu de um edital ou uma lei. Ela nasceu de um toca-fitas. Cresceu com registros genealógicos. Se espalhou com seminários e compartilhamento de conhecimento. E hoje vive em dados, sensores, robôs e painéis solares. Uma linha contínua que liga o passado ao futuro.
Clique aqui para assistir ao terceiro episódio completo da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.

Suínos
Carne suína atinge menor média de preço desde abril de 2024
Queda registrada em fevereiro amplia competitividade frente à bovina e ao frango, segundo dados do Cepea.

A atual média mensal de preço da carne suína já é a menor desde abril de 2024, em termos reais (série deflacionada pelo IPCA de janeiro/26), apontam dados do Cepea.
Esse movimento de desvalorização, que seguiu com força em fevereiro, acabou elevando, pelo segundo mês consecutivo, a competitividade da carne suína em relação às concorrentes, bovina e de frango.
De acordo com pesquisadores do Cepea, o ganho de competitividade frente à carne de boi neste mês também é influenciado pelo avanço no preço da carcaça casada bovina; no caso do frango, observa-se desvalorização da proteína, mas em menor intensidade que a registrada para a suína.
Pesquisadores do Cepea ressaltam que o movimento de queda nos preços do suíno vivo, que vem sendo verificado desde o início deste ano, perdeu um pouco de força nesta semana. O principal fundamento desse cenário baixista é a oferta acima da demanda.
Agentes consultados pelo Centro de Pesquisas indicam que já eram esperadas desvalorizações no primeiro bimestre de 2026, em razão do menor poder de compra da população, mas a intensidade da baixa preocupa.
Suínos
Parceria público-privada assegura manutenção e investimentos na Estação Quarentenária de Cananeia
ABCS e ABEGS renovam parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária, garantem investimentos EQC e reforçam o controle sobre a entrada de material genético importado no país.

A Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) e a Associação Brasileira das Empresas de Genética de Suínos (ABEGS) firmaram, junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Primeiro Termo Aditivo ao Acordo de Cooperação Técnica nº 073/2020, assegurando a manutenção, a modernização e a plena operacionalização da Estação Quarentenária de Cananeia (EQC) até dezembro de 2030.
O aditivo prorroga a vigência da parceria e atualiza o Plano de Trabalho, consolidando o modelo de cooperação entre o setor público e a iniciativa privada. A renovação garante previsibilidade institucional e continuidade dos investimentos em infraestrutura, biosseguridade e qualificação técnica.
Localizada no litoral sul do Estado de São Paulo, a EQC é o único quarentenário oficial do país autorizado a receber suínos importados destinados à reprodução. Trata-se de uma estrutura estratégica para o Brasil, pois viabiliza a entrada controlada de material genético de alto valor zootécnico, sob rígidos protocolos sanitários e supervisão permanente do Serviço Veterinário Oficial (SVO).

O novo Plano de Trabalho contempla na estrutura do Ministério da Agricultura e Pecuária- EQC a realização da manutenção preventiva e corretiva das estruturas físicas e operacionais da EQC, a modernização da estação de tratamento de efluentes, com adequação às normas ambientais vigentes, investimentos em equipamentos e melhorias estruturais, além da realização de treinamentos técnicos anuais voltados à biosseguridade e aos protocolos sanitários. Também estão previstas ações de comunicação institucional e a produção de material técnico para reforçar a relevância estratégica da EQC para o setor.
A Estação desempenha papel central na proteção sanitária do rebanho suíno brasileiro. Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, o controle rigoroso realizado na EQC é fundamental para a mitigação de riscos sanitários e para a preservação do status sanitário nacional. “A Estação fortalece o potencial produtivo da suinocultura, impulsiona a eficiência genética e contribui diretamente para ampliar a competitividade do Brasil no mercado internacional”, afirma.
Já para o presidente da ABEGS, Alexandre Rosa, a formalização do Termo Aditivo fortalece a governança do sistema e dá estabilidade ao ambiente de investimentos. “A manutenção e modernização da EQC são fundamentais para garantir segurança sanitária, avanço genético e previsibilidade para as empresas que investem no Brasil. Estamos falando de um instrumento estratégico para sustentar o crescimento da suinocultura brasileira e ampliar nossa presença no mercado global”, destaca.
A ABEGS e a ABCS seguem responsáveis pela elaboração de estudos técnicos, pela execução das melhorias estruturais previstas e pelo apoio às ações de capacitação, sempre em conformidade com a legislação sanitária e ambiental. Com a renovação até 2030, o acordo reafirma o compromisso conjunto entre governo e setor produtivo com a excelência sanitária, a inovação genética e a sustentabilidade da cadeia suinícola nacional.
Suínos
Suíno vivo tem variações mistas nos principais estados
Levantamento do Cepea mostra alta diária apenas em Minas Gerais, enquanto demais praças registram quedas. No mês, todos os estados acumulam recuo.

O Indicador do Suíno Vivo do Cepea/Esalq registrou variações mistas nos principais estados produtores nesta segunda-feira (23).
Em Minas Gerais (posto), o valor ficou em R$ 6,77/kg, com alta diária de 0,15%. No acumulado do mês, porém, há recuo de 4,38%.
No Paraná (a retirar), o preço foi de R$ 6,59/kg, com queda de 0,75% no dia e retração de 2,95% em fevereiro. No Rio Grande do Sul (a retirar), a cotação fechou em R$ 6,61/kg, recuo diário de 1,93% e baixa mensal de 2,22%.
Em Santa Catarina (a retirar), o suíno vivo foi negociado a R$ 6,58/kg, com leve queda de 0,15% no dia e variação negativa de 1,94% no mês.
Já em São Paulo (posto), o indicador marcou R$ 6,86/kg, com recuo diário de 0,15% e desvalorização acumulada de 3,24% no mês.
Os dados são do Cepea.



