Colunistas Artigo de opinião
A importância da agropecuária para os municípios de Minas Gerais
O artigo apresenta números expressivos do agro.

A agropecuária de Minas Gerais tem importância significativa para a economia do estado, seja na geração de renda e divisas, seja na de postos de trabalho. De acordo com o IBGE (2022b), o Valor Adicionado Bruto (VAB)[1] da agropecuária mineira fechou 2020 em R$ 39,99 bilhões, representando 6,65% do VAB estadual[2]. Quanto à balança comercial, em 2022, o faturamento do agronegócio mineiro alcançou recorde de US$ 15,3 bilhões, contribuindo com 38,2% da pauta mineira de exportação (SEAPA, 2023). No que se refere ao mercado de trabalho, no terceiro trimestre de 2022, o contingente ocupado no segmento era de aproximadamente 1,34 milhões de pessoas, ou seja, 12,58% da população ocupada em Minas tinha como trabalho principal alguma atividade relacionada à agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (IBGE, 2022a).
Dada a importância do segmento para o estado, o que se pode falar da sua importância para os municípios mineiros?
O PIB é um dos indicadores mais utilizados para quantificar a atividade econômica dentro de um limite geográfico, seja país, estado ou município. Uma das formas de calculá-lo é pela ótica do valor adicionado, sendo o PIB resultado da soma dos VABs1 dos segmentos (agropecuária, indústria, serviços e administração[3]) e dos impostos, líquidos de subsídios, sobre produtos. Dessa forma, aqui, busca-se medir a importância do segmento agropecuário pela representatividade do seu VAB no VAB total do município.
Na Figura 1 está representada a distribuição acumulada da razão entre o VAB da agropecuária e o VAB total municipal entre 2016 e 2020. Observa-se que houve mudanças quanto à magnitude destes valores e, por consequência, na importância do segmento agropecuário para os municípios. Por exemplo, ao se comparar as curvas de distribuição acumulada de 2019 (cor azul) e 2020 (cor rosa), constata-se que houve redução do número de municípios no qual o VAB da agropecuária representava até 20% do VAB total municipal, passando de 87,10% para 74,71% dos 853 municípios. Portanto, neste período, houve aumento no número de municípios em que o VAB da agropecuária representava mais de 20% do VAB total do município.
A Tabela 1, por sua vez, apresenta informações, a preços correntes, do PIB e do VAB e sua desagregação nos VABs dos segmentos que compõem a economia. Adicionalmente, apresenta-se uma classificação dos municípios que possuem a agropecuária como principal segmento. Por meio da Tabela, é possível observar que, de 2016 a 2019, houve queda do número de municípios que tinham a agropecuária como principal segmento em sua economia. Em 2016, dos 853 municípios mineiros, 102 tinham a agropecuária como principal segmento em sua economia. O PIB destes municípios somava R$ 18,77 bilhões e representava 3,45% do PIB estadual. Em 2019, esse número caiu para 48, sendo o somatório do PIB igual a R$ 9,58 bilhões, representando 1,47% do PIB estadual.
De 2016 a 2019, o VAB da agropecuária recuou, enquanto o dos demais componentes do PIB prosseguiram em expansão, resultando em queda na representatividade do segmento na economia dos municípios. O desempenho do segmento agropecuário neste período esteve ligado, em alguns momentos, à menor produção de produtos importantes para a economia agrícola mineira, devido à baixa na produtividade (condições climáticas adversas) e a menores áreas destinadas às culturas, e aos preços agrícolas enfraquecidos.
Em 2020, o movimento de baixa do VAB da agropecuária no estado observado nos anos anteriores se reverteu, com o segmento apresentando crescimento nominal de 51,44% frente a 2019. Apesar de o VAB dos demais segmentos da economia mineira também apresentar avanços nesta mesma comparação, o crescimento em termos relativos foi menor, resultando em ganho expressivo na representatividade do segmento agropecuário na economia dos municípios. Dessa forma, em 2020, 100 municípios mineiros tiveram a agropecuária como principal segmento da sua economia.
Os resultados de 2020 estão atrelados aos recordes de produção e aos maiores preços dos produtos agrícolas produzidos e comercializados no estado. Além disso, os demais segmentos foram afetados em maiores magnitudes pela pandemia de covid-19 e suas medidas restritivas. Como relatado em textos de opinião anteriores, a agropecuária se mostrou resiliente no período de pandemia. Na Figura 2, apresenta-se a distribuição dos municípios mineiros considerando-se o segmento de maior representatividade no VAB total municipal em 2020.
Em linhas gerais, assim como no estado como um todo, a agropecuária tem importância significativa para as economias municipais, e tem se modificado ao longo dos anos, de acordo com o desempenho do segmento. Outros fatores que afetam esta importância de forma expressiva é a evolução dos preços relativos e os desempenhos relativos. Por exemplo, quando os preços são favoráveis à agropecuária, a importância desse segmento tende a aumentar e vice-versa. Quanto ao desempenho, quando o crescimento real (a preços constantes) da agropecuária é maior do que os dos que os demais segmentos da economia, esta importância tente a aumentar e vice-versa.
Vale salientar que o simples fato de ter a agropecuária como atividade principal não significa necessariamente uma agropecuária pujante. Todavia, isso indica uma possível vantagem comparativa em detrimento dos demais setores. A busca por uma agropecuária que produza impactos marginais positivos e crescentes, tanto na economia quanto para a sociedade em geral, perpassa pelo foco nos condicionantes do aumento da produtividade. Somente com investimentos em pesquisa, assistência técnica, crédito rural, políticas setoriais, e apoio ao pequeno produtor, Minas Gerais promoverá o desenvolvimento econômico no campo.

Bovinos / Grãos / Máquinas
Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.
Colunistas
Acordo Mercosul-UE reacende debate sobre competitividade da indústria brasileira
Tratado amplia acesso a mercado que representa 25% do PIB mundial, mas setor alerta para risco de desindustrialização sem reformas internas.

Após duas décadas de negociações, a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é apresentada ao público como uma conquista histórica. Contudo, para quem vive o cotidiano da indústria de transformação, o sentimento é de um alerta urgente combinado a uma expectativa cautelosa: a integração de um mercado que representa 25% do PIB mundial não é uma oportunidade automática; sem a correção das assimetrias competitivas brasileiras, ela é um risco de desindustrialização, mas, se bem conduzida, pode ser o passaporte para o Brasil se tornar um hub global de tecnologia sustentável.
Historicamente, o Brasil optou por um modelo que pune quem produz. Enquanto o fabricante europeu, especialmente na Alemanha e na

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado e Gpoint Studio/Freepik
Itália, opera em um ambiente de juros civilizados, logística de ponta e desoneração completa de investimentos, o industrial brasileiro carrega o “Custo Brasil” como uma âncora. Assinar um tratado de livre comércio nos obriga a fazer a “lição de casa”, ou seja, melhorar nossa competitividade.
O risco central reside na assimetria estrutural. Se o cronograma de redução tarifária avançar mais rápido do que as reformas internas, assistiremos à substituição da produção nacional por bens importados. Todavia, há um lado positivo que não pode ser ignorado: o acordo impõe uma “agenda de eficiência” obrigatória.
O acesso facilitado a componentes e tecnologias de ponta europeias poderá acelerar a modernização do parque fabril brasileiro, reduzindo custos de produção a médio prazo e elevando o padrão de qualidade da nossa engenharia.
Não se trata de temor à concorrência, mas de necessidade de isonomia. A reforma tributária sobre o consumo é um passo fundamental,

Foto: Divulgação
mas sua eficácia depende de uma implementação que garanta o crédito financeiro pleno e imediato. Com a isonomia garantida, o cenário muda de figura. O Brasil tem uma oportunidade ímpar de se destacar na Neoindustrialização Verde.
A indústria brasileira de máquinas já é uma das mais limpas do mundo e, com o selo do acordo, ganha um canal direto para fornecer soluções em energias renováveis, biocombustíveis e hidrogênio verde para uma Europa ávida por descarbonização.
Além do peso fiscal, a disparidade do custo de capital é alarmante. A modernização para a Manufatura 4.0 exige investimentos. Sem uma política de crédito competitiva, a “janela de oportunidade” do acordo será apenas uma vitrine para produtos estrangeiros. Mas, se o Estado Brasileiro oferecer os instrumentos financeiros adequados, o setor de bens de capital pode dar um salto qualitativo, integrando-se definitivamente às cadeias globais de valor e deixando de ser apenas um fornecedor local para ser um player internacional.

Artigo escrito por José Velloso, engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da Abimaq – Foto: Divulgação/Abimaq
O potencial de mercado é vasto. Exportamos atualmente apenas US$ 1 bilhão para a Europa, uma cifra irrisória perto da nossa capacidade. O acesso a esse mercado consumidor de alto poder aquisitivo é a grande promessa positiva deste tratado. Ele pode abrir portas para que a criatividade e a resiliência da engenharia brasileira conquistem nichos de alta tecnologia que antes eram inviabilizados por barreiras burocráticas e tarifárias.
O acordo Mercosul-União Europeia impõe ao Brasil um desafio inadiável. Ele pode ser o motor da nossa integração global, transformando a pressão da concorrência em incentivo para a inovação. A abertura comercial é um instrumento de desenvolvimento, mas o seu êxito depende de arrumarmos a nossa própria casa. Se fizermos o dever de casa, o Brasil não apenas sobreviverá à abertura, mas poderá emergir como um dos grandes fornecedores de soluções tecnológicas para os desafios do século XXI.
Colunistas
Preocupação no agronegócio e no cooperativismo
Redução da jornada sem corte salarial pode elevar custos e afetar competitividade do agro.

A Capital federal e os poderes da República ali instalados aparentam viver completamente desconectados da realidade brasileira. As dores e as mazelas de todos que trabalham e empreendem neste País são solenemente ignorados pelos agentes públicos dos mais altos escalões dos três Poderes.
As deficiências de infraestrutura, a alta (e crescente) carga tributária, o excesso de regulamentação de extensos setores da economia, os encargos da legislação trabalhista, a insegurança jurídica tudo junto e misturado formam um amálgama amargo e intragável chamado “custo-Brasil” que asfixia as empresas e retira a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Em um movimento irresponsável e flagrantemente eleitoreiro, o Governo Federal e o Congresso se preparam para aprovar e promulgar lei federal reduzindo a jornada de trabalho semanal sem a correspondente redução de salários. Sem análise, sem debate, sem estudos, sem pesquisa, Governo e parlamentares miram apenas a conquista de votos para a eleição que se aproxima.
Sem nenhuma preocupação com o País, mas pensando somente na próxima eleição, esse é mais um episódio em que a demagogia supera a racionalidade. A redução da carga horária semanal de trabalho (de 44 para 40 ou 36 horas) sem análise dos seus impactos nas diversas áreas da economia pode, sem exageros, inviabilizar setores sensíveis.
Um deles é o amplo e complexo universo do agronegócio em geral e do setor primário em particular, onde a operação é contínua, incessante, sete dias por semana, 365 dias por ano. Impossível aplicar nesse universo regras de jornada reduzida quando as variáveis são o clima, o ciclo de produção, as safras, o mercado, a sanidade etc. As atividades pecuárias intensivas como a avicultura, a suinocultura e a pecuária leiteira exigem atenção e trabalho todos os dias, várias vezes por dia. O cultivo das lavouras depende do clima.

Artigo escrito por Vanir Zanatta, Presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC).
Em Santa Catarina, o setor tem sua expressão maior no cooperativismo e é caracterizado pela elevada produtividade e pelo baixo desemprego, que ficou em 2,3% no terceiro trimestre de 2025. Ou seja, vivemos em regime de pleno emprego. Estabelecimentos rurais e agroindústrias terão dificuldade em contratar novos trabalhadores, o que tornará um desafio manter as linhas de produção (como granjas e frigoríficos) funcionando.
O aumento dos custos operacionais será inevitável, pois a redução da jornada sem diminuição proporcional do salário aumenta o custo da hora de trabalho, gerando dois efeitos devastadores: perda de competitividade e inflação, em razão do aumento dos preços ao consumidor final. A automatização/robotização de processos produtivos torna-se um caminho paliativo, porém, com custos altíssimos.
Levantamento realizado pela OCESC neste ano revelou que somente nas cooperativas do ramo agropecuário, com a eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, serão necessários mais 11.516 trabalhadores, com uma estimativa de custos adicionais com as novas contratações da ordem de R$ 69 milhões por mês.
A questão dos recursos humanos ocupados nas empresas urbanas e rurais esbarra em um agravante estrutural: a competitividade do trabalhador brasileiro. O ranking global de produtividade do trabalho calculado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), recentemente publicado, revela uma realidade decepcionante para o Brasil. Entre os 184 países avaliados, o País ficou em constrangedor 94º lugar. Perde até para seus pares na América Latina, como Uruguai, Argentina, Chile e Cuba.
Outro detalhe fulminante: os brasileiros trabalham em média 38,9 horas por semana, jornada inferior às de 97 países e territórios integrantes do ranking da OIT. Estão inclusos nesse cálculo os trabalhadores das empresas públicas e privadas e, também, aqueles que vivem na informalidade.
Aliás, informalidade é um fenômeno que pode crescer explosivamente. As entidades empresariais alertam que o aumento do custo formal pode levar a uma migração de postos de trabalho para a informalidade, prejudicando a seguridade do trabalhador rural. Mais sensato do que criar leis que engessam ou asfixiam atividades econômicas seria deixar essa questão para ser decidida por meio de acordos coletivos, em negociações entre empregadores e empregados mediadas pelos seus respectivos representantes, via diálogo entre sindicatos patronais e laborais.
O agronegócio catarinense e, em particular, o cooperativismo entendem que mudanças na jornada de trabalho podem ser pactuadas, porém, com base em estudos técnicos para não gerar carestia, perda de competitividade, quebradeira de empresas e destruição do mercado de trabalho formal.






