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A carga pesada do agronegócio

O frete cobrado tem dado grande prejuízo para toda a cadeia agrícola e pecuária brasileira

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Não é de hoje que a logística brasileira joga contra os interesses de quem trabalha e produz. Refém do modal rodoviário, o país se viu paralisado com a greve dos caminhoneiros deflagrada dia 21 de maio deste ano. No que pese as justas reivindicações desta classe de trabalhadores, as sequelas econômicas deste período e seus desdobramentos vão impactar por muito tempo as contas do agronegócio paranaense. Para compreender melhor este delicado momento da economia, o Departamento Técnico e Econômico (Detec) da FAEP elaborou o estudo: “Efeitos pós-greve dos transportadores e a política de tabelamento de fretes”, que analisa profundamente as consequências econômicas, tanto do tabelamento do frete, quanto da paralisação dos caminhões, nas principais cadeias produtivas do agronegócio paranaense: soja, milho, leite, bovinocultura de corte, suinocultura e avicultura. Em todo o Brasil as sequelas são semelhantes às apresentadas no estudo, divulgado na última semana de junho.

Esta última, além da análise da greve dos caminhoneiros, traz dados sobre os prejuízos decorrentes da operação Carne Fraca, da Polícia Federal; do embargo da União Europeia ao frango brasileiro e das recentes tarifas antidumping estabelecidas pela China. Trata-se de um material de peso, que traz dados inéditos para ajudar a entender de que forma esta dinâmica de preços e custos vai impactar o bolso do produtor rural. Foram ouvidas agroindústrias, cooperativas, transportadoras, traders, cerealistas, o Porto de Paranaguá e produtores de diversas áreas. O material na íntegra você pode acessar na página do Sistema Faep/Senar-PR no menu Serviços. Por conta de sua relevância, o jornal O Presente Rural reproduz matéria completa disponibilizada pela Faep.

Após oito dias de paralisação, o governo federal atendeu uma pauta de reivindicações que incluía, além de redução no preço do óleo diesel, a definição de preços mínimos para os fretes rodoviários. Esta medida foi contemplada através da Resolução nº 5.820/2018 da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), que definiu o tabelamento de preços por quilômetro rodado. A tabela publicada pela agência reguladora trazia inconsistências grotescas em sua metodologia, gerando diversas críticas dos setores que utilizam frete rodoviário.

Foi editada então uma nova tabela através da Resolução nº 5.821/2018, que foi revogada apenas cinco horas depois, voltando a vigorar o estipulado na resolução inicial, contribuindo para o clima de incerteza e insegurança que passou a ser a tônica dominante no setor brasileiro de transportes.

Grãos

Para dimensionar o impacto desta medida, o estudo da Faep comparou os valores do frete no Paraná antes e depois da paralisação e seus desdobramentos. O Detec simulou três fretamentos para o transporte de grãos, saindo de Cascavel, Maringá e Ponta Grossa, com destino ao Porto de Paranaguá. Estes cálculos consideraram um caminhão bitrem de sete eixos, com capacidade de 38 toneladas, e a obrigatoriedade do pagamento do frete de retorno imputada pela ANTT. Também foi considerado o desconto das tarifas de pedágio para os eixos suspensos dos veículos, também previsto na resolução.

O resultado é um aumento de 105% no custo do frete saindo de Cascavel, 99% saindo de Maringá e 51% quando o frete sai de Ponta Grossa, quando aplicada a tabela da ANTT.

As dificuldades para o escoamento da produção de grãos já são sentidas no campo. Segundo o produtor Edilson Gorte, de Ponta Grossa (Campos Gerais), desde que a greve foi deflagrada, muitas operações foram interrompidas pelas tradings, devido às incertezas quanto ao custo

do frete. “Estávamos trabalhando normalmente quando chegou a greve. De lá pra cá não foi comercializado mais nenhum grão, até chegar a nova tabela do frete, eles não vão comprar nada”, diz. “Como eles [as empresas] vão me pagar 80 reais pela saca de soja se eles não sabem quanto o governo vai estipular de frete?” questiona o produtor.

Importante ressaltar que peso do frete na composição do custo de um produto é cumulativo ao longo de toda cadeia produtiva. De acordo com o estudo do Detec, o frete rodoviário corresponde a 67% do custo de exportação da soja e representa cerca de 10% do preço final da oleaginosa. Com o tabelamento, esse percentual passa para 17% (considerando que o contratante terá que arcar com o frete de retorno), minando a competitividade dos produtos paranaenses.

Não bastasse isso, as incertezas relacionadas à manutenção do preço do frete fazem com que muitos produtores, empresas e cerealistas aguardem alguma mudança para fechar negócios. Com isso, os armazéns continuam ocupados pela soja e milho da primeira safra e agora, com a colheita do milho safrinha, pode faltar espaço para estocar os grãos.

Os reflexos nas exportações já são sentidos. De acordo com o estudo, 1,06 milhão de toneladas de soja deixaram de ser embarcadas pelo Porto de Paranaguá nos primeiros dias de junho deste ano, quando comparado ao mesmo período do ano passado.

Leite

Por se tratar de um produto altamente perecível, a cadeia do leite foi bastante prejudicada. Como deixar de ordenhar os animais não é uma opção, estima-se que cerca de 64 milhões de litros tenham sido descartados em todo Paraná. Em oito dias de paralisação, o prejuízo do setor produtivo foi da ordem de R$ 75 milhões. “O prejuízo foi muito grande pela parte do produtor e das industrias, ficamos dez dias sem faturamento”, afirma o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Paraná (Sindileite), Wilson Thiesen.

O tabelamento do frete também é uma preocupação deste setor, que pela própria natureza, percorre grandes distâncias para coletar o produto nas propriedades. “Não concordamos com esta tabela até porque temos o transporte de leite UHT a grande distância, que é um produto que não tem valor agregado significativo. A margem das empresas já é muito estreita e se o frete vir a onerar essa margem, pode se tornar negativa”, avalia.

Avicultura

Na avicultura nacional, acumulam-se aos problemas causados pela greve e o tabelamento de frete os reflexos que ainda são sentidos por causa de operações da Polícia Federal (Carne Fraca e Trapaça) e, mais recentemente, do embargo europeu. Em termos de Brasil, o estudo mostra que nos 13 meses entre abril de 2017 e maio de 2018, em 11 houve redução no volume de carne exportado na comparação com o mesmo mês do ano anterior. No período de janeiro a maio de 2018, ante período equivalente de 2017, houve uma redução de 12,23% na receita. O estudo pondera que esse cenário preocupa, em especial, o Paraná, pois o Estado é o maior produtor nacional de aves, responsável por quase 35% de todo o frango nacional.

Outro fator que preocupa, conforme o levantamento da Faep, é o fato de a empresa BRF ter anunciado férias coletivas para os funcionários dos complexos industriais de Chapecó e Concórdia, em Santa Catarina; e em Serafina Corrêa e Lajeado, no Rio Grande do Sul. No total, 5.600 funcionários foram impactados com a medida. A mesma empresa divulgou ainda que vai fechar sua unidade em Campo Verde, em Mato Grosso, em operação desde 1989.

Sobre o impacto da greve dos caminhoneiros no setor, a indústria ainda levanta os prejuízos causados pela paralisação nas atividades. A expectativa é que mesmo com o fluxo logístico da cadeia restabelecido desde 30 de maio, apenas no início de julho a normalidade tenha retornado à produção de frangos. Esta situação se reflete nas gôndolas dos supermercados. “Distribuidoras consultadas pelo Detec informaram variações na cotação do frango congelado de R$ 3,50/kg antes a até R$ 5,50/kg após o período de paralisação dos transportes (semanas de 14 a 19 de maio e 4 a 9 de junho)”, aponta o estudo.

De acordo com o Detec, esse cenário tem levado ao surgimento de produtores com dificuldades para honrar seus compromissos com financiamentos. Nesse sentido, a Faep se antecipou ao problema e pediu, em ofício encaminhado ao Ministério da Fazenda, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Banco Centro do Brasil e ao BNDES, um aumento no prazo para pagamento dessas dívidas. Outra ferramenta fundamental para esse período de dificuldades, as Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadecs) têm sido de extrema importância, já que constituem o principal canal de diálogo entre os produtores integrados e as agroindústrias.

Sobre a questão do tabelamento do frete, um dos pontos que fez governo e caminhoneiros entrarem em acordo e finalizarem a greve, Guilherme Jonker, vice-presidente da Comissão Técnica de Avicultura da Faep, vê o arranjo com apreensão. “O livre mercado, a lei da oferta e da procura é o que gera o equilíbrio de todas as coisas. E quando se tabela o frete, daqui a pouco tem que tabelar também a soja, o trigo, o milho, todas as coisas. O tabelamento do frete, tecnicamente, não tem nada a ver com a realidade. O que aconteceu é que em vez de diminuírem-se os impostos que a nação cobra sobre o óleo diesel, acabaram impondo um valor fora da realidade e nós é que estamos pagando a conta”, critica.

O setor também é afetado diretamente pelos efeitos da Operação Carne Fraca desde 2017. Mesmo assim, os produtores conseguiram se segurar e manter resultados positivos no ano passado, com a ajuda da redução no preço do milho que tinha sido um fator de dificuldade em 2016. Em 2018, no entanto, a conjuntura indica para aumento na cotação do cereal e estabilidade no preço do suíno, o que pode desestimular a continuidade da produção, como aponta o levantamento da Faep.

Somado a isso, o período de paralisação da greve dos caminhoneiros causou desabastecimento de ração nas granjas. O fato provocou redução no rendimento dos lotes e só não foi maior pelo fato de a suinocultura ter um ciclo longo e com animais mais resistentes. Durante a greve, o varejo chegou a ficar desabastecido pela falta de animais.

Os reflexos são sentidos até agora. No momento, de acordo com o estudo, a situação nas principais cooperativas e integradoras do Paraná é de represamento de animais para abate e acúmulo de leitões para alojamento nas granjas para a normalização.

Sobre o tabelamento dos fretes, a pesquisa aponta que a maior parte da logística é feita de forma terceirizada. Com a indefinição do governo, a prática mais adotada é a manutenção dos valores praticados antes da greve. Mas já há uma sinalização de negociação desses valores assim que houver um posicionamento efetivo das autoridades sobre o tema.

Jacir Dariva, vice-presidente da Comissão Técnica de Suinocultura da Faep, lembra que tudo na suinocultura depende diretamente do transporte e que a dependência logística deixa o setor em uma das situações mais delicadas vividas nos últimos anos. “Hoje os produtores de suínos estão assustados com a questão do transporte dos insumos para as granjas, está subindo muito, pois os distribuidores já estão colocando a diferença do transporte nas entregas de insumos nas granjas. Na verdade, isso vai virar uma reação em cadeia, porque na hora de receber o insumo, o produtor paga a mais, e na hora de vender, recebe menos pelo suíno”, revela.

Dariva diz que, independentemente de ser justa ou não a reivindicação dos caminhoneiros, os suinocultores também amargam prejuízos nos últimos meses e precisam de uma solução para poder manter seus negócios. “Nós não temos mais de onde tirar nada para tentar salvar outros setores. A situação ficou complicada, no início achamos que diesel ia baixar e que ia ficar melhor, diminuir o custo de produção, porque o diesel e o frete impactam diretamente no custo de produção. Mas com esse preço tabelado nas alturas impactou e bastante, nossas contas que já não fechavam antes agora ficaram ainda mais difíceis”, lamenta.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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