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“Não existe mágica no controle da Salmonella, existe controle integrado”

Para pesquisador, redução iminente ao uso de antibióticos vai potencializar a dificuldade em controlar esse patógeno nas granjas

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Nada mais apropriado que uma palestra sobre prevenção da salmonelose na produção avícola. É esse o tema que o doutor em Ciência Animal, Eduardo Muniz, aborda no Seminário online Atualização em Microrganismos Emergentes e Reemergentes em Avicultura, disponibilizado no mês de março na rede mundial de computadores para aperfeiçoamento dos profissionais da cadeia produtiva. Promovido pela Agroqualita, consultoria do agronegócio com sede em Porto Alegre, RS, o evento online já foi visto por centenas de profissionais especializados. Além da palestra de Muniz, conta com extensa programação técnica.

Muniz explica que, em princípio, combater as salmoneloses é de extrema importância para a produção de alimentos e que conhecer bem o microrganismo, o hospedeiro e o ambiente são fundamentais para seu controle. “A agroindústria se sente pisando em ovos, uma vez que Salmonella oferece risco à qualidade do alimento, pois são possíveis causadoras das toxinfecções alimentares, o que representa ameaça ao nome e reputação das indústrias de alimentos. Seu controle é extremamente complexo e depende de um conjunto de ações denominado controle integrado”, pontua. Dados apresentados por ele mostram que a Salmonella é um dos 12 microrganismos que mais matam no mundo (tabela 1). “A Salmonella sempre se encontra entre os primeiros. Em casos extremos, sendo envolvido em óbito de seres humanos”, destaca.

 

MAIS CRÍTICO

A redução iminente ao uso de antibióticos preocupa o pesquisador. Em sua opinião, essa prática vai potencializar a dificuldade em controlar esse patógeno nas granjas. “Para tornar o tema mais crítico, existe uma forte tendência na produção avícola em se reduzir o uso de antimicrobianos para anteder mercado e acompanhar o consumidor. A indústria tem buscado por alternativas ao uso de medicamentos”. De acordo com ele, muito dessa tendência é motivada por estudos que apontam para resistência dos microrganismos aos antimicrobianos. “Existe até transferência de resistência por plasmídeos entre diferentes gêneros de bactérias”, amplia, destacando que um estudo já publicado demonstrou essa transferência de resistência da E. Coli para a Salmonella.

“O tema é bastante polêmico, mas o fato é que a sociedade pressiona para um uso menor, e a indústria está movendo esforços para buscar essas alternativas. Tudo (restrição) tem impacto no controle da Salmonella”, destaca.

 

TRÊS LINHA DE ATAQUE

Para alcançar um desejável controle das salmoneloses, explica Muniz, é preciso “conhecer o agente etiológico, o hospedeiro e a o ambiente e saber as interrelações entre esses três fatores”. “O roteiro apresentado no curso online é uma abordagem lógica dos principais pontos para manejo do microrganismo na agropecuária”, aposta.

 

HOSPEDEIRO

O hospedeiro nada mais é que a ave propriamente dita. Muniz explica que o animal pode receber a Salmonella tanto pela genética, ainda no ovo ou pela casca, quanto de ave para ave, já na granja. “A Salmonella é uma enterobactéria. A transmissão se faz tanto por via vertical, das matrizes para a progênie, ou de forma horizontal, de ave para ave, por contato ou ambiente contaminado, mas com contaminação de forma predominante por via oral – há relatos por via respiratória”, pontua. De acordo com ele, “no ceco, porção distal do trato digestivo, encontra melhores condições de sobrevivência e multiplicação”. “O papo também tem importância grande, pois quando levamos a ave contaminada para o abatedouro, existe de forma indesejável o rompimento de porções do intestino e do papo, com risco de contaminar a carne com a Salmonella”, orienta.

 

AGENTE ETIOLÓGICO

O agente etiológico, ou microrganismo, deve ser o primeiro que o produtor e o técnico precisam entender e conhecer de perto. Atualmente o sorovar mais problemático no Brasil, explica, é a Salmonella Heidelberg, que tem a maior prevalência e é de extrema dificuldade de controle.

“Entre as diversas Salmoenlas há uma enorme diversidade, mais de 2,5 mil sorovares, que possuem comportamentos biológicos diferentes. Esse é um dos fatores de dificuldade para o controle. Neste grupo, temos gêneros, com a Salmonella Gallinarum e Salmonella Pullorum, que causam doenças clínicas para as aves e não têm nenhum impacto para seres humanos. Por outro lado, temos o grupo das salmonelas paratíficas, praticamente são assintomáticas, não causam doença nas aves, mas quando contaminam a carne podem levar a ocorrências de infecções alimentares em humanos”, argumenta.

Ele explica que a Salmonella conseguiu adaptar mecanismo de invasão, uma capacidade de entrar dentro da célula e lá permanecer escondida sem que o hospedeiro consiga destruir o agente por mecanismos imunes. Para ele, esse é “um dos fatores mais importante dentro das dificuldades de controle do microrganismo, que muitas outras bactérias não conseguem, como a E. Coli”. “É o que explica as tentativas frustradas de tentar o controle por meio de antimicrobianos”, pontua. Para o pesquisador, membro do corpo técnico da Zoetis, é mais difícil combater o agente quando ele está escondido dentro da célula. Ainda segundo ele, isso faz com que a ave contaminada permaneça por período longo de forma inaparente, mas basta passar por uma situação de estresse para voltar a excretar a Salmonella no meio ambiente.

 

A MAIS INCÔMODA

Um dos mecanismos já observados pelos pesquisadores é que, quando um sorovar apresenta um aumento por dominância, o outro tem decréscimo, explica Muniz. “Outro aspecto interessante é a alternância de sorovares ao longo do tempo. Ou seja, à medida que há redução de um sorovar existe a emergência de outro sorovar. Assim, o controle de todos os sorovares encontrados na natureza passa a ser utópico. O mais sensato é fixar ferramentas de controle naqueles de maior importância para aves e humanos”, acentua.

De acordo com dados apresentados pelo profissional, a Salmonella que causa mais dor de cabeça no Brasil é a Heidelberg. Alertas rápidos publicados pela União Europeia (UE) até este ano mostram a maior prevalência desse sorovar (tabela 2). Os alertas têm como base as exportações brasileiras para a UE. “Fica claro que na avicultura brasileira é predominante a Salmonella Heidelberg. O grande desafio da avicultura, que tem demandado bastante pesquisa para que a indústria consiga descobrir ferramentas ideais para fazer o controle”, cita.

 

IMUNIDADE

Diferente da ave livre da natureza, a ave industrial não tem contato com a “mãe”, o que exige mais cuidados contra a Salmonella, menciona o palestrante. “Há diferença entre ave industrial e a ave caipira. Na natureza após a eclosão, a ave livre já recebe uma carga muito grande de bactérias da mãe no ninho, nas fezes presentes no ambiente, e de certa forma, essa microbiota participa da proteção do recém nascido. Essa carga, na maioria das vezes, é composta por bactérias benéficas. Já o frango industrial não tem contato com a mãe, pois os ovos férteis vão para o incubatório. Essa ave industrial não recebe a microbiota da progenitora. Justamente por isso é imperativo dentro do controle que as reprodutoras não transfiram a contaminação para a progênie. É o primeiro passo do controle – ter reprodutoras livres (de Salmonella)”, menciona.

Nesse contexto, um bom desenvolvimento da microbiota das aves é fundamental. “As bactérias gram negativas são consideradas ‘personas non gratas’, devem ser excluídas. Sob essa ótica, importante que haja ferramentas para formação de microflora predominantemente gram positivas para ajudar as aves que são criadas em ambiente industrial”, situa.

De acordo com Muniz, existem várias ferramentas e opções para o controle da Salmonella ou para melhorar a resposta imune, mas é preciso usar com parcimônia e, caso haja misturas, devem ser bem estudadas porque o produtor colocando vários aditivos ao mesmo tempo pode, ao invés de estar ajudando o animal, está auxiliando à perda de desempenho ou mesmo gerando antagonismo. Ele destaca durante a palestra alguns estudos com aditivos e resultados que podem embasar o profissional de campo.

 

VACINAS

Uma das ações concretas para o controle da Salmonella é a vacinação, cita Muniz. “É ferramenta importante no controle da Salmonella”. De acordo com ele, estudos demonstram que o uso das vacinas vivas com inativadas promovem melhores resultados para as aves. “Os melhores resultados são obtidos quando associada a vacina viva, que tem efeito de ocupar espaço e estimular a imunidade de mucosa, e a inativa, que tem como efeito a produção de altos níveis de anticorpos, que contribuem na proteção sistêmica da Salmonella”, sugere.

Entre as características que ele cita como determinantes para a vacinação estão “capacidade de reduzir a transmissão vertical para não contaminar a casca do ovo, prevenir contaminação do trato reprodutivo, potencial de proteção cruzada, segurança para aves para que não haja reversão de virulência, não pode interferir no desenvolvimento da ave, de preferência devem ser sensíveis aos antibióticos, praticidade na aplicação massal (spray, água de bebida) e capaz de ser diferenciada da cepa de campo”, aponta.

 

ESTUDOS

Em um estudo, foram usados ácidos orgânicos, prebióticos e probióticos. Muniz conta que o objetivo era entender como essas ferramentas estimulavam o sistema imune das aves. O estudo foi conduzido na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “As aves que receberam ácidos tiveram redução de carga (bacteriana) no papo. Por outro lado, o mesmo não se observou no ceco”, onde a Salmonella mais está presente. Percebemos dificuldades dos ácidos em atingir todas as porções do intestino, em atingir a porção distal”, cita.

O mesmo experimento aconteceu com os probióticos, que se mostraram mais eficientes no ceco, porém menos no papo. “O mesmo delineamento experimental fizemos com probióticos, mas com quatro produtos diferentes. Os probióticos tiveram efeito significativo no ceco (porção distal) e redução de excreção da Salmonella, por outro lado não percebemos os efeitos no papo, o que era até esperado, porque atua mais no intestino e no ceco”, comenta o estudioso.

Também foi observado que “probióticos são capazes de modular a resposta imune, através do recrutamento de linfócitos na mucosa intestinal, tornando o organismo mais eficaz no controle desse patógeno, tornando a ave mais habilitada para responder a esses desafios”, frisa.

Em um terceiro experimento para avaliar a sinergia/antagonismo, uniram ácidos orgânicos com prebióticos e probióticos, versus apenas probióticos. Ao invés de sinergia, perceberam antagonismo. “Não percebemos efeito de sinergia. O probiótico sozinho teve resultado melhor do que a mistura de três produtos. Pode haver um certo antagonismo quando fazemos misturas de diferentes ferramentas. Claro que devem haver associações sinérgicas, porém o trabalho chama atenção para que avalie a relação entre esses diferentes produtos”, orienta. “Os produtos alternativos (aos antibióticos) já são consideradas ferramentas válidas para o controle da saúde intestinal”, afirma.

 

AMBIENTE

O terceiro tripé é o ambiente, argumenta Muniz, que alerta para a falta de controle nesse setor. “Muitas vezes o ambiente é fator subestimado dentro do controle das salmoneloses. O ponto mais crítico é a forma de alta densidade em que são criadas as aves. Essa situação permite que haja rápida disseminação quando o microrganismo atinge o ambiente. Por isso é difícil controlar a Salmonella na avicultura”, pontua.

Ele explica que exatamente por isso essencial é fazer com que o patógeno não chegue à granja. “Por conta desse risco aumentado é fundamental prevenir a chegada do microrganismo no meio ambiente. A disseminação é facilitada de ave para ave”, comenta. De acordo com ele, estudos mostram que poucas aves contaminadas podem contaminar 40% do plantel em 48 horas.

Para ele, biosseguridade deve ser algo feito de forma impecável. “A biosseguridade é um conjunto de medidas para prevenir a entrada de agentes causadores de enfermidade em uma região (granja/propriedade), controlar a disseminação e evitar a saída deste agente da região. Ela depende de investimento em estrutura, educação continuada, muita disciplina para que o que foi planejado seja executado e dedicação por parte das pessoas envolvidas”, sugere.

“Muito se fala na busca da propriedade ideal, mas a grosso modo a biosseguridade está preservada quando se aplica o conceito de área limpa e área suja. Tudo o que está dentro do núcleo passa por controle extremo com vacinação, limpeza, desinfecção, controle de fluxo”, garante.

 

SALMONELLA EXPULSA DA CAMA

Para ele, vários métodos empregados hoje são eficazes. “Existem vários tratamentos adequados para reaproveitamento da cama, como uso de lona, muito eficaz para cascudinhos, uso do cal para alteração do pH e redução da atividade da água, amontoamento da cama, que eleva a temperatura e reduz a contaminação. Todas são alternativas válidas para redução da contaminação ambiental especialmente da cama”

De acordo com o pesquisador, estudos demonstram que os níveis de Salmonella reduzem à medida que a cama de aviário é reutilizada. Isso não descarta o tratamento da cama e sua substituição, de tempo em tempo, porque outros microrganismos se formam no conteúdo. “Quando se faz a reutilização da cama por sucessivos lotes aplicando técnicas, é possível perceber até a redução na contaminação por Salmonella. A Salmonella é uma péssima competidora. A medida que se faz reutilização, outras bactérias competem e excluem as salmonellas das granjas”, cita, apontando outro estudo conduzido na UFPR. “A Salmonella tem dificuldade de competir com outros microrganismos”, reforça.

 

MANEJO INTEGRADO

Muniz sustenta que o manejo integrado depende de conhecer microrganismo, hospedeiro e ambiente, mas é dependente das pessoas. “Atitudes simples, como a higiene das mãos, são atitudes que demandam treinamento e investimento para que haja entendimento de que hábitos simples são importantes para o controle desse microrganismo. Esse é o grande desafio do técnico, do extensionista rural”, sugere Muniz, destacando ainda a necessidade de um controle de pragas. “Vetores, como roedores, aves silvestres, animais domésticos, cascudinhos, desempenham papel primordial na manutenção da Salmonella. Portanto, manejo integrado, que leva em consideração as particularidades da granja, é imprescindível”.

“É importante enxergar de forma holística, olhando o agente e a relação que tem com o hospedeiro, olhando ambiente e as ações necessárias para controle. O controle das salmoneloses depende de uma visão integrada dessa doença, levando em consideração todos esses fatores para termos sucesso. Manejo, vacinação, biossegurança integrada como engrenagem, pessoas com disciplina, iniciativa, protagonismo, estratégia e resiliência são fundamentais para o sucesso do controle integrado. Não existe mágica no controle da Salmonella, existe controle integrado”, acredita o palestrante.

 

Mais informações você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2018 ou online.

 

Eduardo Muniz tem sua palestra no Seminário online Atualização em Microrganismos Emergentes e Reemergentes em Avicultura, disponibilizado no mês de março na rede mundial de computadores para aperfeiçoamento dos profissionais da cadeia produtiva

Fonte: O Presente Rural

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México abre mercados para ovos do Brasil

Maior consumo de ovos autorizou importação para produtos processados

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Divulgação/AENPr

Nas prévias da Semana do Ovo, com produção e consumo recordes no mercado interno, o setor de ovos do país ganhará um novo impulso comercial nos próximos dias. O México, maior consumidor de ovos do mundo, abriu seu mercado para as importações de ovos produzidos no Brasil, conforme informação repassada à Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A autorização foi emitida na última semana pelo Serviço Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade (SENASICA) do Governo Mexicano, e é válida para produtos processados em território brasileiro – um segmento que tem ganhado expressividade no segmento produtivo brasileiro.

Maior consumidor per capita de ovos do mundo, com 378 unidades anuais (no Brasil, o consumo é de 230 unidades), o México importou 20 mil toneladas de ovos em 2019, segundo dados da União Nacional de Avicultores (associação local).

“A abertura do México, conquistada com os esforços da Adidância Agrícola, Ministério da Agricultura e Ministério das Relações Exteriores, e apoiados pela ABPA, é estratégica para o setor produtivo brasileiro, que aposta no fortalecimento do mercado internacional. Não apenas pela força deste mercado, mas pela chancela que esta autorização representa em termos de reconhecimento sanitário. A qualidade e o status sanitário fizeram a diferença para inserirmos nosso produto nesse mercado altamente competitivo, com um produto de maior valor agregado”, avalia Ricardo Santin, presidente da ABPA.

Em 2019, o Brasil exportou 7,6 mil toneladas de ovos. A produção total do país alcançou 49 bilhões de unidades no ano passado, e deve chegar a 53 bilhões em 2020.

Fonte: Assessoria ABPA
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Imunidade materna é indispensável na proteção contra Gumboro

Na hora de elaborar um calendário de vacinação precisamos conhecer sobre tipos de imunidade e como estes atuam frente aos diferentes desafios

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Eva Hunka, MSc em Medicina Veterinária Preventiva e gerente de Negócios Biológicos da Phibro Animal Health

A imunidade materna é crucial na proteção dos primeiros dias do pintinho, e quando falamos em Doença de Gumboro é ainda mais importante, pois mesmo utilizando as vacinas mais precoces, a imunidade ativa contra o IBDV só protegerá o pintinho cerca de 14 dias após a vacinação.

O período entre a queda dos anticorpos maternos e o início da proteção ativa é conhecido como “Janela Imunológica” ou “Janela de vulnerabilidade”, e estreitar ao máximo este período é o principal desafio das vacinas contra a Doença de Gumboro.

Na hora de elaborar um calendário de vacinação precisamos conhecer um pouco sobre os tipos de imunidade e também como estes atuam frente aos diferentes desafios. Este comportamento interfere diretamente na eficiência do programa vacinal. Lembrando que os objetivos da vacinação podem variar de acordo com a aptidão do animal bem como o ciclo de vida desta ave.

A imunidade passiva é aquela adquirida durante a passagem dos anticorpos maternos da galinha reprodutora para o pintinho durante o seu desenvolvimento. É uma imunidade de curta duração, podendo variar de 1 a 3 semanas, de acordo com a quantidade de anticorpos transmitida verticalmente, já que a capacidade de transmissão de anticorpos não é igual.

Para elevar esta taxa de transmissão, a vacinação de reprodutoras é elaborada de modo a elevar e quantidade e a qualidade destes anticorpos, principalmente no caso das doenças que são altamente dependentes destes, como Gumboro, Reovirose e Anemia Infecciosa, por exemplo.

Quando falamos de vacinação de aves de ciclo longo, vale lembrar que tão importante quanto o produto é o processo vacinal. As vacinas, que são utilizadas com o objetivo de elevar o nível de anticorpos que serão transmitidos aos pintinhos, são, via de regra, administradas individualmente pela via intramuscular ou até mesmo subcutânea. Este processo sofre muita interferência humana, e é comum erros como, injeção parcial, local de aplicação ou, até mesmo, aves que recebem a injeção a partir de frascos vazios. Isto provoca uma variação grande na resposta individual, dificultando ainda o gerenciamento destes títulos maternos.

A imunidade passiva interfere no desenvolvimento da imunidade ativa, já que devemos vacinar as aves jovens levando em consideração os diferentes fatores para determinar o melhor momento da aplicação. Estes fatores são: quantidade e velocidade de queda dos níveis de anticorpos, uniformidade do lote, desafio de campo, via de administração e tipo de vacina. Lembrando que a imunidade passiva pode impedir a replicação das vacinas vivas e causar falhas nos programas vacinais.

Existem vacinas no mercado que usam estes anticorpos a seu favor e se adaptam à cinética dos mesmos, atuando de maneira diferenciada em cada indivíduo, diminuindo, assim, a janela de vulnerabilidade imunológica, como é o caso das vacinas de complexo imune e, mais recentemente, algumas vacinas vivas se utilizam dos anticorpos maternos para formar estes complexos naturalmente. Neste último caso, temos uma resposta ainda mais precoce, cerca de 4 dias antes das vacinas de imunocomplexo.

Quando ocorre um desafio de campo ou mesmo quando o animal recebe uma vacina, temos o início da imunidade ativa. Esta promove o desenvolvimento não só de anticorpos, como também da imunidade celular, que irá proteger as aves contra doenças.

Vacinas vivas ou inativadas estimulam uma resposta específica nas aves. Estes agentes possuem proteínas conhecidas como antígenos, que são reconhecidas pelo animal como substâncias estranhas. De uma forma simplista, é neste momento que se inicia a resposta imune, onde os macrófagos trabalham para eliminar o agente do corpo do animal. Estes enviam sinais para que os linfócitos (B e T) se multipliquem e produzam uma resposta específica. Esta resposta está dirigida pelas linfocinas (interleucinas e interferons). No final acontece a produção de anticorpos específicos e a indução da imunidade celular contra este antígeno.

As células de memória têm a capacidade de reconhecer os antígenos e apresentar uma resposta rápida e amplificada, caso a ave seja exposta novamente ao agente. Para algumas enfermidades, a combinação de vacinas vivas e inativadas promove um aumento geral no nível de anticorpos, para outras, o uso de vacinas vivas, que estimulam a produção da imunidade celular e também da imunidade local são mais eficientes.

No caso dos frangos de corte, aves com ciclo de vida muito curto, a precocidade na resposta vacinal é determinante para uma proteção adequada, principalmente quando se trata de proteção contra doença de Gumboro, onde a colonização da Bursa por uma cepa vacinal colabora para a vacinação não apenas da ave, mas para uma imunização do ambiente. Quando optamos por cepas que formam o imunocomplexo natural, podemos nos beneficiar dos anticorpos maternais de maneira eficaz e antecipar a resposta imunológica, e consequente colonização da Bursa em até 4 dias.

Saber administrar os níveis de anticorpos maternos e usar isso na hora de definir os programas vacinais, além de melhorar o desempenho das vacinas, pode trazer diferenciais no controle dos agentes infecciosos a campo.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Glutamina e estimulante natural como reforço extra aos benefícios da suplementação das aves via água de bebida

Devido aos constantes desafios, os esforços devem ser voltados a alcançar melhores índices zootécnicos para elevar a rentabilidade do produtor

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Arquivo/OP Rural

 Artigo escrito por Franciele Lugli, médica veterinária e consultora técnica comercial da Vetscience Bio Solutions

Com o positivo cenário de demanda por carne de frango, o mercado avícola brasileiro deve se pautar cada vez mais de estratégias variadas para tornar sua produção ainda mais competitiva, aproveitando o máximo do potencial genético das aves. A prática de suplementação via água em diferentes fases da produção, principalmente aquelas associadas ao desencadeamento de estresse e adotada em certos manejos podem contribuir para maior uniformização de lotes, melhor conversão alimentar e ganho de peso, além de reduzir perdas por mortalidade.

Situações causadoras de estresse levam as aves à redução no consumo de ração, fazendo da suplementação via água de bebida uma importante aliada para manter a saúde e o desempenho adequado dos animais, uma vez que compensa a menor ingestão, proporcionando um aporte nutricional em momentos de grande necessidade.

Na primeira semana de vida os pintinhos apresentam certas limitações quanto a digestão e absorção de nutrientes, pois estão passando por período de adaptação e desenvolvimento do seu sistema digestivo, em contrapartida, é nesta mesma fase em que ocorre o maior desenvolvimento corporal proporcional da vida do frango, representando cerca de 17% de todo o período de crescimento e podendo influenciar em até 70% o seu resultado final, por isso, os primeiros sete dias de vida representam uma etapa fundamental do ciclo produtivo.

Em geral, o tempo decorrido entre o nascimento e o alojamento dos pintinhos de corte é dependente de múltiplos fatores, como logística de entrega, distância entre o incubatório e a unidade de criação. Esse período em jejum, dependendo do tempo decorrido conduz a condição de estresse, podendo levar a alterações no equilíbrio hidroeletrolítico das aves. Atrasos no acesso inicial à alimentação e água tendem a aumentar a suscetibilidade a patógenos e causar perdas de desempenho, levando a lotes começando com ganhos de peso reduzidos e maiores taxas de mortalidade.

Prática comumente adotada é a suplementação vitamínica via água de bebida, porém suplementos contendo componentes adicionais, como a glutamina e estimulantes naturais podem propiciar um extra aos benefícios do uso desses solúveis.

Glutamina

A glutamina age como precursores de nucleotídeos e de poliaminas, ou mesmo como fonte direta de energia e nitrogênio para a mucosa, tornando-se capaz de interferir diretamente sobre o turnover dos enterócitos e prevenir os efeitos negativos sobre a estrutura do intestino, além de melhorar a resposta imune, visto que o mesmo atua na manutenção da barreira epitelial contra ataques de bactérias, aumentando a resistência frente a instalação de patógenos, além de promover a maturidade e integridade da microflora intestinal associada ao sistema imunológico, o que pode diminuir o percentual de mortalidade e reduzir a chance de infecções. A glutamina via água tem uma função positiva no comprimento das vilosidades, estando positivamente associada a uma maior absorção, devido ao aumento da área de superfície. Estudos recentes mostraram que suplementação com glutamina por meio de água potável tem potencial para modular o desempenho do crescimento das aves e otimizar os resultados futuros, até mesmo sob condições de densidades mais elevadas, acreditando-se que tal resultado se deve a melhor acessibilidade dos pintinhos à glutamina via água.

Estimulante natural

O inositol é um estimulante natural que atua em sinalizadores celulares e mensageiros secundários, estimulando o sistema nervoso central. Essa substância tem participação importante em vários processos biológicos, como manutenção do potencial de membranas das células, modulador da atividade da insulina, controle da concentração intracelular do íon Ca2+. Na primeira água de bebida após a chegada ao aviário, alivia os efeitos adversos sofridos após a eclosão, pois os pintinhos ao ingerirem essa água suplementada terão uma maior sensação de bem-estar, e se sentindo bem, irão tomar mais água e, consequentemente, comer mais, sendo extremamente importante para seu crescimento adequado, uma vez que, quanto mais cedo ocorrer a adaptação à ingestão de alimento, mais cedo ocorrerá o estímulo para sua passagem pelo trato digestivo, acelerando o desenvolvimento dos mecanismos de digestão e absorção, levando a um desempenho mais acelerado que eventualmente será mantido ao longo da vida da ave. Desta forma, este componente na água de bebida tende a contribuir de forma mais acentuada para o restabelecimento do status fisiológico ideal dos pintinhos quando este estiver alterado por situação de estresse, fazendo com que consigam competir por igual, diminuindo a refugagem dos lotes.

Aplicabilidades de uso

Além do uso na primeira semana de alojamento, direcionar a suplementação da água para outras situações de estresse das aves com a finalidade de reduzir as perdas se torna uma estratégia que demanda baixos investimentos, mas que pode ser de fundamental importância para manter o negócio competitivo. Uma decisão acertada pode ser decisiva para melhorar a saúde do plantel e ter lotes menos desuniformes. Outras aplicabilidades do uso de suplementos na água são a sua utilização nas trocas de rações, a fim de evitar que ocorram quedas no consumo e quaisquer outras situações estressantes para as aves, como manejos de vacinação, de debicagem, períodos com temperaturas extremas (frio ou calor).

Também na fase final, durante o transporte para a unidade de abate, uma vez que nesse período de pré-abate as aves passam por jejum alimentar, o que desencadeia alto estresse, podendo resultar em taxas de mortalidades elevadas durante a transferência, gerando prejuízos significativos para a cadeia produtiva. Neste caso, a água de bebida suplementada irá proporcionar aumento do nível de saciedade nas aves, devido ao aporte extra de nutrientes nessa ocasião de restrição de consumo de alimento sólido, minimizando o estresse do transporte e perdas por mortalidade.

Devido aos constantes desafios, os esforços devem ser voltados a alcançar melhores índices zootécnicos para elevar a rentabilidade do produtor. Qualquer estresse sofrido pelas aves leva a um aumento na demanda por vitaminas e outros nutrientes e, nestes casos, é comum que reduzam o consumo de ração, porém não deixam de beber água. Por isso, utilizar na água de bebida um suplemento que forneça essa reposição se torna uma maneira vantajosa de prevenir carências e, consequentemente, perdas de desempenho. Com manejo adequado e uma estratégia bem planejada se torna possível a maximização da produtividade com a adoção de medidas simples, como a suplementação via água de bebida.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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