Sanidade - 06.11.2017

Uma bactéria, dois problemas

Uma bactéria que causa dois problemas distintos, muitas vezes até confundidos por profissionais do setor

- Arquivo/OP Rural

 -

Quando se fala em Salmonella logo o consumidor brasileiro pensa em ovos e carne de frango. Essa bactéria, que pode causar prejuízos para o produtor e contaminação em seres humanos, é encontrada também na produção de suínos, terceiro maior transmissor de salmonelose para os consumidores. Embora a salmonelose clínica, que deixa os animais com sinais evidentes da contaminação, é rara nos rebanhos tecnificados do Brasil, recentes surtos colocaram o setor em alerta. Por outro lado, os suínos se infectam com uma variedade de sorovares, que não causam prejuízos zootécnicos, mas podem ser importantes fontes de contaminação para os produtos finais. Uma bactéria que causa dois problemas distintos, muitas vezes até confundidos por profissionais do setor.

Diante disso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) deve publicar nos próximos meses uma nova legislação a ser seguida pelo setor produtivo, da granja à indústria, que visa reduzir a carga microbiana na suinocultura. O objetivo é garantir produtos de alta qualidade para o consumidor, preservando e ampliando os mercados interno e externo dessa proteína. A nova lei, que deve entrar em vigor entre o fim deste ano e o início de 2018, deve ter parâmetros parecidos com o que grandes frigoríficos já adotam hoje, por meio de uma instrução normativa que orienta os padrões sanitários da suinocultura brasileira. A diferença é que a orientação passará a ser obrigação.

Para elaborar a nova legislação, que deve passar por consulta pública, o Mapa criou uma Comissão com profissionais diretamente envolvidos com o setor. O Presente Rural conversou com a pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, médica-veterinária doutora em Ciências Veterinárias, Jalusa Deon Kich, que integra essa Comissão de trabalho. A especialista alerta para alguns surtos recentes de salmonelose clínica no Brasil, mas demonstra maior preocupação com a necessidade em reduzir a contaminação por sorovares que causam a salmonelose alimentar. “São sorovares que não impactam nos animais, mas não deveriam estar no alimento. É uma questão de saúde pública, mas também diretamente ligada à manutenção e abertura de mercados”, sustenta a pesquisadora.

Diagnóstico

Kich, uma das editoras técnicas do mais recente estudo da Embrapa sobre a Salmonela na suinocultura, explica que a dificuldade em diagnosticar a salmonelose de importância para os seres humanos é um dos fatores que contribui para a proliferação dessa bactéria. “Observamos profissionais que não diferem a salmonelose clínica da salmonelose alimentar na suinocultura”, expõe.

Apesar ser difícil de ser erradicada, a nova legislação vai criar parâmetros para reduzir a carga bacteriana de salmonela e outros microorganismos. De acordo com a doutora Kich, medidas de biosseguridade, melhorias no transporte dos animais e no abate são decisivas para mitigar os riscos de contaminação.

Mercados

Apesar de ser mais comum - e mais combatida, na opinião de Kich - na cadeia avícola, a salmonelose alimentar também está presente na suinocultura. De acordo com a pesquisadora, a carne suína é a terceira maior fonte de contaminação. “O mercado de aves é mais exigente sobre salmonelose do que a suinocultura, tanto porque é mais problemático, pois têm questões ligadas ao próprio sistema de abate, transmissão transovárica, entre outros fatores. Por isso quando se fala em salmonela o consumidor cria um receio, por exemplo, de comer ovo cru. Nos surtos de salmonelose humana, a Enteritidis é a que mais acontece, mas ela não aparece só na avicultura. Em primeiro vem o ovo de mesa, depois a carne de frango e em terceiro a carne suína”, aponta.

Segundo a pesquisadora, reduzir a carga dessa bactéria é fundamental para manter e acessar mercados. “Toda questão do comércio de carnes com maior inocuidade tem a ver com a manutenção e abertura de mercados. Se a suinocultura quer acessar novos mercados, não adianta ter apenas um suíno barato, é preciso garantir a inocuidade dos produtos”, entende. “A suinocultura brasileira tem sua venda concentrada em poucos países, mas está entrando em novos mercados. Para amparar isso Mapa está discutindo o programa de redução de patógenos, que inclui a Salmonella”, cita.

De acordo com ela, a nova lei deve seguir as rotinas já encontradas entre os maiores produtores. “Os grandes frigoríficos já têm uma normativa que dita métodos para fazer o controle de Salmonella na carcaça, mas trata-se de orientação e não legislação. Esses grandes frigoríficos já têm sua rotina de amostragem. O fato novo é a iminente legislação, que deve ser publicada neste ano no começo de 2018, depois de passar por consulta pública”, diz. Conforme a normativa de hoje, a Salmonella pode ser encontrada em no máximo cinco de 50 carcaças avaliadas. A nova lei deve seguir os parâmetros da normativa.

Surtos

De acordo com a doutora Kich, além dos problemas de sorovares que podem provocar a salmonelose alimentar, a suinocultura brasileira voltou a notificar mais casos ewm 2016. No ano passado, um surto atingiu várias granjas dos principais estados produtores, nas regiões Sul e Centro-Oeste.

“A partir de 2011, e com um número bastante alto em 2016, tivemos surtos de salmonelose clínica (septicemia). Notamos que principal sorovar causador é a Cólera sui, bastante generalizada, mas também encontramos a Salmonella typhimurium. O problema ocorreu em várias regiões, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais. De forma geral, no ano passado a Salmonella apareceu nas regiões Sul e Centro-oeste”, comenta a pesquisadora.

De acordo com ela, “muitas vezes a salmonelose clínica é confundida com alguma doença que provoca diarreia e acaba sendo subnotificada”, pontua. “Muitos profissionais encontram dificuldades em fechar diagnóstico de contaminação por Salmonella typhimurim. O plantel acabava entrando no rol de diarreia de crescimento e terminação”, comenta.

De acordo com a pesquisadora, no Brasil também “aumentou o desafio para a Cólera suis”, outro sorovar que causa a doença clínica nos planteis. De acordo com ela, esse tipo de aumento pode ter relação com a desatenção, já que os sintomas nos animais são nítidos. “Aumentou o desafio para a Cólera suis, que provoca sintomas claros, como animal vermelho e febril. Esse aumento é evidente e grave. Acho até difícil acreditar que veterinários não souberam enxergar esse avanço”, comenta.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de outubro/novembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

Farmácia na Fazenda

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.

Farmácia na Fazenda