Produtividade - 24.07.2017

Trabalhar com metas de mortalidade reduz prejuízos no pré-abate

Erros de manejo ainda são muito cometidos no pré-abate, o que aumenta o número de perdas e condenações de aves

- Arquivo/OP Rural

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Entregar um alimento de qualidade e que atenda às exigências do mercado ao consumidor final em alguns casos ainda é um desafio para as empresas brasileiras. Passando por vários processos, erros de manejo e outros descuidos no decorrer do procedimento de abate podem ser cruciais para que a carne que chega à gondola do supermercado seja exatamente aquela que o consumidor espera. Para explicar um pouco sobre todo este processo Rafael Belintani, especialista de Qualidade da BRF de Jundiaí, SP, falou sobre manejo pré-abate e perdas e condenações no frigorífico durante a Conferência Facta, que aconteceu em maio, em Campinas, SP. Usar metas com as equipes, nessa etapa, na opinião do profissional, ajuda a reduzir os problemas e prejuízos.

Belintani comenta que o trabalho começa na apanha das aves para levar ao frigorífico. “É um dos serviços mais injustos e difícil de fazer”, comenta. Porém, mesmo difícil é um serviço bastante importante, já que se não for feito de forma correta os prejuízos nesta etapa são enormes. “O trabalho que fazemos é o cerco das aves com gaiolas e então colocamos, de duas em duas, pelo dorso. Fazemos desta forma pensando no bem estar animal”, comenta. O especialista conta que neste momento a ave está no pico de estresse, isso porque o profissional está retirando a ave de um local calmo e tranquilo e transferindo para outro. “Por isso, quando for colocar as caixas com as aves dentro do caminhão é importante que seja um local com sombra, além de calmo e tranquilo para não haver mais prejuízos”, afirma.

A média, de acordo com ele, é que sejam colocadas nove aves por gaiolas. É importante ainda minimizar a luminosidade e ajustar a ventilação, para evitar estresse por calor. “São dicas básicas e tranquilas do que pode ser feito”, argumenta. Porém, mesmo com estas dicas, o profissional comenta que a ampla maioria das empresas que trabalham com o sistema de integração tem este serviço terceirizado, o que pode dificultar um pouco as coisas. “Nós entendemos que a única forma de cobrar este bem estar do nosso terceiro é levantando informações que comprovem que os profissionais tenham responsabilidade. Nós fazemos isso trabalhando muito com metas”, diz. Entre as consequências da apanha errada estão asas quebradas e hematomas no frango, o que poderia colocar a marca da empresa em xeque.

Transporte

Outro detalhe que deve ser observado para evitar perdas no resultado final é o transporte do animal do aviário até o frigorífico. Belintani diz que a temperatura do caminhão é um detalhe que o motorista deve se preocupar. “A parte superior e o meio do caminhão são as mais quentes, porque tem bloqueio de vento e são locais que superaquecem”, afirma. Outro problema citado é que a carga e descarga, normalmente feita pela parte de trás do veículo e não pelo lado, no cenário ideal. “Assim, aquele animal que foi o primeiro a entrar é o último a sair”, diz.

Ainda citando a temperatura, como um dos detalhes mais problemáticos, o profissional comenta que o espaçamento entre as gaiolas dentro do caminhão é uma solução para minimizar o problema. “Isso reduz a mortalidade no transporte”, afirma. Belintani comenta que é possível, com um bom planejamento e manejo, fazer um transporte longo sem muitas perdas. “É possível transportar um frango por 400 quilômetros e ter uma mortalidade menor. Algumas dicas são o motorista parar a cada 80 km, molhar, andar em uma velocidade padrão, parar na sombra, transportar durante a madruga se possível. A distância nem sempre é o problema”, diz.

Em uma comparação feita e apresentada pelo profissional, em um dia de transporte com uma temperatura a 18° Celsius e o caminhão andando em uma velocidade de 72 km/h a sensação térmica da ave que está sendo transportada é de 5°C. “Nós tiramos o animal do aviário, onde ele tem uma temperatura controlada, para colocar em um caminhão com esta sensação térmica. Existem condições que o motorista pode minimizar esta situação, baixando as cortinas, colocando uma lona na frente para proteger o animal no momento do transporte”, conta. De acordo com ele, geralmente o transporte dos animais também é um trabalho terceirizado pelas empresas. “Como resolver? Colocando metas de mortalidade também nesta etapa”, afirma.

No Frigorífico

Depois do transporte, o animal chega ao frigorífico e fica na sala de espera. “Deve haver este momento de espera antes do abate para baixar os níveis de estresse da ave. Mas deve ser o menor tempo possível”, conta. O local para isso, de acordo com Belintani, deve ser aberto, com sombra e ventilação de ventilador ou exaustores. Além disso, o controle da temperatura e umidade também é fundamental. “Não existe bem estar animal sem gestão de informação”, afirma. O profissional diz que não se gerencia o que não se mede. “É o básico da administração do processo de abate para a produção de frango”, comenta.

Este tempo de espera, segundo ele, deve ser de menos de uma hora. “Mas é um tempo que deve ser respeitado”, afirma. Além disso, ainda é importante haver organização, sendo que, no abatedouro, o lote que chegou primeiro saia primeiro. “Damos este tempo para haver uma calmaria e baixar o nível de estresse. Não é igual a um aviário, mas é uma condição boa dentro do galpão de espera”, conta.

Após a espera os animais vão para a recepção. “É um momento antes da pendura, poucas empresas dão o devido valor a essa área”, comenta o profissional. Ainda nessa área é preciso ter muitos cuidados. Belintani conta que algumas vezes são vistos desníveis na plataforma, o que faz com que a gaiola que está vindo com os animais bata, gerando, mais uma vez, grande estresse nas aves. Outro problema visto são as gaiolas sem tampas, que de acordo com o profissional é um problema crônico nos frigoríficos. “Aqui é um trabalho em que pode acontecer do animal prensar a asa ou mesmo o corpo inteiro, ou ficar preso entre duas caixas. Tudo isso porque não tem tampa”, conta. Ele comenta que uma solução, e que já é usada por muitas empresas, é um desempilhador automático de gaiolas de frango vivo. “Isso reduz a mão de obra, aumenta o bem estar dos animais, porque vai soltando conforme a necessidade. Sem contar que a retirada das gaiolas é menos agressiva”, afirma.

Outra alternativa que pode ser utilizada neste momento é a luz azul. “É extremamente eficiente e acalma os animais. Este é o momento do segundo maior pico extremo de estresse da ave. Dessa forma, você coloca o animal em um ambiente propício e tem ganhos com isso, com menos números negativos”, conta. Outro ponto que deve haver cuidado é na pendura das aves, se atentando para que sejam colocadas de forma correta as duas pernas. “É importante após pendurar, segurar o peito e fazer com que o frango encoste no aparador de peito para se acalmar, porque neste momento ele tende a abrir as asas. A tendência de que o animal tenha uma asa quebrada ou algum hematoma é muito grande”, defende. Belintani afirma que o manejo errado gera consequências.

O momento da insensibilização é também importante antes do abate, merecendo o cuidado e atenção necessários, afirma o profissional. Ele conta que a BRF contém um insensibilizador a gás, o primeiro do Brasil. “Ainda estamos engatinhando neste tipo de insensibilização. Este é um equipamento caro e complexo, tanto que só há dois deles na América do Sul, um no Brasil e outro no Chile”, conta. Ele explica que pelos resultados prévios que a empresa já teve utilizando este tipo de insensibilização, 90% das aves não tiveram nenhum tipo de hematoma. “Para quem produz para a Europa, como nós, este é o caminho”, afirma.

O profissional comenta que é importante que os envolvidos na cadeia de produção de aves façam um trabalho correto e bom manejo para minimizar as condenações, desde o aviário até o abatedouro. Em um trabalho exibido por ele durante a apresentação, dados coletados de 2006 a 2008, 4,53% das condenações acontecem por contaminação. “Isso vem basicamente de duas origens: manejo jejum pré-abate que não é eficiente, alinhado à dispersão de lote que não é adequada, assim como a regulagem do equipamento”, diz. Ele ainda informa que contaminação representa 1,8% das taxas de contaminação no frigorífico. O profissional diz que os motivos de contaminação são principalmente papo cheio, problema fecal e biliar.

Belintani afirma que o que os profissionais que trabalham na área desejam são selos de qualidade, de bem estar animal, promover produtos com algum tipo de certificação, vender para um cliente diferenciado. “Para isso, devemos buscar otimizar os processos para minimizar os impactos”, afirma. Ele diz que para obter este tipo de certificação não é admissível que os erros citados ainda sejam cometidos no processo. “Buscamos selo de qualidade comprovada. Mas o que ainda vemos é que queremos resultados diferentes fazendo as mesmas coisas; é preciso mudar isso”, finaliza.

Mais informações você encontra na edição de Aves de junho/julho ou online.

Fonte: O Presente Rural

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