Nutrição - 14.09.2017

Suplementação múltipla na dieta reduz pela metade idade de abate

Trabalhando com estratégias suplementares para alcançar ganhos elevados, Universidade pesquisa suplementação que diminui para 18 meses a idade de abate, metade da média nacional, segundo estudo

- Francine Trento/OP Rural

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Produzir mais em menos tempo. Esse é o objetivo dos pecuaristas de todo o mundo. E adotar tecnologias ou formas de manejo que permitam isso faz com que a atividade cresça e mais produtores passem a apostar no gado de corte. Alunos e professores da Universidade Estadual Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon, têm trabalhado para criar novilhos que estejam prontos mais novos para o abate. Com uma unidade experimental no município de Entre Rios do Oeste, os pesquisadores estão agora no segundo lote da produção destes novilhos precoces em pastagem. De acordo com a média nacional, o tempo de abate cai pela metade, segundo os estudiosos.

O professor doutor da Unioeste, zootecnista Eriton Valente, que coordena o projeto, explica que a questão do precoce está relacionada à idade em que o animal vai ser abatido. “Embora isso não haja um consenso, até que idade é precoce, temos aqui que o nosso objetivo é que os animais atinjam o abate em torno dos 18 meses”, explica. Para ele, isso já é uma evolução muito grande, considerando que hoje a média de abate do Brasil é de 36 meses. “Conseguimos reduzir bastante esse tempo”, afirma.

Valente comenta que a produção de animais precoces é o objetivo de diversos produtores, que buscam maior rentabilidade na propriedade, produzir mais na mesma área, ter rotatividade, conseguir que o investimento retorne mais cedo, além de oferecer ao consumidor final uma carne de melhor qualidade. “O principal fator relacionado à qualidade da carne é a idade de abate do animal. Então, conseguir fazer com que ele seja abatido mais jovem vai produzir uma carne de melhor qualidade, principalmente em termos de maciez, que é uma das características que o produtor mais deseja”, conta.

Pastagem

Para alcançar esse objetivo, o professor explica que é necessária uma série de manejos que devem ser realizada pelo pecuarista. “E todos devem estar relacionados a um bom planejamento, porque esses manejos estão relacionados a uma preparação prévia. Começando desde a pastagem, que embora o objetivo final é a produção animal, se não tivermos uma idealização, todo um projeto de como vamos desenvolver ao longo da vida deste animal, atuar sobre a produção de alimento dele, não vamos conseguir essa resposta final”, antecipa.

O professor explica que o que é preconizado na unidade experimental para que esta produção precoce dê certo são os cuidados em relação ao manejo de pastagem. “Estamos em uma região de solo bastante fértil, mas temos que tomar cuidado para que isso realmente se reflita em uma maior produção de pastagem, que vai ser, consequentemente, de alimento do animal. É bem comum a gente ver propriedades em que este manejo acaba sendo deficiente”, comenta. Para Valente, esse manejo exige bastante cuidado com a maneira de trabalhar em determinadas épocas do ano. “No verão temos que ter cuidados diferentes do que temos no inverno. No verão temos condições mais favoráveis para o crescimento da planta, então ela vai produzir muito mais. Mas, se eu quero produzir um animal jovem eu não posso pensar somente em produzir quantidade, mas também preciso pensar em produzir qualidade”, diz.

O professor comenta que dessa forma será feito o manejo dessa pastagem para que ela tenha o máximo de qualidade possível no verão. “Então, eu não posso deixar, por exemplo, ela crescer demais. Porque quando chega o inverno a situação é diferente, e o grande desafio é ter alimento disponível. E para conseguir este alimento também tenho que ter trabalhado ainda no verão”, conta. Ele afirma que dessa forma, em determinadas épocas do verão é preciso preconizar uma maneira de deixar uma reserva de alimento para estes animais. E nesse sentido, Valente diz que é preciso ainda tomar cuidado para que este alimento que vai ser utilizado no inverno não tenho baixa qualidade. “Embora não será a mesma (qualidade do alimento) do verão, não podemos deixar cair muito”, argumenta.

Para alcançar estes resultados, o professor comenta que utiliza algumas estratégias para que o animal venha a ter uma quantidade de alimento adequada no período de inverno. “É muito comum que esta qualidade mínima ainda não seja o suficiente para manter esses animais com taxas mais elevadas. E é o que nós trabalhamos aqui, utilizando estratégias suplementares, buscando ganhos elevados”, explica. Valente conta que na unidade experimental é trabalhado com os animais uma linha chamada de suplementação múltipla. “Então, tentamos, seja no verão ou inverno, além de conseguir explorar ao máximo a pastagem, tentar ainda trabalhar a dieta para que esse ganho dos animais ainda seja mais elevado”, conta.

O professor conta que trabalham então com a suplementação mineral e energética proteica para os animais. “Esses tipos de suplementação juntas é o que chamamos de suplementação múltipla. Então, conseguimos corrigir o desbalanço de pasto, deficiências e também complementar a dieta. Com isso, conseguimos manter ganhos elevado o ano inteiro”, afirma.

Produção

Este é o segundo ano em que a Universidade está fazendo as pesquisas com este tipo de manejo e suplementação para conseguir alcançar os resultados esperados na unidade experimental. O primeiro lote feito, que produziu de outubro de 2016 a abril de 2017, foi trabalhado com animais nelore. Eram 26 animais, que renderam uma produção em torno de mil quilos por hectare, de ganho por animal. “Medimos somente eles vivos, no abate perde um pouco deste valor”, explica Valente.

Neste segundo lote, a produção é com 36 animais do cruzamento de nelore com angus. “Optamos por esta raça pelo fato desse cruzamento ter um potencial genético um pouco maior”, justifica o professor. De acordo com ele, o que a Universidade busca é conseguir animais que tenham potencial de ganho maior para que seja possível trabalhar, do ponto de vista nutricional, atingindo metas ainda maiores. “No lote anterior já conseguimos ganhos bastante elevados, mesmo sendo nosso primeiro ano de funcionamento. E com este segundo lote iniciamos com genética melhor e ainda tentando explorar de forma ainda melhor o pasto para conseguir ganhos ainda maiores”, comenta.

Adubação e Manejo

Porém, Valente comenta que a quantidade de animais em que o produtor pode trabalhar nesta forma de manejo vai depender de quanto ele está disposto a investir, principalmente em termos de adubação. “Eu consigo aumentar a produção do pasto por manejo, mas também por adubação e mais ainda se fizer os dois de maneira adequada. Somente com manejo correto eu consigo aumentar, e muito, a minha produção. Se associo o uso de alguns adubos ainda consigo aumentar mais. Ajustando os dois, tenho um aumento muito grande”, afirma.

O professor conta que também passarão a trabalhar, para garantir melhor ganhos, com o sistema de pastejo rotacionado, sendo um pouco mais intensivo. “Antes trabalhávamos com sistema de pastejo em lotação contínua, que era manter os animais sempre na mesma área. Agora vamos trabalhar com ele mudando de área, no sistema de pastejo rotacionado. Somente por fazer isso, já vamos conseguir aumentar bastante a nossa capacidade produtiva”, conta.

Pesquisas

Para cuidar desta produção e manejo há um técnico da Universidade. Porém, a parte da pesquisa é feita por alunos da graduação e, principalmente, pós-graduação, de mestrado e doutorado. “Conduzimos toda a área que trabalhamos com pesquisa. Temos vários grupos, áreas divididas em diversas subáreas, para que possamos fazer diferentes testes”, explica. O professor ainda acrescenta que, atualmente, o principal ponto de pesquisa é na área de suplementação múltipla, porque o objetivo da unidade experimental é acelerar o ganho de peso do animal e, consequentemente, a produtividade dele em todas as épocas do ano, não somente nas mais favoráveis. “Somente assim vamos conseguir que o animal seja abatido jovem. Não podemos nos dar ao luxo de aceitar ganhos mais elevados quando a época é mais favorável, e em um período menos favorável o animal ter ganhos mais baixos ou perda de peso”, argumenta Valente.

O professor expõe que se pensar, por exemplo, no local em que se encontra a unidade experimental, que possui um solo muito fértil e terras valorizadas, a única maneira de competir com outras atividades, conseguindo uma boa remuneração, é fazendo uma pecuária de forma bastante produtiva, utilizando tecnologias que estão disponíveis e sistemas de produção de pastagens para então conseguir ter índices de produtividade altos e, assim, ter também uma rentabilidade interessante.

Bem-Estar Animal

Outra preocupação para alcançar uma produção precoce e com bons rendimento, Valente explica que existe a preocupação com o manejo dos animais, para que seja feito, principalmente, com bem-estar animal. “O manejo que fazemos é para otimizar a mão de obra, mas também nos preocupamos, porque o Brasil é bastante cobrado para isso, com o mínimo estresse do animal, e assim conseguirmos alcançar o bem-estar”, conta o professor. Valente ainda argumenta que uma parte, muitas vezes complicada, é levar o animal até o curral, seja para aplicação de vacina ou controle de parasitas. “Quando esse manejo é feito, é interessante termos estrutura onde este animal não sofra tanto estresse e tenha baixo risco de acidentes e lesões. Por isso, é importante termos estruturas de currais condizentes. E nós investimos numa estrutura anti-estresse”, conta.

A importância de se preocupar com esta questão é por conta do produtor entender que esse sistema também traz resposta em retorno para ele. “Não somente minimiza o estresse do animal, que já é um ganho importante, mas este animal menos estressado, onde o rebanho de forma geral tenha risco menor de estresse, reflete em uma produção maior”, explica Valente. Dessa forma, a produção mais elevada compensa o investimento que o produtor fará para ter um curral que garanta o bem-estar dos seus animais. “Um manejo mal feito traz riscos de acidentes, tanto para os animais quanto para os funcionários. E mesmo que acidentes não aconteçam, um animal estressado vai ficar por vários dias sem se alimentar adequadamente, vai ganhar menos peso e trazer prejuízos ao produtor”, comenta.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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