Tecnologia - 14.12.2017

Suinocultura top manda boas notícias de Brasília

Granja Miunça, no Distrito Federal, completa 30 anos como uma das mais modernas e exemplares fazendas suinícolas do Brasil

- Divulgação/Granja Miunça

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Era 6 de setembro de 1987. A Assembleia Constituinte liderada por Ulysses Guimarães estava criando a nova Constituição brasileira, enquanto o jovem presidente José Sarney se preparava para o desfile cívico programado para o dia seguinte. O Brasil vivia uma crise econômica e a inflação deteriorava o salário do trabalhador. Em meio a esse cenário turbulento, em 6 de setembro de 1987 uma porca paria seus primeiros filhotes, e o Distrito Federal via nascer o que, 30 anos mais tarde, se tornaria uma das mais modernas e exemplares granjas suinícolas do Brasil. Só mesmo o agronegócio para trazer boas notícias de Brasília.

Uma palavra define essas três décadas de história: tecnologia. O produtor Rubens Valentini usou todo seu conhecimento de engenheiro agrônomo PhD e professor da Universidade de São Paulo (USP) para conceber a Granja Miunça, uma das mais eficientes do Brasil. Foi precursor no país ao usar sistemas eletrônicos de alimentação em baias de gestação coletiva, em 2010.

“Completei trinta anos de suinocultura. O primeiro parto foi em 6 de setembro de 1987. São muitos anos, muitas fases diferentes. Acompanhei a tecnologia da suinocultura até onde foi possível, com variações de manejo, coisas que viraram moda, depois caíram de moda, depois vieram outra vez. É uma vida muito rica nessa atividade”, conta o produtor. “Eu sempre gostei muito de tecnologia porque eu acredito que acompanhar o desenvolvimento da tecnologia é uma forma de garantir a sustentabilidade econômica do negócio. Se você entra em um negócio e se amarra em uma tecnologia que fica pra trás, você acaba tendo menos produtividade do que aqueles que entraram depois ou se atualizaram. A atualização foi algo que sempre me atraiu muito e faço isso até hoje”, conta Valentini.

Pioneirismo

Em 2010, parte das quatro mil fêmeas suínas deixou as gaiolas para passar o período de gestação em baias coletivas. O modelo na época inédito no Brasil garante bem-estar às porcas, que podem expressar seus comportamentos naturais e mantém ou até melhoram os índices de produtividade. “Sempre acreditei que a gestação coletiva fosse a melhor alternativa. Havia muito medo de abortos, mas de fato o sistema se mostrou eficiente, mantendo ou até melhorando os índices de produtividade das porcas.

Hoje, de acordo com Valentini, a média é de 32 leitões/porca/ano, mas ele garante que os leitões deixam a creche com mais qualidade de carcaça e peso. “Não adianta você só observar o número de desmamados por fêmea, tem que analisar o peso desmamado. E nisso a nossa granja é muito eficiente”, pontua. “Eu introduzi a gestação coletiva com controle eletrônico de alimentação no Brasil. Sempre achei que seria melhor em diversas frentes. Não seria pior em índices de produtividade, o que de fato se comprovou com uma pesquisa feita na granja, e traz uma série de outras possibilidades que você não consegue com a alimentação convencional, como o controle individual da nutrição do animal e o acompanhamento das necessidades dele ao longo do período de gestação, importantes para uma boa leitegada, seja em número, peso ou qualidade dos leitões”, amplia.

Por isso, “seguimos a nutrição para cada porca, com os requerimentos nutricionais diferentes nas fases inicial, intermediária e final da gestação. “Nós podemos fazer alterações gradualmente, adicionando itens que são necessários em períodos diferentes da gestação. Quando no final da gestação aumenta o requerimento de lisina, sem necessariamente ter que aumentar o requerimento calórico ou proteico, a gente adiciona lisina e os componentes que a acompanham na forma específica para cada animal”, exemplifica. “Isso altera para melhor a qualidade dos leitões”, amplia.

Leitões na saída da creche vão superar 30 quilos, diz produtor

Valentini tem uma meta ousada com a nova tecnologia que está implementando na granja. A nova atualização é um sistema de alimentação que permite individualizar a ração por cocho dos animais, baseada nas necessidades de cada grupo. Com uma balança de precisão pesando quantidades próximas a 10 gramas, explica, ele pode formular dietas precisas, incluindo aditivos específicos para cada fase da criação. O sistema Spotmix, de alimentação multiface sem resíduos, é o primeiro a ser instalado no Brasil, e promete auxiliar na conversão alimentar e ganho de peso diário. “Hoje os leitões da creche saem com 22-23 quilos. Vamos produzir leitões com 30 quilos ou mais, no mesmo período de tempo”, sustenta.

“Estou instalando um equipamento de alimentação de leitões que me permite formular a ração ideal por cocho. São 96 cochos que podem receber diferentes rações, tudo administração por um computador. Essa ração vai do misturador ao cocho por meio pneumático, em fase seca, mantendo as linhas secas e limpas, e na descida para o cocho você pode adicionar a quantidade de água que quiser. Posso dar ração seca, úmida ou líquida. Isso nos dá uma flexibilidade fantástica, porque você pode oferecer a dieta diversas vezes por dia, estimulando os animais a comer, além de oferecer uma ração sempre fresca, que é muito importante”, destaca.

O sistema, de acordo com o produtor do Distrito Federal, vai melhorar em cerca de 30% o desempenho de ganho de peso na fase de creche. “A alimentação líquida muda dramaticamente o peso de saída de creche. Melhora o ganho de peso e a conversão alimentar. Esperamos produzir leitões com 30 quilos ou mais na saída de creche, no mesmo de alojamento”.

“Mini box é retrocesso”, alerta Valentini

Uma das alternativas para o bem-estar animal que surge no mercado é a criação de matrizes em gestação coletiva, mas sem os modelos eletrônicos de alimentação, conhecidos como mini box, que não individualizam a alimentação. Com o fim da gestação em gaiolas proposto pelas grandes empresas do setor, essa alternativa tem sido ventilada por algumas integradoras, que pretendem migrar para o mini box para melhorar o bem-estar das matrizes. O produtor e professor da USP, Rubens Valentini, garante que esse método é ineficaz, gera muita mão de obra e competição e brigas entre as fêmeas.

Algumas integradoras estão tentando usar o mini box em substituição aos sistemas eletrônicos, mas isso é um retrocesso. As empresas integradoras que optarem por isso estarão fazendo uma tremenda sacanagem com o produtor, porque vão limitar os resultados produtivos e vão impor um volume de mão de obra brutal para o resto da vida útil dessa granja. Há um tremendo custo operacional com o mini box”, dispara.

Ele garante que o bem-estar pretendido não é alcançado nesse sistema. “Além do mais, na medida em que você não alimenta adequadamente sua matriz, na medida que tem competição entre animais, que tem muita mordida de vulva, machucados, você está reduzindo o nível de bem-estar, você está perdendo o real sentido do bem-estar”, amplia. De acordo com o produtor e pesquisador, como a alimentação é coletiva, há muitos problemas sociais, algumas porcas podem comer em excesso, enquanto outras têm dificuldades em acessar o alimento, por exemplo.

2017 e 2018

O ano poderia ser melhor, não fosse, na opinião de Valentini, “a desastrosa Operação Carne Fraca”. “Perdemos 30% do preço em dez dias e demoramos 90 para voltar ao normal. O lado bom de 2017 é que o milho, que estava muito caro, melhorou (o preço). Isso facilitou para o suinocultor”, diz.

Para o próximo ano, Valentini demonstra preocupação com a produção de milho, principal insumo da alimentação dos suínos. “Estou muito confiante em 2018, embora eu acho que vai ter alguma dificuldade de oferta de milho. O cenário está pintando que vai se produzir menos milho no ano que vem”, pontua. “Mesmo assim, estou esperançoso porque estaremos com a produção em cima de uma nova tecnologia. Nos anos de 2016 e 2017 fizemos mudanças e adaptações. Vamos entrar prontos em 2018”, cita Valentini.

Tecnologia não adianta sem mão de obra qualificada

Porque depois de séculos as porcas foram colocadas em gaiolas? Questiona Valentini. Segundo ele, à época esse sistema foi criado para dar mais segurança a animais e trabalhadores e otimizar o espaço das fazendas. “Antes de 1970 a suinocultura era a pasto e dentro dos galpões. Depois, começou a ser produzido com as gaiolas. Em meados dessa década, o uso se generalizou. As razões da época para adoção de gaiolas de gestação tinham como base maior controle de alimentação das porcas gestantes e melhor utilização do espaço dos barracões. Com a redução da mobilidade haveria menor consumo de ração, além de reduzir o estresse social. As gaiolas também protegiam os operadores e permitem uma coleta mais fácil dos excrementos na parte de trás”, explica. Era quase tudo manual.

As novas tecnologias, destaca, dependem de pessoal qualificado para serem implementadas com sucesso. De acordo com ele, falhas na implantação de sistemas eletrônicos de alimentação causaram dúvidas ao produtor brasileiro sobre a eficiência desse modelo. “A mudança para a adoção de eletrônica para garantir eficiência em nutrição individual teve uma tradicional resistência. O sucesso na granja Muinça gerou curiosidade. Como a pressão mercadológica pela gestação coletiva induziu as grandes empresas a assumir compromissos públicos, como BRF, JBS e Aurora, isso obviamente gerou um movimento comercial importante. Porém, houve um descuido muito grande, com projetos ruins, falta de observação de parâmetros, sem o devido treinamento dos promotores desse sistema e dos usuários do sistema. Por isso, projetos foram abandonados, falharam, e isso gerou dúvidas sobre as estações de tratamento. O sistema exige pessoal qualificado, as máquinas exigem conhecimento técnico operacional”, pontua.

De acordo com ele, sistemas modernos atraem profissionais mais qualificados. “Desde quando implantei a gestação coletiva com alimentação eletrônica não tive mais problemas com mão de obra. Temos um plano de carreira eles são treinados para operar toda a granja”, acrescenta o produtor rural. Enfim, uma boa notícia de Brasília.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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