Sanidade - 22.08.2017

Suinocultor deve seguidamente aprimorar protocolos de biossegurança

Status sanitário “invejável” do Brasil faz com que biossegurança muitas vezes seja esquecida ou deixada para depois, diz especialista

- Arquivo/OP Rural

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Um assunto que o produtor rural tem ouvido bastante nos últimos anos é sobre a importância da biossegurança na propriedade. Os procedimentos e protocolos a serem adotados para garantir que o status sanitários seja mantido. Mas, muitas vezes, o produtor fica na dúvida sobre o que realmente deve ser tratado, quando não vê o perigo. A importância de reavaliar periodicamente o conjunto de ações voltado à prevenção, controle e erradicação de agentes patogênicos nos sistemas de produção suinícola, assim como a sua execução no dia a dia da propriedade, foram as diretrizes da palestra do médico veterinário doutor Gustavo Simão, que falou sobre “Biossegurança – da ‘Filosofia à Prática’” durante o Simpósio Brasil Sul de Suinocultura, em Chapecó, SC.

De acordo com Simão, fazendo uma retrospectiva em relação ao aparecimento de novos agentes infecciosos, se percebe que a frequência de surtos e emergência de patógenos têm aumentado exponencialmente, causando grandes prejuízos aos suinocultores. “A importância de trazer um tema como este é justamente porque não temos mais tempo a perder. Precisamos tomar alguma atitude e deve ser rápido, porque, no caso de um eventual evento sanitário, teremos condições de sair dele com agilidade e menor prejuízo possível”, diz Simão.

Ele afirma que o tema fala sobre “da Filosofia à Prática” justamente porque biossegurança sempre foi vista como uma operação complexa, pelo fato de envolver muitos protocolos e listas longas de procedimentos que, muitas vezes, nem são executados por conta de sua multiplicidade. “Muitas vezes a biossegurança é deixada de lado. Mas o que percebemos é que enquanto os profissionais envolvidos na cadeia não veem os impactos que um agente infeccioso causa, não são tomadas providências”, comenta. Simão diz que, em muitos casos, o produtor esquece os prejuízos anteriores que teve com ocorrências sanitárias, não tratando a biossegurança com a devida atenção. “Embora a suinocultura brasileira tenha um status sanitário invejável, precisamos ser proativos e aperfeiçoar continuamente nossos protocolos de biossegurança. Temos que sair da filosofia, onde somente falamos e não praticamos, e começar a realmente prestar atenção nisso, porque é a nossa atividade que está em jogo”, alerta.

O médico veterinário afirma que sem biossegurança e saúde no plantel, não é possível explorar o potencial genético do animal. “Não adianta ter uma nutrição super balanceada ou ambiência perfeita, se há um ambiente altamente contaminado”, afirma. Para ele, é importante que o produtor passe realmente a destinar uma parte dos investimentos para reforçar a biossegurança da propriedade. “Não é porque não vemos que não está acontecendo. Muitas vezes temos que ver para crer. Mas isso não é bom, porque quando percebemos queda de consumo, o animal já está apresentando os sinais clínicos, e muitas vezes, os impactos econômicos estão ocorrendo há vários dias”, afirma.

De acordo com Simão, o Brasil possui uma grande diversidade de instalações e formas de sistema de produção, além de diferentes tipos de climas entre os estados e regiões do país. Para ele, essa disparidade também se reflete no que diz respeito às recomendações, execuções e auditorias de biossegurança. “Encontramos desde produtores que possuem mínimos procedimentos, até grandes cooperativas e agroindústrias com protocolos definidos e infraestrutura construída, porém, em alguns casos, não se vê as execuções e nem auditorias”, comenta. Ele explica que o conceito de biossegurança é bem trabalhado em granjas de reprodutores certificadas, onde é obrigatória por lei a manutenção do status sanitário livre das principais doenças que afetam os suínos. “Nestas instalações, a entrada de pessoas, veículos e animais são rigorosamente controladas através de procedimentos operacionais padrão (POPs), como barreiras sanitárias para banho e troca de roupas, auditorias de veículos, arco de desinfecção e outros POPs internos, como controle de pragas, compostagem, tratamento de dejetos bem isolados, etc.”, diz.

Para Simão, o produtor não adota o protocolo como deve ser e isso ocorre, principalmente, pelo status sanitário do Brasil em relação a outros países. “Devido ao fato de não termos patógenos de alto impacto econômico, como PRRS e PED, nossos protocolos e planos de biossegurança muitas vezes se tornam inespecíficos, ou seja, grandes listas de procedimentos são recomendadas para produtores sem que haja um objetivo claro para controle daquele ou de outro agente em questão”, comenta. O médico veterinário explica que, dessa forma, muitos passam a não praticar ou simplesmente ignorar as boas práticas por não compreender o que terá de benefício econômico com a prevenção, enxergando muitas vezes como sendo somente custos. “Podemos dizer que a maioria dos suinocultores não adota protocolos, e, se adota, não faz auditorias”, diz. “Nossa biossegurança é muito inespecífica porque não temos um patógeno-referência para controlar. Dessa forma, acabamos não sabendo o que se está controlando, e consequentemente não será conhecida a importância dos procedimentos”, afirma.

O Que Fazer

Algumas medidas mínimas podem ser adotadas pelo suinocultor para garantir mais segurança ao rebanho. Simão cita algumas que devem ser observadas. “Eu sempre digo que biossegurança se resume em dois pontos cruciais: primeiro é a localização, antes de construir uma nova granja deve-se avaliar muito bem a quantidade de suínos no entorno. E a segunda é conscientizar todas as pessoas envolvidas na produção sobre três áreas bem definidas, como “área suja”, “área tampão” (intermediária) e “área limpa”, desde a entrada na propriedade até as transições entre os setores”, esclarece.

Segundo o médico veterinário, com este conceito é possível adequar procedimentos em diferentes situações de campo, buscando minimizar a transmissão por carreadores de agentes, como pessoas e fômites. “Se eu tivesse que eleger três medidas mínimas que os produtores devem tomar, seriam: 1) Saber a procedência dos animais que entram nas granjas e reduzir ao máximo a movimentação destes. 2) Cerca perimetral com barreira sanitária, impedindo a entrada de pessoas estranhas e animais domésticos e selvagens. E 3) controle efetivo de roedores e moscas”, conta.

Para Simão ainda há muito no que avançar no quesito de biossegurança no Brasil. Ele comenta que alguns patógenos têm mostrado o quanto o setor está vulnerável aos surtos e prejuízos que podem causar em pouco tempo. “Além da biossegurança das granjas, temos um enorme gargalo em relação a biossegurança do transporte. Suínos de diferentes status sanitário, idades e quantidades são transportados diariamente entre regiões e Estados, não respeitando o vazio sanitário dos caminhões, auditorias no carregamento e muito menos lavagens eficientes nos frigoríficos e lavadores terceirizados”, comenta.

O médico veterinário acrescenta que a forma de transmissão mais rápida é a movimentação de animais entre granjas, principalmente vírus e bactérias que possuem alta resistência na presença de matéria orgânica. “Na procura por alternativas para minimizar o risco de contaminação por esta via, empresas estão fazendo grandes investimentos neste setor. Um exemplo é a utilização do TADD (Thermo-Assisted Drying and Decontamination), equipamento que consiste em secar os caminhões após a lavação, realizando uma desinfecção por calor forçado”, conta. Ele explica que esta forma de controle é bastante eficaz, já que além de auditar o caminhão com o TADD, ainda é preciso vistoriar o veículo que vai entrar, então, neste período é possível conferir se o caminhão foi bem lavado ou não. “Neste momento você certifica de que houve realmente a desinfecção por completo e que o caminhão está apto para voltar para a granja apresentando baixo risco de contaminação”, afirma.

Cumprir Protocolos

Para que o suinocultor consiga cumprir os protocolos com maior facilidade, o médico veterinário explica que é importante primeiro traçar um objetivo claro em relação ao que se quer controlar ou prevenir. “Cada patógeno tem suas características de resistência no ambiente e dinâmica de infecção nos plantéis”, diz. Ele acrescenta que para se traçar o plano de biossegurança é fundamental que sejam seguidos quatro componentes principais: 1) avaliação de risco: quais agentes se quer controlar e realizar busca contínua por oportunidades para reduzir o risco; 2) políticas e diretrizes bem claras: baseadas na ciência, coerentes, práticas e de fácil compreensão, porém bem completas; 3) educação e treinamentos: manter o engajamento dos envolvidos; e 4) infraestrutura: equipamentos que possibilitem a execução das práticas.

“O componente três é crucial para a manutenção das boas práticas, pois é preciso que haja comprometimento de todos e auditorias frequentes. Para ter manutenção não adianta somente implementar, é preciso acompanhar, fazer a auditoria com frequência, para não deixar cair a qualidade”, alerta Simão.

O médico veterinário acrescenta que as boas práticas de biossegurança estão deixando de ser uma opção, ou cuidado extra, e se tornando um pilar crucial para sustentar a lucratividade da suinocultura moderna. “Grandes conquistas da genética, nutrição, ambiência e sanidade estão possibilitando explorar cada vez mais o potencial de produção dos animais, porém a emergência e reemergência de patógenos estão sendo e sempre serão uma ameaça a esta evolução da atividade”.

Simão afirma que é preciso sair da zona de conforto quando o assunto é biossegurança. “O Brasil possui invejável status sanitário em relação a vários países do mundo. Este fato nos deixa confortáveis e muitas vezes ‘acomodados’ em relação a biossegurança de nossas granjas, sendo que não teria momento melhor para reforçarmos nossas medidas de prevenção contra possíveis eventos sanitários inesperados, visto que temos todas informações de países que já passaram por surtos e publicaram o que funcionou e o que não funcionou em relação ao controle das doenças, principalmente virais”, alerta.

A biossegurança deve ser compromisso de todos que trabalham na cadeia, reitera Simão. “Os líderes são os maiores responsáveis em transmitir o conceito de forma didática e de fácil compreensão para a equipe. Feito isso, os protocolos operacionais padrão são apenas um detalhe para serem implementados e auditados”, finaliza.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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