Genética - 08.03.2018

Seleção genética é principal responsável por robustez do frango

Para encontrar as respostas, o Presente Rural conversou com a zootecnista e doutora Jane Lara Grosso, da Aviagen, uma das mais conceituadas empresas de genética do mundo

- Arquivo/OP Rural

Especialistas concordam que a genética é responsável pela maior parte do ganho de eficiência e peso do frango moderno. Mais isso pode ser mensurado. Para encontrar as respostas, o Presente Rural encaminhou dúvidas para a zootecnista e doutora Jane Lara Grosso, da Aviagen, uma das mais conceituadas empresas de genética do mundo, pioneira em várias técnicas hoje usadas para tornar as aves mais eficientes e saudáveis. Confira o que a especialista disse.

O Presente Rural (OP Rural) - Pode-se dizer que a seleção genética é a principal responsável pela evolução do peso do frango nas últimas décadas? Por que?

Jane Lara Grosso - Sim, o grande progresso no desempenho do frango de hoje é devido à seleção genética, porém à medida que o frango foi melhorando, houve melhorias no desempenho em outras áreas, como nutrição, manejo, sanidade, ambiência, equipamentos e instalações, dentre outras, se ajustaram às necessidades do frango moderno para o crescimento mais rápido e balanceado. Várias pesquisas têm evidenciado que o melhoramento genético é o principal responsável pelo maior peso do frango – 85 a 90%; pesquisadores demonstraram que linhagens antigas que representam o frango da metade final do século passado (mantidas como linhagens controle em algumas universidades dos EUA) não desempenham bem mesmo em ambientes (manejo, nutrição, etc.) onde o frango moderno é criado.

OP Rural - Como se faz uma seleção genética?

JLG - Esta é uma pergunta de resposta bem complexa, mas de uma forma bem simples e resumida, escolhem-se os melhores indivíduos de uma geração para serem os pais da próxima geração. Em outras palavras, de uma população você seleciona uma pequena parte, os melhores indivíduos com base no seu valor genético, e reproduz com eles a próxima geração, repetindo o mesmo processo de geração após geração. Em frango isto é feito com muita intensidade, pois são animais de ciclo curto e muito prolíferos.

OP Rural- Quais as características mais importantes que foram selecionadas para a ave atingir mais peso em menos tempo?

JLG - No início, por volta das décadas de 1950 e 1960, a seleção era feita somente com base no peso corporal, em outras palavras, de uma população com indivíduos da mesma idade selecionava-se aqueles de maior peso que não tivessem defeitos ou quaisquer fatores que os limitassem para a reprodução. Depois foram incluídas outras características economicamente importantes, como a eficiência alimentar e o rendimento de carcaça, que ajudaram o progresso genético para o peso corporal. É importante reforçar que se trata de um processo natural que visa a criação de um frango balanceado, com foco em características de saúde e bem-estar animal. Outro ponto importante, passou-se de uma seleção massal (com base no desempenho apenas do indivíduo) para uma seleção com base na média do desempenho da família (índice de família).

OP Rural - A melhor conversão alimentar também é resultado da seleção genética? Explique.

JLG - Sim, do mesmo modo que para o peso corporal foi incluído à seleção para a eficiência alimentar (conversão alimentar), em que se mede o consumo de ração e o ganho de peso de um indivíduo para um dado período, calculando-se a conversão alimentar (consumo/ganho de peso) e selecionando-se os melhores indivíduos. Em outras palavras, selecionamos com base na habilidade natural das aves em converter o alimento em peso corporal. Pioneiros, usamos o sistema de conversão alimentar em tempo real (Lifetime FCR) - estações de alimentação monitoradas eletronicamente - para registro de forma precisa e extremamente confiável o consumo individual de ração de animais alojados em grupo. Também aqui se utiliza as informações de família para selecionar os melhores ou mais eficientes indivíduos.

OP Rural -  O que mudou no frango de algumas décadas atrás para o frango de hoje?

JLG - Pode-se dizer que os trabalhos de melhoramento genético na metade do século passado, durante os primeiros 50 anos o frango diminuiu a idade para atingir o mesmo peso na razão de um dia por ano. Depois muitas outras características passaram a fazer parte dos programas de seleção que diminuíram um pouco o ganho de peso, mas contribuíram sobremaneira para o melhor desempenho econômico do frango, tais como a eficiência alimentar, os rendimentos de carcaça e cortes nobres e a viabilidade. O programa de melhoramento genético é balanceado e focado em importantes características, como bem-estar animal e saúde das aves.

OP Rural - Qual a composição ou distribuição de carne em um frango?

JLG - Se analisarmos frango misto de 3 quilos temos hoje um rendimento de carcaça inteira em torno de 74% em relação ao peso vivo. Se considerarmos apenas o percentual de carne sem osso, a proporção é de 40% de carne desossada (carne de coxa + sobrecoxa + peito) em relação ao peso vivo.

OP Rural - Hoje uma ave atinge 3 quilos em quanto tempo?

JLG - Hoje o frango tem capacidade para atingir 3 quilos entre 6-7 semanas (aproximadamente 46 dias), porém depende muito das condições de criação (fatores como qualidade e composição da ração e condições ambientais). O desempenho é sempre proporcional ao ambiente criatório, a ração para as diferentes fases e a saúde do rebanho. Quanto melhor forem estes itens, melhor será o desempenho, inclusive o peso vivo.

OP Rural - Nos Estados Unidos, parte das aves já é abatida com 3,5 quilos. Profissionais acreditam que é uma tendência também no Brasil, que nos últimos anos vem aumentando sucessivamente o peso de abate. O que a genética pode fazer para contribuir com isso?

JLG - Nos EUA, as características são diferentes das encontradas no Brasil: eles valorizam muito a carne branca (peito) em relação a outros cortes. Portanto, para eles quanto mais carne de peito melhor. Aqui é diferente, exportamos cerca de 30% do frango para países com diferentes exigências de mercado. Por exemplo, os países do Oriente Médio demandam uma ave pequena abatida com 1,4 quilo e isto representa uma boa parte da nossa exportação. O Brasil também tem capacidade de suprir cortes para muitos países com diferentes gramaturas que muitas vezes exigem um frango menor, os EUA não o fazem. Abater um frango mais pesado não depende da ave em si, mas sim do seu mercado, com foco no consumo interno ou para exportação, de acordo com a demanda. Sim, temos capacidade de abater frangos com 3,5 quilos, porém nem sempre é interessante. Existe além destes fatores a questão econômica dos frigoríficos, com o custo mais alto as empresas tendem a aumentar o peso de abate para diluir o custo fixo.

OP Rural - Você concorda que as aves vão ser abatidas mais pesadas?

JLG - Concordo que o peso de abate vai depender do mercado.

OP Rural - O que isso muda na seleção genética?

JLG - Praticamente nada. O frango tem sido selecionado para um ganho médio anual de 45 gramas para peso vivo. Como consequência, a idade de abate vai diminuir para um determinado peso – e este peso vai depender do mercado.

OP Rural - Além de crescimento rápido, a seleção genética deve atender outras características, como capacidade da ave aguentar calor, ter boa saúde, etc. Como conciliar essas características?

JLG - Através da seleção balanceada. Esta estratégia permite a seleção de indivíduos e famílias que apresentam simultaneamente bom desempenho zootécnico e ótimas características de bem-estar animal. Os candidatos a seleção são avaliados individualmente para melhor estrutura de pernas e boa capacidade respiratória. Hoje faz parte do programa de melhoramento a seleção das aves em ambiente com condições similares às comerciais e, as famílias que não têm habilidade para desempenhar bem não são selecionadas para a próxima geração. Com isto, somente as aves com maior capacidade de desempenho em ambientes comerciais, ou seja, aves com maior robustez, permanecem e deixam descendentes para a próxima geração. As descobertas em genética molecular, bioinformática e estatísticas genéticas também estão ajudando a desenvolver novas ferramentas de seleção e mais precisas para melhorar todas as características do programa de melhoramento, incluindo o desempenho biológico do frango vivo, essencialmente melhoria na saúde das aves, resistência a doenças e bem-estar animal. Empresas de genética de aves em todo o mundo passaram a incluir a informação genômica como fonte essencial de informação em seu programa de seleção comercial. Importante reforçar que uma delas identifica os marcadores de ocorrência natural dentro do genoma das aves e utiliza destes marcadores para criar aves mais fortes e produtivas, através do atual programa de melhoramento genético, um processo completamente natural.

OP Rural - O que esperar da seleção genética na avicultura nos próximos anos?

JLG - Para os próximos anos a seleção já foi realizada e está em processo de multiplicação (Pedigree 2018 à Bisavós 2019 à Avós 2010 à Matrizes 2021 à Frangos 2022). A seleção é feita na geração pedigree e repassada cadeia abaixo até o frango, isto leva de 4 a 5 anos. Com base na seleção já realizada são esperados no frango um ganho médio anual de 45 gramas para o peso vivo na mesma idade, 2,5 pontos na conversão alimentar (25 gramas a menos de ração para cada quilo de carne produzida), 0,20 pontos percentuais no rendimento de carcaça e cerca de 0,25 pontos percentuais no rendimento de carne de peito – todos os rendimentos em relação ao peso vivo.

Mais informações você encontra na edição de Aves de janeiro/fevereiro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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