Proteção - 27.03.2017

Risco de Influenza Aviária faz Brasil suspender visitas às granjas

Objetivo é garantir um dos maiores patrimônios da avicultura brasileira: o status sanitário, livre de doenças que afetam os grandes produtores de frango do planeta

- Giuliano De Luca/OP Rural

Segundo em produção e maior exportador de carne de frango do mundo, o Brasil cria medidas severas para proteger a sua avicultura. A Influenza Aviária espalhada pelo planeta, agora também no vizinho Chile, colocou o setor em alerta. As visitas a granjas e locais com aves vivas estão proibidas. O objetivo é garantir um dos maiores patrimônios da avicultura brasileira: o status sanitário, livre de doenças que afetam os grandes produtores de frango do planeta, como Estados Unidos e China.

Desde 10 de janeiro, as agroindústrias produtoras e exportadoras de carne de frango e as empresas produtoras do setor de ovos suspenderam a realização de visitas de todos os clientes e fornecedores, inclusive do Brasil, às suas estruturas e áreas com aves vivas.

De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a medida, válida por 30 dias, mas com possibilidade de prorrogação, foi tomada após a detecção de focos de Influenza Aviária em 33 países nos últimos três meses, entre eles o Chile, que informou a ocorrência na primeira semana do ano. A suspensão das visitas se estende a todos os elos da produção.

De acordo com o presidente executivo da ABPA, Francisco Turra, a decisão é complementar a uma série de medidas de biosseguridade estabelecidas pelo Grupo Estratégico de Prevenção de Influenza Aviária (Gepia), vinculado ao Conselho Diretivo da entidade. “As agroindústrias e as entidades estaduais estão engajadas nesta ação.  Estamos fortalecendo nosso protocolo de biosseguridade, tornando ainda mais restritiva a circulação de pessoal e produtos dentro do processo produtivo, com total controle, inclusive, das equipes das empresas.  Somos o único grande produtor e exportador mundial que nunca registrou foco da enfermidade, e é isto que buscamos preservar com esta medida", explica Turra.

A proibição de visitas já era aplicada a estrangeiros provenientes de países com focos ativos de Influenza Aviária.   Para países sem focos da enfermidade, a visita era permitida apenas após uma quarentena de 72 horas, realizada no Brasil.

Estados

Nove dias depois da suspenção das visitas, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) solicitou aos órgãos de defesa sanitária animal estaduais de todo o país que aumentem a vigilância para prevenir casos de Influenza Aviária no país, segundo nota técnica.

O Mapa também solicitou a realização de vigilância epidemiológica para Influenza Aviária em todos os sítios de aves migratórias reconhecidos pelo Departamento de Saúde Animal do país.

A entrada de aves oriundas de países com casos da doença está proibida no Brasil. O Mapa disse ainda que deve haver “maior rigor dos requisitos para a importação de material genético de aves”, porém sem detalhar os critérios.

O isolamento de aves de produção daquelas de vida livre, por meio do uso de telas em todos os aviários, é uma das medidas preventivas recomendadas.

Segundo o Mapa, um inquérito epidemiológico dos plantéis avícolas nacionais que analisou cerca de 2,9 mil granjas concluiu que há ausência do vírus no país. O Mapa não detalhou quando o inquérito foi realizado.

O Brasil nunca registrou um caso de Influenza Aviária, o que confere aos exportadores brasileiros maior competitividade nos mercados globais de carne de frango, enquanto concorrentes enfrentam a doença.

De acordo com o Mapa, pelo menos 197 espécies de aves podem migrar. Mais da metade (53%) se reproduz no Brasil. Existem 20 sítios (locais) de monitoramento da entrada das aves migratórias no território brasileiro.  Eles estão localizados na Bahia, no Maranhão, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, no Pará, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e São Paulo.

Conforme o Mapa, a fiscalização também está intensificada em todos os portos, aeroportos, postos de fronteira e aduanas.

Sintomas

Os produtores brasileiros precisam ficar atentos aos sintomas da IA. Aumento repentino de mortalidade das aves em um período de 72 horas, secreção ou corrimento ocular e nasal, tosse, espirros, diarreia e desidratação são alguns deles.

A doença causa ainda depressão severa, apatia, diminuição ou parada no consumo de ração, falta de coordenação motora, andar cambaleante e cabeça pendendo para o lado. Também é observada a queda drástica na produção de ovos, ovos desuniformes, de casca deformada, hemorragias nas pernas, inchaço na região dos olhos, da cabeça e pescoço, inchaço e coloração roxo-azulada ou vermelho-escura na crista e na barbela.

Casos suspeitos devem ser informados pelo telefone 0800 704 1996.

Da porteira pra fora

Em Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná, a suspenção das visitas se soma a outras medidas que o trabalhador rural Medardo Machaiewski pratica no dia a dia. “O técnico da cooperativa nos avisou sobre a chegada da Influenza Aviária no Chile, aqui pertinho da gente. A gente sempre trabalha com o máximo de cuidado possível, mas agora suspendemos todas as visitas porque a gente sabe o quanto essa doença é prejudicial. Só eu, minha esposa e os técnicos que estamos entrando nos aviários”, dispara Medardo, responsável pela propriedade de um associado da Copagril, cooperativa que abate cerca de 170 mil aves por dia.

De acordo com ele, o acesso restrito ficou ainda mais indisponível para as visitas após o conclame da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABCS) na primeira quinzena de janeiro. “A gente já tinha o controle de acesso de visitantes, mas agora os cuidados aumentaram. Quanto menos circular, melhor”, revela.

Conforme o trabalhador, além das visitas, os critérios com a matéria prima que entra nas granjas também ficaram mais rígidos. Medardo conta que até a maravalha usada na cama de aviário, importada da Argentina por muitos produtores do Oeste paranaense, deve ser substituída por um produto nacional. “Muita gente compra a maravalha da Argentina, em fardos, mas já estão pensando em comprar aqui no Brasil por causa da Gripe Aviária lá no Chile”, conta. “A gente usa um desinfetante na maravalha, mas nessas horas não dá para descuidar”, amplia.

Foi a própria cooperativa que alertou os associados sobre as novas diretrizes para a manutenção da sanidade avícola brasileira. “O técnico da cooperativa falou sobre a Gripe Aviária que está ocorrendo no Chile, o que nos preocupa, porque está aqui perto de nós”, cita Medardo. “A gente sabe o quanto é importante manter a saúde dos frangos, por isso cada dia mais a gente faz mudanças por conta da exigência em biosseguridade”, aponta o trabalhador rural.

Medardo cita algumas ações que usa para manter a propriedade livre de patógenos, como “a desinfecção das granjas, o controle no acesso, a entrada de caminhões somente quando necessária para trazer insumos e levar a produção, o cercamento da propriedade e a limpeza para evitar restos de frangos (mortos)”.

“Temos também um controle muito importante com a cal, que ajuda para muitas coisas, como a Salmonella. A cada 60 dias, por exemplo, despejamos cal nas áreas ao redor dos aviários em que mais pisamos. O produtor está tendo cada vez mais consciência de que é preciso fazer esse tipo de controle. A gente sabe que é difícil de controlar (a entrada de patógenos), mas a gente tem que fazer o que pode”, avalia.

Avez migratórias também preocupam

A propriedade é tecnificada, com um sistema de biosseguridade bastante eficiente. Ela é toda murada, com portões de acesso que ficam fechados a maior parte do tempo. Os dois aviários, que juntos têm capacidade para alojar 46 mil animais, são envoltos por uma vegetação robusta no verão, que ajuda a “blindar” os galpões contra os patógenos.

Apesar da recomendação, as árvores são uma preocupação a mais nessa hora de alerta contra a Infleunza Aviária, já que atraem pássaros para a propriedade. Os galpões são fechados e climatizados, evitando o contato com as aves livres, mas ainda assim o trabalhador tem receio. “As árvores são importantes, até para proteger no vento forte, mas o problema é que elas acabam atraindo pássaros. Pelo que a gente sabe, essas aves migratórias também podem transmitir a Gripe Aviária, então a gente fica preocupado e toma todas as medidas de precaução (para evitar o contato)”, diz.

Risco cada vez mais presente

Em Santa Catarina, que detém o melhor status sanitário do país, o problema também incomoda lideranças do agro. O presidente da Associação Catarinense de Avicultores (Acav), José Antônio Ribas Júnior destaca que a preocupação da indústria tem aumentado desde 2002, quando o mundo passou a viver sob ameaça da IA. “Certamente hoje a ameaça é maior. Mesmo que as agroindústrias e seus sistemas de produção tenham evoluído nas ações preventivas, e isso é fato no Brasil, a ameaça é crescente. A movimentação de pessoas no mundo é cada vez maior e temos mais países com casos positivos. Esses fatos por si só geram maior probabilidade de contato”, comenta.

Para ele, o Brasil se mantém livre dessa doença por conta da biosseguridade construída ao longo de uma década. “Nosso país vem construindo um modelo de produção competente e sério. Todas as empresas implementaram ações de capacitação de produtores e dos processos de produção. A conscientização das práticas de biosseguridade está presente em todas fases de produção. Blindamos o ciclo da água, fechamos com telas os aviários para evitar acesso de animais silvestres, colocamos barreiras de entrada de pessoas e veículos. Enfim, é um trabalho que fazemos há mais de dez anos e isso nos diferencia (de outros países). Sabemos que, mesmo assim, não existe risco zero. Desta forma, a persistência e constância de propósito é que podem nos ajudar a manter nossa condição de livre desta e de todas as demais doenças importantes presentes nos outros países”.

De acordo com Ribas, somente a soma de esforços de todos os agentes é que pode resultar em sucesso. “Desde as ações preventivas até as ações de erradicação demandam a cooperação de todos. Precisamos atuar protegendo as propriedades, cumprindo os procedimentos de segurança, vigilantes nas movimentações de animais, pesquisando riscos e estratégias de atuação, estruturando monitorias e alinhando os planos de contingência. A sociedade deve cobrar, pois um episódio como este seria desastroso para a economia catarinense e brasileira por longo período. Importante saber que temos legislação sobre este tema e todos devem se adequar as Instruções Normativas (INs) que o Mapa tem implementado.

Para Ribas, caso o país consiga manter o atual status, deve ampliar seu mercado internacional. “O cenário deve favorecer aos países que estão livres. Isso nos coloca em uma condição diferenciada. Somos o segundo maior produtor de frango do mundo e o maior exportador. Somando isso a nossa qualidade, o resultado é o surgimento de novas oportunidades. Mas, para que se tornem efetivas, precisamos de uma atuação forte de governo em abrir acordos comerciais e fortalecer acordos existentes. Precisamos colocar o Brasil em evidência neste cenário e ocupar mais espaços no mercado internacional”, cita o presidente da Acav.

Efeito Devastados

Para Ribas, um surto de Influenza Aviária causaria muitos problemas para Santa Catarina. “(O efeito seria) devastador para o campo e para cidade. Estamos falando de um setor que é o maior gerador de PIB (Produto Interno Bruto) do Estado. Teremos impactos econômicos imediatos, cessando as exportações por um período longo, e também a redução do consumo interno pela perda de confiança. A drástica e obrigatória redução nos volumes de produção faria com que empresas não suportassem este impacto, gerando uma queda em toda atividade econômica dependente deste setor. A rápida resposta no diagnóstico e na eliminação de focos e monitoria dos processos é que vai definir o quanto mais rápido retornaremos (caso a doença atinja o país)”, define.

Resposta

“Temos relatos de países que levaram dez anos para recuperar o nível de atividade anterior ao problema. Não podemos ficar expostos a isso. Todo investimento em prevenção e resposta deve ser feito. Cada um tem um papel relevante neste processo. Produtores e indústrias precisam adequar suas criações para que estejam protegidas e manter procedimentos que garantam esta condição. Governos federal e estadual devem atuar em vigilância, suprir necessidades de diagnóstico e monitoria dos plantéis e (ter) planos de contingência para uma resposta rápida, competente e reconhecida por todos caso um foco ocorra”, amplia a liderança.

Mais informações você encontra na edição de Aves de fevereiro/março de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

CBNA

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