- 26.12.2017

Qualidade de leite para atender mercado passa por genética

Seleção genômica e outras tecnologias de melhoramento tem elevado a cadeia leiteira; trabalhos mostram que tanto vacas puras quanto mestiças produzem a mesma quantidade
Médico veterinário e professor da Udesc, doutor André Thaler Neto, afirma que seleção genômica é grande ganho para cadeia produtiva se bem utilizada e com adequada ambiência e manejo

Médico veterinário e professor da Udesc, doutor André Thaler Neto, afirma que seleção genômica é grande ganho para cadeia produtiva se bem utilizada e com adequada ambiência e manejo - Francine Trento/OP Rural

Muito mais do que produzir leite, hoje o produtor precisa se preocupar em produzir com qualidade, respeitando as normativas e com critérios que atendam às exigências do novo consumidor. Algo que tem permitido que estas melhorias possam ser feitas é o melhoramento genético. Para mostrar um pouco do que esta tecnologia tem auxiliado os produtores de leite, o médico veterinário e professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), doutor André Thaler Neto, falou sobre o “Impacto futuro de um adequado programa de melhoramento genético na qualidade composicional do leite” durante o 7º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite, que aconteceu em novembro, em Chapecó, SC.

De acordo com o doutor é preciso que hoje o produtor pense em um produto que vá fazer com que o atual mercado seja devidamente atendido. “Temos diversos produtos lácteos. Hoje o mercado está em expansão, principalmente o mercado dos derivados lácteos e dos produtos mais específicos”, comenta. Ele afirma que em termos de composição, é preciso pensar em um leite com bom nível de gordura e especialmente com uma gordura de alta qualidade.

Para Neto, não há dúvida de que o setor produtivo é o primeiro pagador de contas. “Isso começa com o volume de leite vendido. Só que felizmente esse nosso mercado hoje não é mais um mercado produtivo. É lucrativo e para isso logicamente precisamos trabalhar com uma vaca saudável”, comenta. Ele acrescenta que é preciso que o produtor atenda aos requisitos legais, porque enquanto alguns estão prontos para produzir determinado produto, outros estão com problemas sérios de atendimento a estes requisitos e adequação às normas de pagamento de leite. “O que todo mundo precisa entender é que quando falamos em sustentabilidade na cadeia produtiva do leite, falamos em melhoramento genético”, diz.

ANSEIOS DO MERCADO

Falando em melhoramento e mercado, o médico veterinário comenta que é preciso lembrar que quando se fala nos dois aspectos é necessário observar que os resultados aparecem somente a partir de três anos. “Qualquer decisão de mercado, estamos falando de 2020 para frente. Antes de no mínimo três anos não temos qualquer tipo de resultado palpável no programa de melhoramento”, afirma. Neto diz que é preciso pensar no consumidor e no que ele vai desejar, além do que a indústria vai precisar. “A indústria está no meio da cadeia e vai responder aquilo que o produtor quer”, comenta.

Atender a indústria e consumidor não é somente nacional, mas também internacional. O Brasil foi autorizado em vender leite para o Japão e há ainda negociações para vender também para o Chile. “Nós vamos ter que nos adaptar a estes mercados. Eles estão tentando ver se tem uma luz no nosso mercado, com produtos que podem ser interessantes. Nós temos que sair da nossa caixinha. Se ficarmos dentro dela vamos pensar sempre da mesma maneira e não vamos progredir”, diz o professor.

Para Neto o primeiro grande desafio básico da cadeia leiteira brasileira é atender as normativas existentes. “Quando estamos falando de composição, temos o desafio de ter o mínimo de 2% de gordura. Pode parecer simples para alguns, mas é um verdadeiro desafio para outros”, menciona. Segundo o professor, na primavera e no verão o produtor tem um problema sério no atendimento das normativas, chegando a meses com quase 40% das propriedades em não conformidade em termos de estrato seco e desengordurado. Um exemplo é o caso da CCS. “Quando dividimos propriedades em diferentes níveis de escala, tendo no topo as consideradas sadias, com menos de 200 mil, eu vou ver que a lógica ao longo do ano é a mesma. Entretanto, estes produtores com alta CCS têm muito mais problemas de não atingir as metas do que os produtores com menos CCS”, comenta. Neto explica que isso acontece, principalmente por conta da grande redução dos índices de lactose.

E o que isso tem a ver com genética? O doutor explica que ao longo dos anos, com o melhoramento que vem sido feito, a qualidade do leite tem melhorado, principalmente em gordura e proteína. “De onde vem esse sucesso da cadeia produtiva? Principalmente da inseminação artificial, que desde os anos 1950 tem sido o carro-chefe do melhoramento genético, que é sem dúvida nenhuma no mundo o grande sucesso da pecuária leiteira”, diz.

VACAS MESTIÇAS X VACAS PURAS

O professor cita três aspectos que são mais importantes na seleção: a escolha da raça, o cruzamento e a seleção em si. “A opção da raça é uma escola a curto prazo. A escolha do cruzamento começa a colocar mais volume. O que notamos? A maior parte dos trabalhos internacionais mostram que a produção de 93% do volume de leite quem produz é a vaca pura Holandesa”, comenta. Ele acrescenta que, no entanto, trabalhos brasileiros mostram que na produção de leite de vacas mestiças - Holandesa e Jersey - não existe diferença significativa entre as vacas meio sangue e as puras.

Já quando o assunto são os sólidos, os trabalhos mostram que a produção de gordura em vacas mestiças é o mesmo que em vacas holandesas em valores diários. “Os trabalhos mostram resultados um pouco superiores com as mestiças em relação às puras. Esses são trabalhos que envolvem Holandesas, Jerseys e mestiças”, comenta. A eficiência alimentar também é um ponto que deve ser notado. Neto explica que em termos de eficiência alimentar e sólidos as mestiças se equiparam a Jersey e à Holandesa; e em termos de eficiência para volume de leite as mestiças se aproximam das Holandesas.

Para o doutor, sem dúvida, a seleção é fundamental, considerando que qualquer uma das etapas anteriores à seleção não fará nada sozinha. “A primeira característica é a produção do leite, gordura e proteína. Teoricamente é muito fácil de melhorar, mas há um grande gargalo que é o fato das vacas terem a produção genética negativa com a produção de leite”, diz.

ESTRATÉGIAS

Neto afirma que a utilização de índices de seleção é fundamental para pensar em uma vaca equilibrada. “Quando eu olho diferentes índices de seleção mundo afora, vou ver que todos eles usam características de proteína e gordura, assim como todos utilizam características funcionais”, diz. Além disso, se for selecionar somente índices na população, a expectativa média de ganho para volume de leite é em torno de 1,8 mil libras em uma década, o que seria em torno de 850 quilos. Já em torno de 100 libras de gordura e 68 de proteína, seria mais ou menos 50 quilos de gordura e 40 quilos de proteína. “Tudo isso sem selecionar diretamente para estas proteínas”, comenta.

Para ele, outro grande ganho que a cadeia produtiva leiteira vem tendo é a seleção genômica. “Aí nós temos o grande feito que vai fazer a análise estatística de como relacionar todos os cromossomos do animal com marcadores que estão relacionados a determinadas características. No caso do leite, gordura e proteína são as células somáticas que nos interessam”, diz. “Isso tudo fez com que ganhássemos, pelo menos, três anos de intervalo de gerações de marca”, complementa. Para Neto, a ferramenta ainda precisa ser muito explorada, pensando em mercados futuros, como por exemplo a beta caseína, que é um leite produzido que não causa alergia, já muito difundido em outros países, como Austrália.

Para o professor, algo que é fundamental e que o produtor deve se atentar é que a maior parte do ganho genético vem da seleção de touros. “É preciso se atentar ao volume de gordura, proteína, baixo CCS e valores adequados para serem utilizados”, comenta. Além do mais, Neto diz que a seleção genômica é uma grande oportunidade se bem-feita. “Logicamente que isso somente faz sentido se eu tiver adequada ambiência e manejo”, assinala.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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