Sanidade - 28.05.2018

PRRS: uma ameaça real ao Brasil

Sem nunca ter registrado PRRS no país, o Brasil vem reforçando as fronteiras e desenvolvendo medidas protetivas para manter o status sanitário

- Arquivo/OP Rural

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O status sanitário de um país é um dos requisitos mais importantes para comercializações internacionais. O do Brasil se destaca por atender as mais diversas normas e ser referência em diversas áreas. Conservar este status é difícil e demanda de muito trabalho. Principalmente, manter longe doenças que não foram detectadas nos rebanhos suínos brasileiros e garantir este status diferenciado. A médica veterinária e chefe geral da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella, fala sobre a “ameaça real da introdução de PRRS no Brasil e como lidar com o problema” durante o Simpósio Internacional de Suinocultura (Sinsui), que acontece de 22 a 24 de maio, em Porto Alegre, RS.

A profissional explica que PRRS é a sigla em inglês para “Porcine Reproductive and Respiratory Syndrome”, ou seja, a síndrome reprodutiva e respiratória suína. “É uma doença infectocontagiosa, caracterizada por falhas reprodutivas em porcas de todas as fases produtivas, cachaços e problemas respiratórios em suínos de creche, crescimento e terminação”, informa. Ela acrescenta que esta é uma doença causada por um vírus exclusivo de suínos, e não infecta outras espécies.

Janice diz que o rebanho suíno brasileiro é considerado livre da infecção pelo vírus da PRRS perante a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), já que a infecção nunca foi registrada. Porém, vários países da América do Sul já notificaram a ocorrência, como Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela. “O impacto da PRRS chega a incrementar em 10% o custo de produção quando a doença infecta um rebanho. Por isso é considerada a doença de maior impacto econômico da suinocultura mundial, já que todos os países grandes produtores e exportadores, com exceção do Brasil, possuem rebanhos positivos e a doença é endêmica”, alerta.

Sinais

Atenção nos sinais clínicos é essencial, afirma. A especialista conta que a doença clínica pode se apresentar diferentemente de acordo com a idade e fisiologia do suíno. “Os cachaços com PRRS podem ter febre, baixo consumo alimentar e alterações na qualidade do sêmen. Nas porcas a sintomatologia apresenta-se principalmente por baixa taxa de concepção, abortos na fase final de gestação e aumento no número de natimortos, mumificados e no nascimento de leitões fracos”, explica. Ela esclarece ainda que os leitões recém-nascidos são muito suscetíveis à PRRS e a mortalidade nele bloco é elevada. Já os leitões em fase de creche, crescimento e até a terminação desenvolvem sinais respiratórios variáveis, dependendo de outros agentes presentes no rebanho, como aqueles do complexo respiratório dos suínos.

Riscos da introdução no Brasil

Janice conta que existe uma ameaça da introdução da doença no país por principalmente dois motivos: por ser um país com tradição agrícola e ser um grande produtor e exportador de suínos, além de possuir grande extensão de fronteiras secas e o vírus da PRRS estar disseminado em alguns países vizinhos, sendo que em outros a ausência de informação também preocupa. “Além disso, apesar do Brasil não importar oficialmente suínos vivos ou material genético de nenhum desses países da América do Sul citados, anualmente são importados milhares de suínos vivos ou material genético (sêmen) de países onde a PRRS é endêmica”, comenta.

Outros riscos são ainda a introdução e/ou importação ilegal de vacina viva para o vírus da PRRS e a presença de suídeos de vida livre (javalis) que podem estar positivos para o vírus da PRRS. “Esses animais são um importante fator de risco para a propagação e introdução de várias doenças no rebanho doméstico - sendo comercial ou de subsistência -, principalmente por serem de vida e trânsito livre, podendo inclusive transmitir zoonoses”, conta.

A pesquisadora reitera que o importante é não permitir a introdução da doença no Brasil. “Apesar de não haver um programa de vigilância oficial, existem normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para evitar a introdução no país, principalmente de material genético, suínos vivos e sêmen importado”, expõe. Janice acrescenta que países que se mantêm negativos para PRRS tipicamente aplicam severas restrições na importação de suínos vivos e de sêmen. “Os riscos para outras rotas de introdução como aérea ou de propagação local, contato com suídeos silvestres como javalis, consumo de lavagem ou lixo contendo carne ou derivados de suíno ainda são controversos ou desconhecidos”, revela.

Milhões em prejuízo

A doença não foi detectada em território brasileiro, conforme Janice. Porém, caso fosse encontrada, os prejuízos seriam altos. “Por ser o rebanho suíno brasileiro considerado livre da infecção pelo vírus da PRRS perante à OIE, a situação está presente nos acordos sanitários para comercialização de suínos vivos, de material genético e de produtos. Isso já geraria um impacto nos acordos comerciais”, conta.

De acordo com ela, outro fato é o impacto econômico em índices de produtividade. “Os Estados Unidos já estimaram os custos da PRRS para a indústria norte-americana em US$ 664 milhões por ano. Em um cálculo simples: nossa produção equivale a 32% da produção dos EUA e nossos custos de produção são semelhantes. Comparado com o impacto de US$ 664 milhões anuais para os EUA, caso a PRRS seja endêmica no Brasil o custo aproximado seria de US$ 212 milhões anuais, aproximadamente R$ 700 milhões por ano para a suinocultura brasileira”, alerta.

Combatendo o vírus

Segundo Janice, o Brasil já vem barrando a PRRS por muitos anos, já que a doença emergiu na União Europeia e América do Norte no final dos anos 80. “Todavia, risco zero não existe e o status sanitário dos rebanhos brasileiros podem mudar se não mantivermos ou mesmo incrementarmos medidas de biosseguridade”, afirma. A pesquisadora complementa que para isso é importante um plano de ação ou de contingência para determinar essas medidas. “E isso deve estar bem definido antes mesmo dos sistemas de vigilância serem iniciados, ou seja, definir o que fazer no caso de uma suspeita de PRRS”, conta.

Janice explica que isso inclui a capacitação dos técnicos para identificação dos sinais, a estruturação do diagnóstico laboratorial, de um sistema de comunicação para notificação obrigatória ou comunicação oficial, e esclarecimentos oficiais também devem ser considerados. “Sem contar com a necessidade de um fundo público-privado para cobrir os custos, sejam eles para o diagnóstico ou indenização”, continua.

Proteção das fronteiras

Ao longo dos anos o Brasil vem protegendo suas fronteiras para evitar que a doença entre no território brasileiro. Janice informa que existem ações protetivas do Mapa através de Instruções Normativas específicas para prevenir a entrada da PRRS e ações proativas do setor, que buscou através de iniciativa de parceria público-privada modernizar e plenamente utilizar a Estação Quarentenária de Cananéia. “O Programa Nacional de Sanidade dos Suídeos (PNSS) do Mapa e seu Comitê Técnico prepararam um plano de vigilância para a PRRS. O plano consiste em ampliar o sistema de vigilância passiva para receber notificações de casos suspeitos da PRRS e outras doenças exóticas e de delinear um sistema de vigilância ativa para PRRS com análises laboratoriais e demais medidas sanitárias, integrado à vigilância para PSC”, conta.

A pesquisadora diz ainda que inicialmente está sendo produzido um Manual de Vigilância Epidemiológica para PRRS, definindo os fluxos de análises, descrição de caso e os indicadores zootécnicos e sanitários (parâmetros) para fundamentação da investigação epidemiológica em granjas de ciclo completo e em unidade de produção de leitões desmamados ou descrechados. “As análises laboratoriais serão realizadas no Lanagro MG”, diz.

Todas essas ações têm o apoio da indústria nacional, como agroindústrias e empresas de genética. “Se investigado e comprovado a presença da PRRS nesses rebanhos, serão necessárias medidas de erradicação, por se tratar de doença exótica. Em seguida deverão se estabelecer estratégias de controle ou erradicação, pesquisa do agente infeccioso, a certificação de propriedades livres e redefinição da certificação do Brasil em relação à PRRS”, anuncia. “Porém, caso comprovada a ausência da PRRS, o programa de prevenção do ingresso deverá ser fortalecido e a indústria brasileira deverá explorar a vantagem competitiva da certificação livre da PRRS”, conclui a pesquisadora.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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