Avicultura - 11.06.2018

Profissional alerta para má qualidade na aplicação de tecnologias

De acordo com doutor Francisco Bersch muitas tecnologias utilizadas no Brasil são exportadas dos Estados Unidos e Europa, mas nem todas elas são adaptadas ao clima brasileiro

- Arquivo/OP Rural

As tecnologias vieram para ficar. Esta é uma afirmação que toda a cadeia avícola concorda. Porém, muitas vezes os profissionais que trabalham diretamente nas granjas não estão preparados para lidar com estas novidades. O que também muitos não têm levado em conta é a aplicação delas. A pergunta que muitos avicultores e profissionais do setor não estão se fazendo é: esta tecnologia se encaixa à minha realidade? É sobre isso que o médico veterinário doutor Francisco Bersch falou durante o 19° Simpósio Brasil Sul de Avicultura, que aconteceu em Chapecó, SC, entre os 10 a 12 de abril. Para Bersch, há alguns problemas na implementação de tecnologias, como a falta de qualificação dos operários das granjas e o uso de tecnologias indevidas para diferentes regiões do Brasil.

Com o tema “Desafios em relação à qualidade da mão de obra frente as novas tecnologias e seus efeitos nos parâmetros produtivos”, Bersch comenta que a tecnologia é um caminho sem volta. Para responder ao questionamento inicial sobre a adaptabilidade da tecnologia para cada propriedade, o profissional conta que conversou com cerca de 50 atores da cadeia avícola, como técnicos, gerentes, donos de empresas e funcionários em geral. “Não há uma unanimidade do ponto de vista de que todas as tecnologias são aplicáveis a todas as realidades. Por exemplo, o galpão dark house é uma tecnologia importada do hemisfério Norte, dos Estados Unidos e Europa. Mas há questionamentos de alguns atores da cadeia do porquê utilizar esta tecnologia, porquê preparar um aviário tão fortemente para o frio, se no centro-oeste brasileiro eu tenho seis meses de uma temperatura agradável e outros seis meses de verão”, comenta. Para ele, deve existir uma discussão do ponto de vista de qual tecnologia deveria ser utilizada.

Outro desafio pelo qual a cadeia passa quando o assunto é tecnologia é a capacitação da mão de obra. De acordo com Bersch, a partir de conversas com os envolvidos na cadeia, o operário, por exemplo, muitas vezes pode estar preocupado no que ele vai ganhar com a nova tecnologia, e não com a produtividade que a novidade trará. “Ele não está preocupado com a tecnologia, mas sim com a renda base dele. E essa pessoa que ainda está preocupado com a renda, se formar em um nível mais tecnológico ainda é um grande desafio”, entende.

O especialista acrescenta que atualmente em uma propriedade mais tecnificada o perfil do assistente técnico terá que ter um viés “muito mais eletrotécnico”. “Isso porque ele vai passar a ter que entender de tecnologia, controle, sistemas elétricos, afinal é ele quem vai manusear os equipamentos”, diz. Para ele, esse profissional tem que passar de um nível mais básico para um pouco mais técnico e elevado.

Preocupação vem da gerência

Uma das preocupações sentidas pelo doutor veio dos gerentes das propriedades, sobre o gerenciamento da mão de obra para manusear as novas tecnologias e responder ao investidor. “Senti os gerentes bastante preocupados neste quesito. Preocupados em buscar apoio interno para formar e apoiar a tecnologia, além do conceito do projeto”, diz. Ele explica que atualmente o modelo convencional de funcionamento das propriedades é a presença de um operário e um pequeno apoio técnico que manipula os equipamentos. O gerente é que tem a preocupação do retorno do investimento sobre o projeto que foi instalado e está sendo executado na propriedade.

Bersch conta que o empresário sabe que a propriedade deve ser mais tecnológica e que os gerentes precisam encampar as novidades. “Eles (empresários) estão buscando linhas de crédito para viabilizar o projeto, contudo a implementação disso fica por conta dos gerentes”, explica. Outra preocupação é a padronização da produção, já que os profissionais acreditam que isso garante uma qualidade superior. “Existem vários aspectos além da mão de obra. Tem a qualidade da produção, uniformização, constância da produção. São pontos importantes também”, diz.

Projetos equivocados

O especialista informa que a tecnologia vem não somente para uniformizar, mas também para reduzir o custo dessa produção e melhorar o desempenho dos animais. “Ela vem para melhorar a conversão alimentar, reduzir o consumo de alimentos por quilo de frango produzido. Esse é o grande custo que vai pagar esta tecnologia”, sustenta.

Bersch ainda comenta que os setores envolvidos na cadeia devem conversar mais entre si para acelerar este processo de implantação de tecnologias. “A avicultura é uma cadeia longa e que carrega muitos custos. Ela tem muitas diferenças e existem muitas crises dentro das empresas justamente pela falta de projetos e tecnologia”, comenta. Ele acrescenta que existe um desafio para fazer a inserção e viabilizar estas tecnologias em toda a cadeia para acelerar o processo. “É um caminho sem volta. Imagino que quem está fora disso nos próximos anos não terá como estar neste processo da avicultura”, complementa.

Bersch acrescenta que existe ainda uma preocupação também das empresas de equipamentos pelo fato de até mesmo os técnicos não terem todo o conceito formado sobre estas novas tecnologias. “Por esta falta de conhecimento total das tecnologias, muitas vezes no projeto eles podem tirar algo que as vezes é fundamental para o correto funcionamento do equipamento. Então, quando eles pensam somente no valor do projeto pode ser um perigo, já que há um grande risco de somente depois na maturação do projeto isso ser detectado”, esclarece. E isso também pode ocorrer quando a tecnologia não se encaixa direito na região.

Outro problema citado pelo profissional é que alguns projetos para aviários nas regiões mais quentes do Brasil estão voltados com formato para as regiões do hemisfério Norte, onde há extremos de frio e calor. “E esta não é a realidade do Centro-Oeste e Centro do Brasil. Então, o que é perceptível que ainda falta é a discussão do projeto”, comenta. Bersch diz que o que falta são tecnologias voltadas para climas tropicais, como do Brasil. “Isso é algo que poderia ser melhorado, esse perfil de galpão”, diz. “Se falar em galpão dark house, todo mundo nas industrias tem os galpões escuros, com controle de umidade e temperatura. Mas quando você começa a operar, vê que existem alguns problemas, como por exemplo, percebe que tem que ter um controle absoluto da temperatura”, afirma.

O profissional explica que ainda necessita da discussão de adaptar as tecnologias de acordo com cada realidade. “Para uma realidade de clima, considerando os diferentes climas que temos no Sul e no Centro-Oeste do Brasil, por exemplo”, diz. Ele comenta que a adaptabilidade da tecnologia e viabilidade do projeto ainda é uma discussão muito presente na cadeia avícola.

“Achar o ponto certo e entender qual a constância nesse manejo e estrutura é muito importante. A qualidade da energia elétrica, se existe disponibilidade, são todos pontos que devem estar no projeto para o correto entendimento da tecnologia. O produtor também quer um projeto funcionando em que ele saiba que vai produzir mais, com menos consumo de alimentos, menos mão de obra braçal e mais controle técnico”, assinala.

Solução

Para o médico veterinário, a solução para resolver este conflito entre tecnologia e mão de obra vai passar obrigatoriamente por cursos de capacitação. “Para mim é uma questão fundamental da área de recursos humanos de empresas e cooperativas promoverem estas tecnologias e capacitar as pessoas”, avalia. Para o profissional, até mesmo o incentivo para uso de tais tecnologias deve surgir de empresas fornecedoras e cooperativas. “Hoje o produtor não vai apostar nisso se não tiver o apoio da agroindústria ou cooperativa, se não tiver uma segurança. Essa confiança vem também por conta de que depois são estas empresas que irão comercializar o frango deste produtor”, aponta como estratégia para melhorar a relação entre produtores de frango de corte e as novas tecnologias.

Mais informações você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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