Creche - 14.09.2017

Pesquisadores mostram riscos e dão dicas na fase da creche

Palestrantes do Brasil e exterior mostram como é possível o suinocultor minimizar riscos e oferecer condições para o animal expressar seu máximo potencial produtivo

- Arquivo/OP Rural

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As oportunidades na fase de creche foram tema de um painel que integrou a programação do 10º Simpósio Internacional de Suinocultura, em 17 de maio, em Porto Alegre, RS. Grandes nomes da pesquisa e produção nacional falaram sobre aditivos, manejo, densidade, espaço entre comedouros, granulometria das rações, ruídos, entre outros aspectos que podem fazer toda a diferença para o ganho de peso satisfatório - ou não - nessa fase.

Mike Tokach, professor da Universidade Estadual de Kansas, Estados Unidos, destacou a necessidade de aditivos para garantir ganho de peso nessa etapa do processo produtivo. Ele falou da importância de nutrientes, alguns até que os profissionais não dão tanto valor, como o sódio. “Aditivos alimentares durante a creche são muitos, como antibióticos, enzimas, prebióticos, probióticos e leveduras, fitogênicos, flavorizantes, acidificantes, adição de microminerais, adsorvente de micotoxinas e aminoácidos de cadeia média. O mais importante é saber para que cada ingrediente serve”, orientou.

Além dos aditivos, a granulometria, que em resumo é o tamanho das partículas da ração, tem grande impacto nessa fase, segundo Tokach. Ele assegura que diversos estudos feitos no mundo mostram que se houver escolha para o animal, há diferentes granulometrias preferidas em diferentes fases. “Na creche, os leitões preferem partículas maiores, peletizadas. Na terminação, preferem partículas menores”, comentou. “Em dietas peletizadas é menos claro, mas animais na creche preferem partículas maiores”, reafirmou.

Espaço entre Comedouros

Que tal ampliar o espaço entre comedouros em 1 centímetro e aumentar em 54 quilos de desmamados para cada 100 animais. Mais que isso, reduzir o canibalismo e diminuir o tempo de início do consumo da ração na creche em 2,5 horas. É o que prova um estudo feito pela pesquisadora Fernanda Laskoski, doutoranda em produção de suínos e estratégias de manejo para a fase de creche pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ela demonstrou esses resultados durante sua palestra sobre a importância dos espaços entre comedouros nas instalações da creche para melhorar o desempenho do leitão nesse período. “Existem poucos estudos para este tema na creche. Alguns falam de 1,5 centímetro linear até 7 centímetros por animal”, explica.

Em um trabalho feito, o desempenho de leitões submetidos a diferentes espaços de comedouro quando mantidos em alta densidade na fase de creche foi melhor à medida que o espaço entre comedouro era maior. “Submeteram todos animais a 0,23 metros quadrados por leitão, o que é muito próximo da realidade de hoje. Foram feitos quatro espaços de comedouro. O tempo médio de início de consumo pós desmame de acordo com o espaço teve efeito linear. Quanto maior foi o espaço disponível, mais precoce foi o consumo pós desmame”, alertou. Para cada aumento de 1 centímetro, antecipou-se em 2,5 horas o consumo pós desmame.

Essa fase é crítica, pois o leitão deixa de consumir leite para consumir ração. Muitas vezes, o leitão pode passar horas sem comer. “Com mais espaço, há mais ganho de peso na fase. Já para variáveis consumo médio, não houve efeito para consumo médio total ao longo da fase. Para variável de peso final, foram 810 gramas a mais para o maior espaço”, comenta. “Cada aumento de 1 centímetro, aumentou em 54 quilos a cada cem desmamados.

De acordo com a estudiosa, o aumento do espaço entre os comedouros também “reduz a ocorrência de canibalismo de orelha e cauda. “No maior espaço (do estudo) não houve canibalismo. No menor, chegou a 11,9% de cauda e 5,7% de orelha. O espaço de comedouro pode ser associado ao canibalismo. Isso porque a alta densidade gera a ocorrência”, pontua. Para Laskoski, aumentar o espaço entre comedouros mostrou eficiência para amenizar o desafio da alta densidade.

Uniformização na Creche

O também doutorando pela UFRGS, Jamil Faccin, ressaltou a uniformização no momento do alojamento na creche, questionando se vale a pena realizar esse processo. “Carcaças uniformes geram produtos uniformes. Há uma janela entre 108 para 132 quilos ao abate. O manejo com dois mil animais na creche, por exemplo, precisa um dia e dois funcionários para trabalhar. Gera trabalho e gasto de energia da equipe”, sugeriu.

De acordo com ele, animais que estão mais pesados comem menos e animais mais leves comem mais, mesmo estando na mesma baia. Ele citou um trabalho de mestrado, em que foram feitas quatro baias diferentes - baias de peso misto (pequenos médios e grandes, baias de grandes, baias de médios e baias de pequenos. Segundo ele, a maior uniformidade ocorreu em baias mistas. “Baia com as três categorias se mostrou mais uniforme. Isso porque o grande talvez já tenha percebido que não precisa “brigar para ser o alfa”. Os pequenos que foram separados não cresceram mais. O desempenho zootécnico não é afetado com relação aos animais que coloco nas baias.

Na terminação, entretanto, Faccin recomenda a separação entre as maiores e as menores. “Se eu tiver 2.400 leitões abastecendo duas terminações de 1200, separo as top 50% (mais pesadas). Ganho em tempo na granja e isso sim é interessante”, resumiu.

Sanidade e Fatores Ambientais

Fatores ambientais por vezes deixados de lado, como a poeira e o barulho, podem interferir negativamente no desempenho dos leitões, acusou o médico veterinário Augusto Heck, especialista de sanidade suína da BRF. “Temperatura, umidade, poeira, gases, ruídos, área disponível... A creche é um setor que tem merecido atenção especial nos últimos tempos porque apareceram novidades. Houve um tempo em que essa fase foi negligenciada”, disparou Heck.

O profissional explicou que fatores de predisposição e ambientais interferem diretamente na resposta do animal. O fatores ambientais citados são temperatura, gases, poeira, ruído, equipamentos, espaço social, pessoas e higiene. Na predisposição animal, Heck cita o comportamento, a fisiologia e a imunologia. “Esses fatores podem ser gatilhos para doenças”, defendeu.

Ele cita que a creche pode ser “muito danosa” pelos seguintes desafios: “mudança no tipo de piso, mudança da instalação, da densidade, da ração, umidade, dietas com baixa palatabilidade, falha da ingestão de ração, leitões mais magros e animais doentes”.

Ele comenta que a temperatura precisa estar na zona de termoneutralidade da creche, entre 22 e 28º C. “O frio, na presença do agente patogênico, pode acarretar doenças”, como pneumonia enzoótica e diarreias. “São situações extremamente corriqueiras na nossa estrutura de produção”. Ele ainda alertou para a temperatura efetiva e a sensação térmica. Entre eles, alguns fatores que interferem na sensação térmica do animal que precisam ser observados estão tipo de piso, velocidade do ar, hermeticidade. Ele exemplificou dizendo que um suíno submetido a 26 graus em sua altura, mas com piso de concreto e velocidade do ar incompatível chega a sentir 15,5º C.

“A poeira é um coquetel de problemas. Se levarmos em consideração, temos diversos problemas. Areia, cabelo humano, poeira fina (dependendo da dimensão, é possível que tenhamos o ingresso dessas partículas no trato respiratório), além de carreamento de agentes infecciosos”, citou. Heck listou mais de 20 fungos e bactérias presentes nesse material que podem ser danosos aos planteis suinícolas.

O veterinário também chamou a atenção para os gases na creche, como amônia, dióxido de carbono, metano, monóxido de carbono e sulfeto de hidrogênio, “que trazem prejuízos no desempenho dos animais e para a segurança operacional dos trabalhadores”. Ainda citou “o suíno pode ter impacto negativo quando exposto ao ruído”. “Existem os ruídos súbitos, como explosões, e persistentes, como ventilador. O persistente tem mais impacto, com ocorrência de estresse e até mais canibalismo”.

Heck também falou sobre densidade e espaço entre comedouros. “Acima de 3,5 leitões por metro quadrado gera diarreia pós desmame. Da mesma forma, baias com mais de 20 animais também têm problemas, mas pode lançar mão de ações, como enriquecimento ambiental, cordas e palha no chão. Quando o produtor oferta componentes, controla o gargalo da disponibilidade de espaço”, comentou. Já a falta de espaço entre comedouros, explicou, “aumenta o índice de lesões cutâneas, há um comportamento de disputa”. Já com excesso de espaço, “o animal não respeita a higiene e defeca no comedouro”.

O palestrante destacou também a correta higienização dos equipamentos, respeitando o tempo de ação de cada produto, o respeito ao vazio sanitário e a importância de baias de recuperação confortáveis, limpas e com equipamentos exclusivos para animais doentes.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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