Eficiência - 18.12.2017

Pesquisa com dez mil matrizes revela eficiência das baias coletivas

Estudo revelou melhora do comportamento social dos animais e a viabilidade econômica de adotar esse sistema e eliminar a gestação em gaiolas

- Arquivo/OP Rural

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Uma pesquisa feita com mais de dez mil matrizes suínas, durante três anos, concluiu que a criação em baias de gestação coletiva melhora o desempenho reprodutivo dos animais. De acordo com o estudo, fêmeas em habitação coletiva apresentaram maior número de nascimentos totais, nascidos vivos, taxa de parto, peso de desmame e número de leitões desmamados por porca por ano. O estudo revelou ainda a melhora do comportamento social dos animais e a viabilidade econômica de adotar esse sistema e eliminar a gestação em gaiolas.

A autora da pesquisa, Julia Eumira Gomes Neves, do Instituto Federal de Brasília, apresentou os resultados para um seleto grupo de pesquisadores e técnicos, durante o Congresso Abraves (Confederação Brasileira dos Médicos Veterinários Especialistas em Suínos), que aconteceu entre os dias 17 e 19 de outubro, em Goiânia, GO. De acordo com ela, há ainda uma carência de informações para o setor sobre a viabilidade dos sistemas de gestação coletiva e que o trabalho tem objetivo de municiar os suinocultores com essas informações, já que o banimento das gaiolas de gestação é iminente em todo o mundo.

Recentemente, a Frimesa, cooperativa paranaense que está construindo o maior frigorífico de suínos da América Latina, com capacidade para 15 mil abates por dia, anunciou que até 2026 vai abolir as gaiolas individuais na produção suína. Outras gigantes, como a catarinense Aurora, também já assumiram o fim das gaiolas. Para o produtor, no entanto, ainda existem muitas dúvidas sobre a prática, revela a pesquisadora. “O Brasil vem aplicando alguns padrões de bem-estar na produção de suínos, mesmo não havendo legislações específicas que as exijam. Uma das principais exigências é a eliminação das gaiolas de gestação. Porém a incerteza e a falta de dados produtivos que demonstrem a eficiência produtiva e econômica das criações de matrizes em baias coletivas nos padrões brasileiros ainda são escassas e levam a inseguranças no setor produtivo, que precisa de cautela e certezas concretas para fazer tamanhas alterações nos manejos”, avalia.

Por conta disso, cita Julia Eumira, ela desenvolveu uma pesquisa em uma granja núcleo comercial, localizada na região do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal, com quatro linhagens distintas. Em sua pesquisa, ela demonstra que a gestação coletiva melhora o bem-estar das matrizes, mantém ou melhora o desempenho reprodutivo e garante um retorno mais rápido do investimento realizado.

A propriedade estudada possui capacidade de criação de 3,8 mil matrizes suínas no sistema de gestação coletiva e 6,9 mil matrizes em gaiolas. “A pesquisa foi dividida em três partes. Na primeira foi realizado um diagnóstico avaliando os dados reprodutivos disponíveis no sistema operacional da granja e permitiu comparar três sistemas de manejos diferentes: matrizes criadas em gaiolas em todo o seu período gestacional (GG) e matrizes criadas em gaiolas até os 42 dias de gestação e depois de alojadas em baias coletivas (GC) e matrizes criadas em baias coletivas após a inseminação (cobre e solta - CS). Na segunda parte foi realizada uma investigação sobre o comportamento das matrizes suínas simulando em um mesmo espaço e manejo os três sistemas de manejo e elegendo uma linhagem para amenizar os efeitos das linhagens nos parâmetros comportamentais. A terceira etapa da pesquisa foi uma avaliação econômica sobre os sistemas de manejos”, comenta.

De acordo com ela, as matrizes criadas em sistemas de baias coletivas eram mantidas em grupos dinâmicos até três dias antes da data prevista de parto, ou seja, no período que essas matrizes permaneciam na baia havia a entrada e saída de outras matrizes. Cada baia alojava 80 matrizes e eram equipadas com estações de alimentação individualizadas com controle eletrônico. Neste caso cada matriz recebe um chip que é lido pelo software da máquina e libera a ração a cada 100 gramas, podendo a fêmea se alimentar em qualquer horário ao acessar a máquina, até atingir sua ingestão diária de ração. Todas as matrizes eram levadas para o galpão maternidade com três dias de antecedência da data prevista de parto.

De acordo com a pesquisadora, a ampla pesquisa avaliou dados compilados de 848 ciclos de matrizes do sistema CS, 5.547 ciclos das matrizes do sistema misto (GC) e 13.788 ciclos das matrizes do sistema tradicional (GG). “Foram avaliados os dados reprodutivos de matrizes em habitação individual e coletiva de três e quatro anos, respectivamente. Os resultados foram compilados de duas maneiras diferentes. O primeiro visava comparar os resultados produtivos das porcas criadas em gaiolas e em sistemas de habitação coletiva. O segundo objetivou avaliar a interferência do momento de mistura nos parâmetros reprodutivos das porcas, avaliando as matrizes misturadas três dias após a inseminação (CP), as matrizes mescladas entre 38 e 42 dias de inseminação (MS) e matrizes mantidas em gaiolas (IC). Os resultados produtivos de cada fêmea foram avaliados individualmente por três anos, uma vez que o sistema de criação de CP só foi estabelecido no segundo ano”, explica.

Resultados

De acordo com os resultados, “parâmetros reprodutivos, como o retorno ao cio, o aborto, o parto por fêmea por ano e o número de leitões mumificados foram os mesmos para as fêmeas criadas em gaiolas individuais e em baias coletivas”. “No entanto, as fêmeas na habitação coletiva apresentaram maior número de nascimentos totais, nascidos vivos, taxa de parto, peso de desmame e número de leitões desmamados por porca por ano. Além disso, o número de nascidos mortos e a morte ao desmame foram menores na habitação coletiva”, frisa a pesquisadora.

Conforme o estudo, o peso ao nascer foi maior para as porcas na GG, no entanto, o peso do leitão foi menor neste grupo. Não houve diferença entre CS e GG para mumificados, morte ao nascimento, leitões de baixa viabilidade e período de gestação. O grupo de GC apresentou maior percentual de leitões mumificados e um período de gestação mais curto, quando comparado aos outros grupos, e resultados semelhantes à CS para nascidos vivos, nascidos mortos, mortos ao nascimento, nascimentos totais, peso da leitegada, peso ao nascer e baixa viabilidade dos leitões.

Para a pesquisadora do Instituto Federal de Brasília, “a criação de matrizes em sistemas coletivos mostrou melhores resultados para grande parte das características reprodutivas avaliadas”. “O menor tempo em trabalho de parto observado nas matrizes da GG pode ser devido a elas não precisarem se adaptar a uma nova condição de alojamento, uma vez que já estavam alojadas em gaiolas, enquanto as matrizes manejadas em baias coletivas, ao serem levadas para as gaiolas de maternidade, passam por um período de estresse até se adaptarem às gaiolas. Além disso, esse período de adaptação é muito curto, apenas três dias ou menos da data de parto, acarretando em estresse, podendo aumentar a duração do parto”, destaca.

O estudo alerta, no entanto, que matrizes criadas soltas tendem a se estressar mais nas gaiolas de parição, aumentando o número de mortos ao nascer.

A pesquisadora diz que o estudo revela que “a eliminação completa das gaiolas pode ser uma indicação segura para as granjas comerciais, uma vez que o manejo cobre e solta se demonstrou tão ou mais eficaz que o manejo em gaiolas, não interferindo negativamente nos parâmetros reprodutivos”.

Comportamento

A pesquisadora também fez uma avaliação do comportamento das matrizes suínas de acordo com o tipo de alojamento durante a prenhez: sistema confinado e gestação em grupo. “A possibilidade de expressar parte de seus comportamentos naturais, como se exercitar, buscar o alimento, socializar com outros animais, evidenciou uma diminuição no estresse das matrizes, o que foi notado pela diminuição significativa da expressão de estereotipias (movimentos repetitivos)”.

Avaliação Econômica

Em uma terceira etapa, o estudo fez uma avaliação da viabilidade econômica dos sistemas de gestação coletivas de matrizes suínas. Os dados mostram que os resultados financeiros demonstram um bom cenário de retorno econômico para todas as granjas avaliadas. “Apesar de o investimento inicial ser maior na granja CS, devido aos equipamentos de alimentação eletrônicos importados, esta granja merece um destaque maior demonstrando retornos mais seguros aos investidores e menor tempo de retorno do dinheiro investido do que as demais granjas, chegando a quase 10 anos a menos do que as GG e GG moderna”, cita a pesquisadora.

Em contrapartida, “o menor gasto com mão de obra no CS e as melhores taxas reprodutivas encontradas neste sistema são pontos fundamentais para garantir um melhor retorno econômico que nos demais sistemas, aliados ao menor custo de instalações e depreciação. “Como consequência destas vantagens, a margem EBIT (lucro das empresas antes dos impostos e taxas) dos modelos da CS gira em torno de 31%, contra 28% dos modelos GG, suficiente para compensar o investimento superior necessário para fazer os ajustes de bem-estar”, diz a autora do estudo.

Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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