Piscicultura - 18.09.2017

Peixe rouba a cena e realinha destinos

A falta de oportunidades no Oeste agrícola no fim dos anos 80 dá lugar a pequenas, mas prósperas propriedades agropecuárias

- Giuliano De Luca/OP Rural

Quando Rosimar Marquardt era um garoto, no fim dos anos 1980, não via futuro dentro da propriedade agrícola do pai. Do pequeno sítio no município de Maripá, no Oeste paranaense, brotavam grãos e mandioca e cresciam alguns bichos, mas o cenário pouco promissor não deixava germinar o sonho do menino e dos três irmãos em ter uma vida melhor. Todos teriam que seguir outros rumos, talvez buscar um emprego na cidade, afinal os 16 hectares de lavouras não dariam dinheiro suficiente para eles.

O saudoso Renato, pai de Rosimar, sabia que os filhos não teriam futuro no sítio. Sabia também que precisava fazer algo para mudar aquela situação. Foi quando, já adolescente, com 13 anos, Rosimar viu seu pai tomar uma iniciativa que mudaria os rumos da história que parecia ter final previsível para aquela família: Renato construiu um açude na propriedade.

A ideia de virar piscicultor para gerar uma segunda renda para atraiu o agricultor, que começou a cultivar e vender algumas carpas e bagres para os vizinhos. Renato não sabia, mas naquele momento ele ‘decretava o fim da agricultura’, apertava o botão de start da piscicultura e realinhava o futuro de Rosimar, dos irmãos e de suas famílias, que hoje produzem 1,5 mil toneladas de tilápias por ano.

“O pai começou na piscicultura em 1996, produzindo um pouco de carpa e bagre”, introduz Rosimar. Não era um negócio tão bom, lembra. Por conta disso, foi trabalhar de operador de máquinas agrícolas na Bahia. Durante quatro anos, ficou na região Nordeste. “Fui trabalhar de empregado para fazer um pé de meia. Em 2004 eu voltei. Meu pai tinha começado com as tilápias em 2002 e o desempenho  tinha chamado a atenção dele”, recorda. “Como eu tinha juntado um dinheiro, arrendamos uma propriedade ao lado e fizemos mais três açudes. Ficamos com 11 mil metros de lâmina d’água”, amplia.

Era o passo decisivo que Rosimar dava. Em 2005, era feita a despesca do primeiro grande lote, mas o susto veio com o calote dado pelo comprador. “A gente viu que se tivéssemos recebido, seria um bom negócio. Decidimos apostar”, conta o jovem de 34 anos, ao lado da esposa Dulce, que também teve - e tem - papel decisivo nessa história.

Por causa do calote e para pagar as contas, Rosimar, o pai e os irmãos arrendaram 60 mil metros quadrados de açudes no vizinho município de Assis chateaubriand. O passo parecia maior que a perna, mas foi certeiro. Em 2009, eles arrendaram a propriedade atual de Rosimar. Já eram três pisciculturas arrendadas, mas aquela primeira, o sítio agrícola de Renato, seria vendida. Em 2012, o patriarca descansou. No ano seguinte, os irmãos passaram a seguir carreira solo. Os três em Assis, Rosimar em Maripá.

Aliás, careira solo não. Dulce já era a fiel companheira. Os dois juntaram dinheiro e compraram uma propriedade. Hoje, eles negociam essa área para comprar o atual sítio arrendado, que era um banhado há oito anos e hoje é uma verdadeira indústria a céu abeto - com o perdão do jargão.

O peixe e os grãos

Nessa altura, Rosimar sabia que a agricultura já não era mais o carro-chefe dos negócios. “A gente sabia que não tinha futuro na terra do pai. Era muito pequena e só com a lavoura a gente não ia conseguir se manter”, comenta. “Por isso investimos na produção de tilápias”, amplia. Hoje ele e a esposa tocam 37 hectares, divididos em 11 de piscicultura 26 de lavoura. Mesmo em uma área menor, os peixes são disparados os campeões de rentabilidade. “Hoje 90% da receita da propriedade vem da piscicultura e 10% vem da lavoura”, conta. O casal planta soja no verão e se preparava para colher o milho safrinha na época da entrevista, em meados de junho.

Os números são estratosféricos. O investimento em um hectare de açudes, calcula Rosimar, “é o mesmo que em cinco hectares de lavoura. Os gastos com energia variam de R$ 10 a R$ 12 mil por mês. São cerca de 500 toneladas de ração para uma população de mais de 400 mil tilápias na fase de engorda. “Ao todo, são 12 açudes, dez de engorda e dois de berçário”, conta. O investimento para tamanho volume passa de R$ 1,5 milhão. “É uma atividade de alto custo, com riscos, mas remunera bem se você cuidar bem dela”, explica o produtor rural. A produção só vem aumentando. “Em 2015, produzimos 387 toneladas. No ano passado, por causa do frio, produzimos um pouco menos; 356 toneladas. Nesse ano vamos passar de 400 toneladas”, situa o produtor.

Além de o peixe se tornar a primeira renda, deixando os grãos para trás, a piscicultura rendeu a Rosimar uma terceira oportunidade de negócio, com a criação de uma equipe de despesca que atua em toda a região. Tendo dificuldades para encontrar mão de obra - competente e comprometida -, ele e mais quatro fazem a despesca para três cooperativas em Maripá e outros municípios do Oeste, maior produtor de tilápias do Paraná. Na parte da manhã ele trabalha fora, enquanto a esposa Dulce Boing faz todo o manejo, como leitura das características da água, retirada de animais mortos, regulagem de equipamentos e distribuição da ração.

De acordo com dados do Emater de Maripá, a maior parte dos cerca de 80 piscicultores de alto rendimento do município têm a piscicultura como primeira renda, deixando a agricultura como fonte de receitas número dois nas propriedades.

Tilápia ‘plus’

Rosimar está produzindo uma tilápia maior com mais de 900 gramas, porque o mercado consumidor paga a mais por isso. De acordo com o técnico em Agropecuária e um dos entusiastas da tilapicultura no Paraná, Cesar Ziliotto, do Instituto Emater, esse tipo de peixe pode render quase R$ 2 a mais por quilo e é comercializado no gelo, para abate e consumo em outros estados.

“Hoje existem dois canais de comercialização da tilápia. Um é de tilápias entre 600 e 700 gramas, para as indústrias da região, que pagam entre R$ 4,20 e R$ 4,40 o quilo. O outro, que vem crescendo de dois anos pra cá, é a venda no gelo, de tilápias com mais de 900 gramas. Esse peixe maior está indo para Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e até para o Nordeste”, explica Ziliotto. O preço pago no quilo, cita o profissional, varia entre R$ 4,70 até R$ 5.

“A maior parte do nosso peixe está indo para Espírito Santo, Rio de Janeiro e mais recentemente Fortaleza. Todo mês tem despesca. A gente está produzindo essa tilápia maior para agregar valor. O custo é maior, mas vale a pena”, avalia Rosimar.

Se não fosse o peixe

Rosimar diz que não teria sucesso no ramo agropecuário não fosse o cultivo de tilápias. “Acho que se não tivéssemos começado dom a tilápia, eu teria saído da roça e estaria trabalhando em um emprego por aí”.

Zilliotto tem a mesma visão. A tilápia não só gerou renda para as pequenas propriedades. Talvez a coisa mais importante que ela fez foi conseguir fixar o jovem na propriedade. Muitos com certeza iriam sair para as cidades. Hoje, 50% dos nossos piscicultores são filhos de produtores rurais que ficaram no sítio por conta da remuneração”, comenta. Um mergulho profundo e certeiro, que talvez Renato esteja vendo lá de cima.

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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