Dieta - 30.10.2017

“O desempenho nasce no intestino”, sustenta doutor da UFPR

Professor da UFPR, doutor Luiz Felipe Caron, falou sobre o custo imune e sua relação com o desempenho durante o 1° Simpósio das Américas sobre Saúde e Nutrição Animal da Olmix

- Arquivo/OP Rural

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Sanidade, ganho de peso, manejo. Estes são fatores que passam pela cabeça do produtor diariamente. Como melhorar cada um deste itens para ter uma produção melhor? O médico veterinário e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor Luiz Felipe Caron, falou sobre o “Custo imune e sua relação com o desempenho” durante o 1° Simpósio das Américas sobre Saúde e Nutrição Animal da Olmix. O evento, que aconteceu entre os dias 28 e 30 de agosto em Itapeva, MG, reuniu profissionais do setor de toda a América Latina.

O especialista comenta que o que o produtor deseja saber no dia a dia é se a conversão alimentar melhorou, além da melhora na imunidade. De acordo com ele, existem dois fatores que devem ser melhorados na produção animal: a conversão alimentar e a diminuição das condenações no abate. “São dois fatores que têm a ver com a melhora na resposta imune do animal”, destaca. Caron afirma que se o produtor fizer um dia de vazio sanitário, a cada dia que ele fizer isto terá um ganho de três gramas na conversão alimentar por animal. “Agora, multiplique isso por cinco milhões por dia e você consegue entender como custo tem muito a ver com isso”, diz.

Ele acrescenta que os animais que vivem em um ambiente que não é desejado precisa usar a resposta imune o dia inteiro. “Não é interessante usar esta resposta imune todo o dia. Eu tenho que preparar o animal. Temos ferramentas que podemos usar hoje, mas a nossa estratégia tem uma hierarquia de investimento: primeiro vem a nutrição, depois o ambiente. Temos uma visão de como achamos que isso deve ser feito”, afirma.

Caron reitera que um ambiente melhor é mais limpo, e isso faz com que o animal ganhe mais peso. “Mas, como eu deixo o ambiente mais limpo? Eu lavo, desinfeto, faço com que esse animal esteja no melhor local possível”, comenta. O profissional afirma que no final das contas, o que todos os agentes envolvidos na cadeia produtiva querem é provar que isso vai gerar desempenho produtivo, porque o desafio sanitário diminui. “Não queremos animais dentro de bolhas esterilizadas. Isso seria péssimo. Os nossos animais são imuno incompetentes, porque a genética fez isso com eles. Ainda bem, porque precisamos vender carne, e essas melhorias consequentemente perdemos a resposta imune”, diz. Mas, ele questiona como se faz para manter o desempenho produtivo nestas condições: “Temos que investir na relação animal com o mundo externo. De onde vem essa relação? Vem do tecido linfoide associado à mucosa. Isso é o que permite o contato do animal com o meio exterior”, explica.

O médico veterinário afirma que o maior órgão do sistema imune de um animal é o intestino. “90% das células que utilizamos para transmitir respostas imune estão lá”, conta. Ele diz que não é preciso ir muito longe para provar isso. “O animal é aquilo que ele come”, assegura. O profissional diz que é preciso melhorar o ambiente que o animal está que será possível fazer um equilíbrio para ter um melhor sistema imune. “O desempenho nasce no intestino”, afirma.

Além do mais, existe uma grande quantidade de ferramentas para sobreviver que é preciso utilizar de forma inteligente, se não, fica tudo muito caro. “E usar de maneira inteligente o sistema que nós inventamos, que não existe na natureza, que é o sistema de alta intensidade. Então, temos ferramentas que valem tanto, por isso que um dia de vazio sanitário significa três gramas a mais. Mas isso desde que o seu princípio de limpeza seja muito bom”, comenta.

Para Caron, o sistema imune paga um preço alto, isso porque existe um monte de desinformação. “Quando nós sabemos qual o real desafio, nós perdemos o medo. Tudo tem a ver com evidência científica, a melhora no desempenho, condição sanitária”, destaca. Ele explica que para ter uma boa prevenção, é preciso treinar as pessoas, limpar instalações, cuidar do trânsito, ter matéria prima segura, qualidade da água. “Tudo isso vem sempre em primeiro. O nosso manejo, de saber o que é certo, que nos ajuda que essas ferramentas nos tragam as três casas depois da vírgula que temos que manter”, considera.

Sistema imune

Caron afirma que conhecer os caminhos de como a resposta imune funciona é o segrego para um bom sistema imune. “Eu posso aumentar as barreiras e deixar ele mais impermeável. Muito daquilo que pode blindar o intestino, blinda também o desempenho, ou seja, é uma balança tênue. Aprender a usar produtos e ferramentas que melhorem por caminhos que eu consigo explicar que não comprometam nem a digestão nem a absorção, eu posso aumentar muito a minha produção”, afirma.

O profissional explica que são dois caminhos que podem ser seguidos pelo produtor: um que custa pouco e outra que custa muito. “O custo metabólico, a resposta inata, que é aquele inflamatório, pode custa pouco. Isso parou porque hoje ela é natural. Esses órgãos têm que construir da melhor forma possível, e eu digo construir porque se chama imunidade inata constitutiva. Tem que formar antes de nascer”, diz. Ele afirma que após o nascimento, os cuidados devem ser maiores ainda. “Porque aí sim eu posso manejar do jeito que eu quiser. Construir isso da melhor forma possível tem um custo baixo, mas, por outro lado, se eu não construir bem e a mesma resposta imune inata não tiver condições de segurar desafio, por qualquer patógeno, isso fará com que os custos sejam mais altos”, afirma.  Para ele, ficar esperando para chegar até este ponto é ficar sempre atrás. “Construir antes de acontecer é preservar essa condição. Temos muitas alternativas que funcionam de diferentes maneiras no intestino”, diz.

Indicadores de qualidade

A melhor forma de melhorar esta condição é utilizando indicadores de qualidade, afirma Caron. “Temos que melhorar a conversa entre as células, todas as vezes que modulamos ou equilibramos a conversa entre elas, melhoramos o ganho de peso”, conta.

O profissional destaca que é importante que o produtor aprenda a construir o sistema imune dos animais. “Como construir? Não existe papel e régua, existe análise de risco personalizada. E fazemos isso porque é uma gestão de risco. Quando entra um vírus ou uma bactéria, temos que ter uma resposta rápida, porque quanto mais tempo, mais derruba o desempenho e a sobrevivência”, explica.

Caron comenta que é importante fazer o melhor manejo para não perder desempenho. “É preciso ter qualidade em matéria prima, na água, ar, tempo de transporte. Porque, se não for assim, o animal já se acostumou que o mundo é difícil e tem que gastar mais energia. A nossa dificuldade é encurtar distâncias, não somente para desempenho, mas é também uma realidade do ambiente”, sugere.

O professor afirma que toda a qualidade da resposta imune começa no intestino. “E como melhora o desempenho? Com a melhora do sistema imune. Eu tenho que melhorar aquilo que me dá dinheiro, aquilo que demonstra que custa pouco”, diz. Caron conta que é preciso preparar o animal para investir naquilo que custa menos, e isso significa construir o sistema imune, para que ele saiba perceber isso.

Equilíbrio

De acordo com o especialista da UFPR, o sistema imune depende de equilíbrio. “Se não tiver equilíbrio, não funciona. A diferença é que usamos poucas ferramentas para entender como o equilíbrio é alcançável. O ponto de equilíbrio converge para o nível inflamatório mínimo, necessário, mas rápido”, diz. Ele afirma que é importante se atentar a estes detalhes porque a velocidade da evolução do animal é muito rápida. “Eu tenho que começar a perguntar como eu estimulo o sistema imune, porque ele é muito bom. Estimular é ensinar o animal que o mundo existe e dar ferramentas para transformação”, afirma.

O profissional afirma que se colocassem o animal em uma bolha esterilizada o sistema imune dele seria horrível. “Eu tenho que dar uma informação para ele perceber que tem que reagir”, conta. Caron acrescenta que é preciso ter a resposta imune e ela deve ser a maior possível.

Para o profissional, o Brasil está evoluindo, mas ainda é preciso algumas alterações. “Precisamos mudar o sistema de treinamento de pessoas, não podemos continuar fazendo o que fazíamos há 50 anos, os animais não são os mesmos de 50 anos atrás; então o treinamento não pode ser o mesmo. Nós temos que mudar e isso é um grande desafio”, diz. Além do mais, é preciso pensar para quem se está produzindo. “Estamos fazendo para quem quer comprar algo diferente. Há uma distância enorme até conseguirmos provar que tem como fazer isso. É uma construção, não um decreto. É algo simples, mas bastante trabalhoso”, assegura o doutor Caron. 

Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de outubro/novembro de 2017 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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