Cooperativismo - 03.09.2018

Mãos que transformam

Ao longo dos anos o agro brasileiro deixou de ser somente um fornecedor de matéria-prima para se tornar um fornecedor dos mais diferenciados produtos, agregando valor àquilo que produz

- Arquivo/OP Rural

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Com o passar dos anos, o agro foi melhorando, se atualizando, aderindo tecnologias e oferecendo ao produtor rural oportunidades de crescer e fazer mais e melhor. Isto é visível principalmente quando se fala na industrialização do setor. Deixar de ser somente um fornecedor de matéria-prima e passar a agregar valor ao que está produzindo está fazendo toda a diferença. Para saber um pouco sobre esta melhoria que vem acontecendo há anos, a reportagem de O Presente Rural conversou com o presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc), Luiz Vicente Suzin.

De acordo com o líder cooperativista, a decisão de industrializar a produção da matéria-prima do agro brasileiro foi decisiva para a conquista da independência do setor. “O cooperativismo deixou de ser fornecedor barato de matérias-primas para as indústrias não-cooperativistas e passou a controlar todo o ciclo de produção, agregando valor para melhor remunerar o cooperado”, afirma.

Acompanhe a entrevista completa e a opinião da liderança sobre a importância das indústrias cooperativistas para o agronegócio catarinense e brasileiro.

O Presente Rural (OP Rural): A industrialização mudou o agronegócio, antes mais dedicado aos grãos. Como se deu essa mudança no Brasil?

Luiz Vicente Suzin (LVS): Os produtores rurais perceberam que não tinham futuro como simples fornecedores de matérias-primas para processamento das agroindústrias, visto que as commodities têm pouca capacidade para agregação de valor. Por isso, a partir da década de 1960/1970 passaram a se organizar em cooperativas de primeiro e de segundo graus para construir plantas industriais destinadas ao beneficiamento de sua própria matéria-prima. As primeiras plantas industriais processaram grãos (milho, soja, trigo e feijão) e produziram rações e insumos nutricionais (premix e núcleos) para aves e suínos. Depois, foram criados frigoríficos para abate e industrialização de aves e suínos, gerando toda a linha de alimentos cárneos. As cooperativas também construíram modernos laticínios para processar o leite e colocar no mercado ampla linha de produtos lácteos.

OP Rural: Qual é a produção em volume e principais itens das indústrias? Quantos colaboradores e quantos produtores diretamente e indiretamente envolvidos?

LVS: Na organização do cooperativismo, as indústrias pertencem ao ramo agropecuário. As 51 cooperativas agropecuárias representam 63% do movimento econômico de todo o sistema cooperativista catarinense. No conjunto, essas cooperativas mantêm um quadro social de 71.648 cooperados e um quadro funcional de 39.883 empregados. O faturamento anual do ramo agropecuário totalizou mais de R$ 20 bilhões em 2017.

OP Rural: Como a indústria do agro contribui para o setor cooperativista?

LVS: O cooperativismo mudou o cenário no campo, reduzindo as incertezas que cercam a atividade agropecuária. Para chegar-se a isso se seguiu um longo caminho que passou pela profissionalização do produtor, a organização da produção, a eliminação de todos os níveis de intermediação e industrialização própria. Apesar de seu reduzido território (pouco mais de 1% da superfície nacional), Santa Catarina situa-se entre as dez unidades da Federação em produção agrícola e pecuária. Essa pujança se deve, em grande parte, ao alto valor agregado das atividades intensivas desenvolvidas. A fruticultura e a produção animal são estrelas desse cenário. A produção animal tem respondido nos últimos anos por mais de 60% de todo o valor da produção agropecuária catarinense e este é o maior diferencial em relação às demais unidades da federação.

OP Rural: Como as cooperativas contribuíram para a industrialização dos produtos agropecuários? Como a indústria auxilia o produtor, do campo à comercialização?

LVS: Decisivo, nesse processo, para a conquista da independência foi a decisão de industrializar a produção primária. Com isso, o cooperativismo deixou de ser fornecedor barato de matérias-primas para as indústrias não-cooperativistas e passou a controlar todo o ciclo de produção, agregando valor para melhor remunerar o cooperado. O produtor rural deve associar-se às cooperativas agropecuárias que tenham unidades próprias de processamento industrial ou estejam vinculadas a uma cooperativa central, como a Aurora. Há mais de 40 anos, os produtores do Oeste catarinense eram meros fornecedores de matérias-primas. Com o surgimento da Aurora (uma cooperativa de segundo grau), ficou na mão do produtor a industrialização de todas as matérias-primas, como grãos, lácteos, carnes, etc. A salvação está no associativismo de qualidade, ou seja, nas cooperativas eficientes.

OP Rural: Os processos produtivos dentro da indústria estão cada vez mais automatizados. Fale um pouco sobre as vantagens desse modelo, o que o produtor pode ganhar com isso?

LVS: A indústria da carne, no Brasil e no mundo, acompanha a tendência de emprego cada vez maior da automação e da robotização para aquelas etapas da produção que envolvem movimentos maquinais e repetitivos. Com isso, protege-se a saúde do trabalhador e se reduzem custos. O produtor rural associado à cooperativa proprietária ou coproprietária da indústria tem ganhos reais indiretos.

OP Rural: Quais as dificuldades da indústria cooperativista?

LVS: As mesmas de todas as empresas brasileiras: alta carga tributária, excesso de normatização, burocracia, lentidão na emissão de licenças e autorizações, deficiências infraestruturais, etc. As cooperativas sofrem com os problemas de infraestrutura e logística para escoar sua produção e manter a competitividade. 

OP Rural: Quais as vantagens para as cooperativas em terem seus parques industriais?

LVS: Autonomia no processo produtivo, criação de linhas próprias de marcas e produtos e geração de valor para toda a cadeia produtiva, beneficiando milhares de famílias rurais cooperadas.

OP Rural: A agroindústria está migrando do Sul para o Centro-Oeste? Se sim, por quê?

LVS: A escassez e o encarecimento do milho no Sul do Brasil criaram um movimento em direção ao Centro-Oeste brasileiro. O milho é um insumo essencial para gigantescas cadeias produtivas do Brasil. Duas delas estão em Santa Catarina, que detém o mais avançado parque agroindustrial da avicultura e da suinocultura do país. Para alimentar um rebanho anual de 1,2 bilhão de aves e 12 milhões de suínos, empregam-se milhões de toneladas de rações cuja base nutricional em 70% é o milho. De tempos em tempos, um perigo real e iminente assusta o agronegócio catarinense, representada no quadro de superencarecimento de milho que se repete e que assola violentamente as maiores cadeias produtivas de Santa Catarina e ameaça causar pesados e irreversíveis prejuízos à avicultura e à suinocultura. As crises de 2011, 2012 e 2016 ainda estão na lembrança.

Mais informações você encontra na edição de Aves de julho/agosto de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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