Silagem - 15.03.2018

Manejo do silo: consistência e segurança

Adoção de boas estratégias de produção e conservação de forragens assume um papel crucial em seu desenvolvimento e sucesso financeiro

- Arquivo/OP Rural

 -

Artigo escrito por Diego Soares Gonçalves Cruz, médico veterinário, doutor em Nutrição Animal e Forragicultura e assistente Técnico Comercial de Bovinos da Tectron

A acentuada sazonalidade de produção de forragem é uma característica observada em grande parte do território brasileiro, afetando diretamente a manutenção e a produtividade dos rebanhos, principalmente de bovinos, equinos e pequenos ruminantes. Nesses sistemas de produção, a adoção de boas estratégias de produção e conservação de forragens assume um papel crucial em seu desenvolvimento e sucesso financeiro. Sob essa realidade, a silagem é sem dúvida o processo de conservação de forrageiras mais empregado nas fazendas brasileiras. Daí surge a importância de uma discussão mais aprofundada sobre a segurança alimentar dessa fonte de volumoso que alimenta grande parte do rebanho. Mais do que isso, é importante entender e avaliar quais os riscos e consequências aos quais está exposta a saúde, tanto dos animais que geram renda aos seus proprietários quanto dos consumidores finais dos produtos de origem animal.

Conceitualmente, a silagem é o material produzido pela fermentação controlada de uma forragem, subprodutos agrícolas ou agroindustriais objetivando conservar ao máximo o valor nutritivo do material. A partir do início do enchimento do silo, um grupo específico de bactérias passa a fermentar carboidratos solúveis e produzir ácidos orgânicos, principalmente ácido lático, provocando a redução do pH da massa ensilada e a inativação de microrganismos indesejáveis, tais como enterobactérias, clostrídios, leveduras e fungos. É importante ressaltar que a proliferação das bactérias ácido láticas ocorre mais rápido quanto maior a disponibilidade de nutrientes (carboidratos solúveis), e menor a presença de oxigênio no meio. Em silos bem confeccionados e vedados, após essa fase de fermentação anaeróbica ocorrem poucas alterações e não há presença de oxigênio no silo. Com a abertura do silo e nova exposição ao oxigênio ocorre o crescimento dos microrganismos que estavam em dormência, que agem consumindo nutrientes e produzindo CO2 e água.  Este fenômeno é caracterizado como deterioração aeróbia das silagens.

Na prática, a deterioração aeróbia das silagens geralmente é manifestada pelo aparecimento de fungos e aumento da temperatura do silo. A presença dos fungos é indesejável, pois esses microrganismos consomem os açúcares e o ácido lático pela via normal da respiração e ainda metabolizam a celulose e outros componentes da parede celular. Além disso, alguns fungos podem oferecer riscos aos animais e às pessoas pela produção e transferência de micotoxinas ao longo da cadeia alimentar, inclusive através da excreção pelo leite (aflatoxina M1).

Efeitos

As micotoxinas formam um grupo de metabólitos secundários produzidos por certos fungos incluindo os gêneros Aspergillus, Penicilium, Fusarium e outros. Já existe uma gama de micotoxinas identificadas (aflatoxinas, zearalenona, DON, ocratoxina, fumonisina, etc.), mas o seu verdadeiro número contido nos alimentos ainda está sendo determinado, pois novos metabólitos fúngicos estão sendo descobertos e aguardam a avaliação de seu potencial e contribuição sinérgica para doenças nos animais. A literatura relata uma grande quantidade de efeitos maléficos à saúde dos animais expostos às micotoxinas. Esses feitos variam de ingestão reduzida até efeitos neurológicos, hepatotóxicos, estrogênicos e imunotóxicos, podendo causar a morte do animal em casos mais graves. Nesses casos, normalmente os animais mais produtivos do rebanho são mais suscetíveis devido à maior quantidade de alimento ingerido.

Sabe-se que a forragem ensilada pode ser uma grande fonte de fungos e micotoxinas. Segundo dados do Laboratório de Análises Micotoxicológicas (Lamic) da Universidade Federal de Santa Maria, no período entre 2004 e 2014 foram encontradas aflatoxinas, zearalenona ou fumonisina em 16, 57 e 59% das amostras de silagem analisadas no próprio laboratório, respectivamente.

Controle

No entanto, algumas medidas podem ser adotadas a fim de contribuir para a redução da produção de micotoxinas nas silagens. Uma compactação adequada e homogênea e a utilização de lonas de boa qualidade que possuem menor porosidade e permeabilidade ao oxigênio pode reduzir significativamente a presença de oxigênio no silo e, consequentemente, a proliferação de fungos produtores de micotoxinas durante o armazenamento. Pesquisadores avaliaram a penetração do ar em silos e verificaram que a concentração de oxigênio e a contagem de microrganismos era maior na parte superior do painel do silo, onde a compactação era menos eficiente. Esses mesmos autores também verificaram que na parte superior do silo, que era menos compactada, o oxigênio penetrou quatros metros, enquanto na parte inferior, mais compactada, a penetração foi de apenas um metro. Outro ponto importante a ser observado é respeitar a retirada diária de uma camada mínima de silagem em todo o painel buscando sempre manter a face do silo de forma regular. Esse procedimento garante que a silagem fornecida diariamente aos animais tenha ficado o menor tempo possível exposta ao oxigênio.

Por outro lado, existem substâncias que agem com o objetivo de reduzir a absorção das micotoxinas. No entanto, devido à grande variação na quantidade e estrutura química das micotoxinas, há uma limitação na capacidade preventiva dessas moléculas quando utilizadas isoladamente. Além disso, na maioria das vezes não há uma preocupação com a mitigação dos efeitos deletérios sobre o organismo animal das micotoxinas já absorvidas. Sob esse aspecto é papel do nutricionista analisar o modo de ação dessas ferramentas nutricionais disponíveis, buscando aplicá-las sob um conceito mais amplo de prevenção e detoxificação animal.

Por isso, diante do desafio crescente da produção de proteínas de origem animal sustentáveis e seguras, que promovam a segurança alimentar para a população mundial, os técnicos e produtores possuem a necessidade e a responsabilidade cada dia maior de adotar soluções inteligentes para a produção animal.

Mais informações você encontra na edição de março/abril de 2018.

Fonte: O Presente Rural

VIII Clana

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.

INTERCONFPORK EXPO 2018IntercorteACAV 2018Dia do Porco 2018VIII Clana